Paciente 99
14 A Valsa
Notas iniciais
Eu seguia sem conseguir entender o que Tag queria dizer com aquilo.
— Como você sabe que eu nunca tive uma festa de debutante? – Questionei, aflita. Tudo bem, era verdade, os meus 15 anos passaram em branco, mas não era como se isso fosse fazer diferença agora. Já estava feliz com o mérito de ter menstruado aos 18.
— Ora, eu fiquei sabendo de muitas coisas suas ultimamente... – ele respondeu, misterioso, enquanto descia devagar a escadaria que levava ao segundo piso, trajando a sua roupa a rigor.
Isso não era verdade, eu o conhecera há não mais do que 7 dias. Isso foi quando eu ainda tinha 17 anos, e ele não sabia muito mais do que o meu nome; nunca perguntara o motivo de eu estar no hospital, nunca pareceu interessado. A não ser que estivesse escondendo algo, e considerando a suspeita que eu tinha de ele ter matado Margarete e outros funcionários daqui isso parecia real.
— Você planejou isso tudo, não é? – Continuei.
— Não... não sozinho. – Seus olhos negros orientais percorreram a mim até chegar ao baú que eu estava segurando. – Olhe, quer largar isso um segundo?
— Claro que não. – Neguei. As pedras não foram compradas, foram encontradas, porém mesmo assim eu as considerava minhas. – Você sempre soube delas, não é? Aquele dia, você não estava sonâmbulo, estava fingindo quando me entregou a joia.
— Certas coisas precisaram ser feitas. Logo você entenderá. – Eu o olhei nos olhos, perplexa e confusa.
O tailandês me tomou o pequeno baú e o deixou em uma mesinha de mármore próxima.
— Foi você quem matou todos os médicos que me consultaram, não foi? – Perguntei, séria.
— Como eu disse, certas coisas foram necessárias.
— Como pode ser tão frio? Não pode ter feito isso tudo sem sentir nada.
—Chega de perguntas, Victory. – O moreno encerrou a conversa, e então alguém surgiu no segundo andar, da mesma parte de onde ele saíra.
Se tratava de um homem alto, de ombros largos, maior que Tag e de cabelos escuros e curtos, no entanto embaralhados. O rosto tinha cicatrizes perturbadoras e os olhos, era impossível dizer de que cor eram, o par de orbes transitava por diversos tons diferentes. A roupa que vestia era um terno igualmente elegante como o de Tag mas não roubava o seu brilho. Assim que me viu, não tirou os olhos de mim e ainda acrescentou um sorriso perverso que só tornou a situação ainda mais assustadora.
— Quem é ele? – Fiz a pergunta ao oriental, sem ousar me direcionar ao sujeito. Minha adrenalina começava a subir.
— Ah, então você veio. – O mesmo pronunciou, sem me dar uma resposta, e o silêncio permaneceu por algum tempo.
— Quem é ele?! – Repeti.
— Eu... – quem falou desta vez foi o próprio, sua voz era grave e ocupava o salão inteiro. – Sou o paciente 99.
O quê? Então, ele era aquela pessoa que eu vira naquele quarto escuro, que me causara arrepios?
— Qual é o seu nome? – Perguntei, depois de muito pensar.
— Isso eu não posso te dizer. – Respondeu, seco, era torturante dialogar olhando para seu rosto penetrante. Tag apenas assistia silencioso.
— Você sabe o que eu sou, não sabe? – Questionei, aflita. Não me importava o motivo de não poder saber seu nome.
— Sim, uma bruxa. Se não fosse, não teria conseguido passar por tudo e chegar até aqui.
— O que você é?
— Sou o que vocês mortais chamariam de demônio. – O que ele queria dizer com isso era que Tag estava aliado a um demônio, seria ele um demônio também? E qual foi o motivo deles terem planejado tudo isso? – Mas chega de conversa. – O sujeito interrompeu, cortando os meus pensamentos. – Agora é a hora da valsa da debutante. – Ele se dirigiu até um canto do piso superior, onde se posicionava uma vitrola, e a pôs a tocar. Uma música erudita soou, era de péssimo gosto e uma voz feminina de ópera se inseriu entre a canção, era bizarro. Tag se aproximou a mim de súbito, e me estendeu o braço. Eu o acompanhei.
Enquanto a canção continuava, nós nos movíamos pelo cômodo, muito próximos, dando passos de dança, isto é, se eu não estivesse fazendo errado. Eu torcia para que meu longo vestido não o fizesse tropeçar.
— Eu não sei dançar. – Sussurrei.
— Apenas faça o que eu faço, isto nem sequer é uma dança. – Ele disse, sua expressão era séria. Voltamos à valsa, e o silêncio reinou.
— O que ele quis dizer com ‘mortais’? Ele não é imortal, é? – Quebrei o gelo.
— É sim. Ele tem algumas centenas de anos.
— Você também é? – Perguntei pensativa; eu não sabia como estava conseguindo lidar com isso.
— Sou sim, senhorita.
— Você é igual a ele? Um demônio?
— Não, eu nasci humano. – Ele respondeu, desta vez me girando e fazendo os babados alaranjados como o pôr-do-sol do meu traje esvoaçarem ao dar uma volta, e retornar à coreografia. Seu perfume ficou mais intenso agora.
Como poderia ser humano e imortal ao mesmo tempo? Sem dúvidas eu sabia muito pouco sobre ele.
— O que vocês são um do outro? Amigos, irmãos? Namorados? – Instiguei, ainda em voz baixa.
— Somos pai e filho, Vic. – Tag me respondeu, e me fez refletir sobre as possíveis semelhanças entre os dois. Não consegui encontrar nenhuma.
O som parou de repente. O moreno parou com a dança.
— Já chega! Vocês conversam demais! – Exclamou o demônio, rude, e ao terminar de inativar a vitrola, se dirigiu ao corrimão que proporcionava uma vista do lado de cima.
— Fizemos algo de errado? – O tailandês começou. Não houve resposta, apenas troca de olhares.
— Por que me trouxe aqui? – Fiz a pergunta. – Com certeza não foi para dançar uma valsa.
— Você está aqui porque é especial. – Suas mãos grandes se moveram pela sacada, enquanto matinha o olhar baixo e pensativo. — A sua capacidade de encontrar as joias, isso foi natural. Poucas pessoas poderiam fazer isso. O meu filho possui este dom, e ele é raro. – Seu par de olhos encontraram os de Tag, que permaneceu sério. – Victory, você é única e nasceu deste jeito.
— Há quanto tempo me espionam? – Questionei, agora pensando em como sabiam que eu nunca tinha debutado, e que ‘colecionava’ pedras quando criança, mesmo que eu havia esquecido isso, o fato era que eles só saberiam disso me vigiando.
— Há tempo suficiente para perceber que você era como o meu filho, e como eu. Sim, eu também sei onde achar estas preciosidades. Mas eu ainda não poderia me revelar a você, não estava pronta.
— Ainda faltava algo. – Tag afirmou. Mil teorias se formavam na minha mente.
— Ainda não era uma mulher por completo, se me entende. – O paciente 99 completou. – O processo se atrasou demais, por algum motivo.
— Espera, não me diga que estava só esperando a minha menstruação chegar para... aparecer?
— O que eu quero, bruxa... é um filho seu.
Fale com o autor