PROUD

1 IT'S OKAY



“Eu lembro do mundo pelos olhos de uma criança. Lentamente esses sentimentos foram encobertos pelo o que eu sei agora”.


Os Stark se orgulhavam de dizer que eram os melhores do mundo, pois, afinal, tinham o mundo aos seus pés. Eram as únicas pessoas que Steve Rogers conhecia, cujo os egos sem limites, podiam realmente ser capaz de causar uma Terceira Guerra Mundial, mas também cativar corações alheios com extrema facilidade... como o dele, para bem falar a verdade.

― Você acha que eles ficarão bem? ― viu-se perguntando a Natasha Romanoff, parada ao seu lado, um pouco depois de desviar o rosto da triste cena à sua frente: o funeral de Pepper Potts.

― Acho que sim. ― a ruiva murmurou em resposta, evitando contato com Rogers. Steve estranhou, mas sabia tão bem quanto os outros que Natasha não era de demonstrar sentimentos publicamente. Ainda que seus olhos vermelhos fosse um sinal de que a morte de Pepper atingia não somente os Stark, mas também todos à sua volta. ― Pelo menos, eu espero... deve ser terrível perder uma mãe.

Sim, com certeza era. Steve estava a tempo demais nesse mundo para saber que qualquer tipo de perda tinha o seu peso. A perda de um melhor amigo. A perda de um amor. Todas elas costumavam marcar as pessoas, então, não era de se estranhar o comentário de Natasha. Ainda que tanto quanto a ruiva, ele também esperasse o melhor para Allison, a filha única de Tony e Pepper, que naquele momento se abaixava até o chão e pegava entre as mãos um punhado de terra, para logo depois jogá-lo sobre o caixão vazio da mãe.

Haviam muitas pessoas ali. Steve tinha certeza que Tony não queria aquilo. Mas duvidava que ele fosse aparecer para fazer sua reclamação. Há cerca de três dias, Stark proibira a entrada de qualquer heroi na Torre, apenas sua filha tinha acesso ao local. E não era como se Allison se importasse em facilitar a vida de alguém... pelo menos, foi o que ele pensou, até o momento em que do nada a garota acertou um certeiro soco no meio da cara do primeiro repórter que começou a lhe fazer perguntas, causando uma grande confusão e burburinho por ali. Dando certeza a Steve de que ela realmente era uma garota difícil.

“Oh! Olhem só... a garota tem problemas tadinha”.

“Deviam ter a educado melhor”.

“Eu sabia que teria barracos”.

Esse foi o nível dos comentários que os Vingadores tiveram que ouvir, e isso não agradou nenhum deles. O sempre calmo e pacifista Bruce Banner fechou as mãos em punhos. Steve e Natasha trocaram olhares apreensivos. Mas o primeiro a agir foi Clint. Aproximando-se da garota como um heroi em resgate, ele a tirou do meio do aglomerado de repórteres abutres, e a levou para longe dali, enquanto recebia a ajuda de Happy, o fiel motorista de Stark.

― Me solta, Barton! Eu vou quebrar os dentes de todos eles. Me solta! Ninguém tem o direto de fazer isso... ninguém...

Clint ainda arrastava sua pupila para fora do cemitério com bastante facilidade. Mesmo que seu treinamento tivesse melhorado bastante, na visão dele, Allison ainda continuava a mesma garotinha magrela e destrambelhada. Mas naquele momento, muito além disso, ele conseguia enxergar o que todos diziam: ela era uma leoa, feroz e orgulhosa. Estava tão irritada pelo circo promovido pela imprensa que nem ao menos percebia as lágrimas que rolavam por seus olhos castanhos esverdeados.

― Tudo bem, Allie. Eu sei... eu sei...

Tanto quanto Natasha, Allison também era péssima em demonstrar sentimentos. Gostava de fazer a linha durona, e enchia a boca para falar que havia aprendido com os melhores. Nem todos na S.H.I.E.L.D., ou em qualquer outro lugar, costumavam simpatizar com Natasha Romanoff, mas para Allison Stark, a Viúva Negra era um exemplo a ser seguido, tanto quanto Clint Barton. É claro que seus pais haviam sido contra no início, mas quem melhor para treinar a filha do Homem de Ferro do que os próprios agentes número um da maior agência de espionagem do planeta?

Clint queria dizer muitas coisas a garota. Queria expressar o quão orgulhoso se sentia por ter ela como aprendiz, mas não conseguiu dizer nem metade do que pretendia. No segundo seguinte, sem a menor delicadeza, Happy os empurrou para dentro do carro, e saiu cantando pneu pelas ruas de Nova York, os levando para longe dali.

Sentada em seu canto, encolhida em posição fetal, Allison fechou seus olhos e deixou-se apreciar o silêncio. Poderia reclamar e continuar a gritar, mas para falar a verdade não tinha forças para isso. Lhe espantava bastante ter tido ânimo para enfrentar Clint, que aliás, segurava a mão dela com tanta força que poderia quebrá-la com muita facilidade, caso quisesse.

― Você está bem?

Definitivamente seu riso baixo e nervoso não era exatamente o que o Gavião Arqueiro esperava naquele momento. Allison sabia disso, e até se sentiu um pouco egoísta pelos pensamentos que lhe passaram em mente.

― Sim, eu estou viva, não é mesmo?

A resposta pareceu chocar ainda mais Barton, e a verdade é que ela não se importou com isso. Para todos os efeitos, sua mãe estava morta, mas ela ainda estava ali, viva. Assim como seu omisso pai, mais conhecido como o famoso Tony Stark.

Oh sim! Allison tinha uma ou duas coisinhas para dizer ao seu pai quando o visse...

Quando chegaram em frente a Torre, Happy acabou utilizando uma das entradas do fundo a fim de evitar os repórteres que a cercavam. Sem esperar por qualquer orientação, ou palavra amiga que pudesse sair do possível silêncio constrangedor que começava a se formar ali, Allison saiu do carro, atravessou a garagem, ziguezagueando entre os diversos carros caros do pai, até alcançar o elevador, que por uma sorte do destino não demorou a abrir às portas.

“Olá, senhorita Stark! Devo dizer que sinto muito sobre...”

― Corta essa, J.A.R.V.I.S.! ― ela disse rudemente, encarando o teto do elevador. ― Apenas me leve até o meu pai.

“Como quiser, senhorita”. A voz robótica respondeu após alguns segundos de silêncio e, no instante seguinte, o elevador começou a se movimentar. Por um momento, pensou em dizer algo... mas, bem, tinha outras prioridades. J.A.R.V.I.S. poderia esperar por sua retratação.

Observou os números mudarem com incrível rapidez, e quando o elevador parou no 54, já devia ter imaginado. É claro que seu pai só poderia estar ali... na oficina. Deixou o elevador para trás, seguiu direto por um corredor bem iluminado e branco até dar de cara com um pequeno lance de escadas. Desceu calmamente, ainda que o som de suas botas contra o mármore deixasse bem claro o quão sem paciência ela estava.

― Que barulheira é essa? Mais parece um trotar de cavalo...

Bem, seu humor “melhorou” consideravelmente após este comentário. Tony Stark, o famoso Homem de Ferro, e também seu pai nas horas vagas, encontrava-se jogado no chão, em meio a várias carcaças de armaduras, enquanto segurava uma garrafa de whisky em mãos.

Allison rolou os olhos diante da cena. Não esperava algo diferente. Afinal, Tony ainda se culpava pela morte de Pepper. Allison sabia que o pai não tinha culpa alguma. Sabia que o responsável por tudo o que havia acontecido tinha outro nome e sobrenome: Aldrich Killian, o idiota responsável por desenvolver uma nova arma destruidora com o nome de Extremis.

― Levanta daí. ― sem a menor cerimônia, Allison venceu a distância que a separava do pai, e o chutou nas pernas, ganhando como resposta alguns resmungos ininteligíveis.

Rolou os olhos mais uma vez, e disse:

― Tudo bem. Mas eu esperava mais de você, Tony Stark.

Virou as costas pronta para sair dali. Não podia perder tempo com bobagens. No entanto, sentiu uma força repentina em suas pernas. Olhou para o chão. Agora, Tony a encarava.

― Não me chame de Tony Stark. ― ele disse com a voz um tanto que atrapalhada. ― Para você continua sendo ‘papai’, mocinha.

Allison rolou os olhos outra vez. Mesmo que já fosse grandinha. Com idade suficiente para cuidar de seu próprio nariz, tanto seu pai quanto sua mãe insistiam nessa história dela chamá-los de ‘papai e mamãe’ como se ela ainda fosse uma garotinha de quatro anos, e não uma jovem de vinte e um. Pepper já não estava mais entre eles, mas o fato de Tony trazer isso à tona, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo, fez com que ela amolecesse um pouco seu coração inquieto.

― Ok, eu ajudo você. ― foi o que ela disse, sem esperar por respostas. Passando seus braços sobre o corpo de Tony enquanto o erguia do chão com certa dificuldade... mas nada que uma garota auto-suficiente como ela não pudesse resolver.

Largou o corpo do pai sobre o sofá de couro disposto no canto do mini bar que havia dentro da oficina, e se dirigiu até a mesa metálica a sua esquerda, de onde conseguiu avistar um moderno arco e flechas disposto sobre a superfície. Sem dizer nada, começou a mexer nos fios, testando a flexibilidade e movimento de seu arco (um presente de Clint). Estava tão entretida com seu equipamento, que nem ao menos, notou a aproximação cambaleante de Tony.

― Eu sinto muito. ― ele disse de repente, colocando-se ao lada dela. ― Sinto muito por não ter estado lá com você. É só que... eu não podia, sabe? A ideia de um caixão me parece...

― Tudo bem. ― Allison respondeu, voltando-se para o pai com um meio sorriso. ― Eu te amo. E tenho orgulho de nós. Eu fiquei brava por ter ficado sozinha, é verdade... mas isso não importa mais. Eu realmente te entendo, e penso o mesmo que você.

Nem sempre pai e filha concordavam, principalmente no que se referia a vida amorosa da garota. Nenhum dos Vingadores, com excessão de Thor, haviam ficado alegres quando Loki e Allison haviam demonstrado interessem mútuo, um sobre o outro, após a primeira reunião dos Vingadores... mas ainda que sua garotinha fosse tão diferente dele e de Pepper, continuava sendo uma Stark, e os Stark nunca se deixavam abater por tragédias. Tony havia perdido seus pais no passado, mas não aceitaria perder mais alguém... o problema é que Allison também não aceitaria. Enquanto Tony só tinha olhos para a filha naquele momento, os pensamentos de Allison estavam bem distantes.

Não podia aceitar a morte de Pepper Potts. Sua mãe simplesmente não podia ter deixado de existir... e ela sabia que sua intuição estava certa. Se não havia um corpo, então, como podiam ter tanta certeza de que ela estava realmente morta?

― Eu também te amo. E sinto orgulho de nós. ― foi o que Tony respondeu antes de abraçar a filha, mal sabendo que ela estava prestes a iniciar a mais nova aventura dos Vingadores.





Notas finais
- Em alguma parte do multiverso, talvez, isso tenha realmente acontecido <3 - A citação do início é um trecho da música FIELD OF INNOCENCE do Evanescence.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!