- Porra! – era a voz de Dan – Acorda Alex... Merda!
Então levantei do chão rapidamente, olhando para Dan assustado. A sala em que estávamos pegava fogo por todos os lados, a fumaça invadia todo o lugar.
Olhei para onde Dan olhava e vi um vulto. Era um homem, magro e esquelético. O corpo todo pegava fogo, mas ele parecia estar acostumado com aquilo. O vi sorrir para nós, então jogou uma bola de fogo em nossa direção.
Pulei para a direita, e Dan para a esquerda. O fogo não nos acertou. Levantei do chão e percebi que eu estava desarmado. Olhei para Dan e vi o rifle em suas mãos. Procurei as pistolas no meu cinto, mas não às achei. Talvez as tenha perdido em algum lugar.
— Me dá um abraço filho! – o monstro disse para mim.
— Velho! – Dan disse – Sua família é desgraçada de fudida hein!
— Percebi! – eu respondi – Por que raios você não atira?
— Atira você! – ele disse, jogando o rifle para mim.
Eu peguei o rifle e mirei no meu pai – ou melhor, o lado demoníaco, monstruoso e obscuro dele. Atirei uma vez, acertando na cabeça.
— Merda pai! – eu disse – Por que você? Eu não queria nada disso...
Então ele parou e nos encarou. Eu não consegui ter nenhuma reação a não ser parar também.
Ficamos naquela posição por uns cinco minutos – ele parado, inexpressível, eu mirando para ele, sem saber o que fazer, Dan com cara de paisagem, olhando para nós dois ao mesmo tempo.
— Faça o que tem que fazer logo! – o lado sombrio do meu pai disse, abrindo um buraco no peito e deixando o coração a mostra – A chave está dentro de mim, você terá que me abraçar de qualquer jeito.
Então atirei em seu coração, fazendo-o cair no chão. O fogo a nossa volta se apagou, e junto com o fogo o sangue nas paredes também desapareceram.
Então me aproximei de meu pai, olhando-o com as lagrimas rolando em meus olhos. Eu estava lembrando do que o jornal dizia. Eu ia morrer, meu pai também. Todas essas pessoas morreriam, e a assassina será minha irmã! O que eu posso fazer para mudar isso?

Então eu enfiei a mão dentro do seu coração, sentindo o meu braço queimar com a chama que não acabava de sair dele. Então peguei a chave e tirei a mão rapidamente, gemendo de dor.
— Cara! – Dan falou, se aproximando de mim – Loucura.
-Eu acho que vou desmaiar. – falei – Você tem que quebrar a chave...
— Cara... – ouvia a voz de Dan enquanto tudo ficava escuro para mim – Alex, não morra.
Então eu ouvia o barulho do motor do carro roncando, mas eu não conseguia abrir os olhos. Voltei a dormir, sem saber o que acontecia ao meu redor – sem querer saber.

Acordei no banco do carona do carro, olhei para fora e vi, além da névoa, uma enorme igreja. Lembrei-me do noticiário – “Jovem morto em igreja numa cidade abandonada”. Sai do carro assustado, meio tonto.
— Dan! – chamei por Dan, mas ninguém atendeu.
Andei em direção a igreja, subindo as escadas. Então vi de onde saia o som da sirene – do alto da igreja, perto da imagem da cruz.
Subi apressadamente as escadas, enquanto a cidade escurecia cada vez mais. Então entrei na igreja, sentindo uma forte dor de cabeça. Então a névoa me cercou e tive mais uma daquelas visões, essa mais completa, esclarecedora.

Eu estava no interior de uma igreja, queimada por um incêndio, a imagem de Jesus caída no chão. Eu me vi, estava um pouco mais velho, uma barba a fazer, o cabelo mais curto e penteado.
A garota – minha irmã – estava brincando com uma faca. Sorriu para mim e disse.
— Você já sabe o que acontece! – ela disse.
— Sim! – “eu” respondi.
Então ela veio em minha direção e me apunhalou com a faca dizendo.
— Você deixou que eles me abandonassem. – ela disse – Não derramou nenhuma lagrima por mim.
Então eu me vi morrer, no chão frio daquela igreja abandonada. E a névoa me cercou trazendo-me de volta ao meu tempo.
Então olhei a igreja e vi dois vultos, a igreja estava cercada por arame farpado por todo o lado, no centro uma fogueira já cinza, no chão um enorme buraco, de onde saiam os arames farpados. A porta da igreja então se fechou.

- Alex! – Dan sussurrou – Me salva.
Corri em direção aos dois vultos. Eram Dan e uma garota – Rosalie mais velha, bem mais velha. Ela sorriu para mim e disse algo em uma língua desconhecida por mim.
Ela então foi ficando cada vez mais jovem. Os cabelos brancos foram ficando pretos, a pele enrugada foi sumindo dando lugar a uma pele macia como seda. Seu corpo curvado deu lugar a um corpo esbelto de mulher e em seguida foi tomando a inocência de uma garotinha.
Então a gargalhada inocente dela ecoou por todo o interior da igreja. Dan me olhava com cara de quem não tava entendendo porra nenhuma, mas eu entendia, tudo se clareava dentro de minha mente.
— Olá irmãozinho! – ela disse – Pegue a chave logo.
— Que chave? – me fiz de idiota.
— Não seja burro! – ela disse – Não adianta tentar me enganar. Você não estaria aqui se não tivesse pegado as outras chaves.
— Onde ela esta? – perguntei.
— Na cama! – ela disse, apontando para uma cama de hospital pendurada nos arames farpados.
— Como eu vou fazer isso? – perguntei.
— Subindo. – ela disse rindo.
— Vai você! – respondi a ela.
— Não posso porra! – ela disse – Se eu pudesse não o tinha trago para cá.
— Merda! – eu disse.
— Ele está chegando... – ela disse, parecendo amedrontada.
— Quem? – perguntei.
— Não faça perguntas. – ela mandou.
Eu não sabia por que, mas senti que tinha que fazer o que ela “mandou”. Fui para o centro da igreja e comecei a subir até a cama, segurando no arame farpado e me cortando os braços.