Padrões e Preconceitos
1 Monstros como você, DEVERIAM QUEIMAR NO INFERNO!
Notas iniciais
Aquele era um dia assustador, pelo menos para Bridgitte e sua pequena irmã Marinette. As duas haviam perdido os pais há poucos dias em um acidente na cozinha da antiga padaria dos Dupain Cheng. Uma terrível explosão de gás que levou das garotas os pais que as amavam e por pouco não as levou também, mas Bridgitte tinha sido mais rápida levando a irmã correndo para fora do lugar. As pequenas garotas que antes eram lindas agora já não pareciam nem mais humanas, estavam com os olhos inchados e vermelhos de tanto chorar e expressões tão tristes que poderiam partir o coração até mesmo dos piores seres humanos. Bom, talvez de quase todos eles. As duas eram mesmo muito jovens: Bridgitte tinha 15 anos e Marinette 9. Portanto não poderiam de forma alguma ficar sozinhas. A guarda das meninas foi deixada com a tia delas por parte de mãe Li Cheng. A mulher morava em Paris sozinha, sem filhos nem marido. Não que já não tivesse se casado, muito pelo contrario já o fizera incontáveis vezes, mas todas resultaram em divórcios, os filhos nunca chegaram a vir. Li era uma mulher muito bonita, tinha um corpo invejável apesar de já não ser uma jovem, belas curvas e era muito magra, costumava usar vestido de modelo chinês que chegava até o meio das cochas e isso contribuía para que seu corpo fosse naquele estilo “violão”. Quando as meninas chegaram acompanhadas das devidas autoridades que cuidavam de casos de crianças órfãs como elas foram muito bem recebidas pela, até então, desconhecida tia. A mulher deu doces para as crianças e também para seus acompanhantes, pois era dona de uma Doceria que ficava no centro da cidade então tinha certa habilidade com doces. Mas aquilo não foi muito bom para as meninas, fez elas pensarem nos doces que seus pais faziam e em como aqueles era diferentes. Nunca mais teriam os doces de seus pais, aqueles não eram os doces de seus pais então elas não os queriam, dispensaram educadamente. Enquanto os adultos conversavam as meninas ficaram encarando o chão, Bridgitte segurava com força a mão da irmã tentando consolar ela.
— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui Mari. – Brdigitte falou sorrindo minimamente para a irmã.
— Eu também estou aqui pra você Bridg. – Marinette disse abraçando a irmã com força.
— Eu também estou aqui pra vocês agora pequenas. – A tia Li se intrometeu no momento das irmãs afagando a cabeça das duas.
— Bem senhora Cheng acho que já terminamos por hora. Nós vamos ligar e faremos visitas uma vez por mês nos primeiros meses de adaptação das meninas. – A mulher que acompanhou as crianças da antiga cidade delas até Paris falou com a chinesa. – Meninas. – ela chamou sorrindo de um jeito reconfortante. – Vai ficar tudo bem ok? A tia de vocês vai cuidar de vocês. Está tudo bem.
As meninas só assentiram, com uma pequena chama de esperança se acendendo nos corações jovens. As autoridades saíram deixando as crianças sozinhas com Li.
— Estão com quantos anos meninas? – A chinesa perguntou.
— 15. – Bridg sussurrou.
— 9. – Foi a vez de Mari sussurrar.
— Então já tem idade pra limpar a casa! – Li falou sorrindo de canto encarando as meninas de cima abaixo notando que eram muito bem criadas e pareciam ser fortes o suficiente para o serviço.
— P-perdão? –Bridgitte falou sem entender.
— Eu acho que foi uma piada Bridg. – Marinette falou inocentemente.
— Não querida não foi. Minha casa está uma sujeira que só! E eu pretendo receber visitas mais tarde então não quero fazer feio. As coisas precisam ser limpas por aqui não acham? – Li falou cruzando os braços, a face séria.
— Nós não sabemos limpar casas. – Bridgitte falou meio desconfortável. Aquela sua tia achava mesmo que elas iriam saber fazer tarefas domesticas pesadas tendo tão pouca idade?
— E eu perguntei se sabiam ou não? Só vão lá e façam! – A mulher disse já se irritando com aquelas pequenas figuras na sua frente. Definitivamente odiava crianças. As meninas a encaravam assustadas. – Argh! O que estão esperando? Acham que tudo vai se limpar em um passe de magica? Venham aqui! –Ela pegou nos pulsos das duas com força e antes que elas pudessem ter alguma reação foram puxadas com brutalidade até outro cômodo da casa. Li abriu a porta e lá dentro estavam produtos de limpeza, vassouras e todos os acessórios necessários, claro que se tratavam dos produtos mais baratos do mercado, uma mulher tão mão-de-vaca como Li Cheng não desperdiçaria dinheiro com marcas famosas e caras.
—Esses são os produtos que vão usar! Varram tudo antes de joga-los, quando jogarem não saiam jogando tudo de uma vez porque são caros! – A mulher já ia saindo.
— Nós não sabemos como fazer isso. – Marinette falou segurando a barra do vestido vermelho da adulta que logo empurrou a mão da criança para longe da peça de roupa.
— Aprendam a fazer então! – A mulher disse nervosa, pegou um maço de cigarros do bolso do vestido ascendeu um com um isqueiro que tirou do outro bolso e colocou na boca.
Bridgitte encarou sua irmãzinha que estava muito assustada, afinal as duas nunca passaram por alguma coisa assim. A mais velha respirou fundo e encarou séria a mulher que estava na sua frente.
— Nós não vamos fazer isso! – Ela falou séria.
— E quem disse que eu estou dando opção? – A mulher perguntou encarando de perto a mais nova.
— Eu disse! Nós podemos escolher e não vamos fazer! – Bridgitte falou.
— Eu acho que não queridinha. – A mulher pegou o cigarro e sem hesitar esfregou a ponta na bochecha de Bridgitte que berrou de dor e caiu de joelhos no chão, Mari observava tudo sem saber o que eu fazer.
—Monstros como você... — Bridgitte falou com dificuldade ainda de joelhos e com lágrimas grossas descendo pelo rosto violentamente. — DEVERIAM QUEIMAR NO INFERNO!- Gritou.
— Quer me desafiar? Eu posso apagar o cigarro na sua irmãzinha da próxima vez! Você quer isso? Eu acho que não né? – Li disse cinicamente apertando as bochecha da irmã mais velha fazendo ela lhe olhar nos olhos. – Vão fazer o que eu mandei! – Ordenou soltando bruscamente o rosto de Brdgitte. A mulher saiu e só falou já de costas. – Vou ir para a minha doceria agora e quando eu voltar ás sete da noite é melhor isso aqui estar um brinco!
— Bridg doeu muito? – Mari perguntou depois que a assustadora mulher saiu.
— D-doeu. – Bridg falou levantando. – Eu não quero que ela faça isso de novo! Não quero que ela faça isso com você!
— Eu também não... – A menor disse. – Nós vamos fazer o que ela mandou?
— É o jeito né? –A mais velha falou sem outras opções.
— Você sabe como se limpa casa? – A pequena perguntou encarando todos os produtos e objetos dentro do armário de limpeza da tia Li.
— Eu já vi a mamãe fazendo algumas vezes. Acho que tentar é melhor que nada não é? – Bridgitte falou tentando passar confiança para a irmã.
— Deve ser... – Mari disse incerta.
Então as duas tentaram fazer o serviço pesado que tinha sido entregue a elas sozinhas. Sinceramente seria melhor se elas não tivessem feito nada. Quando Li voltou trazendo consigo seu mais novo namorado eles encontraram a casa pior que estava antes: as meninas tinha arrastado os moveis tentando limpar embaixo deles, elas acabaram quebrando alguns pratos que tentaram lavar, mancharam as coisas com os produtos... Tudo estava um caos. E claro que Li não deixaria aquilo impune, pediu para seu namorado voltar outro dia e trancou todas as portas e janelas fechando também as cortinas. Enquanto ia ao seu quarto pegar um cinto as meninas se esconderam, em vão, pois a mulher conhecia a casa muito melhor que as duas. Quando ás encontrou estava com a face mortalmente séria.
— Isso foi algum tipo de brincadeira de mau gosto? – Perguntou segurando o cinto com força.
— Nós tentamos limpar! Eu juro! Nós te dissemos que não sabíamos o que fazer! – Bridgitte falou com o coração acelerado e os olhos cheios de desespero.
— Sem desculpas! –quando a mulher levantou o braço segundo o cinto de couro preto Bridgitte fechou os olhos tentando se preparar para a dor que sentiria em seguida, se surpreendendo quando ouviu um grito ao seu lado. Abriu os olhos a tempo de ver o cinto acertar as pernas de sua irmã. Bridgitte tentou estender a mão pra ajudar a irmã, mas seu próprio braço foi acreditado pelo impacto forte do cinto. Ela gritou e lagrimas começaram a descer dos olhos das crianças. Elas estavam assustadas, elas queriam seus pais, elas gritaram por ajuda, mas ninguém veio.
*
Levantei com os olhos arregalados e o rosto molhado pelas lagrimas. Aquele pesadelo de novo, o pesadelo que relembrava meu primeiro dia com a tenebrosa tia Li. Olhei para o meu lado na cama. Minha irmã estava dormindo. Olhei pela janela sem cortina encarando o céu limpo, estava um belo dia lá fora. Um belo dia que eu não poderia aproveitar de qualquer forma. Veja bem eu estou aqui com os meus dezesseis anos e as únicas coisas que faço são ir para a escola e ir trabalhar, já a minha irmã, que está com vinte e dois anos e já completou a escola, só trabalha o dia inteiro. O que eu mais queria era que ela pudesse fazer uma faculdade, mas seria impossível. Bem alguém deve explicar o que aconteceu com a gente depois de irmos para a casa da demônia escrota da Li não é mesmo? Bom nós sofríamos todo santo dia sendo obrigadas a fazer as tarefas mais absurdas que aquela mulher nos mandava fazer simplesmente para satisfazer a porra do seu gosto sádico e se não fazíamos ou fazíamos qualquer coisinha errada sofríamos castigos, melhor dizendo torturas. Íamos para a escola e tínhamos que fingir que não estava acontecendo merda nenhuma com a gente e não podíamos ter amigos porque ela não queria que ninguém fosse próximo de nós e acabasse descobrindo o que ela fazia. Quando o pessoal das autoridades vinha para a “nossa casa”, que eu definiria melhor como inferno particular, nós fingíamos que estava tudo ótimo e que a Li era um anjo que caiu do céu diretamente na nossa vida e a mulher nos maquiava de um jeito que todos aqueles produtos de beleza cobrissem nossos machucados e ninguém reparava nada. A Bridg, que sempre foi mais corajosa e esperta que eu, sempre estava ameaçando a mulher dizendo que ia contar tudo, mas Li a chantageava dizendo que ia fazer algum mal pra mim antes mesmo da policia aparecer então minha irmã calava a boca e aturava aquilo por mim. Depois que a Bridg fez vinte anos ela saiu da casa da Li mesmo que a mulher ficasse dizendo que ia me machucar e muito eu consegui convencer a Bridgitte a sair, naquele dia eu sofri mais do que em qualquer outro, mas valeu a pena porque assim que conseguiu a Bridg levou a policia para a casa da Li e eles finalmente descobriram tudo que estava acontecendo! Li foi presa e a minha guarda ficou com a minha irmã. No começo ficamos morando na casa da Li, mas nós duas sabíamos que não íamos suportar ficar naquele lugar então a Bidgitte começou a trabalhar como empregada domestica e conseguimos alugar uma casinha bem simples no subúrbio. Apesar de todas as dificuldades a gente conseguia sobreviver. Agora com dezesseis anos eu também estou trabalhando como empregada só que bem menos que a minha irmã.
Eu respirei fundo, mais um dia cansativo pela frente estava nos esperando. Eu balancei de leve a minha irmã pra ver se ela acordava.
— Up Ladybug... – Ela resmungou alguma coisa meio cantarolando no meio do sono.
— BRIDGITTE LEVANTA! VOCÊ VAI SE ATRASAR PRA SUA ENTREVISTA PORRA! – Gritei no ouvido dela, o que fez ela levantar agoniada.
— É O QUE MENINA? PORQUE VOCÊ NÃO ME LEVANTOU? – Ela gritou com os olhos arregalados, hoje ela teria uma entrevista de emprego para trabalhar na casa de uns ricaços que pagariam muito bem e ela estava totalmente empolgada com isso.
— Tô tirando uma com a sua cara. Ainda tá cedão. – Falei desviando de um travesseiro que ela jogou na minha direção.
— Sua maldita! Devia ter me deixado dormir! – Ela resmungou.
— Se eu deixasse você reclamaria de qualquer jeito! – Falei saindo do nosso pequeno quarto e indo para o banheiro no corredor.
— É verdade. – Bridg disse me seguindo. – Vou fazer o café da manhã! Vai querer pão com manteiga ou manteiga com pão? – Falou ironicamente.
— Oh que decisão difícil! Decida por mim! – Falei brincando enquanto pegava a escova de dente e o creme dental.
Depois de nossa rotina simples de higiene matinal e café da manhã a gente se despediu brevemente e rumamos cada uma para seu caminho, eu indo para a escola e ela para a entrevista de emprego lá no bairro nobre. Cheguei na escola observando o lugar notando os detalhes novos: uma pichação esquisita e aleatória nova no muro esverdeado cuja pintura já estava bem gasta, um chiclete recentemente colado na calçada, um casal qualquer escreveu suas inicias com canetinha no portão, nada de mais. O portão já tava aberto e lá dentro já estavam vários adolescentes agitados e zoeiros gritando uns com os outros só de brincadeira e fazendo suas coisas. Tudo muito movimentado e agitado como sempre. Eu caminhei calma até a cantina para pegar uma fruta qualquer pra mastigar, só porque não tinha nada melhor pra fazer mesmo. Cumprimentei a tia da cantina, peguei uma maçã e comecei a conversar com ela. Pois é as tias da cantina, que no casa do minha escola são as mesmas da limpeza, são as melhores pessoas né? Elas são gente boa e sempre conversam comigo. Eu não tinha amigos na escola, mesmo depois do tempo se passar eu ainda estava meio desacostumada a ter amigos. Claro que eu não era uma antissocial esquisitona que ficava calada o tempo todo e me isolava, eu só não era muito chegada nos outros alunos e não andava com nenhum grupo. Conversava com eles vez ou outra e até achava eles gente legal, mas não chegava a uma amizade de verdade. Fora dali eu também não tinha amigos, afinal assim que me via fora da escola não tinha tempo pra falar com ninguém, era só trabalho e nos meus intervalos eu fazia os deveres da escola. Eu estava meio distraída pensando em coisas aleatórias e olhando para o nada, encostada no muro da parte de dentro da escola quando uma das funcionarias veio segurando um balde cheio de agua e alguns produtos de limpeza para me cumprimentar.
— Ô Marinitte você vai ficar aqui fora matando aula menina? – A mulher perguntou meio que já pronta para me dar um sermão.
— O que? O sinal já bateu? – Perguntei meio confusa e assim que ela assentiu eu corri pela escola rumo a minha sala. – Desculpa o atraso! – Falei assim que abri a porta da sala.
— Como sempre né Marinette? – Um aluno lá no fundão comentou rindo, eu ri meio envergonhada.
— Isso já é o que? A décima vez esse mês? – A professora perguntou cruzando os braços. – Senta logo antes que eu perca a paciência! – Ela falou apontando para a primeira carteira da segunda fileira, a minha carteira no caso.
Eu me sentei em silêncio deixando a aula continuar. Essas cenas de atraso eram bem comuns da minha parte então as pessoas já quase nem falavam nada, algumas vezes a professora dizia que ia chamar a minha irmã para conversar com ela sobre isso, mas só ficava na ameaça mesmo. Na maioria das vezes eu me atrasava porque acabava dormindo encostada em algum canto na escola por causa do cansaço que era trabalhar de empregada e estudar no dia anterior e todo mundo da escola já entendia isso. Com o passar das aulas o sinal tocou, para a alegria dos outros e a para a minha infelicidade, indicando o fim da aula. Não que eu gostasse muito da escola, é que eu só preferia ela do que ficar limpando a casa dos outros! Respirei fundo e fui andando até o ponto de ônibus perto da escola. O ônibus para o centro chegou e eu entrei esperando chegar em frente ao prédio onde ficava o apartamento em que eu trabalhava. Chegou e eu entrei rapidamente cumprimentando o porteiro que já me conhecia e indo direto para o elevador. Ele subiu, como sempre de um jeitinho lento e com aquelas musiquinhas insuportáveis de ruins que eu posso jurar que devem ser o motivo de muitos suicídios por ai, e me deixou no ultimo andar. Andei até a porta do apartamento e a dona, Alicia Viena, cabelos longos meio ondulados e castanhos, pele clara e olhos também castanhos, uma jovem de vinte e cinco anos que era... Hum... Artista? Bom ela era uma comediante. Trabalhava em um clube de comedia que até que era bem popular e recebia muito bem. Super simpática, eu adorava ela, mas claro tinha um defeito terrível: era terrivelmente desorganizada.
— Mari! Olha eu tô meio apressada hoje, mas... Uh... Se você não conseguir arrumar tudo eu vou entender, mas... Veja bem hoje é meu aniversário e vai ter uma festinha aqui em casa, então eu queria pedir pra você tentar deixar tudo pronto antes de eu chegar! – Ela explicou ajeitando a armação dos óculos que estava caindo e ao mesmo tempo tentando segurar uma sacola que continha as roupas que ela usava no clube.
— Ah claro. Eu vou dar o meu melhor. E feliz aniversário dona Alicia! – Eu falei sorrindo.
— Obrigada! Mas pelo amor do pão de queijo só Alicia, eu já tô ficando velha se ouvir tu me chamar de dona eu tenho um ataque do coração! – Ela disse me fazendo rir um pouco já andando até o elevador e acenou pra mim sorrindo. – Ah é! Marinette! Porque o esqueleto queria um amigo?
— Por quê? – Perguntei já sorrindo.
— Porque ele tava sóOSSINHO! Entendeu? Sozinho? Sóossinho? – Ela falou rindo e a porta do elevador se fechou com ela lá dentro, rindo da própria piada. Eu soltei mais uma risadinha e empurrei a porta que já estava aberta. Entrei olhando ao redor e o meu sorriso já se desmanchou. “Como é que ela consegue fazer isso tudo?” eu me perguntei olhando pra puta da bagunça daquele lugar: várias embalagens de coisas como chocolate, salgadinhos e miojo estavam espalhadas pela sala, umas cinco latinhas de refrigerante jogadas no sofá, revistas em quadrinhos em uma pilha no tapete, bolinhas de papel amaçadas e jogadas pra lá e pra cá, uns papeis espalhados, canetas e lápis de cor também estavam jogados em todos os cantos. Eu já citei que ela mora sozinha? Sim não tem nenhuma criança aqui, quem faz essa zona com gibis e lápis de cor é ela mesma, geralmente ela lê pra se preparar para seus shows de piadas e anota algumas. Quando fica entediada ela desenha suas próprias histórias em quadrinhos.
Eu coloquei minha mochila no sofá e fui pegar meu uniforme que ficava guardado no guarda-roupa da Alicia, pois é ela confia em mim a ponto de me deixar mexer livremente no guarda-roupa dela. Meu uniforme era basicamente um daqueles de maid de anime só que um pouquinho mais simples, que a própria Alicia tinha feito para ela usar em uma festa a fantasia, mas não serviu nela então ela deu para mim. Uma vez ela me pediu para ficar fazendo pose com ele para ela me desenhar, e até que ficou bonitinho. Depois de me vestir eu fui fazer o meu trabalho. Eu arrumei o quarto dela, tirando algumas roupas do chão e colocando no cesto de roupas sujas, dobrando as roupas de cama, recolhendo alguns papeis do chão e colocando nas devidas gavetas na cômoda. Joguei todas aquelas porcarias espalhadas pela sala no lixo e arrumei o que prestava em uma prateleira. Fui para a cozinha para ver o que tinha para fazer lá e me surpreendi vendo três vasilhas de plástico da Tupperware em cima da mesa com um bilhetinho em cima. “Mari comprei comida demais para a festa então quero que você fique com isso ♥ xoxo ♥ Alicia PS: Tem muito bolo na geladeira! Pode levar um deles também!” Abri os potes no primeiro estavam alguns salgadinhos, no segundo docinhos e no terceiro sanduiches pequeninhos. Sorri, porque eram bem raras as ocasiões em que eu podia comer essas coisinhas maravilhosas de Deus. Fechei tudo de novo e resolvi deixar para levar para a minha casa. Olhei para a pilha de vasilhas sujas na pia. Ok, voltando para o trabalho.
No meu horário de almoço eu comi algumas das coisinhas que a Alicia tinha me dado e terminei a maior parte dos meus deveres da escola, logo depois voltando ao trabalho. Quando deram umas seis e meia, por aí, eu terminei tudo e fui tirar o uniforme, e assim que estava saindo do apartamento, já com os meus devidos presentes guardados na mochila, encontrei Alicia saindo do elevador sorridente conversando animada com algumas amigas. Eu cumprimentei elas, que eu já conhecia por virem muitas vezes para cá, e elas me convidaram para ficar para a festa, mas eu disse que precisava ir para a casa para terminar o resto dos deveres que eu ainda não tinha feito. Elas ainda insistiram muito para eu ficar, realmente todas eram muito simpáticas e gentis comigo, mas depois aceitaram que eu precisava ir. Eu não queria fazer desfeita, mas precisava mesmo voltar pra minha casa. Me enfiei em um ônibus lotado que ia pro Morro do Milagre* e fiquei em pé espremida no meio de duas mulheres irritantes que não paravam de brigar por algum assunto pra o qual eu tava pouco me ferrando. Depois de um momento infernal naquele ônibus eu finalmente pude sair em uma caminhada do ponto de ônibus pra minha casa. O céu já tava escuro e alguns botecos estavam lotados de caras bêbados, combinação perfeita pra uma merda na certa! Eu tava passando por um deles quando ouvi um daqueles assovios inconvenientes seguido de uma cantada barata que eu resolvi ignorar, pensando que isso bastava, mas não. Um cara levantou do banco onde tava sentado e veio atrás de mim, eu apressei o passo, mas logo senti meu pulso ser segurado com força.
— Que isso gostosa? Fugindo de mim? – O ser perguntou com a voz arrastada e bafo de cachaça, puta que pariu que combinação tenebrosa.
Eu consegui soltar meu pulso e empurrar o cara para o chão e corri, mas quando ainda não estava muito longe do cara eu senti algo bater com força no meu tornozelo, olhei pra baixo e era uma garrafa de vidro quebrada que o cara jogou em mim, e, puta merda, aquilo tava doendo, mas eu conseguia suportar, já passei por coisa pior. Voltei a andar, agora mais devagar e com dificuldade, e o cara se levantou meio tonto vindo atrás de mim, o que me deixou em um estado de desespero completo. A qualquer momento ele poderia me alcançar e com a perna do jeito que a minha estava eu não ia conseguir correr então ele faria comigo o que quisesse. Aquele pensamento me deixou mais desesperada ainda e eu ouvia os gritos do cara pra mim, coisas como “Fica quieta aí sua vadia!”, até que algo inesperado aconteceu: eu senti uma mão me puxar para um beco escuro e me prensar em um canto coberto por caixas. Merda, merda, merda, merda, merda! Agora que ferrou tudo de uma vez! Meu coração estava acelerado e a respiração também, meus olhos tentavam distinguir alguma coisa, mas a escuridão era muita então não ia rolar de ver nada ali naquele beco úmido e pequeno. Eu já estava prestes a começar a gritar quando senti a outra mão da pessoa tampar a minha boca.
— Shh! Fica quietinha! – Eu ouvi a pessoa sussurrar no meu ouvido bem baixo.
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