Paciente 99
5 Urologista
Notas iniciais
— Bom dia! – Acordei com a doutora abrindo as cortinas e deixando a luz solar entrar, o quarto estava escuro antes então isso incomodou um pouco meus olhos. A brisa do ar condicionado ainda deixava o cômodo fresco, até a mesma desliga-lo – Hora do remédio.
Sua mão macia e cheirosa trouxe uma pílula que eu logo ingeri junto com um gole d’água, do copo que ela trouxera. Tinha gosto amargo.
— Então, o dia de hoje está livre. Amanhã sua mãe avisou que vira lhe visitar. E também terá um raio X marcado. – Explicou em sua voz doce e feminina. – O que está achando daqui?
— Bem, eu comecei a escutar vozes depois que vim para cá. Isso é normal? – Respondi depois de um tempo hesitando.
— Devem ser só os remédios, devem estar causando isso. – A médica agora me encarava séria com seus olhos por baixo dos óculos – Era só isso que queria me perguntar?
— Hm, sim. Era só isso. – Pensei se devia contar sobre a minha sósia que eu via, mas ela com certeza não acreditaria. Talvez, se eu não estivesse enlouquecendo, só conseguisse aceitar isso bem por ser metade bruxa, por ter crescido sabendo que essas coisas existiam e não eram apenas crendices. No entanto, Dra. Margarete é humana. Ela não sabia disso.
*
Tag havia me deixado um bilhete que dizia onde ficava o urologista dele na clínica. No final estava escrito “E se ele quiser fazer o exame do toque? Estou com medo. ” — Tag. A última frase me fez abrir um sorriso. Fui procurar o local depois de almoçar, e de tomar um bom banho.
Ficava em uma parte mais afastada do hospital, longe do auditório, longe do sanatório (ainda bem); quando cheguei o tailandês estava na sala de espera. Entrei e me sentei um pouco afastada, ao ver que o mesmo fez sinal de silêncio – ou seja, não queria conversa. Eu precisava ser discreta porque não o estaria acompanhando, e sim vigiando. Ele deveria se sentir seguro assim. Garotos.
Por sorte a recepcionista não estava presente no momento, então peguei algumas revistas e fingi lê-las enquanto esperava. Tanto eu como ele estávamos vestidos com os roupões verdes padrão. Um ou outro paciente surgia na sala.
— Tagrus! – Uma voz masculina forte chamou, por pouco não me lembrei que este era o nome completo do moreno, que fez contato visual comigo, com uma expressão assustada.
Ele se dirigiu à sala, e eu esperei a chance de poder segui-lo. Ocasionalmente os outros pacientes que estavam na recepção foram ao banheiro, e eu aproveitei para me conduzir até onde Tag estava indo consultar. Uma porta levava a um corredor, pintado de branco e muito claro como tudo neste lugar, e nele outra porta estava com uma placa escrito “Urologista, Dr. Henrique”, me aproximei tentando ouvir o que estavam falando sem sucesso.
Droga, alguém estava vindo. Olhei em volta, um bebedouro de água estava em um canto do corredor, então fui até ele fingindo estar usando, enquanto uma moça bem vestida surgia e entrava pela porta do doutor com alguns papéis, rapidamente saindo e deixando o cômodo parcialmente aberto. Acho que ele não me viu.
Utilizei a brecha e espiei o lado de dentro do consultório: o médico fechou uma cortina branca e disse “sente-se” à Tag. Os dois se localizavam em outra parte da sala, assim sendo não se importariam se eu ocupasse a outra parte. Entrei, me escondendo atrás de uma prateleira de remédios. Podia escutar tudo o que diziam e ver as sombras dos dois atrás da cortina.
— Por favor, tire o roupão e a cueca. – Ordenou, e eu precisei me segurar para não começar a rir ali mesmo.
Depois de um tempo o urologista continuou:
— Bem, deixe-me ver.… é a sua primeira vez em um urologista? – O moreno assentiu – Sabe, deveria vir mais vezes, um homem precisa cuidar de sua saúde. E não tem nada de errado, tudo aqui é natural, não precisa haver nenhum constrangimento. E preciso lhe dizer, este é um belo membro.
A voz dele soava um tanto descontraída, e a última frase chamou minha atenção, será que eu entendi direito?
— O que é? – Questionou a voz de Tagrus.
— Não se preocupe, ninguém vai saber disso. Só vai ficar entre nós, gato. – Afirmou a voz do doutor, que nojo. Ele estava realmente dando em cima do paciente.
— Tire as mãos de mim! Eu ‘tô fora! – O oriental exclamou, saindo do local, quando eu escutei o barulho das cortinas.
Saí de trás da prateleira, ficando à vista dele.
— Está tudo bem? – Perguntei, séria. Ele me olhou do mesmo jeito.
— Sim, vamos embora daqui.
*
— Então, ele queria te chupar? – O provoquei, agora sem resistir em soltar uma risada, já que não estávamos mais no urologista, e sim no corredor principal da clínica. – Quem diria que seu médico seria gay.
— É, e a cada dia eu gosto menos daqui. – Respondeu, confirmando que homens não eram a sua praia. Ou ele só estava fingindo por saber que eu estava assistindo. Eu esperava que fosse a primeira opção.
— Ah, nem me fale. A minha doutora só pensa em me entupir de remédios. – Desabafei.
— E o meu, que não consegue disfarçar que me acha louco? Vic, eu não sou louco!
— Tudo bem, eu acredito. – O fitei com um sorriso no rosto.
— Sabe o que deveríamos fazer? Uma greve aos nossos tratamentos. Não vamos aparecer nem no refeitório para jantar nem nos nossos quartos esta noite!
— Como assim, fugir? Rebeldia sem causa?
— É isso mesmo. Topa? – Seus olhos escuros e penetrantes, levemente puxados, me encararam, e como eu poderia recusar? Depois disso uma chuva muito forte caiu sobre o hospital, tornando o dia em noite, e embora fosse verão o calor foi embora bem rápido. Enquanto relâmpagos clareavam mais ainda as paredes brancas do prédio, e trovões as faziam tremer, nós dois perambulávamos pelos corredores rindo, até nos cansarmos de fugir das regras do hospital, e paramos em um quarto vago, com duas macas.
Tag ficou com a cama da janela, a vista mostrava as rajadas potentes de água inundando o lado de fora. O vidro estava embaçado. Com o dedo, o moreno escreveu “Us against the world” – Nós contra o mundo. Sorri ao ler aquilo, parecia bobo, mas naquele lugar e naquele momento tinha um significado.
Deitados e cobertos, com o barulho da chuva, logo adormecemos. A noite chegou e Margarete deveria estar se perguntando onde eu estava, se não apareci nem para o jantar e nem retornei ao quarto. Bem, ela teria que admitir que eu não poderia ter ido muito longe, não nesta prisão.
*
Quando acordei ainda estava escuro, porém muito mais do que antes. A chuva ainda caía, estava bem úmido e fresco; parecia que o ar condicionado estava ligado, sendo que não estava. Pouca iluminação, vinda da janela e da luz da lua, me permitiam enxergar. Um vulto estava parado na minha frente. Tag estava de pé, sem se mover, e eu tive que me levantar da cama para vê-lo melhor.
— Tag? – O chamei, sem obter resposta. Sua cabeça estava baixa e o corpo estático, duro. Constatei que deveria estar dormindo ainda.
Ele se virou e começou a andar. Porcaria, o tailandês é sonambulo. E eu seria obrigada a segui-lo.
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