Paciente 99
12 Urânio, Granada, Rubi e Safira
Notas iniciais
O próximo passo seria ir até o auditório. O lugar onde eu encontrara Tag para conversar, e ele pedira a mim que o acompanhasse em sua consulta no urologista. Parte de mim desejava que o corpo que eu encontrasse fosse o dele, assim me livraria de algumas preocupações, mas deixa quieto.
O cômodo ficava perto do consultório do terapeuta, então precisei retornar até lá, saindo do sanatório. Era um salão usado como teatro em outros tempos. Estava muito escuro, com centenas de assentos, e a luz da lanterna não ajudava muito a revelar o ambiente, sendo assim, eu estava andando sem saber onde.
No fundo da sala, se localizava o palco, com extensas cortinas. Era o que a minha memória dizia, não a minha visão, totalmente bloqueada pela noite. Desci o amplo auditório, procurando em cada fileira, um cadáver. Mas não encontrei nenhum.
Pelo menos, não até direcionar a luz até a última fileira. Na escada pequena que levava ao palco, uma mulher estava deitada aparentemente sem vida. Era Margarete. Tudo bem, eu tinha motivos para me vingar dela, no entanto eu não desejava a sua morte. O rosto estava paralisado, com o par de óculos desalinhado e a boca mal maquiada de batom, entreaberta. Uma mão segurava sua barriga, que sangrava muito. A outra, estava esticada e mantendo a joia na palma.
A pedra é amarelada de um jeito, que se fosse um animal, demarcaria sua natureza venenosa. A peguei e coloquei no baú, com um certo medo de que ela fosse reagir. Vê-la desta forma me deprimia.
No seu pulso, de mangas brancas afastadas, estava escrito com o líquido vermelho vital, a palavra:
“Urânio”
Ao meu ver, as palavras em cada cena de crime indicavam o nome da pedra.
Deixei o lugar imediatamente.
*
Corri pelo corredor que levava ao consultório do urologista, que estava com a porta claramente entreaberta, e desta a vez a luz do lado de dentro estava acesa, mas piscando. O que só causava mais tensão. Passei pela recepção e me dirigi até a sala de atendimento. Estava do mesmo jeito que a conheci, paredes pintadas de branco, móveis claros, uma mesa de trabalho, assentos e uma maca deixava em um canto. Um lençol se espalhava por cima dela, e fazendo um volume, que eu sabia que se removesse o tecido, revelaria um defunto.
O cômodo estava escuro, a iluminação estava apagada nesta área, a claridade que vinha era da lâmpada da recepção, trêmula, e da luz da lua que se inseria das janelas. Puxei o lençol branco, e fechei os olhos. Ao abrir, foi um choque: me deparei com o doutor, deitado de barriga para baixo, o rosto sem expressão e o olhar perdido, a boca, ensanguentada. Estava vestindo o uniforme de médico, mas as calças estavam abaixadas, e a bunda, a mostra. Em meio a pele branca, cortes em carne viva formavam a palavra:
“Granada”
*
A morte do Dr. Henrique parecia um jeito do Tag se vingar, por ele ter dado em cima dele, mesmo sendo seu paciente. A pedra, por minha surpresa e alívio, não estava em seu traseiro, mas sim em sua garganta. Alojada em um corte profundo, coberto de sangue seco. Foi com esse ferimento que ele perdera a vida. Uma joia grande e brilhante, reluzente e sua cor era marrom escura. Guardei-a no baú.
A próxima joia estaria no Raio X. O local estava demarcado na cor vermelha no mapa, afastado e distante do ponto de onde eu estava.
Comecei a andar até a área, ficando um pouco cansada depois desta longa noite. O local que eu conhecera quando estava dopada e conduzida de cadeira de rodas, ficava no final de um estreito corredor. Se tratava de uma pequena salinha. A porta não estava fechada, e dentro de suas ocupações claras, estava a cabine metálica do Raio X, e o observatório especial do doutor. Estava escuro lá.
Quando me aproximei, sabia o que me esperava, um cadáver. Girei a maçaneta e afastei a portinha, até visualizar o que havia dentro: o homem velho sentado em uma cadeira, com o apoio para frente, de forma que o corpo não pendesse com o peso sem vida. Uniformizado de branco e morto.
Uma notável mancha de sangue estava no bolso do jaleco, e foi lá que encontrei a pedra. Sua cor era vermelha como sangue, e suas partículas delicadas e perfeitas reluziam conforme o ângulo em que era vista. Coloquei na caixinha junto com as outras, com o líquido fresco ainda escorrendo, como a joia era vermelha, não se notava o sangue. Do lado de dentro do vidro do observatório, estava escrito com o sangue do médico, na janela:
“Rubi”
*
A última pedra era a que restava. A da ginecologista. Pensar no que viria depois de encontrá-la, me assustava. Mas era preciso procura-la. Estava marcada em vermelho no mapa, próximo ao local onde eu estava, no primeiro andar.
Depois de passar pela sala de espera, finalmente cheguei ao consultório. Estava escuro, mas o curto espaço estava visível, e na maca onde eu me deitara para ser consultada, estava um lençol branco estendido, com um notável volume por baixo. Já estava me preparando para encontrar a doutora lá.
Fui puxando o tecido, e uma mancha escura marcava a superfície, eu esperava pelo pior. Os pés dela estavam sobre a maca, e o corpo se posicionava na mesma postura de uma paciente, sendo que ela era a ginecologista; aparentemente Tag estava irônico quando executou a médica. Ela estava sem calças, porém de calcinha. Não tinha volume entre as pernas, então era provável que a pedra não estivesse dentro dela, o que foi um alívio.
Removi o resto do lençol, e seu rosto estava sem vida e virado para a esquerda, na ponta do móvel. Os cabelos cacheados, bagunçados. O sangue não parecia estar vindo do ventre dela, devia ter sido apenas limpo no pano próximo a ele. Um corte na jugular se formava, lambuzado de líquido vital fresco. No braço direito, de manga curta, estava se escrevendo, sozinho, em cortes finos que abriam a carne fria dela, a palavra:
“Safira”
As letras se cortaram sem nada, o que significava que alguém estava fazendo isso. Olhei em volta, sem conseguir ver algo, mas com a impressão de estar sendo vigiada. A adrenalina subiu. E me cheirava a magia.
A joia estava apoiada em sua cintura, próxima ao quadril.
Uma gema espaçosa e elegante, de uma coloração azul oceânica, era como se fosse feita do mar. Como se fosse um pedaço dele. A tomei emprestada e guardei no estreito baú. Minhas mãos já estavam sujas e com cheiro forte de partes de cada um dos funcionários que eu conheci no hospital.
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