PRISM - A Última Heroína (The NEXT)
7 Capítulo 6
Notas iniciais
Março de 2307
"Só nos curamos de um sofrimento depois de o haver suportado até ao fim." — Marcel Proust
Suzanne andava de um lado para o outro em seu quarto, a garota estava extremamente inquieta. O motivo de tal inquietude vem do fato de ainda não ter recebido nenhuma mensagem de Andrew.
Devido a pouca manifestação da PRISM nos últimos meses os resistentes acabaram se acomodando um pouco, e com isso se instalou um pequeno caos na resistência.
– Por que você me deixou no comando, seu louco? — Suzanne sussurra olhando para uma foto de Andrew.
Enquanto a garota continuou andando frustrada pelo seu quarto, Luck, seu tigre, percebeu certo zumbido e imediatamente ficou alerta. A garota percebe a repentina mudança de humor de Luck e rapidamente vai a seu encontro.
– O que foi, garoto? — ela perguntou preocupada.
Suzanne começou a afagar os pelos do animal, o zumbido se intensificou, sendo possível que ela o ouvisse também.
Ela levantou e começou a procurar o que estava provocando o zumbido, acabou encontrando o objeto responsável por tal barulho em cima da cômoda de seu quarto. Ela passou a analisar o objeto e por fim acaba acionando um mecanismo.
– É bom lhe ver novamente, Suzanne. — Um ser fala para a garota através do agora descoberto comunicador. O ser é bastante interessante. Ele possui penas por todo o seu corpo, de coloração marrom, uma protuberância no rosto como se fosse um tipo de bico. Seus pés pareciam com os de um pássaro. O corpo do ser lembrava vagamente o de um humano.
– É bom lhe ver novamente também Rum-Alfa — ela diz sorrindo.
– É melhor eu ir direto ao assunto, não temos muito tempo. O que vou te dizer pode ser um pouco chocante, desde que começamos a nos falar você vem me perguntando o porque de nosso interesse no seu planeta, resolvi finalmente revelá-lo. — ele disse observando a reação da garota.
– Finalmente! Pode falar estou preparada. — Suzanne falou com expectativa.
– Com o começo da ditadura das máquinas, passou a haver o temor de várias outras raças alienígenas em relação ao seu planeta. E devido a esse temor as expedições para a Terra diminuíram intensamente. Acontece que seu planeta é responsável pelo abastecimento de matéria prima para outros planetas. — O Rum disse calmamente.
– Como assim matéria prima? — Suzanne perguntou curiosa.
– Você deve saber que seu planeta é um grande produtor de lixo. O lixo pode não ser muito apreciado aqui, mas existem alguns planetas, como o meu, que apreciam muito essa matéria. Aqui é possível utilizar o lixo como matéria prima para a fabricação de vários materiais, como é o caso de combustíveis, móveis, etc…
– Incrível… — ela diz quando acaba de processar tudo que foi dito. — Então seu interesse na Terra é pelo lixo que é produzido? Mas não existem outros planetas que produzem lixo, ou outra opção para matéria prima?
– Infelizmente não, já tentamos encontrar outra matéria, mas foi em vão, nenhuma se adequou tão perfeitamente como o lixo. E os outros planetas não tem produção de lixo grande como a da Terra. — Rum-Alfa diz tristemente.
– Entendo. — Suzanne diz compreendendo o porquê de tanta ajuda vinda dos Rumyns.
– Agora eu tenho que ir, Suzanne. Veremos-nos em breve. — Ele disse finalizando a comunicação.
Suzanne guardou o comunicador e saiu de seu quarto com Luck a seu encalço, quando ela estava dobrando uma das ruas deu de cara com Leon. Luck agitou-se na hora que viu o rapaz, passando a fazer sons de desagrado.
– Está indo para onde, Suze? — Leon perguntou analisando-a.
– Não é da sua conta, querido. — Ela diz continuando a andar. — Ah e para você é Suzanne.
Ele segura o braço dela impedindo-a de continuar a andar.
– O Andrew quer falar com você. — Leon disse encarando-a.
– Já deu o recado? Ótimo então já pode me soltar, querido. — ela disse tirando a mão dele de seu braço.
Suzanne levou uma de suas mãos ao bolso da calça e tirou de lá uma espécie de celular que rapidamente projetou um holograma de Andrew. Ela apertou um botão especial que fez com que um ponto em sua orelha fosse ativado e então disse:
– Andy, você está ocupado?
– Su?– a voz demorou um pouco a responder. - Pode falar, ainda estamos nos túneis indo até a cidade...– A estática atrapalhou um pouco o entendimento.
– O Leon disse que você queria falar comigo. — ela disse encarando o homem a sua frente com um olhar raivoso.
– Você está sozinha?– perguntou.
– Não, o energúmeno está aqui na minha frente. — ela disse encarando Leon.
– Vira a lente pra ele. — sua voz parecia irritada.
– Não, se você quiser falar com ele ligue para o mesmo. Não vou contaminar meu aparelho com uma visão dele. Vai que depois de ver o Leon o aparelho quebra. — ela disse lutando para não rir do que falou.
Um suspiro divertido foi ouvido em seu ouvido através do ponto.
– Hey! Do que vocês estão falando?! — Leon reclamou se aproximando de Suzanne.
– O Andy queria que eu virasse a lente para você, apenas isso. Ah talvez eu tenha falado mal de você. — ela falou com certa repulsa.
– Su.– Andy disse, seu tom de voz tanto repreensivo quanto divertido. — Pergunte ao "energúmeno" o porquê de ele estar aí, sendo que eu mandei que a Ayame lhe dissesse para me ligar.– Sua voz perdeu a parte divertida ao fim da frase.
– Senhor energúmeno, o Andrew quer saber o porquê de você ter vindo me avisar quando ele havia mandado a Ayame fazer isso. — ela perguntou com uma sobrancelha erguida em sinal de curiosidade virando a lente para Leon, para que Andrew pudesse ver a reação do homem com a pergunta.
– Ah eu meio que estava vindo pra essa região, ai comentei isso com a Ayame e ela me deixou vir em seu lugar. — Leon falou com um pouco de medo da reação de Andrew.
– "Comentou isso com a Ayame"?– Andrew repetiu com um falsete. — Acha que eu sou idiota, Leon?!– Daria um soco nele se fosse pessoalmente. — Eu disse que era para ela não contar a ninguém, seu babaca. Agora trate de parar de se aproveitar da minha irmã só porque estou fora e vá procurar outro rabo de saia na Resistência!– falou em tom de raiva.
– Ela não fez por querer eu apenas estava passando e a vi conversando com você, pressionei um pouco e então ela me disse. — Ele falou temeroso. — E eu não estou me aproveitando da sua irmã, a Suze nunca…
– Olha só...– Andrew o interrompeu. — Você pode ser meu braço direito, mas mexa com a minha irmã e você conhecerá meus dois braços na sua cara.– foi lento na ameaça.
– Além de que irá conhecer também a fúria do Luck e é claro a minha mão na sua cara. — Suzanne falou olhando ameaçadoramente para Leon.
– Ok, já entendi o que vocês falaram, é melhor eu ir ver se a lavoura está em bom estado. — Leon saiu praticamente correndo do local.
Suzanne ouviu Andrew rir pelo aparelho.
– Obrigada por ligar o alto falante para eu poder ameaçá-lo, Pequena.
– De nada, mas eu não sou mais pequena. Tenho quase a sua altura, espertalhão. — ela respondeu rindo do apelido antigo.
– Não importa o quanto tenha crescido, será sempre minha irmãzinha pequenina. – Ele sorriu, assim como Suzanne.
– Mas então... — decidiu mudar de assunto. — O que você queria me falar? Não ligou apenas para ameaçar o Leon, imagino.
– Ah, bem, só queria saber como está indo a Resistência sem mim.– Sua voz foi ficando tensa enquanto seu holograma colocava a mão direita sobre a cabeça. — Algum motim?
– Calma, nada até agora. Sei que estão havendo problemas e discussões, mas não acho que chegue a tanto... — Suspirou. — Mas voltando ao assunto o que você queria comigo?- ela perguntou curiosa.
– Bem, eu soube por fontes anônimas…
– O Leon contou. — Suzanne revirou os olhos no meio da frase dele.
– ...que um homem invadiu a Resistência e você está cuidando dele. Espero que tenha o colocado em uma das celas.– ele disse, fitando-a nos olhos como se estivesse ali pessoalmente.
– Claro coloquei ele na melhor cela de todas, o quarto do Leon. — ela disse sarcástica. — E eu não estou cuidando do Jason, apenas o acomodei em um dos dormitórios e mostrei para ele a resistência. Fica tranquilo Andy, ele não é perigoso, se fosse o Luck já o teria esquartejado. — finalizou, novamente revirando os olhos.
– Como pode tê-lo posto em um dos dormitórios?– Soou repreensivo. — Se ele apenas invadiu a Resistência, com certeza é uma ameaça. Sabe o que houve da última vez que deixamos um desconhecido entrar na resistência? Era um androide da PRISM prestes a delatar nossa localização. Se não houvéssemos notado que era uma máquina, poderíamos estar todos numa Cidade Branca agora, Suzanne.– reclamou com a voz áspera.
– Já ouvi esse seu discurso um milhão de vezes. “Su, tome cuidado com isso.”, “Su, tome cuidado com aquilo”. — ela disse, imitando-o. — Andrew eu já sou capaz de enxergar o que é certo ou errado, confie no meu julgamento, por favor. — ela falou tentando se manter calma.
– Su, acredite, você é a única em quem eu confio, mas ainda assim...
– Ainda assim o quê? — Suzanne o cortou. — Vai dizer novamente para tomar cuidado em quem confio? Vou lhe dizer novamente, Andrew, eu cresci e já sou capaz de ver o que é certo ou errado, em quem devo confiar ou não. — ela finalizou irritando-se.
O holograma do garoto apertou a ponte do nariz, suspirando. Então quando estava prestes a dizer algo, Su ouviu alguém gritando ao fundo:
– Chefe! Chegamos! Parece que o ataque já está ocorrendo!
– Mas era para chegarmos antes deles!– Andrew exclamou, depois voltou-se ao comunicador e encarou o holograma de sua irmã bem nos olhos.- Depois conversamos sobre isso, Suzanne.– disse rígido.
Ela viu a imagem do garoto tirando suas pistolas do coldre na cintura antes que a luz se apagasse e ela voltasse a ficar sozinha.
Suzanne voltou a caminhar pelas ruas da resistência pensando em sua recente comunicação com os Rumys e com o Andrew. Enquanto andava sentiu-se ser puxada por alguém, quando a menina olhou para trás percebeu que quem a havia puxado era Albert Lincon, um ancião que detesta a todos os jovens com ideias revolucionarias dentro da resistência.
Albert puxou a garota para uma esquina escura, empurrou-a contra a parede e passou a se esfregar nela.
– Bela menina, não sabia que você estava tão gostosa. — O homem falou enquanto coloca uma mecha de cabelo da garota para trás. — Mas vamos ao que interessa, não estou nem um pouco satisfeito com o que você e seu “irmão” andam fazendo por aqui, as pessoas criaram mais esperanças. Isso não é nada bom.
– Por que não seria bom, velho nojento? — Suzanne falou cuspindo na cara de Albert.
– Porque é através da esperança que as pessoas começam a acreditar que um dia existirão chances de vencer as máquinas, o que sabemos que nunca irá acontecer. — Albert falou roçando sua intimidade na barriga da garota.
– Quem disse que nunca irá acontecer, querido? — A garota disse enquanto tentava se livrar das garras do velho.
– Eu disse minha querida. Enquanto o mundo estiver sobre domínio de máquinas e as pessoas estiverem exiladas em lugares como esse, pessoas como eu estarão no controle. — O velho falou, quando acabou começou a aproximar seu rosto do da garota.
– Se você não soltá-la, vou te mostrar o que é controle – uma voz masculina tranquila e divertida soou a poucos metros deles.
Estava contra a luz, impossibilitando que seu rosto fosse visto, mas a sombra de um bastão apoiado negligentemente sobre os ombros se projetava até eles.
– Nós mostraremos o controle. — uma voz de mulher no mesmo tom da voz do homem disse. Ela estava apoiada no ombro do homem. — Se alguém aqui entende de controle, sou eu.
– Eu não duvidaria dela se fosse você – o homem disse.
Albert afastou-se da garota lentamente, então olhou para as pessoas que haviam acabado de chegar e sentiu um pouco de medo do que iria acontecer a seguir. Enquanto Suzanne apenas deslizou pela parede, cansada demais de tudo que estava acontecendo.
O homem não se mexeu.
– Então, tiozinho? Vai cair fora ou vou ter que deixar a gatinha aqui do meu lado cuidar de você? – ele riu ao dizer essa ultima parte – Ela está louca para te dar uma lição.
– Você não precisa deixar nada. Esse cara vai levar a lição dele do mesmo jeito, Benjamin. Política zero para estupradores lembra? Lembra-se do meu castigo para estupradores?
– Não precisa mostrar nada, moça. Eu já estou de saída. — Albert disse e logo saiu apressado com medo do que a Mulher poderia fazer com ele.
Suzanne continuou encostada na parede, com a cabeça abaixada. Tentando entender porque as coisas ruins só aconteciam com ela. Um segundo depois um ser laranja passou correndo entre as pessoas que haviam salvado a garota. Luck correu de encontro a sua dona e então deitou-se a seus pés.
– Acho que você chegou um pouco tarde, garoto. — A menina falou enquanto afagava o pelo do bichano.
– Eu vou atrás desse velho. Estupradores não tem perdão! — a mulher começa correr na direção para onde ele tinha ido — Ben cuide dela por enquanto, não faça nada.
Benjamin apenas suspirou, como se estivesse acostumado àquilo. Então se aproximou de Suzanne, mas parou ao ver o tigre aos seus pés.
– Bom, tigrinho bom, eu não vou fazer nada com a sua dona, ok? – ele se agachou ao lado de Suzanne, analisando o rosto dela com seus olhos azuis – Ele machucou você?
– Não, eu estou bem. Já me acostumei com tudo de ruim acontecendo comigo. — A garota falou tristemente.
Ele assentiu, parecendo disposto a consola-la de algum modo.
– Ei, mas isso foi porque você não me conhecia. – ele arriscou um meio sorriso – Se te ensinasse uns golpes básicos, esses caras iriam chorar só de te ver.
– Pelo amor de deus, Ben! Pare de se vangloriar por algo que você não tem. Você perde de mim. — a mulher voltou, limpando uma faca cheia de sangue em um tecido que parecia a calça do velho. — Garota, se quiser fazer os caras chorarem, fale comigo.
– O Luck faz isso para mim às vezes, mas eu gostaria sim de aprender a fazê-los chorar. — Suzanne falou levantando-se sendo seguida prontamente pelo tigre.
Benjamin ficou de pé também, enfiando as mãos nos bolsos da calça.
– Por favor, Julie, só ensine ela a fazer os homens chorar. Nada dos ensinos extras, ouviu?
– Me obrigue, Benjamin! — Julie riu, enquanto se aproximava de Suzanne, mudando a expressão e o tom — Eu sou Julieta, aquele traste é o Benjamin. Está tudo bem mesmo?
– Está sim, já aconteceram coisas piores comigo. — A garota falou dando um meio sorriso para Julieta.
– Você não tem que acostumar com essas coisas, garota. Não se acostume. O normal é acontecer coisas boas, ok? — ela ia se aproximar mais de Suzanne, mas olhou para o tigre — Ele vai fazer algo se eu me aproximar?
– Não, apenas se você tentar me ferir. Ou se ele não for com sua cara, o que não aconteceu já que ele não rosnou pra você. — Suzanne disse rapidamente.
Julieta rapidamente se aproxima, colocando um braço nos ombros dela:
– Ok, eu quero saber realmente, você está bem mesmo? Aquele velho quase te estuprou.
– Poderia estar melhor, mas da paro gasto. Eu ter ficado no comando desse lugar enquanto o Andrew está fora faz com que a maioria dos resistentes tenha reações como essas. A maioria deles me odeia, não é novidade tentarem algo contra mim, as coisas são melhores quando o Andrew está por perto pra impedir as tentativas deles de me ferir. — A menina falou deixando escapar algumas lágrimas.
Julieta olhou para Ben, dizendo com os olhos para ele falar algo. Ele demorou a entender, precisando ser cutucado para falar.
– Ah… – ele abriu um sorriso – Mas agora estamos aqui. Vamos te ensinar a andar de cabeça erguida mesmo com o ódio dos outros. Tenho certeza que uma semana com a amorzinho aqui do meu lado te ensina a ter todos na palma das mãos.
Julieta sorri para Suzanne:
– Bem, posso te ensinar. Ninguém vai te desrespeitar. Aquele velho mesmo não vai mais.
– Sim, por favor, me ensine, não posso depender do Luck e do Andrew para sempre. — A garota disse enquanto secou as lágrimas.
Ben retirou um lenço do bolso da calça, o oferecendo a ela.
– Espero que suas próximas lágrimas sejam apenas de felicidade.
– Sim. — Julieta sorri para ela, então olhe para Benjamin — Ben, que tal a levarmos para a nossa casa? Acho que lá ela aprenderá melhor, com tantos professores dedicados. — ela piscou.
Ele a olhou estranho.
– Devemos? Você sabe… mostrar o que podemos fazer? O Aliki vai…
– Eu não ligo para Aliki. Ele que cuide da vida dele. Mas essa garota precisa de orientação, Ben. Ela é apenas uma garota, e você a ouviu dizendo que está controlando esse lugar sozinha. Como ela vai continuar controlar esse lugar se todos a odeiam? Ou tentam matá-la? Você quer que ela morra, Benjamin? E se ela fosse sua filha que está te esperando em casa?
O que ela disse fez Benjamin ficar calado, pensativamente, como se ele estivesse em meio a um grande questionamento. Por fim, ele suspirou e segurou a mão de Julieta, olhando para Suzanne.
– Se segure em mim, sim?
– Sim, obrigada pela ajuda que estão me dando. — A menina disse sincera. E então foi de encontro aos novos amigos.
O rapaz esperou ela tocar em seu ombro para dizer num tom preocupado:
– E lá vamos nós.
Então tudo escureceu.
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