Pagã

1 E aqueles planos que fizemos?


Notas iniciais
Capa feita por mim, cada capitulo terá um contendo a pessoa que escolhi para o dreamcast. REVISADO 04/01/23 »»×»» Quebra de tempo muito grande »» »» »» Quebra de tempo em minutos ou horas «»×«» Quebra de tempo curta »»»»ↄ«««« Mudança de POV

“Oh, espero que algum dia eu consiga sair daqui

Mesmo que demore a noite toda ou cem anos

Preciso de um lugar para me esconder, mas não consigo encontrar nenhum por perto

Quero me sentir vivo, lá fora não consigo enfrentar meu medo”

Lovely – Billie Eilish feat Khalid

TENTEN HYUGA

SEUS fios castanhos recobrem cada canto do seu pequeno travesseiro de palha, a situação na outra cama é a mesma. É incrível como tudo neles é parecido, o nariz aristocrático, seus pequenos olhos brancos, os cabelos castanhos e seus sorrisos. O que meus filhos puxaram de mim? Diria que o formato do rosto e o tom do cabelo.

Dar a luz a um bebe já é doloroso, dar a luz a gêmeos em um Plano divino dos deuses, que não possui anestesia ou qualquer equipamento medico, é uma tortura. Me senti rasgada de dentro para fora durante dois dias. Faria tudo isso novamente por toda eternidade somente para ver esses rostinhos sorridentes e radiantes.

— Mamãe. – Mahina, a primeira a nascer, sorri encantada. – A senhora pode contar uma história?

— Qual que vocês querem ouvir?

— A da bruxa que o papai contou para o tio Naruto. – Hizashi, meu doce menino, responde pelos dois.

Ah, essa terrível história de terror baseada em fatos reais. É, eles me puxaram no quesito ânsia por história de terror e curiosidade gritante.

— Vocês andaram ouvindo atrás da porta novamente?

Mordo meus lábios para não rir quando os gêmeos conversam entre si por meio de olhares e expressões. Meu marido disse para não incentivar isso, porque sempre nos ferramos com isso e somos excluídos da conversa.

É engraçada a forma que cuidamos deles, porque somos desajustados e despreparados, porém, até que estamos conseguindo lidar com o fato de sermos pais jovens – se bem que trinta e três anos não é mais jovem, pelo menos na idade de humanos. Só que eu esperava que tudo fosse diferente. Neji não ficou muito tempo com o pai e eu contava que, caso tivesse, mamãe estaria ao meu lado me aconselhando e ajudando. Minha mãe lidou com isso sozinha e foi extraordinariamente boa nisso, havia tanta coisa para me ensinar e tantos erros que eu poderia ter evitado com os conselhos dela. Mas ela está no Plano dos humanos – o que seria a terra – e eu estou aqui com os deuses – que seria um Plano logo acima da terra –, onde estou sozinha no quesito mãe, porque a mãe do Neji se nega a aceitar meus filhos e eu.

Vencida, pelo silêncio deles e o cansaço do meu dia coletando ervilhas, suspiro derrotada pelas minhas próprias crias. Uma hora eles terão que aprender sobre essa parte da história e o motivo de viverem e morrerem presos aqui – onde o tempo passa de forma diferente do mundo humano.

— Tudo bem, eu conto, mas prometam que será a última vez que isso irá acontecer.

— Prometemos. – eles nem escondem a felicidade ao responder.

Eu sei qual é a história da bruxa, é meio impossível viver aqui sem saber a história dela e o que ela fez. Neji vive todo dia revisando toda a história de Rin Nohara e como uma bruxa conseguiu prender os deuses em sua morada divina. Ouço toda noite o mesmo relato para apoiá-lo e incentivá-lo. Eu acredito no meu marido e creio que irá achar a resposta. Respiro fundo e começo a contar de forma mais leve e infantil.

— Era uma vez uma bela bruxa.

— Mas bruxas não são feias? – fico rindo do questionamento de Mahina.

— Não, algumas bruxas são bonitas. A Glinda, Hermione e Sabrina são uns exemplos de bonitas. Não é por ser bruxa que quer dizer que é feia e feia é uma coisa bem abstrata, que não se deve relacionar com aparência.

— Tudo bem, continue. – minha doce menina imita o movimento de mãos que o pai faz para incentivar a continuidade do assunto.

— Voltando à história. Era uma vez, uma bela e jovem bruxa, ela era aliada dos deuses perante uma guerra milenar contra anjos perversos de Hamura, esses seres cruéis desejavam tomar o lugar dos deuses e exterminá–los. – as crianças apertam a coberta contra si, mal sabem eles que não dá para essas criaturas os atacarem aqui. – Sua coragem e bondade era tanta que os deuses a viam com bons olhos, por isso não perceberam a hora em que ela se aliou ao inimigo. A bela bruxa fez um dos atos mais perversos e cruéis em muitos séculos, fechou o portal entre o plano astral dos deuses e o plano terrestre, deixando assim os deuses preços em sua morada por milênios e os humanos nas mãos dos terríveis anjos.

Essa é uma bela forma de dizer que os deuses estão ausentes devido ao fato de terem sido traídos e aprisionados em seu mundo espiritual sagrado. Até que eu fui bem nessa. Cortei as partes sangrentas, as traições, assassinatos, suicídios, o caos que se encontra o mundo humano sem os seus deuses e toda a desgraça que uma guerra traz. Parabéns para mim.

— Por que ela fez isso?

— Ninguém sabe, meu belo menino. – passo as mãos pelo cabelo de Hizashi.

— Mamãe. – Mahina remexe–se na cama, o que ocasiona em seus pés descobertos.

— Sim. – cubro seus pés com a coberta branca e me preparo para mais uma série de perguntas.

— A bruxa vai deixar a gente sair daqui?

— Claro. – faço de tudo para transparecer uma verdade inexistente.

— E quando iremos sair?

— Logo. – Neji responde por mim. – Papai jura por tudo que me é amado.

— Como você sabe? – gargalho quando minha filha cruza as mãos sob o peito ao questionar o pai.

— Porque, como um último ato misericordioso para aqueles que a estimava. – meu marido senta aos pés da cama de Mahina ao começar a introduzir essa parte tão emblemática da história. – A... Bela bruxa – Neji lança um olhar descrente para mim. – recitou que somente uma humana, que nutre sentimentos genuínos por um deus, nos levará a saída deste plano e... – meu marido sorri bobo ao fazer suspense. – O papai achou os dois feitiços que ela usou e está alcançando a nossa liberdade, por isso o papai sabe.

Contamos somente meia verdade sobre a parte final da história. A verdade é que ninguém sabe quando, ou se sairemos. A esperança está literalmente em nós, na nossa pequena família e no amor que nos une. Por mais que Neji corra atrás dessa resposta, não há nada completo ou certo, só sabemos que precisa haver amor entre um deus e uma humana na mesma intensidade. Sair do Plano dos deuses seria um milagre difícil de alcançar e o custo seria gigante.

— A gente vai sair da mesma forma que a mamãe entrou?

Por um portal que abre a cada período e é extremamente desconfortável sentir que sua essência está virando pó para depois sentir que está sendo remodelada de uma forma completamente diferente.

— Bem. – claramente faltam palavras neste instante para Neji, até porque ele não sabe o que vai acontecer após abrir o portal.

Em que época da vida humana estaremos? Ainda haverá humanos? Os filhos de Hamura estarão nos esperando com suas espadas e armaduras? Eles saberão que saímos? Há algum plano para o pós sem ser uma guerra que está levando milênios para acabar? Ainda haverá a nossa religião?

— Talvez, mas creio que iremos sair como atravessamos a porta. – sou mais rápida que Neji em bolar uma bela mentira.

— E o do outro lado estará à vovó?

— Sim.

A verdade é que não sei o que pode estar me esperando, nem sei se ao sair estarei na época certa. Mil perguntas surgem e para cada uma delas, mais mil perguntas. Somente duas estão cravadas em mim: Mamãe está sofrendo pelo meu sumiço? Teria mamãe morrido? Não tenho respostas e creio que não gostaria de sair e saber, eu mal saberia como agir perante a minha liberdade deste local e a morte da minha mãe.

— Eu estou tão ansioso para conhecê-la.

— Eu também.

É perceptível que eles amam o mundo que eu disse e as pessoas que ali vivem. Mas esse não seria o mundo deles, meu filhos são deuses e eu vivi uma vida humana. A vida deles não será feliz, terá sangue e morte acompanhando eles para onde forem. Às vezes eu gosto de pensar que eles nunca sairão daqui, porque assim eles não viveriam o futuro cruel que os aguarda.

»×«

“E vou ficar em negação ao menos por um tempo

E aqueles planos que fizemos?”

TV – Billie Eilish

TENTEN MITARASHI

ANDO a tropeços pela estrada, tudo parece surreal. O barulho no arbusto chama a minha atenção, alguns caçadores costumam atacar assim. Acelero os passos ao ponto de correr, talvez assim eu consiga correr do que aconteceu e esquecer tudo que vivi. Quero fugir para o mais longe de tudo, se possível correria para longe de mim.

Ele foi bem claro: Irei resolver alguns problemas e volto para buscá-la. Que tipo de problemas alguém como ele pode possuir? Passei onze anos ali, como só parece que passei minutos? É como se fosse há séculos atrás tudo que vivi aqui e no mundo dos deuses. Eu vivi, no mínimo, umas três vidas dentro de uma única vida.

Há a vida humana que comecei, onde cresci somente com a minha mãe e ia em festas de adolescentes da escola que frequentava. O fim dessa vida foi a festa no final de semana antes das aulas começarem. Recordo do grupo de oito pessoas da festa juvenil, tivemos a ideia de vir ao conjunto assombrado, vivia coisas de adolescente típicas como Idate e eu quase indo para cama, era virgem nessa época, e Lee, meu melhor amigo, conversando com uma menina e o resto do grupo na sala jogando um jogo com um tabuleiro. O maldito jogo que deu uma brecha para sermos puxados para dimensão dos deuses, um plano astral acima do terrestre – os dos humanos, este ao qual estou agora.

O começo da minha vida como fugitiva humana foi traumatizante. Fomos caçados e mortos, separados após a caça e após a abertura do portal. Lee teve que ficar na dimensão como um soldado, os outros do grupo foram mortos pelo deus da morte, Gaara Sabaku. Ele e a irmã, a deusa da caça e dos ventos uivantes, entre outros; estavam na caça de fugitivos do castelo. Por sorte Lee e eu somos diferentes demais para sermos esquecidos, principalmente ele. Fiquei servindo Temari por um ano, e alguns meses, enquanto Lee virou um dos soldados de Gaara. Foi em um maldito baile dos deuses importantes que conheci Neji e abri a minha boca enorme, eu só queria fazer algo que eu queria, sentir que eu ainda estava viva. Tivemos um relacionamento conturbado que virou um casamento e, por fim, tivemos gêmeos, duas crianças magníficas e inteligentes. E o final dessa vida, foi a abertura do portal que me libertou dessa vida. Por isso estou desesperada.

Quebrei a maldita tranca do feitiço, portão, ou seja lá o que eles chamam. Eu prefiro chamar de contenção de deuses. O filho da mãe ambicioso conseguiu o que tanto queria, abrir o portão e mostrar que é digno de ser um dos grandes deuses. E isso ao preso de que? Dos meus bebês, eles se foram para sempre. Hizashi e Mahina estavam no auge dos seus sete anos. Para o portão abrir era necessário o fruto entre o deus e a mortal. Daria tudo para perder a memória e as emoções, tudo isso me mata lentamente. Daria tudo para morrer no lugar deles, não consigo existir um segundo sequer sem eles. Minha vida se divide entre um antes deles, um durante eles e agora um pós eles – três vidas em uma. Desde que os senti chutar pela primeira vez até os seus pequenos corpos em meus braços, chorando com medo de ser separado dos pais; cada parte da nossa história me machuca, porque eu já não os tenho mais. Minhas crianças foram arrancadas dos meus braços e sacrificadas em prol da liberdade deles, dos deuses. Todo o meu mundo foi tirado em segundos dos meus braços para poder devolver o mundo de deuses antigos e egoístas.

Ao longe vejo a rodovia, espero que seja a que fica perto de casa. Tropeço novamente, chocando meu corpo gelado contra o chão lamacento. Isso é bom, é diferente de lá; onde não tem gramado, as flores são artificiais, não há lama e não há sol, somente lua e estrelas. O mundo dos deuses estava preso em uma eterna noite fria de outono. Seja quem criou aquele lugar, não previu aquilo virar um inferno quando as saídas e as entradas fossem bloqueadas de uma noite para a outra. Os anos de danação são causados pela soberba deles, nunca subestime seu maior inimigo.

Olho para trás, o antigo conjunto de casas inacabadas e assombradas. Tem algo muito errado aqui, isso não está como o resto de toda a criação. As casas estão com as luzes acesas e estão novinhas em folha, parecem casas de pessoas extremamente ricas e padronizadas. Esse conjunto nunca terminou devido aos acidentes macabros que aconteciam e os “fantasmas”, nenhum construtor ou pedreiro quis voltar para terminar. Puxo o meu celular novamente do meu bolso, somente para confirmar que é um dia após a data em que sumi e um dia desde que o portal abriu e fechou, então abriu de novo. Isso é a única coisa que mudou em um dia.

O portão da frente do novo condomínio range à medida que abre, um adolescente parecido com o Neji sai acompanhado de um grupo de quatro pessoas. As roupas deles são de uma única cor e modernas. Respiro descompassada, meu coração bate tão rápido que poderia ser confundido com o motor de um carro de corrida. Se não fossem as características físicas do “grupinho” do Neji, juraria que eram adolescentes normais. Levanto desesperada e volto a andar aos tropeços, não consigo correr. Todo o meu corpo está em um estado de torpor, esse é o motivo que me leva novamente ao chão.

De fato estou desgastada em inúmeros níveis, é como se até a minha alma tivesse saído de um plano astral de deuses aprisionados por anos e vindo para o plano terrestre. Não me lembro de como foi a minha volta, somente que acordei como se tivesse passado uma hora da festinha clandestina nas casas assombradas, um desmaio, acordar novamente hoje de manhã de volta aqui no meu ponto de partida. Minhas mãos estão pesadas e não consigo ter pensamentos ordenados, estou praticamente no meu modo de sobrevivência.

Se a dor dos meus filhos não fosse tão massacrante, teria acreditado que tudo não passa de um delírio.Hizashi e Mahina nasceram em uma noite tempestuosa como seus olhos, foram às sete horas mais longas que já vivi.

Ergo o meu corpo, devo fugir para o mais longe que eu consigo deles. Nada irá parar Neji de me achar e refazer os votos de casamento, ele não estava contente ou em si quando me deixou ir. Para ser franca nem eu estou lúdica o suficiente para decisões. Volto para o chão com tudo, essa volta exigiu muito do meu corpo humano. Sexo, virar deusa, dá a luz, criar e perde filhos e voltar a dimensão humana é exaustivo demais.

— Lhe avisei para ir para casa e aproveitar o tempo que lhe resta com a sua mãe.

— Suspeito que ela lhe deseje tanto que abdica deste privilégio. – o tédio na rouquidão da voz me faz questionar se foi Sasuke, ou Gaara, que falou.

— Por favor. – engulo o meu orgulho.

— Suspeito que você não deu tempo e meios a ela, Neji. – a voz dela ecoa pela noite.

Cada vez que ela fala, faz jus ao seu título. Do que ela tem de bela tem de perigosa. Fui dama dela por muito tempo, sei exatamente o que ela está fazendo. Temari Sabaku está poupando a minha vida, novamente. Suponho que os seus elogios ao trabalho que fiz para ela, durante muito tempo, sejam verdadeiros.

— Que meios?

— Uma carruagem. – o mais “bondoso” deles diz.

Levanto a cabeça, eles estão com aparência de adolescentes. Com essa aparência e idade, eles devem ter voltado a ser príncipes em treinamento; para quem já estava no auge dos seus quarenta anos deve ser horrível voltar a essa estaca. Não poder voltar a ser os governantes, como antes, é o maior pesadelo deles. A única coisa estranha em neles é o vocabulário. Neji aponta para o meu rosto.

— Mulher, nos arranje uma carruagem.

— Por quê?

— Porque você é minha mulher.

— Nesse mundo você não deve tratar uma mulher assim, as coisas são diferentes aqui. – glorificado seja o direito das mulheres.

— Você continua minha mulher, não importa o mundo.

— Na verdade, os velhos anularam tudo que fizemos. – Naruto, ele é o único homem loiro do “grupo”, diz rindo. – O bom é que agora voltei a ser solteiro e não tenho que aguentar aquelas duas.

— Você irá se casar de novo idiota. – Sasuke diz encarado o céu.

— Você irá se casar de novo com Chino e Karin?

— Não. – sempre curto e direto.

— Então você já tem a resposta para isto.

— Se esqueceu de que no acordo você disse que ia se casar com a prima sumida do Neji? – Naruto bate na própria testa.

— Dessa eu não tenho escapatória.

Tento levantar devagar. Não vou deixar essa ameba chegar perto da doce Hinata, ela é uma garota tão boa e gentil. Ainda custo em acreditar no que eu fiz. Dedurei Hinata e a família para não ser castigada, Hamura fez a coisa certa quando me casei com Neji. Dou um passo para trás, eles estão ocupados discutindo entre si sobre o que fazer, onde ir e como achar o que querem. Egoístas, viu?

Quase enfarto ao virar e dar de cara com o soberano das sombras Hiashi Assustador Hyuga — nome não oficializado. Vestido todo de preto e com os cabelos longos soltos, meu senhor me assusta ainda mais com a sua aérea cruel/ceifadora. Todas as vezes que o vejo, tenho o mesmo pensamento de que ele que deveria ser o deus da morte. Faço uma reverência desajeitada.

— Senhor Uzumaki. – sua voz plácida gela a minha alma. – Creio que, assim como eu, deseja ver a minha herdeira.

— Sim, meu lorde. – Naruto diz sério, voltando ao modo regente dos Uzumaki.

Para alguém que sempre fala rindo, vivido e alto; falar baixo e de maneira séria deve ser estranho. Entendo-o, Hiashi não é conhecido por ser um regente bondoso e amado. Ter que passar um tempo ao seu lado será a coisa mais assombrosa na vida do Uzumaki. É horrível ser alguém perante ele. Meu erro foi dizer que conhecia alguém com os mesmos olhos que Neji no plano terrestre, não ficou um único ser com aqueles olhos aqui. Quando disse os nomes ficou mais do que claro para ele que se tratava da sua família a muito tempo perdida.

— Lady Tenten. — minha vez de ser alvo dele. — Me leve até minha filha.

Ele fala e eu faço, se não fizer é morto ou fica preso até morrer e deuses demoram a “morrer”. Naruto adianta para perto de nós, Hiashi vira de lado. Passo por eles e sigo “calmante” para o lado do ser mais perigoso aqui. É como o mar, calmo por fora, mas por dentro está uma loucura.

Tateio o bolso em busca do meu celular, que por sorte não quebrou ou caiu quando eu me estabaquei. Mando uma mensagem para Hinata, com um profundo arrependimento crescendo dentro de mim. Não somos amigas, só colegas de escola. Não tenho amigos além do Lee. Diferente de Hinata que possui duas amigas, a líder de torcida gostosa e a lutadora do time de Box da escola. As três são pessoas que não tem nada em comum com aquele lugar, era isso que achava no começo.

Karin me mostrou o quadro da primeira noiva de Sasuke. As duas únicas diferenças entre a Sakura que conheço e a Sakura da pintura são o cabelo e o nome, Satomi. Mas entendi o porquê da cor incomum, essa é a marca que Sasuke jogou para diferenciá-la das outras. Mesmo após anos ele ainda pensa nela, em Satomi, isso é bizarro e triste. Sasuke é literalmente a personificação da vingança, as coisas que ele planeja contra Sakura, Satomi – tanto faz –, só sei que tenho sorte de não ser ela.

Ino, a qual eu julgava a mais normal, na verdade é a deusa das flores. Por sua culpa aquele lugar não tem flores ou árvores de verdade, até porque a vida decidiu se suicidar e a morte decidiu agir. Gaara fez questão de não nomear uma rainha, assim como destruir cada floresta e flor que encontrava no caminho — e como estávamos sem a deusa da vida na natureza, bem, não tinha como as flores voltarem a viver. O Sabaku que deveria ser o deus da vingança, não da morte. Guardar o lugar de sua esposa e rainha para uma mulher, que fugiu dele, requer vontade e sede de vingança.

Elas sabiam disso e nunca fizeram nada além de fugir, elas são tão culpadas quanto eles. O sangue dos meus filhos está nas mãos delas também. Farei algo para todos voltarem de onde vieram e, se necessário, Ino vai junto com eles. O celular vibra, a resposta de Hinata brilha na tela. Mostro a mensagem ao lorde Hyuga e aos outros.

— O senhor vai ter que olhá-la de longe, se chegar muito perto, ou fazer algo, ela pode suspeitar e chamar a mãe. – Hiashi continua com a mesma expressão. – O senhor não quer isso, certo? Ser separado dela novamente.

— Mas você pode usar isso para avisá-la para fugir. – Temari sorri de lado. -Ou, fingir que está conversando e na verdade está lhe avisando para fugir. — esperta, consegue ver brechas de longe.

— Me acompanhe, posso dizer que você é uma prima.

— Tudo bem.

Para a minha surpresa o Uchiha vem para o nosso lado, ele faz um movimento com a mão e um portal se abre nas sombras. Neji segura o meu braço e juntos passamos pelo portal. Que droga, todos vão ir juntos. É como passar de uma porta para outra, a única sensação que o corpo sente é a de estar submerso em líquido por míseros segundos.

Saímos na praça do shopping, como Sasuke Uchiha sabe onde é o shopping? É um mistério para mim também. Lembro–me de que Lee e eu chamávamos essa área de O lado negro da força, devido a sombra da loja cobrir a entrada do corredor e parecer um vórtice de escuridão; também é conhecidíssimo como o melhor local para ficar com outra pessoa no shopping. Hinata já está sentada na mesa, sua última mensagem mandou ir para o shopping do norte da cidade. Sakura está ao seu lado, Sasuke trava ao vê-la. Isso será interessante. Ela está comendo toda feliz na mesa, a mão de Sasuke fecha em punho.

— Eu vou com você. – ele soa raivoso.

»»»»ↄ««««

“Correndo pelo estacionamento

Ele me perseguiu e não queria parar

Peguei, tá com você”

Tag, You’re it – Melanie Martinez

SAKURA

ENFIO o cachorro quente goela a baixo, meu treinador disse que preciso de um pouco de massa e eu amo comer, uni o útil ao agradável. Estávamos indo para casa quando Tenten pediu o caderno emprestado, ela faltou hoje e Hina sempre tem anotações sobre todas as aulas. Hinata é um exemplo de aluna, anda para cima e para baixo com a mochila sempre que vamos sair – bizarro, mas respeitamos os costumes bugados dos amigos. Ino meteu o pé, disse que “desceu mais cedo esse mês”. Uhum, e eu não preciso pegar massa muscular. Tenten senta na nossa frente acompanhada por um garoto. “Oi sumida rs, quem é o boy?” Muito tempo com a Ino dá nisso. Ficamos em uma troca de olhares intensos, eu e o garoto, não faço ideia das coisas ao redor. Seus olhos pretos parecem vasculhar o meu interior em busca de algo e eu só estou chocada com tamanha beleza — é quase um ofendimento de tão belo. Hinata corta o nosso contato visual ao se levantar da mesa. Se ela não fosse um anjo ia fazer o mesmo que faço com a Ino.

Agora a pergunta é: Há quanto tempo fiquei encarando–o? Ou o assunto era rápido?

Repuxo os lábios em um sorriso doce, quero ver ele resistir a essa. Reparo melhor nele, cabelo preto, nariz aristocrático, lábios carnudos, olhos pretos melancólicos e diria que alto. Se veste inteiramente preto, um agasalho de malha e um boné. Infelizmente não dá para ver abaixo da cintura, só a calça preta de moletom larga.

— Tchau Satomi. – um arrepio sobe pela minha coluna.

Essa voz me é familiar, dos pesadelos que me deixam acordada a noite toda. Satomi sempre causava pesadelos enormes toda vez que contava a história do terrível deus da tempestade, do fogo, do relâmpago e da vingança; isso é só metade das coisas que o deus das suas histórias era. Os idosos costumam achar que sou a vovó, todos dizem que somos um focinho da outra, e vivem falando que sou uma bruxa por permanecer jovem. Satomi de fato era uma bruxa, tanto que seu sangue é amaldiçoado.

— Não sou ela.

— Não? – ele sorri sarcástico.

— Meu nome é Sakura, Satomi é a minha vó. – seu sorriso morre. – De onde você a conhece?

Olho para Tenten em busca de respostas também. Nunca o vi na vida, se já o chamaria de Sumido R e S. Tenten está sem reação, piscando os olhos sem parar. Dá para ver as engrenagens da cabeça dela rodando. Ela começa a ri que nem maluca.

— O avô dele conheceu – Tenten sorriso prepotente para ele. – a sua falecida avó Satomi.

Concordo com a cabeça. Hinata aperta o meu braço. Minha amiga é albina, mas ela acabou de se superar, parece um leite coalhado. Tem um senhor nos encarando, sabe aqueles tio bonito que você olha e pensa: Nossa, quero um marido que fique assim nessa idade. Esse tiozinho é assim. Alto, claramente musculoso, um maxilar marcante, belos olhos brancos como o da Hinata, cabelo castanho longo, lábios carnudos e belos, o que? Os olhos dele. Eu pesquisei, por muitos e muitos anos, e nunca achei alguem com os mesmo olhos de Hinata; exceto o ex idiota dela, esse a gente desconsidera porque é um babaca. Aponto sem pudor algum para ele; se ele pode olhar descaradamente, então eu posso apontar na cara de pau.

— Ele é seu parente? – Hinata nega com a cabeça.

Empurro Hinata pelo caminho. Vovó dizia que as Hyuga são amaldiçoadas, como os Haruno, e que se um dia visse alguém com os mesmo olhos e aparência delas deveria correr. Ela vivia dizendo que a maldição delas se devia ao fato do amor da mãe dela pelos humanos, diferente do nosso — que foi cachorrada da minha vó. Satomi jurou de pé junto, até a morte, que foi amaldiçoada pelo deus da tempestade, simplesmente porque traiu ele com um servo dele e fugiu do casamento deles. Esse é o motivo da nossa doença genética, nascer com cabelo rosa não é normal e ver um morto tão pouco.

Melhor levar ela para a farmácia da mãe, já está tarde e preciso comprar a pomada de papai. Não, não estou ouvindo os ensinamentos doidos de vovó. Ver morto, falar com morto, socar morto é uma coisa completamente diferente de ser perseguida pelo deus da vingança, tudo porque a sua avó tinha fogo de sete éguas e só era fiel a ela mesma.

Olho uma última vez para mesa, o garoto continua me encarando perplexo — continua gostoso, incrível. Dou língua para ele, vai que ele é um daqueles doidos que pensam que eu devo pagar pelo o que a minha vó fez com a família dele. Tenten abre a boca, mas dá para ver um leve sorriso. Menino estranho, gostoso, porém, estranho. Solto Hinata para descer a escada rolante — tenho verdadeiro horror de escadas rolantes. Por que fui ver os acidentes em escadas rolantes? Minha vida era um mar de rosas antes disso. A jovem peituda pisca sem parar, tem caroço nessa empada.

— O que houve?

— O... Que?

— Você está agindo estranha.

— Ele não se parecia comigo? – seu dedo indicador aponta para trás.

— Sim, os olhos e o cabelo. Diria que Hanabi se parece mais, por causa do cabelo castanho.

— Isso é estranho, nunca vi pessoas como nós. – sorrio nostálgica.

Satomi diria: É porque você é amaldiçoada querida. Era a resposta para tudo dela, Vovó era um ser peculiar. Sinto saudades dela, passava todo dia ao seu lado conversando e recebendo o que não ganhava em abundância dos meus pais na infância — atenção e carinho. Vovó morreu tão jovem e tão cedo, queria ter tido mais tempo com ela.

Tropeço ao sair da escada rolante, seguimos até o estacionamento em silêncio. Quem precisa de carro quando se tem uma bicicleta rosa toda fofa? Quem me olha nos treinos de Boxe nem imagina que possuo um lado fofa e um safada. Hinata me passa a chave do cadeado. Ela põe a sua mochila na cestinha lilás, graças a sua incrível ideia de cestinha eu consigo andar livremente na bicicleta. Solto cadeado e ponho tudo na cesta, pego o celular com Hinata e boto a playlist: Voltas brisadas. Sigo na frente cantarolando as músicas.

Passamos pelo canto da saída dos carros, a farmácia da mãe dela é perto do shopping e da escola. Não tenho tamanha sorte e vivo longe da escola, no limite da vizinhança. Leva exatamente dez minutos de bicicleta até a farmácia. A tia Hideaki vende tanto ervas medicinais quanto remédios, papai usa a pomada de ervas especiais dela; desde que a vovó morreu, ele desenvolveu um problema emocional de feridas nas mãos e só as ervas conseguem resolver.

Paramos na última esquina antes de virar. Um frio de gelar a espinha me cerca, olhei para Hinata, ela não aparenta sentir nada. As pessoas geralmente não sentem os mortos. Encaro o outro lado da rua, há sombras assustadoras. Meu sangue gela, não pelo vento frio e sim pelas sombras. São como pessoas mutiladas ali. Dá para ver perfeitamente sete, uma delas estica a mão na minha direção. Meu peito lateja de medo e fico sem reação ao sentir reconhecimento com o resto de energia boa deles. De novo não, não aqui e perto de outras pessoas. Hinata soa longe e abafado.

— Sakura. – aos poucos tudo volta ao normal.

Desvio o olhar assustado, Hinata está parada na rua da farmácia da sua mãe. Forço um sorriso para ela. Se eu disser o que vi, Hinata vai me achar uma maluca, assim como todos achavam a minha vó e eu terei o mesmo tratamento lixoso que ela tinha. Não posso falar disso com ninguém e fingir que não aconteceu, quando o espírito está tão fraco assim não é um perigo para ninguém. Pedalo para o seu lado, juntas seguimos para a farmácia.

Paramos na frente da farmácia, a tia deixa entrarmos com as bicicletas quando está vazia — como hoje. Deixamos no balcão da frente e vamos em silêncio até o fundo da loja. Hanabi está sentada no último balcão, a carinha de pedinte está na toda. Aposto que pediu para sair e a tia disse não.

— E ai pequena apostadora.

— Galinha de ouro. – ela sorri, travessa como sempre.

Desde que passou a ir às minhas lutas, Hanabi criou uma rede de apostas e ela é muito boa em ganhar a maioria das apostas. Essa menina só não tem o mundo nas mãos porque a tia não deixa. Se libertar essa criaturinha do mal, metade das pessoas vai perde dinheiro para ela e virar seus escravos. Vivo perdendo dinheiro para ela.

— Oi meninas. – tia Hideaki para ao nosso lado com a pomada em mãos, já tinha avisado de manhã que viria pegar de noite.

— Oi tia. – pego a pomada e tiro o dinheiro guardado no peito, aprendi esse truque com vovó. – Aqui.

— Não precisa, sua avó que me ensinou a fazer essa pomada. – a tia pega a chave e segue para frente da loja. Deixo o dinheiro na bancada sem ela perceber. – Onde vocês estavam?

— No shopping. – Hinata soa estranha.

— Tia, eu achei a minha meta de homem.

— Como? – Hanabi ri.

— É amigo da Tenten, já vou chamá-la no Facebook e falar: Oi sumida, R e S sem fim. Depois vou tacar umas coisas e aí pergunto dele.

— Isso é feio Sakura. – Hanabi fala fazendo biquinho.

— Né, não. Ela fez isso comigo semana passada por causa do idiota do Idate.

— No dia em que a Sakura tomar vergonha na cara, eu fico mais bondosa que nem a mana.

Hanabi foge de mim como se eu estivesse segurando uma estátua de Rikudou–sennin e tentando exorcizá-la. Eu realmente almejo exorcizar ela, de repente o espírito sai dela. Hanabi para ao ouvir a voz vacilante de Hinata.

— Eu vi alguém. – Hinata soa angustiada. – Um homem parecido conosco.

Hanabi me olha inquisitiva. Também deve estar se perguntando quem usa “conosco” hoje em dia. Ah, agora ela deseja ser boa. Sorrio vitoriosa, volto correndo para frente da loja.

— Tia, estou indo. – grito enquanto passo pela porta com a bicicleta.

— Por que você não me espera para levá-la?

— Vou passar na casa da Ino antes. – mando um beijo para o projeto de demônio e olho para Hina. – Hinata me chama no chat daqui a pouco, vou descobrir o motivo da porca ter ido e vou te contar.

— Tudo bem.

Subo na bicicleta rapidamente. Já é tarde e papai deve estar arrancando os fios rosas da cabeça. Se esse avô dele conhece Satomi, então ele poderá falar do marido sumido de Satomi. Toda vez que sei de um velho que conheceu Satomi, a primeira coisa que faço é perguntar sobre o meu avô desaparecido. É um dos grandes mistérios dessa família, nem meu pai o conheceu.

A minha velha teve dois noivos, segundo ela, e um marido, o passado dela é um grande mistério para a família. Tudo que sabemos é que um dia ela tinha cabelo castanho e no outro dia o seu cabelo estava rosa como as pétalas das árvores de cerejeiras e ela havia mudado internamente, como se tivesse vivido uma vida e depois voltado para o ponto de partida. Também há o fato dela ter desenvolvido dons após sumir na floresta por uma hora. Durante anos vovó usava peruca castanha na rua para fugir do “verdadeiro inimigo”, somente em casa que seu cabelo era libertado. Minha maior curiosidade é sobre o que Satomi viveu para transformá-la tão drasticamente em uma hora.

Paro no mesmo lugar que vi as sombras. Nada, está até iluminado por uma lâmpada. Tenho certeza do que vi, aquilo não é normal e faz parte dessa guinada na vida de Satomi, da nossa “maldição hereditária”.

Sou puxada para trás, o garoto abraça o meu corpo com força. Seu corpo é frio e duro, no entanto, a sua energia é normal. O caminhão leva a minha bicicleta rua abaixo. Graças ao garoto lerdo do box estou viva! Eu ia morrer cedo, como pude me distrair assim? Seria somente uma luz que brilhava modestamente. Ia morrer sem fazer o que sempre sonhei em fazer. Agora mesmo que irei correr atrás do que sonho em fazer no futuro. Não sei se estou em choque por quase morrer ou se estou surpresa por Idate, frio que nem defunto, ter surgido do além para me salvar.

— Obrigado Idate.

— De nada princesa. Você deveria olhar por onde anda.

— Eu me distrai. – aponto para o beco.

— Tudo bem, quer que eu chame a Hinata e a mãe dela?

— Eu...

Ainda estou sem reação. Não ouvi o caminhão se aproximando, para ser franca nem passa caminhão nessa rua. Para a minha completa surpresa, o garoto do shopping está do outro lado da rua nos encarando com raiva. Um ônibus corta o nosso contato visual, nada, não há nada depois da passagem do ônibus. Oh porra! Que isso? Houdini? Ou coisa da minha imaginação?

Afasto os pensamentos, bicicleta e depois o seja lá o que for isso. Se eu contar para Ino e para a Hinata elas nem vão acreditar. Toco nos braços de Idate, ele está mais gelado que o normal. O calafrio que bate a noite percorre o meu corpo. Tiro a mão devagar para não ser rude, eu já senti isso e o que veio depois não foi bom. Estou sem reação e embasbacada, mas não sou burra.

— Eu vou indo. – aponto para a farmácia. – Eu esqueci algo na farmácia.

— Mas e a bicicleta?

— Pego com a tia e a Hinata, mulheres bem religiosas. — faço o sinal sagrado de Rikudou.

Simplesmente dou as costas e saio o mais rápido que posso. Ainda me lembro dos ensinamentos de Satomi e do que aprendi por conta própria ao longo da vida. Seja o que for, devo ficar longe de Idate a partir de hoje.

Notas finais
Espero que tenha gostado.