Pacto No Desespero
6 Capítulo 05
O som de múltiplas gotas caindo em lacunas de tempo diferentes, cria uma caótica orquestra de confusão e desordem. Em meio a este barulho que se propaga, como chuva sobre a terra seca, desperto.
Algo cálido afaga meu peito, como um gesto gentil que demonstra carinho. E mesmo não conseguindo me mover, sinto que flutuo no que parece ser uma banheira gigante de água quente ao passo que se torna fria.
Com grande dificuldade e, depois de muitos intentos falhos, abro fracamente minhas pálpebras. E mesmo que estas, não permitem a passagem de uma visão plena ao meus olhos, enxergo um feixe de luz brilhar no céu escuro como se fosse um raio eterno que se mantem aceso no céu.
A luz, embora escassa, é demais para minha fraca visão. E por isso cerro novamente meus olhos para poder descansar. Pois um cansaço gigantesco apoderou-se do meu corpo antes que eu me desse conta.
Eu não sei o que está acontecendo comigo. Mas verdadeiramente é bom para mim, de um jeito estranhamente inexplicável. E de livre espontânea vontade me entrego na sensação e perco por completo meus sentidos.
Em verdade, como dois ursos lutando pelo único salmão do rio, vejo preso entre o olhar penetrante de duas pessoas. Apenas estranhos aos meus pensamentos, quando nele eu busco, ao passo que me são familiares.
Os encaro, e ambos retribuem com seus rostos inexpressivos.
Um homem, um garoto.
O mais velho vestido de forma elegante exala poder e alto confiança, com sua pele alva e imaculada adornada por negros fios reluzentes de seus cabelos e barba. Olhos profundos rivaliza em cor, com a de seu terno azul. É o retrato fiel da mais pura grandeza que o dinheiro pode proporcionar a um ser humano.
O mais jovem, trajando trapos sujos, rasgados e gastos pelo longo tempo de uso, esconde uma constituição franzina e atrofiada pela falta de nutrientes para seu desenvolvimento. No semblante de seu rosto magro e pequeno, grandes olhos azuis abrem passagem a longos fios vermelhos que cai cascatas onduladas. Traços belos, embora não seja o suficiente para esconder da luz as muitas cicatrizes que se pode ver na pele branca de seus braços e pernas. Fraco, patético, o retrato da mediocridade. O mais baixo que alguém poderia chegar antes de seu fim.
No escuro rumo um passo, na direção de ambos. Porém não como espelhos, mas como miragens no deserto, suas imagens tremulam ameaçando se dissipar ao nada como resultado de meu avanço.
Em mais um passo, e como supunha, ambos se desmancham em dois raios de luz. E no último resquício de brilho, ambos converteram-se em agulhas que disparam em minha direção, perfurando assim meus olhos.
Tomo fôlego para gritar de dor, porém não consigo fazê-lo. Imobilizado pelo nada, caio para trás. Alguns instantes se passam, a dor em algum momento abandona-me, ou talvez nunca tenha existido. Meu corpo se torna duro, como uma pedra de gelo, ou talvez como o cimento fresco, que com o passar do tempo se torna solido, e imutável.
E assim eu passo a existir, compartilhando meu breve adormecer com o despertar alcalino do vazio. Até que, como duas chaves, as agulhas que me perfuraram os olhos, destrancaram as portas de lembranças há muito seladas dentro de meu ser.
Um maremoto de lembranças varre o nada da ilha que outrora eu concebo como racionalidade. Eventos e acontecimentos de uma vida distante, de um passado que não é meu e, ao mesmo tempo tão recente e presente como se fosse.
Dois redemoinhos de memorias, se fundem, e cria o caos e, em meio dessa nevoa de confusão e da incredulidade do que do sou, do que eu deixei de ser e do que me converteria no futuro. Algo em mim se quebra, e pelas chamas da desordem, se reforjam em algo novo.
O ar me falta aos pulmões. Em pânico, por estar me afogando, começo a tossir freneticamente expulsando com o ato a lama negra que preenche minha garganta.
Respiro bem fundo para encher meus pulmões do tão necessário ar, em meio a pequena tosses. Faço esforço para me levantar, só que não consigo. E em um surto de adrenalina, ou pânico, abro meus olhos, e faço o máximo de força para me por de pé, mas logo estremeço ao descobrir que é em vão, algo me priva da força necessária para tal movimento. Depois de muito debater-me, comigo mesmo, descubro que a única parte móvel é minha cabeça.
Como um soco forte de lucidez, ou loucura, me entrelaço nos caminhos tortuosos e conflitantes de minha mente
Por um instante paro de tentar me levantar, e olho para a luz em formato de raio que brilha ao que parece ser um céu noturno.
— Eu estou morto? — Pergunto para todos e para o nada em busca de uma resposta em meio ao escuro. — Ou estou vivo? Sou Gnar ou Robert? — Volto à pergunta ao silêncio, não esperando ouvir uma resposta, mas mesmo assim a desejando. Minutos se transforma em horas enquanto navego entre as correntes de memórias estilhaçadas, como um quebra cabeça de vidro. E a cada intento de formar algo ao juntar as peças, só trago para mim mesmo feridas que jamais podem ser completamente curadas.
Sigo navegando ao custo impagável que a confusão cobra a mim mesmo, na busca para formar o que não detém forma, construir o que fora quebrado. E assim começo a vislumbrar lembranças de tristeza, felicidade, amor, arrependimento, raiva e principalmente a lembrança da insaciável sede por vingança.
Em uma alta gargalhada, desperto de meus loucos e profundos devaneios.
— Que vida fudida a minha...- Digo entre risos desenfreados. — Alguém lá em cima é um filho da mãe que gosta de fuder comigo. — Afirmo soltando outra gargalhada. — Morto pelo meu ex e pelo meu pai, isso é hilário. – Começo a sentir a raiva me dominar. — Mas onde diabos eu estou? Isto não pode ser o paraíso e está calmo demais para ser o inferno... Então a morte é isso. — Indago a mim mesmo novamente, em voz alta.
Instantes se passam, e a cada segundo, que se torna passado, as coisas se tornam menos confusas, e mais claras para mim. Eu era Robert, o maior traficante do mundo, e depois eu fui Gnar o aspecto do lixo. Mas isso eu já sabia, porém o que me inquieta é o que de fato eu sou agora.
— Por meio de um míssil e por meio de uma mão. Um mundo de tecnologia e prazeres capitalistas. E outro de força espiritual e imortalidade. — Sussurro, em voz baixa.
Tudo está claro para mim. Mas não tenho o que fazer, por isso me conforto em fechar os olhos e deixar o tempo passar.
Horas a fio passaram-se. E o tedio cresce como um monstro que ameaça a engolir minha paciência. Não encontrando mais alternativas, que pudessem me entreter por mais tempo, abro novamente meus olhos.
Fixo minha visão e foco minha atenção no estranho raio que se mantém aceso no céu.
Muito tempo se passa até que finalmente que percebo que o feixe de luz que emana do raio, muda o trajeto de sua iluminação. E neste momento me dou conta de que só havia uma explicação plausível para essa mudança de direção. A luz do sol.
Pois diferente do que supus a princípio, não é um raio e sim uma estreita fenda, no que parece ser um buraco ou caverna muito profunda.
— Espera um instante, mesmo que não me lembre do pós morte, não deveria ter uma fenda banhada pelo sol, ou será que deveria? – Questiono pensativo. — Isso quer dizer que eu provavelmente não estou morto cacete.
Me emociono, com esse novo fiapo de esperança. E me agarro a ele, como se fosse a corda para minha salvação.
— Mas o buraco...- Sussurro com temor. Mas, mesmo assim, direciono minha atenção ao meu peito.
Escuro, a franca luz que entra pela fenda é escassa demais para prover uma iluminação que eu possa ver meu próprio peito diante de meus olhos. Porém neste momento, ao direcionar direciona-los, um pouco mais para cima, vejo o contorno da forma de uma pequena pedra, não muito maior que um punho fechado, flutuar bem em cima do local, onde fui perfurado.
— Meu espírito!? Eu estou vivo?! — Exclamo em um misto de certeza e descrença. — Se eu conseguir sair daqui, eu juro por todos os deuses, deste e todos os mundos, que farei com que cada um dos malditos Marlleos caiam nas profundezas do inferno. – Selo minha promessa em um grito de frustração por não poder me mexer.
Os sons das gotas de água que caem, ressoa mais calmamente, e penetra profundamente em meu ouvidos, quando uma pálida e esbranquiçada luz surge atrás de mim.
Com a nova fonte de luz, vejo com clareza meu espírito de pedregulho flutuar sobre o buraco em minha roupa, enquanto direciona um feixe fraco de luz preta para onde deveria ter um buraco no meu peito.
— Você me curou? -Questiono, surpreendido, mas não obtenho resposta. — Agora eu tenho a derradeira das provas, eu não estou morto. – Afirmo a mim, mesmo para afastar qualquer possível dúvida ainda latente.
Uma satisfação toma conta de mim. E no caminho de um sorriso, me contenho ao perceber que alguns feixes de luz contínuos, sir do pedregulho e se perderem no meio da escuridão.
— Teu desejo de vingança, me despertou. — Um voz grave e inumana ecoa pelo lugar, fazendo minha nunca formigar em um arrepio.
Rapidamente giro minha cabeça para trás para ver de onde veio a voz, mas é inútil, pois como não consigo me mexer da forma que quero, meu campo de visão é limitado.
— O ódio que nutri em teu coração é doce. Porém não conseguirá sua vingança, pois a cada instante está mais perto da morte.
— Morte, eu estou vivo e bem. — Afirmo.
— Teu espírito está te mantendo vivo, sugando a força vital dos peixes abaixo. No momento em que a última fagulha da vida deles se apagar, a tua também se desvanecerá.
— E o que isso tem a ver com você? – O indago.
Não sei com quem ou o que eu estou falando. E ao olhar para minha situação, algo em mim me alerta de que em suas palavras podem haver alguma verdade nelas. Mas também eu não sou mais ingênuo o suficiente para confiar abertamente em uma voz estranha dentro de um buraco escuro.
— Estamos no limite. Não nos resta mais tempo ou escolhas, devemos nos unir ou morrer aqui de forma miserável.
— Você está morrendo também?!
— Para poder me comunicar, estou queimando o que resta de minhas forças. Logo serei tragado pela morte como um humilde mortal.
— Se ambos estamos prestes a morrer, não vejo como podemos nos ajudar.
— Criança, tua maldição é a benção que desejei ao longo de séculos.
— Você está de sacanagem comigo. — Suspiro me dando por vencido. — Achei que viesse algo que se aproveite dessa voz esquisita, mas parece que é só mais um bosta que se acha superior a mim.
— Os céus não me abandonaram. — Gargalha alto, ecoando um som semelhante ao grito de dor de inúmeras pessoas. — Teu segundo espírito despertou sem vida.
— Disso eu já sei, pois foi graças a isso recebi um belo buraco no peito. – Interrompo sarcástico.
— Um de seus espíritos, é uma serpente do tipo animal, mas ela não possui vida. Aos olhos do mundo marcial, um espírito que desperta sem vida é o pior dos infortúnios. Pois seu possuidor, não poderá cultivar com ele. Porém, para mim, é uma chance.
— Uma chance? Uma chance para que?
— De um novo começo.
— Poderia ser mais objetivo, ou isso está além de suas capacidades, voz medonha? — Digo sarcástico.
— Entregue-me o corpo de teu segundo espírito. Através dele, poderei renascer.
— Não. — Respondo instantaneamente.
— Por que recusa?
Começa assim, primeiro um espírito, depois o outro, e quando eu menos esperar estarei competindo com você pelo controle de meu próprio corpo.
— Não importa a força do mestre espiritual, as leis dos céus protegem os vivos. Independente de meu desejo, só poderei abitar um corpo sem alma, e somente uma vez.
— E mesmo que eu concorde, o que eu ganharia com isso.
— Em vida alcancei muito além da imortalidade desejada pelos seres fadados às mãos da morte. Renascendo como teu segundo espírito, serei tua sabedoria e poder.
— Como saberei que você não está tentando me enganar?
— Não saberá.
— Morrer, aqui, ou morrer sendo enganado por você depois. Difícil essa decisão. Mas preso aqui, morrerei de qualquer forma.
— Então aceitará?!
— Ainda não. Primeiro jure que cumprirá 3 condições e que jamais quebrará nosso acordo.
— Como desejar.
— Me proteja a qualquer custo, jamais tente fazer algo que me possa causar dano e só mate com minha permissão.
— Que assim seja.
— Então como isso funciona? – Pergunto depois de um tempo.
— Invoque teu espírito e o mande para mim. E com teu consentimento, me encarregarei do resto.
— E como eu faço para invocar meu outro espírito. Eu só o invoquei uma vez e não estou bem certo de como eu o fiz.
— Pense na forma de teu espírito, a cor, o formato, o tamanho, e deseje que ele se manifeste.
— Ok. – Digo e fecho os olhos, penso na forma que vi durante o ritual do desperta.
Abro os olhos e fito a pequena serpente, pouco maior que meu polegar flutuar em meio ao ar, completamente inerte.
— Agora que conseguiu, flua com tua vontade o corpo do espírito para mim. — Instrui.
Sigo o instruído, e a pequena cobra começa a flutuar em direção que vem a voz
Pouco a pouco, a luz diminui, até se apagar por completo, mesmo estando em um buraco, que não há qualquer sinal de saída, além do que a alta fenda no teto conta. Uma brisa unida começa a soprar e, não tarda para que sua passagem calma, se torne violenta. Longos redemoinhos de vento encobertos pelo manto da escuridão açoitam contra minha face, me obrigando a fechar meus olhos.
As gotas que caem como uma chuva perpetua pela infiltração da água entre as rochas muda suas direções seculares, atingindo muitas vezes meu corpo.
Enrugo vez ou outra, minha expressão ao sentir o toque do frio congelante daqueles pingos de água, que de tão dolorosos, se assemelham a pregos quentes, cuja a ponta afiada perfura minha carne.
O arrependimento, e o conformismo por aquela escolha, se embatem a cada novo segundo em um caos alienado dentro de mim. Quando de repente mesmo sem poder mexer meus membros, sinto meu corpo chacoalhar e uma estranha inquietação reverbera como uma boca faminta, que me devora avidamente ao passo que me sana as feridas, provocadas por seus dentes. A dor e o alívio consecutivos parecem que iria perdurar para sempre. Cerro minha mandíbula para tentar aguentar, e em vão tentativa, perco minha consciência.
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