Padrões e Preconceitos
4 Nossos dias de luta, nossos dias de glória...
Notas iniciais
Acordei de manhã bem mais cedo que o normal. Eu acabei ficando meio ansiosa sobre aquilo tudo de mudar para uma escola particular famosa e tals. Eu vi isso como uma grande oportunidade depois de pensar um pouco. Sabe eu tinha um sonho que eu guardava só pra mim (e claro, para a minha irmã porque eu contava tudo pra ela e os meus pais) desde pequenininha, bem antes de eu sonhar que os meus pais iriam vir a falecer que era ser uma designer de moda. Pois é sonho estranho pra uma menininha, a maioria das garotinhas falando que queriam ser princesas e eu queria desenhar vestidos. Eu tirei essa coisa de um desenho que eu via quando pequena e meio que isso passou a ser um hobbie meu que passei a desenhar sempre em qualquer coisa que achasse e isso acabou sendo um problema pra mim. Bom, sabe quando cheguei na casa da minha tia Li eu acabei por desenhar em uma agenda dela, nem era uma pagina onde estava algum numero de telefone, mas ela surtou. Muito mesmo. Gritou comigo até ficar quase sem voz, e naquele dia eu conheci a fúria das havaianas da tia Li. Na cara. Pois é, uma daquelas experiências que não gosto muito de relembrar, assim como todas que tive com aquela mulher. Como se isso não bastasse ela ridicularizou o meu desenho e me deixou tão humilhada que eu passei todos os anos com aquela mulher sem desenhar por perto dela. Ou seja, quase sempre. Até hoje não gosto que ninguém veja meus desenhos. Me sinto ruim. Mas acho que talvez, só talvez essa escola particular me traga uma pontinha de esperança para chegar até o meu sonho. Então naquele dia, com o intuito de batalhar pelo meu sonho, eu estudei até meus olhos sangrarem. Alya passou cedo na minha casa e me emprestou os seus livros saindo logo em seguida meio apressada pra não perder o ônibus. Ela tinha marcado umas paginas que iriam me ajudar. Minha irmã saiu muito desanimada, já sabemos o porquê, para o seu segundo dia de trabalho na mansão dos ricaços lá, eu não a culpava. Enfim, eu peguei os livros e de primeira não entendei muito bem as coisas ali. Era tudo bem avançado, mas com uma meia hora eu consegui pegar o pique e me enfiar de vez com a cara nos livros. Eu nunca estudei tanto na minha vida. Recebi uma mensagem no celular umas duas horas depois de começar a estudar: “Se esforce nos estudos Marizinha! Beijinhos de toda a equipe do Clube Miraculous Comedian” vinda do número da minha chefa Alicia Viena junto da foto de algumas pessoas do clube de comédia em que ela trabalhava que eu conhecia por passarem algum tempo ensaiando na casa dela. Eram todos gente muito boa e cheia de piadas. Eu respondi agradecendo. Voltei aos estudos. As palavras eram tantas que eu quase pensei que fosse impossível de decorar, mas pelo meu sonho ia valer a pena. “Se você pode sonhar, você pode fazer” certo? Eu ouvi isso em algum lugar, nem lembro mais onde. Quem se importa? Voltar aos estudos!
P.O.V Bridg
Eu realmente passei a noite toda imaginando que o meu próximo dia na mansão dos Agreste ia ser um inferno mais infernal que o anterior, mas não. Foi pior que isso. Eu estava normalmente na cozinha lavando as vasilhas quando adentrou pela porta o meu pesadelo loiro: Félix Agreste. Ele me encarava fixamente e depois do nada foi até a geladeira e tirou de lá um potinho de porcelana. Ele veio até mim comendo calmamente e segurou bem na minha frente o pote: uma salada de frutas composta de maçã, banana e... Laranja e morango. Ele perguntou debochadamente se eu queria. Eu rangi os dentes e o que eu queria era gritar: “AH FILHO DA PUTA!”, mas me contentei em virar o rosto pra pilha de vasilhas e voltar para o meu trabalho. Ele riu mais debochadamente ainda e saiu devorando a salada de frutas como se fosse a melhor coisa que já comeu. Eu cerrei os punhos e quase quebrei o prato que estava lavando, mas me contive por notar que, ei, eu estou na casa dos meus chefes e se fizer isso eles descontam no meu salario! Argh! Ok. Respirei fundo. Pelo menos ele já não estava mais aqui. Terminei meu trabalho e fui colocar o lixo da cozinha pra fora. Indo para a rua eu me deparei com uma criatura parada em frente ao portão num puta sol de trocentos mil graus de braços cruzados e saltos vermelhos, uma moça muito bonita que encarava pacientemente o interfone e o tocava a cada dois segundos. Me perguntei o porque de ninguém ter a atendido até agora e fui até ela.
— Bom dia? – Eu mais perguntei que outra coisa.
— Ah finalmente mandaram alguém pra me atender! Muito obrigada e bom dia para você também! Onde ele está? – A moça bonita perguntou com uma voz doce e um sorriso gentil.
— Perdão? – Eu falei confusa enquanto colocava o saco de lixo na lata em frente a casa.
— Uh? Ah eu estou perguntando sobre o Felix! – Ela explicou. – Eu queria ver ele!
— E você seria? – Eu perguntei.
— A namorada dele! – Ela falou isso como se fosse o maior motivo de orgulho. Talvez não batesse bem da cabeça ou só não estivesse falando do mesmo Feliz que eu conhecia, foi o que pensei.
— Ah... Então acho que você pode entrar... – Eu falei confusa, não tinha sido informada de coisa assim, mas suponho que fosse o que eu deveria fazer.
— Obrigada! – Agradeceu e quando ia por o pé pra dentro do jardim o ser que ela procurava apareceu vindo até nós .
— Desde quando você pode sair deixando os outros entrarem na minha casa? – Felix perguntou friamente pra mim.
—Perdão? – Eu disse. – Ela não é a sua namorada?
— Mas é claro que eu sou! – Ela falou. – Felix sou eu Elie! – Ela falou segurando na mão dele. – Eu vim bem arrumada hoje porque você me disse ontem que ia me fazer uma surpresa, Mas isso não é motivo para não me reconhecer querido Nós vamos sair? É um restaurante chique?
— Do que está falando? – Ele perguntou aparentemente confuso. — Minha namorada?
— Como do que eu estou falando? Sou sim sua namorada! Nós nos conhecemos há duas semanas e ontem você me pediu em namoro! Não tem como não se lembrar! – A garota disse rindo. – Está brincando comigo não é?
— Ah sim! Elie! Lembrei! – Ele disse como se tivesse se esforçado muito para lembrar dela. – A garota com quem eu fiquei esses dias. Lembrei o motivo de te chamar também. Você está dispensada. – Ele disse calmamente.
— O que? – A garota perguntou, o sorriso saiu de seu rosto e caiu direto no chão se despedaçando em milhares de fragmentos.
— Sabe como é né, eu enjoei de você. Não precisa mais vir atrás de mim. – Ele disse e com um aceno fez um gesto de “xó” como se estivesse falando com um cachorro.
— Vo-você n-não pode estar falando sério! – A garota gaguejou. – E-eu me dediquei totalmente a você nessas ultimas semanas! E-eu... E-e-u... – Ela soluçou. – Gosto tanto de você...
— Adorável. Já acabou? Vai ir embora da frente da minha casa ou não? – Ele perguntou tão frio quanto um iceberg.
A garota olhou para ele com os olhos cheios de lagrimas e sem conseguir dizer mais nada ela saiu correndo. Depois de tropeçar três ou quatro vezes pelas calçadas ela tinha sumido do meu campo de vista. Eu estava ali o tempo todo paralisada, sem acreditar no que acabei de ver. Parecia uma daquelas novelas mexicanas. Depois de um choque de realidade consegui me virar para o loiro que só olhava para a direção pela qual a garota tinha ido com uma cara de tédio.
—Como é que você pôde fazer uma coisa dessas?
— Uh, ainda está aqui? – Ele pareceu só voltar a me ver ali naquela hora.
— Sim. Eu estou. – Resmunguei. – Você não tem sentimentos?
— E você não tem uma pilha de louça pra lavar? – Retrucou. – Vá procurar o que fazer vira-lata.
Depois de falar isso ele virou as costas e caminhou para dentro da mansão. Eu ainda fiquei um pouco lá fora refletindo sobre a cena que acabei de ver. Dispensar uma garota tão apaixonada, meiga e bonita como aquela tal Elie assim tão secamente? Felix Agreste era definitivamente um ser terrível e a cada segundo ele só me enojava mais.
P.O.V Mari
A tarde foi até que razoavelmente de boas: sem ligações, sem visitas (não que costumássemos receber muitas), no máximo só uns sete carros passaram tocando altos “Malandramente” da vida e nenhuma troca de tiros! Isso resume uma tarde tranquila pra estudar no meu adorado Morro do Milagre. Durante uma breve pausa eu fiquei deitada o chão da sala, encarava fixamente o teto e ao mesmo tempo não o encarava, sabe quando você fica olhando fixamente para um ponto e se perde em pensamentos? Então, era isso. Eu pensava no futuro, algumas ilusões e uma vida perfeita que eu nunca teria. Quem nunca? Depois disso voltei a estudar e só parei quando ouvi um grito:
— MARINEEEEEEEEEEETTE! Ô DE CASA!
Eu corri lá pra fora e dei de cara com a Alya que estava meio ofegante. Olhei para o céu e notei que estava alaranjado, indicando o fim da tarde.
— E aí? – Ela me cumprimentou.
— Oi! Entra! – Chamei e ela veio atrás de mim sem rodeios. – Quer uma agua? Parece cansada.
— Aceito sim. Vim correndo pra cá. Eu tava na casa de uma colega que mora meio longe e nós estávamos conversando e acabamos tocando no assunto de um trabalho e eu lembrei que é pra amanhã e não tinha feito ainda. – Ela explicou enquanto eu trazia um copo com agua. — E, sabe, eu preciso de um dos livros que te emprestei.
— Ah! Eles estão aqui. Qual é? – Perguntei indo em direção aos livros.
— História.
— Aqui. Obrigada por emprestar! Muito obrigada mesmo! – Entreguei o livro sorrindo.
— De nada minha querida. – Ela sorriu. –Agora é fazer esse trabalho! Argh! Eu devia ter feito isso antes! Agora vou ter que fazer tudo na pressa e vou receber sermão da professora de novo por falta de capricho. — A ultima parte ela disse com voz de nojo fazendo careta.
— Acho que você precisa de uma ajudinha com isso então que tal? — Eu falei apontando para o livro.
— Não precisa disso. Você deve ter coisa melhor pra fazer do que me ajudar com esse trabalho estupido. – Ela falou ajeitando os óculos.
— Não mesmo, eu vou ajudar. – Falei colocando as mãos na cintura. – Se te consola isso vai me ajudar a estudar.
— Então tá. Pra falar a verdade eu não estou muito na condição de negar ajuda. – Ela concordou se sentando no chão da sala e soltando um longo suspiro. – Tem papel A4 aí?
— Tenho.
E depois disso começamos a fazer o trabalho. Eu percebi pelas atividades que estavam nele que a escola tinha mesmo um grau muito avançado e que se eu quisesse mesmo ficar nela ia ter que me dedicar mais do que o normal aos estudos. Enquanto mexíamos com papéis, lápis e paginas do livro de História nós também conversávamos coisas aleatórias.
— “Tá legal! Para e pensa! Se a lua é de queijo Marte é de Doritos né?” – A morena falou. – “Tipo, faz total sentido!”
— Ele disse isso mesmo? – Eu ri.
— Sim ele disse. – Ela riu.
No momento comentávamos sobre o namorado da Alya: Nino Lahiffe.
— Mas sabe apesar dele ser assim tão sem noção eu não consigo me ver longe dele. – Ela falou sorrindo meio abobada.
— Eu notei. – Falei.
— Sério?
— Uhum. Seus olhos brilham quando fala dele e você fica sorrindo de um jeito fofo. – Eu expliquei. – Acho que vocês devem se amar muito mesmo né?
— É. – Confirmou. – Sabe aqueles dias em que você não consegue dormir e fica pensando em uma vida perfeita que nunca vai ter?
— Sei.
— De vez enquanto eu penso em, sei lá, uma vida com ele. – Ela corou. – Uma boa casa, filhos, emprego...
— E no que pensa em trabalhar? – Perguntei resolvendo também viajar para o futuro momentaneamente.
— Quero ser repórter. – Ela falou sorrindo muito. – Combina com a minha personalidade de garota intrometida. – Ela piscou. – E sabe eu gosto da verdade. Esfregar a verdade na cara da sociedade e fazer do mundo um lugar melhor! É isso seria demais! – Ela disse empolgada.
— Você sonha grande senhorita Alya. – Eu falei admirada. Ao contrario de mim ela não tinha nenhum medo de dizer seu sonho.
— É claro! E eu me esforço também! Eu até consegui entrar para o clube do jornal da escola!
— Isso é ótimo!
— É, mas eu sou só uma assistente. Geralmente eu sou tratada mais como escrava dos supostos jornalistas da escola, que pra falar a verdade são os piores que já conheci, mas vou continuar lutando até ser a redatora chefe do jornal! E o mundo vai me reconhecer como heroína nacional da verdade! – Ela falou fazendo pose.
— WoW! E depois você fala do seu namorado! – Eu ri.
— Ei! – Ela riu e bateu com o livro na minha cabeça. – Mas tem um ponto em que eu quero chegar.
— E qual seria? – Me recompus a encarando curiosamente.
— Lutar!
— Lutar?
—Lutar.
— Pelo que exatamente?- Perguntei.
— Pelos sonhos mina! – Ela falou sorridente. – É por isso que me esforço e ainda não mandei todo mundo do jornal se fuder! Por que eu luto pela vaga que quero, por que luto pelo meu sonho e pelo meu futuro emprego!
— Alya você é tão inspiradora! – Eu disse com os olhos brilhando.
— E então senhorita Marinette nós vamos lutar pelo que queremos juntas? – Ela disse se levantando e me estendendo a mão.
— Sim! – Eu me empolguei e segurei a mão dela levantando também.
— Mas pra falar sério aqui eu quero muito mandar o pessoal do jornal se fuder.
Fale com o autor