Todos os anos antes do festival de adoração a deusa da lua Phanteia, é celebrada um ritual sagrado em todo o Arquipélago das 7 Ilhas. O despertar do espírito. Um rito de passagem para todo garoto e garota. Onde se define a força e valor de cada um.

— Aos 6 anos de idade toda criança com sangue do clã Marlleo tem alcançado o prestigioso primeiro lugar no ritual. Vocês carregam o nome do clã mais poderoso da Ilha da Caldeira, não existe lugar para fracasso. Deixem nossos ancestrais orgulhosos de seus brotos. – Anuncia o ancião, em tom severo para as 5 crianças sentadas no chão à sua frente.

Os ensinamentos aplicados pelo Ancião, é reservado somente para as joias com talento do clã e, como eu não sou um deles só posso ouvir ao longe, afastado, perto de um arbusto enquanto varro as folhas que ali residem secas sobre o chão.

É costume eu fazer isso. Pois mesmo que eu não pudesse participar diretamente, eu acredito que um dia eu posso me tornar alguém forte o suficiente para ser digno de estar entre os 5.

— Vovô se tiver alguém que não fique entre os primeiros? — Pergunta inocente a garota mais baixa do grupo, ao Ancião. Não se importando de usar o honorífico, pois este era seu avô.

— Maria, não diga asneiras, nossa linhagem é forte, eu os treino desde que começaram a andar, estou certo dos seus potenciais, por isso serão aqueles que se sobressairãoo ritual, não tenham dúvidas disso.

— E quanto ao Gnar? –Pergunta em um sorriso doce e inocente que mascara a malicia de sua intenção e, aponta o dedo para mim, sendo instantaneamente acompanhada pelos outros 4.

O Ancião, nem ao mesmo direciona sua atenção para minha direção, se resignando em soltar apenas um breve suspiro

— Há aqueles que nascem para a grandeza, já outros são estrelas de má sorte, que só trazem infortúnios. – Reponde a pergunta de sua neta.

— O Gnar deveria morrer por ser um lixo tão fraco assim, mesmo tendo o sangue do patriarca. – Sugere Mlut enquanto ajeita sua capa.

— Tem razão, irmã, mesmo possuindo a linhagem do grande patriarca, o Gnar só trará vergonha caso compareça no ritual. — Confirma Melt para sua irmã gêmea Mlut.

Antes do ancião tomar novamente o fôlego para falar, o grupo cedi ao humor e começam a gargalhar enquanto acrescenta comentários maldosos.

— Silêncio! — Ordena o ancião. — Tão jovens e já tem tanta consideração pelo seu clã, vocês deixam esse Ancião muito orgulhoso. Mas mesmo contra nossa vontade, é a lei, e a lei... – Para de falar, e espera que os 5 completem sua frase, como um teste.

— Deve ser protegida e cumprida. — Todos os presentes falam em um único som.

— Muito bom. – O ancião elogia.

— Como estão os preparativos, velho Clartis. – Pergunta o homem que chegara, trajando uma armadura de couro preto, com uma enorme fivela de prata com entalhe de um martelo e uma bigorna, que cobri toda a barriga. Vindo pelo corredor lateral direito que dá acesso ao pátio que estávamos.

— Meus respeitos ao patriarca. — O ancião, muito mais velho que o homem à sua frente, curva sua cabeça em reverência.

— Nossos respeitos ao patriarca. — Curvaram-se em seguida todas as 5 crianças imitando o gesto do mais velho.

— Os preparativos estão de acordo com o planejado? – Pergunta o patriarca.

— Sim, estas crianças vão despertar a grandeza. Segundo nossos informantes não há nenhum jovem em toda a Ilha da Caldeira que supere suas habilidades. Durante o ritual, elas não perderam para nenhuma criança de outro clã.

— Isso é bom, nosso clã rendeu bons frutos nesta geração. E quanto aos meus 2 filhos? – Encara os dois garotos ansiosos à frente.

— Eles são excepcionais, dentre os 5 Clark e Thresh são os mais talentosos.

— Meu sangue ferve ao imaginar a face daqueles bastados quando virem a força do futuro de nosso clã. Você fez um excelente trabalho os treinando. – Elogia o ancião.

— Não mereço tamanho reconhecimento do patriarca. – Curva novamente a cabeça, em agradecimento.

O patriarca estava preste a falar algo, mas se detém ao perceber minha presença.

— E quanto aquele ali? — Pergunta sem expectativa alguma na voz.

— Um cacho de uva azeda dificilmente dará um vinho doce, não importa o esforço e recursos que se gaste na sua fabricação. – Afirma, com certo temor por como o patriarca poderia reagir.

— Entendo! Não se culpe ancião Clarts, uma mancha não maculará sua contribuição. Caso o resultado for como você sugere, o recompensarei com a técnica de Punhos de Fogo. – Afirma.

O mais velho, depois de escutar a promessa do patriarca, baixa novamente sua cabeça profundamente agradecido pelo tamanho tesouro que iria repousar em suas mãos em pouco tempo.

— Não tenho palavras para expressar minha gratidão à sua figura magnânima, grande patriarca.

— O ritual exigirá muito de todos vocês, descansem bem hoje. Pois amanhã, terão a oportunidade de cada um mostrar seu valor. Por isso quero os 5 em suas melhores condições.

— Sim, patriarca. – Todos os 5 baixa as cabeças ao receber a ordem do patriarca, e juntos se retiram em silencio do pátio para fazer o ordenado.

Uma brisa fria e salgada chacoalha as árvores ao redor, fazendo algumas folhas cair no chão tortuosamente.

Com um olhar duro o homem de preto se dirigi a mim. A cada passo que dava meu coração acelera dentro do peito e eu já não consigo manter meu olhar erguido, só pude mirar seu pés e as folhas que se retiram de seu caminho quando este passa, devido ao poder que emana de seu corpo.

Em instantes ele já está a poucos passos de mim. Seu olhar frio de incalculável desprezo carregado de força espiritual esmaga meu corpo ao ponto de eu não mais suportar ficar de pé. Caio de joelhos enquanto meu corpo é embebecido de suor, minha visão turva-se e eu já não consigo manter minha própria respiração normal. Em um ato desesperado abro a boca em busca de ar cuja ausência me destroça os pulmões. Porém não consigo inspirar ar que satisfaça minha necessidade cada vez mais gritante.

A saliva de meus lábios escapa e escorre à medida que meu peito arde como se estivesse sendo atravessado por uma lâmina em chamas.

— Amanhã. – Diz em voz grave, fazendo meu corpo tremer de pavor ao seu som. – Se tu não conseguires uma boa qualificação não precisa voltar. Ou melhor, não haverá lugar aqui para você. Seja homem uma vez na sua vida. E retire sua vida, não suje o nome do meu clã com sua imundícia fraca e patética. – Afirma por fim, já certo do que iria acontecer.

— S-Sim, grande patriarca. — Digo gaguejando com o que resta de minhas forças e, antes do meu pai se virar para ir embora u já me encontro desacordado no chão.

Pelo bico de um corvo faminto sou arrancado de minha inconsciência e trazido à plena lucidez em um grito de dor, que assusta a ave quem grasnando voa para longe deixando uma de suas plumas pretas cair.

Olho a pena descer tortuosamente por causa da brisa que sopra e antes desta cair no chão, levo meus dedos ao lábio e começo a sentir o gosto de sangue adentrar minha boca.

Suspiro aliviado que o corvo não bicara meu olho. E limpo o sangue com cuidado com a manga da minha camisa até o sangramento ser estancado naturalmente, e parar de brotar do pequeno, porém, profundo corte em meu lábio.

— Maldita fraqueza. — Soco o chão com toda a minha força, não me importando com a dor. — Se ao menos eu fosse mais forte eu não seria tratado assim. Mas, isso pode mudar, eu ainda tenho uma chance de merecer o respeito do meu clã e o reconhecimento do meu pai. — Falo para mim mesmo e levanto do chão sentindo meu corpo doer por ter apagado e passado a noite no chão frio.

Meus pés gelaram por um instante e rapidamente olhei para cima, para então suspirar aliviado. Pois ainda é um horário cedo e a cerimonia só terá início no final do dia.

Me aproveitando da hora, que só havia um ou dois criados na cozinha do castelo, corro em sua direção para pegar escondido ao menos uma fatia de pão, e se eu tivesse sorte um copo de leite de cabra. Pois para alguém como eu só era permitido comer depois dos serventes.

Depois de passar por muitos corredores, escuros e com cheiro de lenha queimada por causa da fumaça que subia das brasas das lareiras quase apagadas, chego à cozinha e, rapidamente me aproveitando de um descuido de uma das criadas, pego dois pedaços de pães sobre uma taboa de madeira no centro da mesa e enfio dentro do meu bolso, não me tardo as graças da sorte, e me retiro correndo do lugar para não ser pego.

Na esquina de um dos últimos corredores, que dá cesso para a parte traseira do castelo que faz fronteira com o Bosque do Orvalho de Sal, trombo sem querer em Clark, meu meio irmão.

O olhar de ódio em seu rosto era quase palpável, quando ele se recupera do tombo e olha em minha direção.

— Você fez de propósito seu lixo. – Vocifera se levantando.

— Me desculpa, irmão, eu não queria, me perdoe. — Pedi, sentindo meu coração apertar. Pois eu sabia que derrubar Clark é motivo para dias sem comida e chicotadas.

— Irmão? Não ouse me comparar a você, lixo! E como tem a coragem de me derrubar no chão, lixo. — Indaga acertando um tapa em minha face.

— Por favor senhor, Clark, eu imploro seu perdão, não me castigue. — Imploro desesperado.

A face enfurecida do maior, logo é substituída por um sorriso maldoso. Ao passo que deu em minha direção, ficando a centímetros de mim.

— Já que está tão arrependido, prove, ajoelhe-se como um cão e implore meu perdão.

Sem pensar duas vezes me prostro diante de Clark, até minha cabeça ficar rente ao chão.

— Eu imploro o seu perdão, irmão — Peço engolindo em seco.

— Não ouse me chamar de irmão novamente seu lixo. — Vocifera e pisa com força em minha cabeça.

Sinto o baque de repente, seguindo com uma dor lancinante à medida que ele pisa repetidamente em minha cabeça.

Já não mais podia aguentar, minha testa lateja em fortes lampejos de dor aguda e intensa, minha visão embaça com o sangue que jorra sem parar da pele gasta de minha testa. E cada vez que abro os olhos, entre os pequenos intervalos de suas pisadas fito o chão ganhar lentamente um tom de vermelho.

—Pare por favor, eu imploro perdoe-me. — Peço em fartas lágrimas.

— O que está fazendo, Clark? – Pergunta uma mulher que se aproxima, cuja voz me é familiar, mas minha lancinante dor não me permite recordar de onde eu a conhecia.

—Bom dia, mamãe. Eu estou apenas disciplinando um cão. Para ele saber o seu lugar. — Responde parando de pisar na minha cabeça.

Com a interrupção, e mesmo com minha cabeça prestes a explodir de dor, não ouso a levantar-me do lugar, apenas me dou por vencido e aceito o abraço das pedras gélidas do chão, enquanto lagrimas descem de minha face assim como o sangue. E na tentativa de me proteger pelo que poderia vir a acontecer, ou simplesmente para conter a dor que só cresce, seguro minha cabeça entre as mãos.

—Não suje sua bota, ela é feita de couro de baleia pelo melhor artesão de calçados das 7 ilhas. Ela custou uma fortuna, por que está a sujando quando hoje é um dia tão importante. Você tem que se encontrar impecável para o momento que você mostrara para todos o quão forte e poderoso meu filho é.

— Tem razão, mamãe eu não pensei nisso.

— Vamos logo você tem que se alimentar bem, precisará de toda a sua força. — Aconselha.

A dor em minha cabeça é insuportável, eu desejo gritar e chorar bem alto, mas temo em faze-lo devido ao medo que o barulho fosse atiçar a raiva de Clark e o lembrar que eu o derrubei.

Com a pressa de sua mãe, Clark, se esquece por um momento do ocorrido e começa a acompanhá-la para o salão central do castelo, quando de repente se detém e me fita uma última vez. E ao ver o sangue escorrer por minha testa e os espasmos de dor tremular meu corpo, ele sorri satisfeito. Porém antes de se retirar com sua mãe, percebe algo em meu bolso...

— O que é essa coisa branca em seu bolso — Questiona Clark e pega os pedaços de pães.

Pelo dito por seu filho, a mulher encara curiosa para minha direção.

— Esse pão é de muita boa qualidade para alguém como você poder comer. – Afirma a mulher.

— Ele deve ter o roubado da cozinha. – Desvenda, Clark.

— Não é de se admirar que além de ser um lixo inútil ainda por cima é um ladrão, só podia ser prole daquela cadela oferecida. — Diz furiosa. – Mesmo depois de morta ela ainda deixa este problema para nos trazer vergonha.

— O que faremos para disciplinar esse cão, mamãe?

— Por favor não me machuquem eu imploro. – Peço enquanto me esforço para conter o choro.

—Um lixo sem honra e um ladrão. Você é uma vergonha para todos. – Cospe em mim.

— Clark, você será o futuro patriarca do clã, você deve mostrar misericórdia. – Intervém a mulher, antes de seu filho, começar a pisar em minha cabeça novamente.

— Mas, mamãe, ele é apenas um cão, ele não merece um tratamento humano.

— Como ele teve a coragem de roubar pães feitos com o caro trigo que compramos dos comerciantes do continente por preços exorbitantes, mesmo sabendo que seria punido, devemos mostrar reconhecimento por seus feitos. Por isso meu, filho, como um futuro líder, deve aplicar uma punição adequada ao delito.

— Tenho que mata-lo? – Indaga esperançoso.

— Não suje suas mãos em algo tão pequeno. Apenas vá até o vaso de flores, perto da parede, e mistura esses pedaços de pães com a areia ali dentro.

— Sim, mamãe. — Obedece, em um largo sorriso.

— Tome cuidado para não machucar as flores há muitos botões novos, seriam uma lastima se não pudéssemos apreciar a sua fragrância por mais tempo.

— Já terminei, mamãe.

— Agora faça-o comer até o ultimo pedaço.

— Sim, senhora.

— Não, não, não por favor não. — Digo desesperado, sentindo dificuldade em abrir os olhos pela dor e pelo inchaço que se formo em cima destes.

— Não queria comer pão lixo, gora você vai comê-lo com recheio. — Afirma.

Com brutalidade puxa meu cabelo para trás me forçando a abrir a boca involuntariamente em um grito de dor pelo ato. E ele se aproveitando que está aberta, soca os pães de uma só vez, fazendo força para que eu não pudesse cuspir para fora.

— Vai comer tudinho. – Diz rindo.

Sinto como se eu estivesse experimentando o verdadeiro inferno na terra. Minha cabeça lateja e a dor me arrebata com tanta pureza que temo que a qualquer minuto eu vá perder a vida. A cada tentativa de me libertar eu me dou conta da grande lacuna de força entre nós e assim soube o quanto eu sou medíocre se comparado ao meu irmão que só é mais velho do que eu por 4 meses. Por mais força que eu aplique para abrir minha própria boca na tentativa de tirar o que nela há, é inútil perante a sua força.

Com meus olhos tão vermelhos quanto sangue, banhados em lagrimas, tento engolir os pães para que aquilo acabasse logo. Porém está seco e é muito grande para somente ingerir de uma vez. E a areia corta minha garganta como vidro.

A cada tentativa falha eu sinto lampejos de dor lancinantes em minha garganta, e não demorou muito para que sangue começasse a sair junto com a saliva pelas frestas de meus lábios.

A dor é tamanha que mal pude sentir o gosto do sangue, mesmo minha boca estando molhada com ele. Depois de muitas tentativas em vão, Clark aplica dois socos fortes em minhas costelas, mas não obteve a reação que desejou ver. Pois em minha agonia, eu já não demonstro qualquer sinal de dor. Estou a ponto de me entregar a inconsciência, acreditando que aqui é o local onde eu darei meu último suspiro de vida.

— Já chega, Clark. Ele está derramando muito sangue, isso pode manchar sua roupa. Além disso não queremos uma morte no dia de hoje. Pois se alguém morrer baixo o nosso teto traria má sorte no seu futuro. Não queremos que nada arruíne esse dia tão especial.

— Você tem muita sorte, lixo — Diz, me soltando.

Sinto meu corpo ser atraído pelo chão como um imã, e em uma reação involuntária vomito os pães que estão em minha boca ensopados de sangue.

Tento me levantar, mas não consigo, cambaleio para o lado e me escoro na parede. Olho brevemente o que eu havia vomitado e só então me dou conta da quantidade de sangue que está esparramado no chão.

Esforço-me em engolir a saliva misturada com sangue, porém me detenho e grunho de dor. Tonto e confuso, com minha vista querendo ficar completamente em breu, corro quase sem enxergar nada para a parte traseira do castelo.

No portão passo com rapidez pelos dois guardas rente a ele, e os arqueiros sobre a muralha que guarnece as defesas do castelo do clã, agradeço internamente que me ignoraram e não me detiveram. Eu sinto o desespero cada vez maior à medida que meu corpo enfraquece em meio a dor.

Corro sem plano ou destino com o único objetivo de me sentir seguro, de me esconder, e busco um mísero alívio na proteção das copas das árvores e entre as suas frondosas raízes que se protesta do solo em direções divergentes.

Depois de correr por algum tempo sinto minhas pernas falharem e olho uma última vez para trás. No instante em que não vejo mais o castelo me permito, já sem forças ou vontade de resistir, ser tragado pela agonia.