Pacto e Dignidade

1 Capítulo Único.


Notas iniciais
- Depois de ver páginas avulsas do capítulo 16 de Saintia Sho, me deu vontade de escrever sobre os dois. Não consegui mostrar tudo o que eu queria, mas está ótimo assim. :3

- Escrita ao som da OST de Loveless. É muito linda, né, gente? ♥

A sensação do rubro descendo por sua alva pele preenchia o coração maculado –no entanto, casto- com melancolia e desespero. A mão comprida e delgada segurava em punho a adaga dourada que rumava ao peito do moreno, este que induzia o fim do sofrimento. O sangue vertendo da ferida por impedir a arma era o sinal de que aquele não era o momento para Saga prosseguir com seus planos doentiamente emotivos.

― Solte a adaga, Aphrodite! É uma ordem!

Os olhos azuis tão profundos expressavam dor em companhia de sua sobrancelha torcida em dor de ver a intenção do Patriarca. Um contraste belo e dramático com o seu rosto e postura sempre tão polidos e indiferente à tudo em sua volta. Puxava o ombro do mais velho que estava de costas para si para não deixar margem para que pudesse anular a imobilização. Ignorou com veemência o imperativo do guerreiro.

― Não seja ridículo, Saga – Retrucou com o tom surpreendentemente calmo e firme em relação ao seu olhar de um oceano em revolta.

O geminiano ainda tentou se repuxar para soltar-se do sueco, mas fora em vão, devido à situação de fraqueza que implicava à física e a severa força do seu protetor.

― Não basta a vergonha de ser quem eu sou, ainda tenho que suportar a sua compaixão?! – O abafamento de sua humilhação exposta em voz por ser pego naquela cena marcante teve como oriundas lágrimas caindo em seu colo agachado ao chão. – Basta!

Naquele momento, Aphrodite sentia-se impotente por não ter como aliviar a dor de sua pessoa admirada. Será que a sua proteção e fidelidade não eram suficientes? Ele precisava de mais?

Como ele poderia ser mais se no coração de Saga o único que por quem ele reservava amor era Aiolos? E não apenas amor, porém também arrependimento. Sentia-se invisível quando o assunto era o sagitariano. Não adiantava em nada ser o mais belo dentre os oitenta e oito santos se o seu amado não o enxergava; era apenas a criança desolada e solitária que chegara ao Santuário e que viu no Saga um herói, um ícone grego. Uma paixão desoladora, capaz de cometer genocídios em seu nome e desejar escuramente a morte de quem lhe fizesse mal. E assim desejado, assim aconteceu.

Com sua intuição sempre percebeu a amorosidade e rivalidade equiparada de Saga para o outro grego. Aquilo faria danos irreparáveis no geminiano. Seria apenas o acumulativo de sua natural loucura. O que previu se realizou: Saga se culpava pela sua loucura e pela morte de seu melhor amigo e amor. Sabia disso.

Porque pegara Aphrodite para ser seu confidente desde antes do ocorrido da “traição”. Era seu pequeno conforto, aconchego e ouvido carinhoso por trás da máscara fria que suspendia em seu belo rosto. Prometera lealdade e afinco para preservar a imagem vulnerável de Saga. De todos, apenas o guardião de Peixes conhecia a faceta frágil, doce e delicada do mais ardil dos santos.

Somente ele poderia protegê-lo de conspirações do mal, manter a pouca sanidade que restava nele, e enchê-lo de confiança devido à sua compreensão.

Isso apenas para Saga. Porque, para Arles, Aphrodite usava a sua persona cruel, inescrupulosa para poder cumprir suas missões. Teria que recorrer à essa quebra de ética para ficar ao lado de seu amor, sendo seu escudeiro não importando qual personalidade se mostrasse. A sua moralidade desaguou no momento que passou a fidelizar seu amor à Saga e duvidar da competência de Athena. Não teria como voltar atrás; e nem queria.

Não via outra alternativa que não fosse agachar-se junto ao decadente. De joelhos e frente ao geminiano, largou a mão detentora após assegurar-se que o afetado não faria nada. Acariciou o rosto ornado de linhas angulosas e sujando-o do seu sangue na maçã do rosto. O rosto estava fitando o chão em própria repugnação. Levantou com gentileza, para que pudesse olhar em seus olhos.

― Eu fiz uma promessa, Saga. Não creio que você já tenha se esquecido. – O seu polegar trilhou até embaixo do olho com um rastro de sangue brilhante por conta de sua armadura refletir a luz.

As palavras repletas de amor oculto e companheirismo fizeram com que o corpo todo de Saga tremesse.

― Não quero você desviando de seu caminho por causa de minha loucura, Aphrodite. Você é um Santo de Athena! Você não está sendo enganado como os outros! Tem perfeita noção de tudo o que está havendo. Então por que continua me seguindo? – A garganta enrouquecia com a emoção à tona. – Você tem ideais, Aphrodite... – Como um suspiro temeroso, soltou.

Com enigma, um sorriso curvou-se no feminino rosto do loiro. Desceu os dedos até a mão próxima à adaga largada ao chão, pegando-a e trazendo aos seus lábios delineados como se fossem de anjos. O sangue também encostou-se em sua boca o fazendo sentir o ferro colidir com sua língua apurada.

Não disse nada. Apenas fizera aquele gesto de profundo respeito diante do Patriarca.

Aquele era um pacto. Um silencioso pacto que ele mesmo requisitara.

― Não volto atrás de minha palavra. Não importa os meus ideais. Importa o que eu protejo, que é a paz que eu procuro do meu jeito e você, ó, Patriarca. Não deixarei que nada lhe aflija. Cuidarei de você mais do que a minha própria vida. Estarei com você até a minha morte – Uma gota translúcida derramou-se sobre a mão acarinhada de Saga. – Morrerei por você. Isso é o que posso garantir de minha dignidade.

Vendo sinais do aparecimento de Arles pelos espasmos do geminiano, levantou-se estoicamente. Não desejava ter que se dar ao desgosto de ver algo extremo como aquilo, em oposto do meigo Saga.

Colocando a rosa em sua boca e esvoaçando a capa ao virar-se de costas e rumar à saída, pensou que fora uma boa idéia ter ido ter-se com o Patriarca para relatar a sua missão da Ilha de Andrômeda. Acabou por não relatar em palavras e preferiu redigir uma carta. Deixou antes em cima do trono no Salão, um pouco antes de ver a tentativa de suicídio nas dependências que insistira em vasculhar por estranhar a ausência do tirano.

Com a tarefa cumprida, e o coração transbordando de maus pressentimentos, fez seu caminho ao Templo de Peixes. Em poucas horas, travaria a última batalha como um Santo de Ouro.

Com certeza –e com todas as suas forças- protegeria a integridade do seu querido e amado tutor.

Nem que isso custasse a sua própria dignidade e vida.

Notas finais
Conselhos? Críticas? Elogios? ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!