Notas iniciais
Sei que demorei, mas estou com muitos textos do curso pra ler e nem sei como consegui tempo pra escrever esse capítulo, mas boa leitura e bom final de semana!!

Realmente não tinha como digerir tudo isso, minha vida acabou quando eu pus os pés nesse hospital, eu nunca deveria ter vindo. Ou melhor, aquele demônio me seguiu a vida toda, eu fui amaldiçoada. E morrerei assim. Sem me defender, afinal sou apenas uma bruxa iniciante contra um imortal. Na verdade, dois.

Me sentei na escadaria, apoiando os cotovelos nos joelhos, cobertos por babados em tons de laranja do vestido. Peguei o baú e comecei a brincar com as pedras, visualizando a cor e a textura de cada uma como se fosse uma aquisição recente ou um presente e as deixando fora do recipiente.

Deprimida e sem conseguir pensar no que fazer a seguir, para tentar sair desse mundo-prisão, acabei adormecendo, e acordando um bom tempo depois, deitada no chão frio dos degraus, com o rosto molhado de lágrimas e.…eca, baba.

Esfreguei minha pele e levantei, notando que as joias estavam fora do lugar, e de tamanhos diferentes. É como se tivessem criado vida enquanto eu dormia e se auto alterado, algumas estavam mais compridas, outras mais finas, mais grossas, em miniatura e ampliadas. Era inexplicável.

Ao tocá-las, elas voltaram ao que eram antes. Foi como aconteceu com a minha outra eu, os objetos respondiam ao meu comando e eram sensíveis ao meu toque, era como se eu pudesse controla-los.

— Bom dia. – uma voz grave soou. Tag. – Não que um dia tenha se passado, não neste mundo, mas você entendeu. – Ele invadia o corredor, se aproximando de mim.

— O que você quer? – Fui direta e um pouco grossa.

— Quero te ajudar a sair daqui. Meu pai não lida muito bem com demoras. Tome sua decisão.

— Eu não vou poder sair daqui? Vou continuar confinada? – Perguntei.

— É claro que não, é só você colaborar, Vic. Aceite dar à luz a esse filho. Ou isso, ou ele ameaçará a sua mãe. Você não corre perigo, afinal ele precisa de você viva. Mas se demorar muito ele obterá isso a força. – O moreno explicou.

— Você disse que se eu souber o nome dele, escapo daqui. Por que você não me ajuda?! Me dê uma pista. Não precisa falar.

— Se eu te ajudar, ele mata meu irmão. Já te disse isso.

— Ele vai fazer isso de qualquer jeito. É um demônio, não é humano. Você não disse que esse seu irmão está vivendo seus últimos dias? – Questionei, aflita.

— Mesmo assim, eu não vou perde-lo. Faça a sua decisão, e estará livre. E seja rápida. – O mesmo se virou e se retirou do cômodo, mesmo eu o chamando pelo nome, ele não me ouviu e se foi.

Eu não tinha nada. Nenhuma chance. Meu destino seria perder a virgindade para dar à luz a uma aberração e engravidar aos dezoito anos. Não era o que eu tinha planejado para a minha vida. Celulite, estrias, hormônios, talvez uma depressão pós-parto.

Tudo dependia de um nome, que poderia ser qualquer um, como eu saberia? Poderia ser Gustavo, Ricardo, José, Luís, Antônio, Francisco, Vitor, Clodovil, Valdomiro, Valdemar, Vilmar, Harry, Fernando, Ferdinando, Cláudio, Roberto, John, João, Júlio, Rumpelstiltskin, Osório, Osvaldo, Téo, Percy, Alec, Magnus, Leonardo, Luciano, Henrique, Gold, Josh, Lucas, Adam, Andrew, e poderia ser todos juntos.

Peguei o baú, e o mapa do hospital ainda estava lá. O desdobrei e analisei, as palavras que formavam o nome do Tag ainda estavam escritas, e destacadas em vermelho as letras principais.

*

Terapeuta

Auditório

Ginecologista

Raio-X

Urologista

Sanatório

*

Tagrus.

*

Foi aí que pensei. Eu tinha os nomes dos lugares que encontrei as pedras, mas agora eu tinha também os nomes das pedras. Foi quando fiz o “caminho de volta”. Só não tinha onde anotá-los.

Segurei a joia mais pontiaguda, a ametista, e com sua ponta cortante arranhei o chão, formando de leve quase apagadas as palavras que eu lembrava. “Topázio, Ametista, Granada, Rubi, Urânio e Safira”. Assim como aconteceu da primeira vez, ao escrevê-las elas respondiam, como se fossem programadas para isso, afinal deveriam ser palavras mágicas. As letras iniciais se desenharam, deteriorando a estrutura do piso, abaixo do que eu já tinha escrito.

T, A, G, R, U, S.

Eram as mesmas iniciais dos nomes dos lugares que eu estive, Terapeuta, Auditório, Ginecologista, Raio-X, Urologista e Sanatório. Formava o nome do Tag. Porém, depois de alguns segundos, mais letras apareceram debaixo destas, agora em outra ordem.

S U R G A T.

Surgat?

Esse era o nome dele? Mas só se tratava do nome do Tag ao contrário, que pai colocaria o nome do filho assim?

Não poderia ser tão fácil assim. Eu havia desvendado o mistério? Com essa informação conseguiria voltar para o mundo real?

*

Algum tempo depois...

*

Abri a porta, a fazendo ranger, e encontrando novamente o amplo salão, as paredes grandes e espelhadas, a escadaria que levava ao segundo piso, e obviamente, o paciente 99 e seu filho, ainda trajando as roupas de gala. O demônio agora estava sem um blazer, apenas de camisa social, no entanto de mangas curtas, na verdade parecia mais uma camisa de flanela abotoada. Nos seus braços estavam visíveis tatuagens por toda parte da pele, o que em combinação com suas cicatrizes faciais, causavam mais impacto ainda na sua aparência.

— O que é isso? – Um sorriso se abriu no rosto do homem. – Você me surpreende cada vez mais, é disso que eu gosto em você, Victory.

— O que pretende com isso, Vic? Saia rasgada? O que é esse escudo? Como fez ele? E esse punhal? É feito do que eu estou pensando que é? – Tag fez as perguntas, nervoso, se referindo as armas que eu tinha em mãos. Em sua expressão podia-se ver a preocupação.

— O que eu quero é propor um desafio. – Falei séria.

O pai do tailandês começou a gargalhar, juntando as mãos em uma batida de palma. Parecia empolgado de verdade.

— Você é única, bruxa. Qual é o desafio? – Ele disse.

— Um duelo, entre mim e seu filho. Se eu vencer, eu saio daqui ilesa, e você esquece de mim e da minha família. – Argumentei, tentando expor todos os detalhes para o esperto imortal não me enganar por nenhuma brecha. – Se eu perder, eu aceito conceder esse filho.

— Está louca? Eu uso meus poderes há meio século, você tem apenas dezoito anos, Vic. – Tag explicou, ansioso.

— Eu não irei mudar minha decisão. – Indaguei, firme, eu sabia que ele tinha razão, que essa magia ainda não estava sob meu total controle, mas era minha única chance.

— Acha mesmo que eu a deixarei livre, mesmo que vença? – O demônio perguntou.

— Eu espero que mantenha a sua palavra. E que faça um juramento. – Exigi, ainda que soubesse que não seria o bastante.

— Então, tudo bem, que assim seja. Eu prometo. – O sujeito levou um de seus dedos, dotado de uma possante unha afiada e cortou sua pele musculosa do braço, em meio às tattoos, e a cortou fazendo um sangue de um tom vermelho vibrante escorrer.

Eu esperava que ele me traísse mesmo fazendo esse gesto, isso poderia muito bem valer de nada. Porém eu contava com o nome dele, se fosse esse mesmo, Surgat, me ajudasse a sair dali mesmo que perdesse a luta.

— Estou curioso para saber como derrotará um imortal, mas sei que será divertido. Podem começar. – O paciente 99 anunciou, provavelmente tendo certeza de que eu perderia, mas eu estava confiante. Com um friozinho na barriga, no entanto confiante.

Notas finais
Bom, aí vai uma revelação rsrs Eu não criei o Surgat, ele faz parte da demonologia cristã: "SURGAT (demônio das riquezas) - Tem o poder de desencantar os tesouros escondidos. Assinala os lugares onde existem minas de ouro, prata e outros metais de valor pedras preciosas.Mas claro que essa indicação tem um preço." Pelo que entendi, ele é citado na bíblia, o que não tenho certeza pq não li muito a obra hehe "Surgat é conhecido por ser o demônio que abre todas as fechaduras e habita lugares escuros. A história de Surgat está relacionada com a do Papa Honório III, que tinha o costume de invocar espíritos malignos para, depois, mandá-los direto para o inferno. No caso deste espectro aqui, ele era capaz de destrancar qualquer coisa." Até a próxima e nos vemos nos reviews, eu espero♥