País das (Má)ravilhas
1 Capítulo Unico: O País das (Má)ravilhas
Noticia de Jornal:
“Nesta ultima sexta-feira, dia 12, mais um grande buraco se abriu após uma explosão. O buraco se abriu na calçada da Rua 42. Acredita-se que a causa desse buracos sejam as atuais escavações subterrâneas para ampliação da rede de esgoto. A prefeitura nega, dizendo que os buracos apareceram em pontos afastados das obras. Já é o sexto caso ao todo, que vitimou mais uma criança, um garoto de 8 anos de idade. O jovem foi levado em coma para o hospital local, mas nada foi divulgado quanto ao seu estado atual. Ao todo, sete crianças foram vitimadas por esses acidentes, e estranhamente, nenhum adulto. A policia investiga o caso.”
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Charles seguia seu caminho até a escola. Era loiro, tinha olhos castanhos e usava um uniforme escolar composto por uma camiseta branca e calça jeans azul. Sob o braço direito estava um pequeno livro. “Alice no País das Maravilhas” dizia a capa do livro. Era para uma aula de literatura, onde cada aluno deveria escolher uma obra clássica para ler e expor a respeito. Ele escolheu este livro por acha-lo curto, interessante e loucamente esquisito. Gostava de coisas loucas e esquisitas.
Caminhava sem preocupações quando de repente houve um grande tremor. Charlie agarrou-se no poste ao seu lado, mas foi em vão. A calçada abriu sob seus pés e ele despencou pelo buraco. Era um buraco incrivelmente fundo e enquanto Charlie caia, ele não pode deixar de pensar em como aquilo parecia com quando Alice caiu pela Toca do Coelho. Jamais passou pela cabeça dele que ele poderia morrer ou ficar gravemente ferido quando atingisse o chão. Jamais pensou que havia um chão sob ele. Para ele, a queda foi tão vagarosa que pensou que se quisesse, poderia até se virar no ar para observar a queda. Os canos com água escorrendo na parede do buraco pareciam não acabar mais. Pensou que conseguiria esticar a mão para tocar a água verde, lodosa que caia dos canos, mas não tentou, temendo pegar alguma doença. O livro caia mais devagar que ele que ele e parecia flutuar diante de seus olhos, se distanciando aos poucos. Perguntou se iria para no País das Maravilhas se continuasse caindo, ou se pararia do outro lado do mundo. Riu dessas ideias. Era obvio que não iria para nenhum desses lugares, pois o País das Maravilhas não existia e o outro lado do mundo estava muito longe. Era obviou que se fosse parar em algum lugar, seria no núcleo quente da Terra. Mas para sua surpresa, a queda acabou logo, com o forte impacto de suas costas contra o chão molhado e um baque surdo.
Não sentiu dor, e também não achou ter quebrado algum osso, mas tentou não levantar com medo de que se tentasse, seus ossos iriam se quebrar e ficarem soltos pelo seu corpo. Ficou olhando para o distante céu acima e viu algo se aproximado, caindo. Era um livro caindo contra o céu azul. O livro caiu ao seu lado. Ele tentou esticar o braço para pegar o livro, mas percebeu que seu braço não estava como deveria estar. Estava todo retorcido e virado ao contrario. Percebeu que havia sim quebrado os ossos, não só os do braço, mas das pernas também. Então veio a dor. Foi forte, rápida e quente, fazendo-o perder a respiração. Enquanto lutava contra a dor terrível, ficou observando o livro aberto ao seu lado. Podia ver corretamente a pagina que estava. Havia uma ilustração do Coelho Branco correndo para o buraco que levava até o País das Maravilhas. Enquanto olhava aquela imagem, sua visão ficou turva e a dor aumentou. Tossiu sangue, provavelmente originado do furo que sua costela fez contra seu pulmão esquerdo. Sua visão ficou mais turva, bloqueada pelo sangue que escorria de sua cabeça, e já não podia distinguir a imagem do livro, mas ela ficou gravada em sua mente. A ultima coisa que verei antes de morrer, pensou E então, tudo se tornou escuridão. Estava caindo novamente.
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–Acorde! Acorde! Estamos atrasados! – dizia a vozinha esganiçada, enquanto a mão felpuda e macia cutucava o rosto de Charles. – Vamos Lewis! Estamos atrasados para a encontrar a Rainha!
–Am? Lewis? Quem é Lewis? Pare de cutucar minha cara. – disse Charles, que ao abrir os olhos teve um sobresalto – Um coelho!? Usando óculos e casaca!? E com um relógio de bolso!
– Ótimo, você acordou! Rápido, rápido! A Rainha espera! – e o coelho saiu em disparada.
Charlie olhou em sua volta. Ele estava dentro do mesmo buraco que ruiu sob ele na rua. Podia ver os encanamentos, a água escorrendo e os postos de luz além do buraco. Mas o céu estava negro, o que Charles pensou que já havia anoitecido, mas a luz do poste estava vermelha, o que vazia a água a sua volto parecer sangue. Charles lembrou-se de sua queda. Lembrou-se de ver se braço quebrado e do livro aberto com o Coelho Branco desenhado. Parecia estar bem agora, sem nenhum arranhão. Mas ver um Coelho Branco falando com ele, só podia dizer que ele estava sonhando ou delirando, mas tudo parecia tão real. Decidiu que se fosse mesmo um sonho, não seria certo esperar ali sentado esperando o despertar e sim, seguir em frente. Logo que se pôs de pé, percebeu, para seu espanto, que suas roupas mudaram. Ele agora usava uma camisa de botões branca e suas calças haviam se tornado shorts azuis celestes, daqueles usados pelos garotos ingleses do século XIX. Agora usava uma gravata azul.
Olhou para onde o Coelho havia partido e encontrou um túnel. Seguiu o túnel que ficava cada vez mais estreito. Quando pensou que não caberia mais, o túnel abriu para uma grande sala. Na sala havia muitas portas de diferentes tamanhos e no centro havia uma mesinha com uma garrafa. Charles reconheceu aquela sala com a do livro, onde Alice bebeu da garrafa para encolher e passar pela porta, mas essa estava bem mais velha e em ruinas. Pegou a garrafa e teve certeza. O rotulo dizia: “BEBA-ME”. O liquido da garrafa estava pela metade, e parecia já ter sido bebido anteriormente. Pensou que talvez seja o que Alice tenha bebido quando ela foi para o País das Maravilhas. Riu da ideia, achando engraçado considerar Alice e aquele sonho louco como real. Ele ergueu a garrafa para beber, mas antes da garrafa tocar seus lábios, ouviu uma voz rouca e fraca dizendo:
–Não beba! É veneno!
Charles olhou para o canto escuro da sala de onde a voz se originou. Ficou horrorizado com o que viu. Um garoto um pouco mais novo que Charles estava sentado, encostado na parede. Sangue escorria de suas orelhas, nariz e olhos, sua boca estava toda rachada e sangrando e seu rosto e corpo estavam cobertos de bolhas. O garoto chamou Charles para perto dele, e hesitante, Charles obedeceu.
–Você... também... caiu... pelo... buraco? – o garoto perguntou, tossindo entre as palavras. Charlie acenou afirmativamente. – A outros... como... nós... Cuidado... esse lugar... é perigoso. Eu vi... uma menina... seguindo por... uma passagem... secreta... abaixo daquele quadro... eu chamei por ela... mas ele não me ouviu... isso... é só... um sonho... certo? Acho... que... é hora.. de acordar.
O garoto fechou os olhos e ficou em silencio. Sua cabeça tombou lentamente para o lado, seguido pelo corpo. Aterrorizado, Charles perguntou-se se ele estava morto. De repente, Charles ouviu um riso ao seu lado e ao se virar, deparou-se com um sorriso flutuando ao seu lado. Lentamente, uma silhueta apareceu ao redor do sorriso, e a pouco, estava parado diante de Charles um homem alto usando um terno listrado. Apara a surpresa de Charles, o homem tinha o rosto e as mãos cobertas de pelo, seus dedos tinham garras e possuía orelhas e cauda de um gato. A fisionomia de seu rosto parecia-se muito com a de um gato. O homem olhou para Charles e alargou seu sorriso:
–Ora, ora! Se não é o pequeno Lewis. Infelizmente, não tenho tempo para o senhor, meu jovem. – ele então se ajoelhou do lado do corpo do outro menino e disse, com um tom triste, mas mantendo o largo sorriso. – Pobrezinho. Mais uma Alice que desperta.
O homem gato fechou os olhos do garoto e o corpo desapareceu em fumaça. No lugar onde o garoto estava, encontrava-se uma peça de xadrez e uma carta de baralhos. O homem reapareceu e ordenou:
–Pegue. – Charles obedeceu. Ele viu que a peça era um peão branco e a carta era um Rei de Espadas. – Cheque seu bolso esquerdo. Encontre-me na floresta, se não acordar antes.
Charles verificou o bolso esquerdo, mas não achou nada. Resolveu checar o bolso direito, e, para sua surpresa, também encontrou um peão branco e uma carta de baralho. A carta era um Rei, mas não possuía naipe. Quando foi perguntar ao homem o que aquilo significava, ele já havia desaparecido. Guardou as coisas no bolso e decidiu continuar por aquele sonho louco, que estava aos poucos se tornando um pesadelo. Encontrou o quadro, era o único quadro de toda a sala, e era enorme, indo do teto ao chão. O quadro mostrava um caminho comprido que dava para uma floresta, e nele corria o Coelho Branco. Como tudo na sala, o quadro era velho e desbotado, coberto por rachaduras. Charles mal tocou no quadro e ele caiu para o lado, revelando a passagem por detrás. Para sua surpresa, o que havia por trás era igual o que havia retratado no quadro. Atravessou a passagem na parede e ao olhar para trás, a sala onde estava havia sumido, sendo substituída por um alto penhasco de pedras pontiagudas. Seguir em frente era a única opção.
Andou por alguns minutos, mas percebeu que a floresta não se aproximava apesar do penhasco ficar mais longe. Era como se a floresta estivesse fugindo dele. Resolveu correr, mas foi em vão, apenas se cansando. Decidiu sentar num pedra para descansar. Estava considerado as implicações daquele sonho bizarro chegando a conclusão que aquilo era sim uma alucinação. Lembrou-se que há alguns meses atrás ouviu o pai e um amigo médico conversando sobre as alucinações que as pessoas têm quando sofrem sérios acidentes que podem afetar o cérebro. Era exatamente aquilo que havia acontecido. Mas então se lembrou de que seu esse amigo de seu pai havia dito que algumas pessoas alucinam antes de morrer também. Ficou com medo, pois não queria morrer, 14 anos era uma idade não muito boa para morrer, era muito jovem. Começou a pensar se já não estava morto e aquele era o Inferno, ou talvez até mesmo o Paraíso. Não queria que fosse o Paraíso, pois era muito feio e triste para ser tal, mas também não queria estar no Inferno, pois tinha medo de demônios. Começou a chorar quando ouviu uma doce voz:
–Não chore. Não está morto, se é isso que está pensando. – a voz era de uma linda jovem, talvez com 16 anos, usando um vestido azul e branco. Tinha cabelos curtos e ruivos, e seus olhos eram verdes. – Se está morto, eu também estou. Mas não posso estar morta, por que ainda estou respirando. Ouvi dizer que pessoas podem ter sonhos coletivos, talvez seja isso. Eu sou a Liz. Prazer. Cadê o outro menino que estava atrás de mim?
–Sou C-Charles. Menino...? – Charles achou que seria melhor não contar a garota o que aconteceu com o outro garoto naquela sala. – Eu não vi nenhum menino...
–Hmm... Você também está perdido?
–Sim, eu tento chegar naquela floresta, mas ela não fica mais perto.
–Sofro do mesmo problema. Parece que a floresta está correndo de mim. – Liz soltou uma exclamação, apontou para o caminho e disse: — Olhe! O Coelho! Talvez se seguirmos ele, como Alice fez no livro, cheguemos a algum lugar!
Liz segurou Charles pelo pulso e correu atrás do Coelho. Correram por uns cinco minutos quando o Coelho deu uma virada brusca pra direita, saindo do caminho. Charles tomou a liderança e o Coelho, ao nota-los, começou a correr mais rápido afirmando que estavam todos atrasados. Charles correu o mais rápido que pôde, suas pernas começaram a queimar e a respiração ficou ofegante. Foi na perseguição contra o Coelho que Charles percebeu o quão feio aquele Coelho era. Era magro, velho, sujo, partes de seu corpo faltavam pelos, o casaco era rasgado e desbotado, sua orelha esquerda parecia ter sido arrancada por um animal feroz. Chegaram a uma casa que parecia estar abandonada. O Coelho virou na lateral da casa, e quando Charles o seguiu, ele já havia sumido.
–Ele sumiu, Liz... – Charles olhou para trás e percebeu que Liz não estava mais com ele. Ele devia ter acidentalmente soltado a mão dela durante a corrida e ela ficou para trás. Agora estava sozinho, em frente a uma casa abandonada, com uma estranha floresta de flores e cogumelos gigantes ao seu lado. Tentou abrir a porta para a casa, mas estava trancada. Quando se virou levou um grande susto. Parados atrás dele, estavam dois homens, velho, sujos, gordos e idênticos, assemelhando-se a mendigos fartos. Eles usavam roupas de criança que eram pequenas para seus corpos. Na parte visível da gola de suas camisas estava escrito “dee” e “dum”. Charles adivinhou que eles eram os gêmeos Tweedledee e Tweedledum do segundo livro de Alice.
–Se que entrar na casa, -disse Tweedledee. – tem que usar a chave.
–Ao contrario, -disse Tweedledum. – se não usar a chave, ficará preso pra fora.
–E onde está essa chave? — foi só então que Charles percebeu que Tweedledee and Tweedledum estavam grudados pelos lados. O lado direito de Tweedledee era grudado com o esquerdo de Tweedledum, fazendo os ter dois braços apenas, mas quatro pernas. – Vocês são gêmeos siameses!
–Não somos gêmeos. – disse Tweedledee.
–Ao contrario, não somos nem parentes. — completou Tweedledum. – Quanto a chave, ela está com a Lagarta.
–A Lagarta está no jardim. – disseram os dois em harmonia, apontando para a floresta de flores gigantes. – Cuidado com o corvo!
Os Tweedles então correram desesperados para longe, sumindo da vista. Charles sair a procura da tal chave, mas ficou um pouco assustado quanto ao corvo, lembrando-se que o corvo que assustou os Tweedles no livro era gigante. Mas respirou fundo e seguiu em frente com o pensamente de que era apenas um sonho e nada de mal iria lhe acontecer. Ao entrar no “jardim”, levou um grande susto, pois de todos os cantos veio vozes o mandando sair. As vozes o chamavam de “flor” e pareciam vir do alto, em todas as direções. Olhou para cima e viu a origem das vozes. Eram as flores gigantes, e todas tinham rostos. As flores começaram a falar mais alto e ele já não conseguia entender o que elas estavam dizendo. Pareciam ameaça-lo de morte. Charles começou a correr, apavorado, adentrando-se mais fundo no jardim. Após correr por longos minutos, as vozes pararam e ele chegou a uma clareira.
No centro da clareira havia um único cogumelo enorme, e aos pés dele estava uma grande borboleta azul. Charles se aproximou e viu que a borboleta parecia estar morta a muito tempo. Suas asas estavam quebradas e despedaçadas, a cabeça estava sem as antenas e seu corpo estava decomposto. O tubo que formava a boca da borboleta estava conectado a um cachimbo de água. Havia um buraco no seu tórax, de onda uma fumaça malcheirosa era expelida.
–Deve ser a Lagarta, que provavelmente morreu de tanto fumar. – disse Charles, enojado. – Onde será que está a chave?
–Tem alguém ai? Socorro! – disse uma voz feminina, chorosa, do alto do cogumelo. – Eu to grudada no cogumelo! To com medo!
–Quem é você!? – perguntou Charles. A garota respondeu que chamava-se Sara, e estava grudada no cogumelo. Explicou, chorando muito, que estava atrás da chave, e pensou que poderia estar no alto do cogumelo, então resolveu escala-lo, mas quando chegou ao topo, descobriu que estava grudada. – Eu vou tirar você daí! Espere um pouco!
Charles pegou um pedaço de pau que se encontrava próximo dali. Encostou com o pedaço de pau no cogumelo e esperou um pouco. Quando tentou tira-lo, viu que estava mesmo grudado. Decidiu que escalar não seria a melhor maneira de tirar Sara de lá de cima. A garota agora chorava e soluçava, implorando para que ele se apreçasse. Achou que a maneira mais fácil seria cortar o cogumelo então foi atrás de algum machado ou espada. Voltou para a casa abandonada, e para sua surpresa, dessa vez as flores não gritaram. Quando chegou na casa, deu de cara com um peixe bípede da altura de um homem, usando um libré como um lacaio. O Lacaio-Peixe abriu a boca e dentro estava um sapo, também usando libré. O Lacaio-Sapo então disse:
–Um convite da Rainha para Sr. Lewis! – o Lacaio-Peixe entregou para Charles espelho de mão. O Lacaio-Sapo continuou. — Se procura o machado, está no galpão ao lado!
Logo em seguido, o Lacaio-Peixe engoliu o Lacaio-Sapo e então começou a se debater desesperadamente no chão, exatamente como um peixe quando está fora da água. Em poucos minutos, estava morto e o com a perna do sapo, também morto, pendurada pra fora da boca. Apesar do horror que foi a cena, Charles apenas a ignorou a cena e correu para o balcão, guardando o espelho no bolso e procurando o machado, achando-o logo ao lado da porta. Correu de volta para a garota no cogumelo. Ao se aproximar da clareira com o cogumelo, ouviu os berros desesperados da menina. Quando chegou perto da entrada da clareira, uma sombra enorme passou por sobre ele e um alto grito esganado ecoou pelo jardim.
A garota começou a gritar, cada vez mais alto algo sobre um monstro alado e negro. Charles ficou aterrorizado e escondeu-se atrás de uma flor quando a grande sombra pousou do lado do cogumelo. Era um corvo negro, mais alto que uma casa. O corpo daquela monstruosidade fez com que Charles quase vomitasse. Era todo furado e ferido, e dos ferimentos saiam larvas que caminhavam pelo corvo. Os buracos dos seus olhos estavam vazios, e deles saia algo que parecia ser o tendão que outrora ligava os olhos ao cérebro. O corvo grasnou e devorou o corpo da Borboleta morta, mas não ficou satisfeito. O corvo voltou-se em direção a garota que se calou, tomada pelo medo. O corvo avançou, bicando a garota na barriga. O grito que a garota soltou foi a coisa mais horrorizante que Charles já ouviu e aquilo marcou sua mente. O corvo devorou as entranhas da menina que ficou em silencio. O sangue vermelho escorria pelo cogumelo amarelo, criando um terrível contraste. Após ter devorado os órgão internos da garota, o corvo grasnou e voou para longe, derrubando o cogumelo no processo. Charles, que estava de olho fechado durante todo esse tempo, ouviu uma voz dizendo:
–La se vai a segunda Alice, para longe da terra dos sonhos. Qual será o terceiro peão a ser comido, eu me pergunto.
Após alguns minutos de silencio, Charles resolveu investigar. Não havia nenhum vestígio da menina exceto pela peça de xadrez, um peão branco, e a carta de baralho. Dessa vez era uma Rainha de Espadas. Charles pegou os dois objetos e os guardou. Foi quando notou um brilho dourado na base partida do cogumelo. Lá estava a chave da casa. Pegou-a, tentando não pensar no que tinha acabado de acontecer e correu para a casa. Na porta da casa, ficou hesitante de usar a chave, mas pensou que seria melhor estar lá dentro da casa velha do que do lado de fora com o corvo assassino. Colocou a chave na fechadura que coube como uma luva, girou e entrou.
A casa estava vazia, mas os sinais de que fora habitada estavam presentes. Quadros e porta retratos pendurados na parede, manchados até o ponto que reconhecer a imagem se tornou impossível; relógios ainda funcionais por toda a casa; cinzas na lareira. Mas o mais interessante é que a casa parecia não ser uma única casa, mas duas casas fundidas exatamente no meio. A arquitetura variava de cada lado da casa, com diferentes cores de parede e diferentes pisos no chão. Charles logo descobriu que todas as portas da casa estavam trancadas, incluindo no segundo andar. Quando perdeu as esperanças e resolveu sair da casa, ouviu um barulho vindo de trás de uma das portas.
Quando checou a porta, descobriu que ela estava destrancada, mas tinha certeza de que estava trancada há poucos minutos. Abriu a porta lentamente e viu-se numa enorme cozinha bagunçada, com enormes pilhas de panelas e talheres. O cheiro de pimenta era forte e pairava no ar, fazendo-o ter vontade de espirrar. Segurou o espirro e decidiu ver a origem do barulho. Esgueirando-se pelos cantos com medo do que poderia encontrar, finalmente chegou a um lugar livre das pilhas. Estava escuro, exceto por uma única luz que iluminava uma mesa no centro. Sobre a mesa, havia algo muito grande, assemelhando-se a um animal abatido, com uma faca atravessada no peito. Charles pensou que parecia muito com uma pessoa, mas ainda assim foi ver o que era, tomado pela curiosidade. Ficou aliviado ao ver que era um porco, mas era um porco muito estranho, pois usava óculos e uma roupa idêntica a de Charles. Charles pensou em sair dali o mais rápido possível quando o homem gato apareceu ao seu lado, andou até o porco, fechou os olhos dele e disse:
–Seria um peão ou um porco? Indiferentemente, a terceira Alice acorda. – ele então olhou em direção as pilhas de panela, dizendo: — Parece que a Cozinheira vem vindo. – e sumiu.
Quando ele sumiu junto com o porco, Charles não aguentou e espirrou devido a pimenta que ficou mais forte. Foi quando uma das pilhas de panelas despencou, e dela saiu uma mulher muito feia, alta e magra, usando uma roupa de cozinheira coberta de sangue. Na sua mão direita, um cutelo, na sua mãe esquerda, um moedor de pimenta.
–Mais um porco que chega pro abate! – ela gritou com uma voz esganiçada. – Agora você vai virar presunto, Lewis!
Naquela hora Charles não pensou em nada, apenas pegou o peão e a carta de baralho que estava sobre a mesa e correu. Corria por entre as pilhas de utensílios que despencavam, quase caindo sobre ele, enquanto a Cozinheira o seguia indiferente as panelas que caiam sobre sua cabeça. Ela gritava e balançava o enorme cutelo por todos os lados, tentando acertar Charles. Charles fez uma curva brusca para a direita, e logo não havia sinal da Cozinheira ainda estar perseguindo ele, mas decidiu que continuar correndo era o melhor. A cozinha parecia ser centenas de vezes maior que a casa. Charles não conseguia achar uma saída naquele labirinto de panelas. A cada curva era um beco sem saída, cada beco sem saída era mais um passo perto da morte pelas mãos da cozinheira. Quando, pela quinta vez, chegou um beco sem saída, percebeu que o cheiro de pimenta no ar ficou muito mais forte. Foi quando a Cozinheira apareceu por detrás de uma das pilhas de talheres, gritando e espirrando feito louca. Charles encolheu-se num canto escuro, encostado na parede, esperando que a Cozinheira não o visse, mas ela o viu. Foi andando em direção a ele, parando a cada espirro, e os espirros ficavam cada vez mais fortes. A cada espirro, a Cozinheira parecia ficar menor, mas logo Charles percebeu que não era só a Cozinheira que encolhia, mas toda a cozinha. A Cozinheira teve uma crise de espirros e Charles ficou tão grande comparado a casa que bateu a cabeça no teto. Não parava de crescer e logo seu pé acabou esmagando a Cozinheira contra a parede como uma barata. A cabeça de Charles saiu pelo teto, os braços e pernas pela parede. Toda a casa encolhia em volta de seu corpo e o apertava, fazendo-o perder a respiração. Estava enorme quando a casa apertou tanto seu corpo que ele desmaiou.
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Quando recobrou a consciência, viu que não se encontrava mais no local onde a casa estava e sim numa floresta escura. Chovia forte na floresta, mas curiosamente não chovia sobre o caminho que a cortava. Charles ficou de pé e viu que a carta de baralho que pegou era um Rei de Paus. Foi quando o Coelho Branco passou por ele, novamente dizendo que ele estava atrasado, mas dessa vez era para o Chá. Charles seguiu o Coelho pelo caminho até uma grande arvore no centro de uma clareira. Lá perdeu o Coelho de vista, mas encontrou o homem gato sentado num galho da arvore.
–Você veio, Lewis. – disse o homem, abrindo um sorriso que ia de orelha a orelha. – Estava te esperando.
–Acho que sei quem você é, mas só para ter certeza, pode me dizer seu nome?
–Mas é claro, meu jovem. – o homem então sumiu, exceto pelo sorriso, e disse: — eu sou Alice. A Alice que é o Gato. Mas pode me chamar de Cheshire.
–Você é a Alice? – Charles perguntou, curioso.
–Claro! Somos todos Alices neste País! – disse Cheshire, que reapareceu não como homem, mas como um gato listrado sorrindo. – Ao chegar aqui, você conheceu a Alice que era um coelho atrasadinho. Então, conheceu as Alices que eram imagens refletidas, a falecida Alice que sofreu metamorfose, a Alice que era uma sombra no céu e a Alice que exagerou no tempero.
–Isso é tudo um sonho, certo? Eu to sonhando, só pode.
–Sim, correto, tudo isso é um sonho. – Cheshire pulou do galho e ficou ao lado de Charles. – Mas não é seu sonho, Lewis. Aqui é o País das Maravilhas de Alice, e é ela quem sonha. Você pode muito bem ser um sonho dela também.
–Isso é impossível! – Charlies não queria acreditar no que Cheshire dizia. – Eu sou real! E isso só pode ser um sonho!
–Você pensa ser real, mas deixe-me perguntar. Quem sonha com o Rei Vermelho é Alice ou quem sonha com Alice é o Rei Vermelho? – Charles não soube o que responder. – Sei o que quer. Quer saber como sair deste lugar. É simples, é só encontrar com Alice, afinal, ela é quem te trouxe pra cá.
–E onde ela está!?
–Em todo lugar, em lugar nenhum. Se quiser encontra-la, tem que chegar ao centro do País das Maravilhas. – nesse ponto, o gato sumiu e reapareceu como homem. — Mas para chegar lá, tem que derrossinar o terribilidoso Jabberwocky. E isso só é possível com a Espada Vorpal que está no Castelo com as Rainhas e os Reis deste País.
–E como eu chego nesse castelo?
–É simples. Passando pela Festa do Chá. Para lá, encontrara a Alice que é louca como um Chapeleiro. – disse apontando com uma mão, e apontando com a outra na mesma direção disse: — E para aquele lado mora a Alice que é maluca como uma Lebre de Março.
Dizendo isso, Cheshire desapareceu. Charles resolveu seguir para onde Cheshire havia apontado. Chegou até uma cerca quebrada e do outro lado parecia haver algum movimento e vozes. Charles abriu a cerca lentamente e viu que do outro lado havia uma grande mesa com bules e xícaras velhos. A mesa estava suja e manchada com uma substancia vermelha. Foi então que viu de onde vinham as vozes. Uma grande lebre estrábica usando uma roupa de enfermeira e um homem usando roupa de médico com um chapéu que tinha uma espada atravessada, funda o suficiente para atingir o cérebro.
–Doutor, o paciente está pronto. – disse a Lebre de Março. – A anestesia fez efeito.
–Ótimo! Ótimo! – disse o Chapeleiro. -E que horas são exatamente?
–A mesma hora de sempre pelos últimos infinitos anos desde que você matou o Tempo! – respondeu a Lebre dando uma risada histérica ao olhar num relógio. – HORA DO CHÁ!
Charles se esgueirou por trás de uns arbustos para poder ver melhor a cena. Deitado no centro da mesa estava um Caxinguelê adormecido, provavelmente devido a anestesia. A Lebre entregou ao Chapeleiro uma faca de manteiga, ergueu-a sobre a cabeça e, com um movimento rápido, cravou a faca no peito do Caxinguelê. Charles quase deu um grito, mas uma mão fechou sua boca e alguém sussurrou para que ficasse quieto. O Chapeleiro começou a cortar o peito do pobre Caxinguelê que dormia em sono profundo. A faca não fazia um bom trabalho para cortar, rasgando a pele com um barulho perturbante. A Lebre então pegou um bule e começou a despejar o chá fervendo dentro do peito aberto de Caxinguelê. Após isso, tanto a Lebre de Março quanto o Chapeleiro deram uma risada histérica e pularam para a cadeira vazia ao lado deles. Charles se virou e viu a dona da mão que segurava sua boca. Era Liz.
– Temos que ir pro castelo pegar a Espada Vorpal. – sussurrou a garota. Charles assentiu silenciosamente. –Mas para isso precisamos passar por esses dois psicopatas.
–Como faremos isso?
–Não sei... talvez tenha algo aqui que possa nos ajudar.
Charles olhou em volta, e encontrou o grande relógio que apontava para 6 horas da tarde para onde a Lebre olhara. Teve então uma ideia quando o Chapeleiro perguntou novamente que horas eram após mudar de lugar.
–Liz, você consegue distraí-los sem ser vista? Eu tenho um plano.
Liz disse que poderia tentar. A garota esgueirou-se até o outro canto da “sala”, pegou um prato que estava jogado no chão e atirou contra uma arvore do lado oposto a Charles. O Chapeleiro e a Lebre, que tentavam colocar o corpo do Caxinguelê dentro de um bule de chá com acido pararam para investigar o prato quebrado. Neste momento, Charles saiu de seu esconderijo, correu silenciosamente até o relógio e mudou os ponteiros para mostrar 11 horas. Voltou ao esconderijo e esperou. Os dois malucos retornaram ao Caxinguelê e então, como sempre, o Chapeleiro perguntou as horas.
–Bem... ummm... err... é... hora do ch.... não... é... hora de dormir? – disse a Lebre, confusa, olhando para o relógio alterado. – Segundo o relógio, é hora de dormir, mas pode estar errado.
–Por que estaria errado? – retrucou o Chapeleiro. – Eu não mudei. Você mudou?
–Eu não. Não que eu me lembre.
–Então não está. E eu estou com sono, então não pode estar errado. – o Chapeleiro bocejou– Vamos para nossas casas dormir, meu amigo. Mas antes, um enigma amigável para deixar o sono mais fácil. No que a escrivaninha se assemelha ao corvo?
–Essa é fácil! – respondeu a Lebre, histericamente, mas sem dar a resposta.
Os dois partiram e Liz e Charles saiam do esconderijo. Liz parabenizou Charles pela ideia. Eles partiram pelo outro caminho. Liz perguntou como Charlie havia ficado para trás enquanto seguiam o Coelho, e Charlie disse que Liz foi quem ficou para trás. Indagaram como isso era possível, mas não tocaram mais no assunto. Após andaram alguns minutos, chegaram ao fim da floresta. Já não chovia mais, mas o céu estava nublado e raios iluminavam a escuridão. O caminho seguia até o alto de uma colina, e no alto da colina estava o castelo. Era o castelo mais interessante que Charles já viu. Era um enorme castelo de cartas, montado sobre um enorme tabuleiro de xadrez. Das laterais do castelo saiam torres, duas brancas e duas vermelhas, como as peças do xadrez. No inicio do tabuleiro havia um portão e um muro.
As crianças aproximaram-se do portão e viram que em frente ao muro havia algo parecido com um grande ovo quebrado. No meio da gema e da clara escorrida, havia uma roupa. Ignoraram a estranha cena e entraram pelo portão enferrujado, que abriu com um rangido alto. Do outro lado havia um jardim, mas a grama estava seca, as arvores estavam mortas e as estatuas estavam em ruínas. Chegaram a entrada do palácio, mas a porta estava fechada e abri-la seria impossível. Charles disse que talvez existisse outra entrada. Liz assentiu, e propôs que se separassem para achar mais rápido, e depois se encontrasse em frente a porta e esperaria pelo outro. Charles não gostou da ideia, mas concordou que assim seria mais rápido.
Liz foi explorar o jardim frontal e as proximidades do castelo e Charles resolveu investigar atrás do castelo. Chegando lá encontrou algo que parecia um grande campo de croquet. Sua surpresa foi tamanha, pois a cena era idêntica à do livro. Os soldados cartas formavam os arcos, flamingos vivos eram os tacos e ouriços eram as bolas. Mas tudo era decadente, com as cartas estando velhas e manchadas, os flamingos estavam depenados e os ouriços não tinham mais espinhos. A Rainha de Copas era uma velha gorda e feia, vestida como uma rainha, mas sua coroa estava enferrujada. A Duquesa era tão feia e monstruosa que mais parecia um gorila deformado. Pelo chão estavam cabeças decapitadas de cartas e convidados e uma guilhotina estava montada no centro do campo de croquet. E jogado com a Rainha estavam duas crianças, um menino ruivo e uma menina morena. Ambos estavam muito assustados, e a menina só não chorava porque o menino a abraçava e a acalmava.
Charles se escondeu e obervou tudo. A cada tacada errada dos convidados era uma decapitação. O garoto não estava conseguindo fazer seu flamingo ficar parado e isso o preocupava, pois sua vez estava chegando. Charles aproximou-se para ajudar e o garoto disse que seria melhor Charles fugir enquanto pudesse, pois se a Rainha o visse, obrigá-lo-ia a jogar ou mandaria decapita-lo. O garoto disse para Charles levar a menina, que era irmã dele. O garoto então pegou seu flamingo e correu por entre os convidados, causando a distração necessária.
–Cortem-lhe a cabeça! – gritou a Rainha de Copas ao ver o que se passava.
Aproveitando a confusão, Charles pegou a garota e correu para a lateral do castelo que dava para o jardim frontal. Durante a fuga, Charles viu que o garoto acabou derrubando uma enorme caixa onde os flamingos usados para o jogo estavam guardados. Para o horror de Charles e do garoto, os flamingos voaram e começaram a atacar o menino. Eram mais ou menos vinte flamingos bicando o garoto. Já não era mais possível ver o jovem. Foi quando um grifo, uma tartaruga de aspecto estranho, e vários soldados, pularam em meio aos flamingos e começaram a atacar o garoto.
A garota presenciou toda a cena também, e ao ver seu irmão ser atacado pelas criaturas, desvencilhou de Charles e correu, gritando, até o irmão. Quando chegou lá, a confusão acabara e os flamingos e os convidados se separaram e no lugar onde o garoto deveria estar só restou uma carta de baralhos e um peão branco. A garota pegou as únicas coisas que restaram do irmão e começou a chorar. A Rainha viu a jovem fugitiva e gritou:
–Tentando fugir de minha festa e ajudar um criminoso!? Cortem-lhe a cabeça!
Os soldados agarram a menina, que berrava pedindo clemência. Seus pedidos foram em vão e a menina foi arrastada até a guilhotina. A menina foi amarrada a tabua da guilhotina, com o pescoço posicionado para receber a afiada lamina. Charles gritou e correu em direção a jovem, tentando impedir seu triste fim, mas foi em vão. Quando chegou aos pés da maquina mortal, a Rainha deu a ordem e a lamina desceu com um zunido, silenciando o grito da pobre menina e decapitando-a. A cabeça da jovem rolou, sangue escorreu do seu pescoço degolado como uma cachoeira. A expressão no rosto decapitado da jovem era de pavor, e Charles pôde jurar que a cabeça sem pescoço piscou uma ultima vez e fecho os olhos. Foi quando Cheshire apareceu ao lado da cabeça, segurou-a pelos cabelos e soltou um suspiro. O corpo e a cabeça então desapareceram. Cheshire fez seu corpo sumir, e somente sua cabeça flutuava por sobre a Rainha e os convidados. Miou alto e todos os presentes ficaram muito assustados e começaram a correr e gritar, alguns pedindo misericórdia a Deus.
A Rainha, tomada pela fúria, apontava para Cheshire e ordenava que cortassem a cabeça dele. Charles, em meio a lagrimas de medo, raiva e tristeza, viu que a Rainha estava parada sobre a tabua da guilhotina cuja lamina havia sido reerguida. Correu, e, com um grito de triunfo, empurrou a Rainha de Copas na guilhotina. Cheshire, com seu largo sorriso, enrolou a cauda em volta da alavanca e a puxou. A lâmina, lubrificada pelo sangue fresco, desceu duas vezes mais rápido.
–Cortem-me a cabeça! – gritou a rainha com tom de pavor e ódio, antes de rápida lamina realizar seu trabalho. Para a surpresa de Charles, a cabeça sem corpo da Rainha, ainda gritava sua famosa frase, mas seu corpo sem cabeça levantou-se e começou a correr sem rumo pelo jardim, trombando com tudo que estava em seu caminho. Cheshire, ou melhor, suas pernas solitárias, andaram até a cabeça viva da Rainha e chutaram-na por sobre o muro do castelo e depois desapareceram.
Charles pegou os dois peões brancos e as cartas de baralho, um Rei de Ouro e uma Rainha de Ouro. Os convidados, agora mais calmos, pois Cheshire se fora, viram o que Charles havia feito com a Rainha de Copas e ficaram furiosos. Perseguiram Charles, mas ele foi mais rápido, pulando da guilhotina por sobre as cabeças dos soldados e correndo até o jardim frontal. Assim que chegou ao jardim frontal, uma enorme cerca viva de roseiras com rosas brancas manchadas de sangue cresceu atrás dele instantaneamente, impedindo a passagem dos perseguidores.
Charles voltou até a porta de entrada, onde se encontrou com Liz. Liz tinha a cara de quem viu um fantasma. A garota andara chorando. Ela percebeu que Charles também andara chorando. Charles perguntou o que havia de errado e Liz contou que enquanto explorava presenciou uma cena horrível. Viu uma garota de sua idade ser morta brutalmente por dois cavaleiros, um leão e um unicórnio. Mostrou para Charles a carta de baralho, uma Rainha de Paus e o peão branco. Charles também contou o que presenciou no campo de croquet, mostrando as cartas e as peças. Liz entregou a carta e a peça que ela achara para Charles.
–Esse lugar é perigoso! – disse Liz, que recomeçou a chorar. – São todos psicopatas aqui!
–Esse lugar é um pesadelo! Mas tenho medo de “acordar”. Temos que achar quem está por trás disso tudo! Temos que encontrar a Alice!
Após se acalmarem, resolveram procurar uma entrada para o castelo juntos, mas para a surpresa de ambos, descobriram que a porta da frente estava aberta agora. O interior do castelo era mais estranho que o exterior, assemelhando a uma construção abstrata, com escadas de ponta cabeça e corredores nos tetos. O castelo era velho, cheio de rachaduras e em ruínas. Não havia sinal de vida. Concluíram que o melhor lugar para achar a Espada Vorpal seria no arsenal. Pouco precisaram procurar, pois, apesar da estrutura esquisita, pareceu que o castelo os guiou exatamente onde queriam. , pareceu que o castelo os guiou exatamente onde queriam. Mas a Sala de Armas estava vazia. Resolveram procurar na Sala do Trono, mas dessa vez não foi fácil achar o lugar. Os corredores começaram a se tornar becos sem saída e muitas vezes sentiam estar andando em círculos. Havia salas onde o chão parecia o teto, e as mesas e cadeiras ficavam no teto, que parecia chão. Após andarem muito, chegaram a uma sala vazia onde todas as paredes eram totalmente espelhadas. Os espelhos tinham reflexos diferentes, como numa Casa de Espelhos dos parques de diversão. Alguns deixavam gordos, outros emagreciam, alguns deixavam altos e outros baixos. Achariam aquilo muito engraçado e passariam horas brincando com os reflexos, mas devida as circunstancias, aquele lugar era horripilante. Decidiram sair logo daquela sala, mas antes de chegarem a porta o chão ruiu sob os pés de Charles. Charles conseguiu agarrar-se na beira do buraco e Liz tentou puxa-lo para cima. Mas Charles escorregou e caiu na escuridão. O grito de desespero de Liz e seus reflexos ecoou pelo castelo.
Charles caiu por algum tempo e logo atingiu o fundo, mas incrivelmente não se machucou, caindo sobre algo macio que amorteceu sua queda. Era uma pilha enorme de colchões. Desceu da pilha e encontrou-se no esgoto do castelo. Foi então que ouviu um choro fraco vindo do túnel a sua frente. Seguiu em direção ao choro e encontrou uma menininha, encolhida num canto. A menina usava as mesmas roupas de Liz e das outras meninas que Charles encontrara. Ela era loira e muito jovem, aparentando ter sete anos.
–Você está bem? – perguntou Charles, docemente, para não assustar a garotinha. — Está perdida?
–Sim...- respondeu a garota que parou de chorar. – Como se chama?
–Eu sou Lew... Charles.
–Você vai me levar pra casa, Sr. Charles?
–Posso tentar. Vem. Vamos sair desse lugar escuro.
Charles deu a mão para a garota e enquanto procuravam uma saída, ela contou como foi parar lá. Contou que caíra num buraco e encontrará com o Coelho Branco. Seguindo o Coelho, passou por uma floresta e foi parar em um castelo. O Coelho entrou por um cano que dava no esgoto, e enquanto o seguia se perdeu e começou a chorar até que Charles apareceu. Charles indagou se todas as crianças que foram parar no País das Maravilhas vieram do mesmo jeito que ele. Chegaram a uma galeria alta e espaçosa. Água caia de canos localizados na parede, fazendo que a sala estivesse alagada até o joelho da garota. Charles perguntou se ela queria subir nos ombros dele, mas ela recusou. Começaram a atravessar quando Charles perguntou:
–Ei, você não me disse seu nome.
–Meu nome? Eu me chamo Alice. Prazer. – respondeu a garota, fazendo uma reverencia.
–Alice...? Alice!? Alice! – Charles se virou bruscamente se segurou a garota. – Você! Eu deveria tê-la reconhecido! Você está por trás de tudo isso!
–M-Moço, o senhor está me machucando! – disse Alice, chorosa. — Eu não sei do que você está falando!
–Pare de mentir! – retrucou Charles. – Você está por trás disso tudo! É o seu sonho! Você é a Alice da história! Me diga, por que nos trouxe para cá!? Como você fez isso!?
–Eu... não... sei! Solte-me, está me machucando! – Alice então mordeu o braço de Charles que a soltou. Ela então correu pela água e ele tentou segurá-la.
Ele a alcançou e agarrou Alice, mas quando olhou no rosto dela, viu que ela chorava muito e seus olhos mostravam o pavor que sentia. Charles ficou enojado de si mesmo, tratando uma menina indefesa como um monstro. Era o lugar, concluiu. O País das Maravilhas estava deixando ele louco, como todos os seus habitantes. Precisava sair dali. Precisava acordar daquele pesadelo antes de ficar tão louco quanto o Chapeleiro. Soltou a menina e, de repente, um alto rugido tomou conta do lugar. O chão tremeu e as paredes racharão. Uma forte rachada de vento tomou conta do local. Um segundo rugido e uma das paredes quebrou. Do buraco saiu uma enorme criatura alada, com olhos brilhantes como fogo. A criatura tinha garras enormes e uma boca aberta cheia de dentes afiados. Seu pescoço era comprido como uma cobra e tinha uma cauda de lagarto. Era o Jabberwocky
A criatura voou por sobre as crianças na tentativa de apanha-las com suas garras. Alice jogou-se em um canto onde ficou gritando e Charles esgueirou-se para dentro de um dos enormes canos. O garoto tentou chamar Alice, mas ela o ignorava. O Jabberwocky voou contra o teto, que começou a desabar. Charles tentou voltar para resgatar a menina, mas o teto desabou antes que conseguisse, bloqueando a passagem do cano e provavelmente matando a jovem. Charles ouviu o Jabbewocky, ainda vivo, tentando cavar um caminho para alcançar Charles. Desesperado, o garoto fugiu cano acima.
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O cano terminava num largo corredor do castelo, com apenas uma única porta dourada. Ao julgar pela decoração da porta, Charles concluiu que a porta devia dar na Sala do Trono.
–A Liz deve estar lá... – falou consigo mesmo, tristemente. Foi então que uma ideia percorreu a suma mente. Tirou do seu bolso as cartas e as peças, incluindo as suas. Havia sete peças e sete cartas. Notou que sua carta havia magicamente ganhado um naipe. Agora era um Rei de Copas. Sete cartas, quatro reis de copas, ouro, paus e espada; e três rainhas de ouro, paus e espada. Deduziu que a garota que fora soterrada, Alice, possuiria a oitava peça e a Rainha de Copas. Tudo estava claro agora. Como Liz aparecia tão convenientemente nos diversos lugares do País das Maravilhas, como ela havia desaparecido enquanto perseguiam o Coelho, como sabia da Espada Vorpal, mas não mencionou falar com o Gato de Cheshire. Tudo se encaixava agora. “Eu sou a Liz.” – A Liz. Aliz. Alice!
Charles correu até a porta. Sabia quem encontraria na outra sala, e ao entrar, comprovou suas suspeitas. Lá estava Liz, segurando uma Espada, a Espada Vorpal. Ela se virou e olhou para Charles. Seu olhar era de lunática, seus cabelos estavam emaranhados e ela tremia. Ela apontou a espada para Charles e disse:
–É tudo um sonho! É só um sonho! Vamos acordar logo, como os outros! Quatro garotos e quatro garotas! Um por um acordando! Só resta um! – a garota deu uma risada histérica. – Diga-me Lewis, você é quem vai me despertar desse sonho?
–Que comece o julgamento! – gritou uma voz. Só então que Charles percebeu que aquilo não era uma sala do trono, mas um tribunal. O dono da voz era o Coelho Branco, e no banco do Júri estavam as mais variadas criaturas. Charles os ignorou, concentrando apenas em Liz. Disse:
–É você! Você esteve por trás de tudo isso! Você é a Alice, Liz!
–Eu, Alice? Todo mundo é a Alice neste mundo louco! Eu, você, o Coelho, Cheshire! Ele me disse! Ele me contou sobre você, Lewis! Disse que você é quem vai trazer meu despertar, a não ser que eu te desperte primeiro! Esse pesadelo acaba agora!
Liz correu em direção a Charles com a espada, mas os movimentos dela estavam debilitados e Charles esquivou-se facilmente. Numa tentativa de acerta-lhe os pés, Liz acertou a espada no chão, que voou de sua mão com o impacto. Charles agarrou a espada e a segurou contra Liz.
–Isso acaba agora! Você vai pagar por todas as mortes que causou!
–Sim! Eu os matei! – admitiu Liz. — Matei aos quatro! Eles mereciam morrer!
–Culpada! – gritou o júri em coro.
–Por que!? Por que nos trouxe para cá!? Por que os matou!? – perguntou Charles.
– Eu os matei por que eles foram que causaram tudo isso! O Rei Vermelho, é ele quem sonha conosco, com as Alices! E as Rainhas permanecem indiferentes! São todos culpados do mesmo crime!
–Rei Vermelho? Rainhas? – foi então que Charles notou os quatro tronos localizados na sala, ao lado da bancada do Juiz. Nos tronos estavam os corpos do Rei Vermelho, Rei Branco, Rainha Vermelha e Rainha Branca, todos mortos por uma espada. Também reparou a lamina das Espada Vorpal suja de sangue.
Antes que pudesse reagir, o Coelho Branco saltou da bancada do Juiz, empurrando Liz contra a Espada Vorpal que atravessou seu ventre. O Coelho então deu uma longa risada, e disse:
–Apresse-se, Lewis! A Rainha Alice vos espera! – e saltitante saiu da sala, ligeiro.
–Liz! – Charles removeu a espada e agarrou a garota, tentando estancar o ferimento. – Me desculpe!
–É... esse... lugar... Deixa... todos... loucos. — uma única lagrima escorreu do rosto da garota. Charles não sabia se era dele ou dele. – Eu fiquei... louca... Você... ficou louco... também... Está tudo bem... vou acordar... agora...
–É... você vai acordar agora. – confortou o garoto, chorando.
–Até... amanhã... – disse a garota, em seu ultimo suspiro.
–Até... – foi a única coisa que Charles pode dizer. Liz então desfez-se como areia em seus braços, em seu lugar restou apenas, como todas as outras vezes, uma peça de xadrez e uma carta de baralhos. A Rainha de Copas.
–Hahahaha! Hihihihi! Parece que você é quem restou! – disse uma voz jovial e feminina.
Charles olhou em volta, mas não havia ninguém por perto. Ouviu novamente a risada, que pare sua surpresa, pareça vir do seu bolso. Investigou o bolso e encontrou o espelho de mão entregue pelos lacaios. Olhou no o espelho que estava agora rachado, e viu que atrás dele estava uma garotinha loira usando uma bela coroa dourada enfeitada com as mais brilhantes joias. Era a Alice que foi soterrada. Charles olhou por sobre os ombros não havia ninguém atrás dele. A garota estava no espelho, estava além do espelho.
–Você! Era você o tempo todo!
–Foi fácil engana-lo, senhor. – respondeu Alice, com uma risada graciosa. – Confesso que pensei que a garota iria ser quem sobraria, mas ao invés disso foi você, Lewis. Quanto Cheshire falou aquelas mentiras sobre você, ela enlouqueceu, pensando que você queria mata-la. E no final, as mentiras não foram tão mentirosas.
–Eu não a matei! Foi o Coelho Branco! Foi você! A Alice que era o Coelho!
–Você foi o Júri e o Juiz nesse tribunal. – retrucou a garota. – Eu apenas fui o Carrasco.
–Você vai pagar por isso! Eu farei você pagar!
–Então venha me pegar, se puder!
Uma ideia louca percorreu a mente de Charles. Ele pegou a Espada Vorpal e segurou o espelho contra o rosto. Logo em seguida, forçou sua mão contra o espelhinho. Para sua surpresa, foi como se o espelho não tivesse vidro, permitindo com que sua mão passasse facilmente. Quando chegou até o cotovelo, sentiu como se algo puxasse seu braço. Foi puxado para o outro lado do espelho que pareceu se alargar permitindo que seu corpo passasse por inteiro. Quando entendeu o que se passara, já se encontrava na sala além do espelho. A sala era exatamente igual a anterior, exceto pela ausência das bancadas do tribunal e os tronos e pelo estado do local, que parecia novo. Tão normal aparentava ser o lugar em relação ao outro lado que qualquer um poderia acreditar que já não estava mais no País das Maravilhas. Mas a menina loira provava o contrario.
Alice correu pela porta e Charles a seguiu. Para a sua surpresa, não estava mais no castelo ao cruzar a porta, mas sim num bosque calmo, com cercas dos lados e um riacho logo à frente. Alice cruzou o bosque e atravessou o riacho, indiferente aos chamados de Charles. Quando o garoto andou metade da distancia até o riacho, uma rugido alto soou pelo bosque e o som das arvores caindo foi ficando mais alto, até que um vento forte atravessou o bosque, derrubando Lewis. Uma forte luz alaranjada iluminou o local e então o Jabbewocky apareceu e pouso diante dele, pronto para atacar. Charles segurou a Espada Vorpal e ergue-a diante dos olhos da besta. Ao ver a temida espada, o Jabbewocky recuou assustado. A besta reconheceu aquela espada como a única coisa que poderia mata-lo. Charles ergueu-se e começou a avançar em direção a besta, que dava pequenos botes assustada. Quando a criatura tentou voar para fugir, cometeu um erro, deixando o pescoço expostos. Charles aproveitou o momento e desferiu um golpe ligeiro com a espada, decapitando a besta, que cai morta no chão com um estrondo.
Após a morte da besta, o bosque iluminou-se, pequenas criaturas semelhantes a texugos misturados com lagartos e com um nariz parecido com um saca rolhas apareceram e começaram a dar piruetas e cavar buracos. Pássaros estranhos com longas e pernas e aparência de um esfregão apareceram também e juntos deles estavam pequenos porcos verde. As criaturas ignoraram completamente a presença de Charles e do Jabbewocky sem cabeça. Charles atravessou o riacho e, após atravessar algumas fileiras de árvores, chegou ao fim do bosque. Do outro lado, estava um dos cenários mais belos que Charles já viu. Um campo verde com uma colina, no alto da colina estava uma arvore grande. Uma brisa suave soprava, o sol brilhava gentilmente e o canto dos pássaros podia ser ouvido. Alice começou a correr colina a cima e Charles a seguiu. Alice parou pouco antes do topo e disse:
–Esperava que a nova Alice fosse uma das garotas, mas para minha surpresa foi um garoto. – a menina sorria um sorriso largo. – O Rei de Copas. Você, Lewis.
Então a garota sumiu diante de Charles, exceto pelo sorriso. Quando reapareceu, não era mais uma garota, mas sim um homem gato.
–Cheshire! Era você, e não Alice!
–Você ainda não compreende. Eu sou Alice. Todo mundo neste País é a Alice. Somos todos criados pela imaginação dela, pelo sonho dela. Você conheceu varias facetas de Alice, normais, ansiosas, controladoras, psicopatas. Eu sou a Alice mais fiel à Alice, represento sua imaginação, sua loucura na forma mais pura, sou a manifestação de todo o seu poder. Alice trouxe sim você para cá, mas através de mim.
–Mas por que? Por que raptar crianças e trazê-las para esse lugar terrível?
–O País das Maravilhas, há muitos anos atrás, já foi um belo sonho, como esse que você vê aqui ao seu redor. Um sonho sonhado por uma bela jovem chamada Alice. Ela sonha com o País enquanto dorme eternamente, soprando a vida do País das Maravilhas e seus habitantes. Esse sonho já foi visitado por várias pessoas e uma delas, que tinha o mesmo nome que você, Lewis, escreveu um livro sobre nosso País e a garota que o torna possível. Mas com o passar do tempo, Alice ficou mais fraca e incapaz de sonhar e seu sonho foi ficando mais decadente, se tornando o que é agora. Então, para permitir que a existência do País das Maravilhas permaneça, precisamos de alguém que possa sonhar conosco. Oito crianças que mantinham uma conexão com o País foram escolhidas e tomadas da superfície, do mundo real. Você é uma delas. Elas foram testadas pelo País das Maravilhas até sobrar apenas uma, aquela que se tornaria a próxima Alice. E essa criança é você, Lewis. Você é a próxima Alice.
–Isso é cruel! Você fez todas essas crianças sofrerem!
–É cruel, eu sei, mas você não pode escrever País das Maravilhas sem “má”. É um mal necessário para a existência do País e de seus habitantes, mas se lutar pela sobrevivência me torna uma pessoa má, prefiro ser mau do que morto.
–Espera, conexão com o País das Maravilhas? Como assim?
–Hora, a sua conexão é óbvia. Você a carregava ela sob o braço quando veio para cá. O Rei de espadas fazia uma peça de teatro sobre o País, o Rei de Paus tinha como filme favorito um baseado no País. O Rei de Ouro lia a nossa história para a rainha de Ouro antes de dormir. A Rainha de Espadas foi fantasiada de Alice numa festa temática. A Rainha de Paus também lera o livro e a Rainha de Copas, ela carrega em si o sangue da Alice original. Por isso acreditei que ela seria a escolhida, mas estava errado. Venha.
Cheshire guiou Charles até o topo da colina, que seguiu sem hesitação. No topo, encostado junto à árvore estava um trono grande e adormecido sobre ele estava uma garota. Não parecia muito com a ilustração da Alice do livro que Charles leu. Ela usava um vestido azul e branco sim, mas era mais velha, provavelmente da mesma idade que Charles, tinha cabelos longos, lisos e ruivos e sardas no rosto. Segurava em suas uma carta de baralho, um Ás de Copas, e sobre seu colo estava um tabuleiro de xadrez com apenas duas peças, a Rainha Vermelha e o Rei Vermelho. Ao seu lado estava uma bandeja com um bule e uma xícara de chá. O vapor e o doce aroma que emanava dos dois indicava que estavam quentes ainda. Cheshire quebrou o silencio:
–Linda, não é? Devo minha vida a ela. O Ás de Copas. A de Coração. Alice é o Coração deste País. Ela é o Rei desse jogo, e eu faço o papel de Rainha, observando a todos e tornando a vontade do Rei possível.
–O que quer de mim?
–Oh, é simples. Essa Alice já está cansada de sonhar, sua mente não aguenta mais. Tudo que você tem que fazer é tomar o lugar dela e sonhar com o País das Maravilhas.
–Por que eu faria isso!? – perguntou Charles, indignado. – Eu só quero ir pra casa! Me ver livre desse sonho ruim!
–Para dar descanso a essa garota, Lewis, você tem que tomar o lugar dela. E só a duas maneiras de sair deste sonho ruim. Acordando, como os outros fizeram, ou tornando esse pesadelo num sonho bom. Acredito que acordar não é sua escolha. E se lhe serve de incentivo, tomar o lugar de Alice o tornará o Deus deste lugar. Não é incrível?
–E seu eu recusar? E seu eu decidir acordar como os outros? O que acontece comigo?
–Eu não sei o que acontece quando uma pessoa acorda. Sei apenas o que acontece enquanto elas estão aqui. E se decidir acordar, eu apenas retirei o processo escolhendo outras oito crianças para passarem pelo mesmo que você passou. De qualquer modo, encontrarei alguém disposto a se tornar a Alice.
–E se eu aceitar? – perguntou Charles. — O que acontecerá com essa Alice?
–Acordará como os outros. – respondeu Cheshire.
–Isso é horrível!
–Não creio que acordar seja tão horrível quanto pense.
–E se eu mata-la? Acabar com ela com essa espada?
–Que espada? – perguntou Cheshire. Charles olhou para sua mão. A espada havia sumido. – Enquanto está dentro desse País, vive sobre as regras desse País. E quem faz as regras deste País somos eu e ela. Se quiser tentar, até pode, mas aviso-lhe que será desperdício de energia. Então, qual é a sua escolha?
–Eu...
–Tome seu tempo para decidir. – Cheshire então pegou o peão de Charles e colocou na sétima casa da rainha. – Quando estiver pronto, faça sua jogada, realize um cheque-mate e torne-se o novo Ás de Copas. Mas não demore tanto. O País das Maravilhas não tem tanto tempo sobrando.
–Quantas Alices já existiram? Quantas pessoas já deram vida a esse sonho desde a Alice original?
–Talvez muitas, talvez nenhuma. Não sei ao certo. Minhas memórias se limitam ao momento que essa Alice começou a sonhar comigo. Todo o resto é como um sonho. Talvez tenham havido muitos Cheshires antes de mim ou talvez eu seja o original. Uma coisa é certa, logo, eu serei outro Cheshire, assim que você ou alguém tomar o lugar desta garota e então minha vida sonhada por ela será realmente apenas um sonho. E então, qual a sua escolha?
Charles olhou para a Alice adormecida. Ela parecia tão feliz e calma. Indagou se ela podia realmente vê-lo. Indagou o que aconteceria com a jovem caso se escolhesse tomar o lugar dela. Indagou o que aconteceria com ele se tomasse o lugar dela. Indagou se poderia voltar pra casa caso acordasse, ou se morreria. Indagou se sua família estava preocupada com ele. Indagou quanto tempo se passara desde que caíra no buraco. Indagou se aquilo era mesmo um sonho da Alice, ou se era apenas um pesadelo que estava tendo. Indagou se não era uma alucinação causada pela queda. Indagou se não acordaria no hospital após tudo estar acabado. Indagou se Liz e os outros eram reais. Indagou se faria a escolha certa. Indagou se fez a escolha certa.
Charles aproximou do seu peão no tabuleiro, segurou-o e disse:
–Espero estar fazendo a escolha certa...
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Segunda, dia 15.
Os médicos disseram que seria bom se eu começasse a escrever um diário, que poderia ajudar-me a recuperar a memória. Acho melhor começar contando o que eu lembro, o que é estritamente muito pouco.
Lembro-me de ter tido um sonho esquisito sobre uma terra maravilhosamente louca e estranha com relógios, sorrisos, chapéus, tabaco, coroas, ovos, croquet, cartas de baralho e jogos de xadrez. Meu sonho tinha crianças, tenho certeza, meninos e meninas. Mas o conteúdo do sonho está enevoado. Lembro-me de estar atrasada e que deveria me encontrar com alguém importante.
Tive esse sonho antes de acordar na cama deste hospital sem memória de nada, nem mesmo meu nome. Os médicos disseram que eu apareci na desmaiada na porta do hospital com nada exceto a roupa do meu corpo e um pequeno livro. Por algum motivo estranho, receio em ler este livro que está em minha cabeceira. Sinto que ele guarda segredos terríveis.
Terça, dia 16.
Uma simpática enfermeira me disse que devemos começar todos os dias do diário com a frase “Querido Diário,” porque fica mais fácil para escrever os meus pensamentos. Achei isso muito divertido, então vou tentar dessa vez.
Terça, dia 16, de novo.
Querido Diário,
Deixaram-me sair hoje. No jardim encontrei um lindo gatinho que ficava me seguindo por todo o lado. Ele parecia feliz. Achei apropriado chama-lo de Cheshire. Não sei porque esse nome me ocorreu, mas achei apropriado.
Um garoto passou pela rua e sorriu para mim. Fiquei toda vermelha. Ele me parecia familiar.
PS: Usar aquela frase realmente faz as palavras fluírem. Estou impressionada.
Quarta, dia 17.
Querido Diário,
Li aquele livro de cabo a rabo. É sobre uma garotinha que se perde em um país de loucos chamado País das Maravilhas. Muito parecido com o meu sonho. O gato de lá chamava Cheshire e ele estava sempre sorrindo. Acho que costumava ler esse livro antes de perder a memória e é por isso que tive aquele sonho.
Alguém deixou flores e uma xícara de chá para mim enquanto eu dormia. Achei as flores lindas, mas o chá era curioso. Nenhuma enfermeira jamais me serviu chá. Perguntei mais tarde para uma delas se alguém havia trazido chá. Ela disse que não. Achei isso muito esquisito, mas o chá estava delicioso. Confesso que o bilhete escrito BEBA-ME” me assustou um pouco, mas achei divertido, pois era igual no livro. Infelizmente (ou felizmente) não fiquei enorme.
Quinta, dia 18.
Querido Diário,
Hoje tive minha primeira visita! Era o mesmo menino que sorriu para mim aquele dia! Ele é meio jovem, deve ter uns 14 anos, mas é bonitinho. Ele usava uma roupa estranha, meio antiga para a idade dele: uma camisa branca de botões e shorts azuis celestes antiquados. Apesar das roupas estranhas, ele era bem simpático e conversamos como se nos conhecêssemos a muito.
Perguntei se ele me conhecia antes de eu perder a memória. Ele disse que não exatamente, mas disse que já sonhou comigo e que eu já sonhei com ele. Talvez seja por isso que ele me parecia tão familiar.
Foi ele quem me trouxe as flores e o chá naquele dia. Quando ele viu o livro na cabeceira, perguntou se eu gostava da história. Respondi que sim. Ele disse que adorava aquela história, tanto que chegava a sonhar com ela. Quando disse que sonhava com ela também, ele disse que nós devíamos ser loucos. Rimos muito.
PS: O nome do garoto é Lewis.
Sábado, dia 21
Querido Diário,
Desculpe por não ter vindo ontem, mas Lewis e eu nos divertimos tanto que acabei esquecendo. Apresentei-o a Cheshire. O gatinho pareceu gostar muito dele. Lewis e eu temos tanto em comum, gostamos das mesmas coisas, nos divertimos muito e ambos temos ideias malucas. Ele é um primeiro e melhor amigo.
O policial disse que não conseguiu achar nada sobre mim ou minha família. Fiquei triste, mas Lewis me confortou. Ele também não tem família, mas disse que se vira muito bem sem ela. Não quero ficar sem uma família, mas se eu ficar, espero que Lewis me ensine a me virar sozinha.
Domingo, dia 22
Querido Diário,
Lewis me visitou de novo, mas hoje não conversamos muito. Ele estava meio distante, como se sonhasse acordado. Quando perguntei o que o preocupava, ele não me respondeu.
Tenho que confessar algo embaraçoso... eu fiquei com um pouco de sono e deitei-me no colo de Lewis. Como ele não fez menção de estar incomodado, acabei dormindo no colo dele e acabei sonhando com ele. No sonho, estávamos num colina com uma arvore. Tinha chá. O pequeno Cheshire estava sentado num galho alto da árvore. Lewis parecia triste ou sonolento, não tenho certeza. Disse que ele tinha que ir embora. Disse que o sonho que eu chamava de realidade não era para ele e ele desapareceu. Foi esquisito. Quando acordei, estava na meu quarto no hospital.
Quinta, dia 26.
...Lewis não apareceu mais. Por isso fiquei tanto tempo sem escrever aqui. Confesso que fiquei muito triste por ele não vir me visitar mais. Ele era meu único amigo.
Brinquei sozinha com Cheshire a tarde toda.
Domingo, dia 29.
Não tive tempo de escrever mais. Dei voltas pela cidade acompanhada de uma enfermeira para ver se isso reacendia minhas memórias. Muitas coisas me pareceram familiar. Sinto que minhas memórias estão voltando aos poucos.
Algo muito estranho aconteceu:
Sonhei com Lewis novamente esta noite. Já é a terceira vez que eu sonho com ele desde que ele sumiu. Ele disse que eu deveria parar de ir visitá-lo, pois o mundo dele e o meu deviam permanecer separados o máximo possível. Não entendi o que ele quis dizer.
Resolvi perguntar para uma das enfermeiras sobre Lewis. Isso foi a parte estranha. Nenhuma delas soube me responder. Disseram que não havia registros de nenhum garoto me fazendo visitas, e que nunca me viram com ele. Aquilo me assustou muito.
E se Lewis foi fruto da minha imaginação? E se ele nunca existiu? E se eu estou ficando louca? Como posso saber o que é real ou não?
Segunda, dia 30.
Querido diário,
Li mais uma vez aquele livro e cheguei a uma conclusão sobre Lewis e as perguntas que eu fiz ontem.
Não importa se Lewis é real para os outros ou não, pra mim ele é. Ele foi um ótimo amigo e jamais o esquecerei se nunca mais o vê-lo.
Se eu estou ficando louca, gosto de ser louca. Não importa o que é real ou não. Realidade é algo subjetivo. Um sonho pode ser tão real quanto o que nós chamamos de realidade. O que é realidade? Apenas um conjunto de sensações cremos ser reais. Por isso, meus sonhos e os sonhos da garota do livro pareciam tão reais. Porque eram reais, pelo menos para quem sonha.
Ah! Lendo aquele livro me fez quase recordar-me do meu nome. É parecido com o da personagem do livro. É algo como Alice, Licia, Liz, Celia...
Tenho certeza que logo me lembrarei.
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