Paciente 99
3 Terapia
Notas iniciais
Estava eu deitada em uma poltrona ajustável, no consultório do terapeuta. Tudo que eu via era o teto do cômodo, diferente do resto da clínica não era branco, e sim uma mistura de cor vinho com desenhos decorativos em dourado. O local era o mais colorido do hospital todo. Eu ainda vestia o roupão esverdeado padrão, desta vez um novo e limpo, depois de ter tomado um banho pela manhã, estava fazendo calor.
— Bom dia, Vitória! – Saudou com uma alegria forjada, um senhor de meia idade vestido de branco, com uma planilha em mãos, usava óculos e tinha cabelos curtos.
— É Victory. – O corrigi, ainda deitada. O doutor se sentou em outra poltrona à minha frente.
— E não foi o que eu disse? – Respondeu, mentindo e folheando alguns papéis – aqui diz que você não é louca, como a maioria neste lugar, e que está aqui por causa de pedras na vesícula.
É com toda certeza eu não sou louca, porém quanto a você tenho minhas dúvidas.
— Sim, mas a médica disse que não é nada sério. – Confirmei.
— Mais alguma coisa lhe incomoda, algo que queira me dizer? – Ele perguntou, quase que lendo os meus pensamentos. Pensei um pouco.
— Bem, tem uma coisa sim. Eu tenho quase 18 anos e nunca menstruei, estou ficando preocupada. – Desabafei, levemente apreensiva.
— Olha, eu não tenho como esclarecer esta dúvida, porque eu nunca menstruei – o médico riu ao dizer isso, e eu também – Mas temos ginecologistas aqui, você pode consultar uma.
— A doutora Margarete me falou que já está marcado. – Respondi.
— Então está certo. Procure não pensar muito nisso, minha mulher menstruou com 16 anos e engravidou normalmente. Eu preciso que assine uns papéis, Vic... – Ao folheá-la, a planilha caiu e os papéis se dispersaram, e o doutor se levantou e se retirou — ...Toria. Eu vou busca-los, já volto. Eles não estão aqui. Opa, não precisa ajuntá-los.
OK, esse doutor deve ser mais perturbado que os pacientes da parte maluca daqui. Agora estou eu, olhando para o teto de novo entediada esperando-o. Ele está demorando. Ele errou meu nome de novo. E esta consulta não agregou nada em minha vida.
Fui até os papéis caídos, mas não diziam nada de interessante, nenhuma anotação notável além do meu nome e sobrenome, informações que eu já sabia de mim e linhas em branco. As deixem onde estavam, sobre o tapete, e algo debaixo da poltrona do terapeuta me chamou a atenção. Não tinha porquê estar ali, isolada, e eu não tinha percebido antes.
Tudo no ambiente era colorido, no entanto o objeto tinha a cor mais viva ali: uma pedra brilhante, grande e azul. Quando a peguei, quase cobriu a palma da minha mão toda. Por que estaria ali jogada em um canto? Era uma joia, provavelmente valiosa.
“Você precisa pegar uma coisa no terapeuta amanhã. Uma coisa que vai parecer estranha, deslocada do local onde você estará, mas vai estar lá, e você precisa pegar e guardar, Victory. ’’
Foi o que a minha outra eu disse no sonho, primeiro eu pensei que fosse só um sonho, ela não existe, somente na minha cabeça ou no meu subconsciente afinal eu não lembro de precisar criar uma gêmea para mim mesma. Talvez eu estivesse ficando louca por estar internada neste lugar. Entretanto essas palavras nunca fizeram tanto sentido até agora.
Se eu precisava guardar, era o que eu iria fazer. Espero que não seja de alguém, que eu não esteja roubando. Coloquei no bolso e sentei na poltrona, o doutor já estava de volta.
— Ah, está aqui. – Ele entregou os papéis e eu os assinei, rapidamente.
— Tem uma coisa que pode ajudar no seu tratamento. Você deve saber que parte deste hospital é um sanatório. Deve pensar que só tem gente louca, mas há algumas crianças que só são traumatizadas. Geralmente pegamos alunos estagiários para fazerem atividades com elas, sabe, ajuda-las. Como trabalho voluntário. Mas a maioria não está interessado. Se quiser tentar um dia, isso pode ocupar a sua mente. Não precisa ter medo, são só crianças. – O homem explicou.
— OK, eu aceito. – Falei depois de um segundo pensando.
— Sério? – O mesmo ficou perplexo.
— Claro, eu acho que é melhor do que passar meus dias em um quarto hospitalar. – Sorri.
*
Depois de guardar a joia em um baú portátil que estava esquecido em alguma das gavetas do meu quarto, e almoçar, esperei na recepção de um corredor que não ficava muito distante do local onde eu estava internada.
— Victory? – Uma voz feminina chamou, era uma senhora mais baixa do que eu, ruiva e com muitas sardas no rosto, além de algumas rugas.
— Sim, sou eu. – Respondi.
— Siga-me.
Enquanto andávamos, por mais corredores pintados de branco, muitos quartos claros da mesma cor se passavam, e neles os mais esquisitos tipos de gente, cantando, falando sozinhos, xingando bonecos e animais de pelúcias, a maioria adultos.
— Não tenha medo, ele é inofensivo. – Disse a funcionária, abrindo a porta que levava a um cômodo infantil, tudo nele era pálido e opaco, como todo o resto da clínica, porém na cama as estampas eram coloridas, e uma mesinha estava rabiscada de giz de cera. Pelo chão, muitas folhas de papel com desenhos e pendurados na parede também.
Me aproximei, era um garotinho muito jovem e muito fofo, sua pele era bronzeada e o corpo muito magro, os cabelos curtos e bem escuros, constatei que deveria ser um menino indígena. Os desenhos não tinham nada demais, eram apenas desenhos normais de criança, apesar do pequeno estar no setor de malucos.
— Victory, este é o Denis, Denis, esta é a Victory. Volto em um minuto. – A mulher baixa anunciou, e então sentei-me na cama, dizendo:
— Então, o que há de divertido para se fazer por aqui? – Perguntei, e o infante me fitou de relance.
— Não sente aí! – Exclamou, ficando quieto por alguns segundos – O Júnior está deitado na cama!
— Oh, me desculpa – me levantei imediatamente – quem é esse? Seu amiguinho?
— Ele é meu irmão. – Respondeu, ainda sem fazer contato visual comigo. O moleque então se pôs a rabiscar a mesa com giz de cera, e não os papéis. Estava fazendo um barulho enorme.
— O que ouve, Denis? Acabou o papel ? – questionei, sem obter resposta. O ruído continuou por um tempo até parar, e então Denis saiu correndo a deixou o quarto. Me dirigi até a mesinha de artes, ele havia riscado ela toda, e ficou bem colorida. Haviam letras escritas:
“B-R-U-X-A”.
Levei um susto ao ler.
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