PREMONIÇÃO - Sangue Marcado
7 Triturando
Notas iniciais
O sol começava a se esconder atrás das nuvens carregadas quando Gary limpou o suor da testa com a manga da camisa suja de serragem.
O triturador antigo, barulhento e enferrujado, cuspia os últimos fiapos de madeira, como se regurgitasse os restos de um trabalho cansativo demais para sua idade.
O som metálico e estridente preenchia o quintal do chalé à beira do lago, até que, finalmente, a última lasca estalou e se perdeu no ar como uma chuva leve de farpas douradas.
Mas o coração de Gary não estava no serviço. Estava a quilômetros dali, na rua onde seu vizinho, Jack Krueger, havia encontrado a morte poucas horas antes. Um caminhão desgovernado, um poste em queda e o destino selado em segundos cruéis.
A imagem lhe vinha à mente em lampejos: o sorriso fácil de Jack, suas piadas rápidas, a maneira como sempre fazia questão de arrancar uma risada mesmo nos dias cinzentos.
Agora, só restava silêncio. Silêncio e uma viúva devastada, filhos órfãos da alegria de um pai. Gary sentiu o peso da perda alheia como se fosse sua própria.
Ele respirou fundo, ajeitando o boné na cabeça, tentando afastar a tristeza. Ainda havia coisas a fazer. Dylan Zahler, o professor para quem trabalhava, viria naquela noite acompanhado de amigos.
A estrada até McGregor levaria pouco mais de uma hora, e Gary precisava deixar tudo pronto antes da chegada deles. O chalé, com sua fachada rústica e sacada de madeira, parecia acolhedor até mesmo sob o céu nublado. Da sacada, era possível ver o triturador de galhos logo abaixo, uma máquina tão gasta quanto perigosa, rodando como se tivesse fome de aço e carne.
Por um instante, Gary pensou que deveria tê-lo levado para mais longe da casa. Aquela máquina não pertencia a um lugar onde gente poderia se distrair com conversas, risadas ou vinho ao cair da noite.
Pertencia a um depósito ou, melhor ainda, a um ferro-velho. Mas estava cansado demais para se preocupar. Estava cansado de tudo. Com um gesto automático, puxou a alavanca e fez o triturador ranger até parar, deixando no ar um cheiro ácido de óleo queimado misturado a madeira triturada.
O silêncio que se seguiu foi opressor.
O tipo de silêncio que só o campo conhecia, quebrado ao longe por um trovão que anunciava tempestade. Gary olhou para o telhado e percebeu que ainda havia telhas fora do lugar desde a última chuva.
Um carpinteiro teria que ser chamado, mas isso podia esperar. Tudo podia esperar, menos a dor que crescia em seu peito ao lembrar do corpo de Jack sendo velado naquela mesma noite.
Suspirando, pegou suas chaves e entrou na caminhonete velha, o motor resmungando com dificuldade antes de pegar. Ao se afastar do chalé, assobiou uma melodia qualquer, tentando espantar os pensamentos pesados.
Mas o assobio soava estranho, como se desafinasse contra o zunido abafado do vento. Enquanto partiu, os primeiros relâmpagos cortavam o horizonte.
O chalé permaneceu para trás, erguido na solidão da margem do lago, e junto dele, o triturador imóvel, calado, como se esperasse a próxima vez em que seria alimentado.
○○○
O carro parou no pátio silencioso do posto de gasolina, iluminado apenas pelas lâmpadas fluorescentes que zumbiam alto demais no vazio da noite.
Brad desligou o motor e, com um suspiro pesado, saiu para abastecer. Seus ombros estavam rígidos, os olhos atentos demais, como se cada som — o estalo do bico da bomba, o farfalhar do vento contra as bandeiras do posto, o ranger distante de um letreiro metálico — fosse um aviso de que algo ruim estava prestes a acontecer.
Miley, observando do banco de trás, percebeu o nervosismo dele como quem sente um vírus se espalhando no ar.
A tensão era quase palpável, se infiltrando entre eles como uma neblina que não dava para enxergar, apenas respirar. Lana, ao lado de Brad no banco do carona, parecia inquieta, tamborilando os dedos contra a porta até não aguentar mais.
Empurrou o trinco e saiu, sugando o ar frio do fim de tarde com um suspiro ansioso.
— Quer que eu traga algo da loja de conveniência? — perguntou, voltando-se para Miley com um olhar que misturava cuidado e angústia.
Miley hesitou por um segundo antes de responder:
— Não, obrigada. Você está bem?
Lana ajeitou os braços ao redor do corpo, como se quisesse se proteger de algo invisível.
— Não muito... — confessou. — Sinto uma pressão no ar… uma energia pesada, negativa. Algo não está certo. Depois que Sadie… — a voz dela falhou um pouco — tenho certeza de que mais pessoas já se foram.
O nome trouxe uma rajada de lembranças dolorosas para Miley. Por um instante, o mundo ao redor pareceu se dissolver, substituído pelo inferno ardente que ela jamais esqueceria: Sadie, em chamas, os olhos perfurados e sem vida refletindo o fogo que a consumia por inteiro.
Teddy, o namorado, desesperado, batendo contra as labaredas, tentando apagá-las mesmo quando já não havia nada a salvar, o cheiro insuportável de carne queimada se entranhando no ar, nas roupas, na pele.
Miley piscou com força, tentando afastar a lembrança.
— Precisamos descobrir quantos mais já se foram. — disse ela, a voz baixa mas firme, encarando Lana como quem confessa um segredo. — Antes de chegarmos até Dylan, temos que saber exatamente com o que estamos lidando.
Lana assentiu devagar, mas havia uma sombra no olhar dela.
— Eu vou cuidar disso. Mas primeiro… vou comprar sal grosso, alguns incensos, e talvez algo para forrar o estômago. — Sorriu de canto, sem humor — Preciso de qualquer coisa que me dê a sensação de estar protegida.
Foi então que Dylan, que até então permanecia em silêncio no banco ao lado de Miley, ergueu a cabeça com calma.
— Se não for pedir demais… me traga algumas balinhas de menta. — Sua voz era suave, quase um alívio no peso daquela conversa.
Lana olhou para ele e sorriu de verdade dessa vez, como se fosse grata pela simplicidade do pedido.
— Com prazer. — E sem esperar resposta, caminhou em direção à loja iluminada, sumindo pela porta automática que se abriu com um suspiro mecânico.
No pátio, o cheiro da gasolina parecia ainda mais forte, e Brad, de costas para eles, observava a escuridão da estrada como se esperasse que dela saísse o próximo golpe da morte.
A chuva ainda não tinha começado, mas o céu parecia prestes a desabar sobre o posto de gasolina.
O vento soprava em rajadas frias, levantando poeira e sacudindo as bandeirinhas coloridas acima das bombas. Miley, sentada no banco de trás, fitava o lado de fora com um aperto no peito. Cada detalhe parecia um presságio silencioso, um aviso de que algo se aproximava.
No carro estacionado ao lado, um rádio tocava alto “Paint the Town Red”, de Doja Cat. A batida contagiante contrastava com a letra, que falava sobre pintar tudo de vermelho enquanto seguia em frente.
O som se espalhava pelo ar carregado, misturando-se com o cheiro de gasolina e a um trovão distante, criando uma cena quase surreal, como se a música fosse a trilha de um filme sombrio.
Do outro lado do pátio, Wayne saía de seu Cherokee com Piper. A menina, inquieta, puxava a mão do pai e dizia que estava cansada de ficar sentada, queria alongar as pernas. Wayne acenou de forma quase fria para Miley ao passar pelo carro dela, um gesto curto, distante, como quem está ali só de corpo presente.
Em seguida, começou a brincar com Piper no estacionamento ao lado, saltando as pequenas poças d’água formadas pela chuva anterior, acompanhando os risinhos leves da filha.
Miley manteve os olhos neles, sentindo um nó subir à garganta. A cena era inocente demais para aquele momento, soando como um aviso cruel de que o tempo estava acabando.
— Em breve estaremos no meu chalé... — murmurou Dylan, ao lado dela, sua voz rouca quebrando o silêncio pesado. Ele mantinha as mãos unidas sobre o colo, os óculos escuros refletindo a luz fria das lâmpadas do posto. — Eu e Travis projetamos aquele lugar juntos há alguns anos. Era para ser onde passaríamos a aposentadoria… até morrer ali, velhos, na nossa varanda. É uma pena que não tenha acontecido como planejávamos, mas ninguém tem controle da própria vida.
Miley virou-se para ele.
— Sinto muito, Dylan. Farei de tudo para dar a você o máximo de tempo possível… o máximo que tiver nas minhas mãos. — Sua voz estava embargada — É tão injusto que todos nós estejam passando por isso.
Ele sorriu de leve, um sorriso cansado.
— Esse é o ciclo da vida, Miley. A minha já está quase no final. Sou só um peso morto para vocês agora.
— Não diga isso. — Ela o interrompeu, apertando de leve sua mão fria — Você tem o mesmo direito que qualquer um de viver a sua vida. Você, eu, todos. A sorte de vocês... a nossa sorte... foi eu ter tido a premonição. Senão todos já estariam mortos.
Dylan assentiu.
— O gesto seu e de Brad foi nobre. Vai ficar marcado para sempre na história criminal como o atentado que nunca aconteceu. Mas isso não importa para mim. — Ele suspirou — Eu só quero um lugar confortável, saber que logo estarei com Travis no outro plano. Esperar que eu parta sentado na velha cadeira de balanço na varanda, tomando chá. Se não for pedir muito à dona Morte.
Miley se segurou para não chorar. Sentia uma raiva silenciosa contra o destino, uma sensação de que tudo aquilo era uma maldição herdada , talvez do próprio pai, que transformava cada acidente, cada morte, em algo inevitável.
E se Nick O’Bannon tivesse sentido isso também, ao salvar as pessoas no autódromo e no cinema?
Ele imaginou que sua vida se tornaria tão amarga, sabendo que nada do que fez realmente valeu no final?
Dylan ergueu a mão e tocou suavemente o rosto dela. Por trás dos óculos escuros, suas íris esbranquiçadas de cegueira pareciam enxergá-la de verdade, como se analisassem não apenas seus traços, mas sua alma.
— Não tenha medo da Morte. — disse ele, sereno. — Ela faz parte de todos nós, uma hora ou outra.
Miley engoliu em seco e assentiu, desviando o olhar de volta para o pátio. Do outro lado, Piper continuava a brincar nas poças, segurando firme a mão do pai.
Wayne caminhava ao lado dela, ambos sorrindo de forma tênue, aproveitando o instante como se fosse apenas mais um dia normal — mas, lá no fundo, talvez os dois soubessem que aquele tempo não duraria muito.
○○○
Derek Morris caminhava sem rumo pela trilha enlameada, os passos ficando cada vez mais lentos à medida que a noite engolia a floresta.
Não sabia dizer quanto tempo percorrera nem quantas vezes a lua se encobriu; o único relógio que lhe restava era o som distante dos trovões, um tamborilar profundo que vinha do nada e crescia enquanto o vento arrepiava a pele do seu rosto.
O frio se insinuava pelos ossos e a respiração saía em nuvens brancas; se não encontrasse abrigo, a hipótese da hipotermia deixou de ser teoria e passou a ser uma ameaça concreta.
A raiva ainda queimava nele, misturada a um cansaço que doía. Em sua cabeça, repetia as imagens que alimentavam sua fúria: o homem grande e musculoso que o humilhara, a garota ruiva que vivia se intrometendo.
Planos que havia esboçado na prisão — planos que agora pareciam menores e ao mesmo tempo urgentes — rodopiavam como folhas ao vento.
— Era para eu ter matado todos... Era para ter acabado com isso.
Ele se amaldiçoou por ter permitido que tudo chegasse ali; amaldiçoou a prisão, o desleixo que os levou ao ônibus tombado, e sobretudo a si mesmo por não ter finalizado o que tinha em mente.
A notícia que tivera ouvido pelo rádio antes de fugir ainda ecoava na sua cabeça com um sabor amargo: Sean Black, o outro adolescente, encontrara a morte num beco — diziam que fora suicídio.
Derek não acreditava muito naquela palavra tão seca; conhecia Sean como alguém que mergulhara em sombras, mas não como alguém que largaria tudo assim.
Na cabeça dele, a prisão só aprofundara a loucura, e a certeza de que aquilo fora um fracasso coletivo inflamou ainda mais o seu rancor. Culpar a ruiva e o homem musculoso parecia, agora, tão natural quanto respirar.
— Filhos da puta... desgraçados.
Tropeçou num galho e quase caiu de face numa poça de lama. Ao erguer o rosto, viu seu próprio reflexo distorcido: cabelos negros colados na testa, a barba por fazer sobrando nas bochechas, olhos fundos refletindo o clarão de um relâmpago.
A tatuagem no pescoço, a caveira em brasa, sobressaiu escura contra a pele, e na água tremulante aquele desenho lhe pareceu sorrir. Sorriu para ele de volta, zombeteiro, parceiro de todas as decisões erradas.
No meio da lama, o aperto da sede cresceu. Olhou mais adiante e avistou, numa clareira, a superfície escura de um lago que brilhava sob as nuvens.
O som das águas quebrava o silêncio como uma promessa de alívio. Arrastou-se até a borda, as mãos encharcadas de terra, e bebeu com avidez pouco antes de engasgar com o frio. A água gelada escorreu por sua barba e trouxe, por um segundo, uma calma traiçoeira — como se o corpo esfriado fosse um organismo novo, pronto para continuar.
Do outro lado do espelho negro do lago, uma silhueta recortava-se contra as árvores: uma cabana isolada, janelas apagadas, o telhado sombreado de musgo.
— Olha só...
Uma luz fraca tremeluziu por um instante, como se alguém lá dentro tivesse acendido uma vela. Derek engatinhou mais alguns metros, apoiando as mãos na grama molhada, e sentiu a esperança — ou a necessidade — crescer.
A cabana podia ser abrigo, podia ser calor, podia ser um local para passar a noite. Podia, também, ser uma oportunidade.
Ele se ergueu com dificuldade, as pernas bambas pedindo descanso, e olhou uma última vez para o céu carregado.
O trovão soou mais perto, ameaçador; gotas frias começaram a saltar do ar. Mesmo assim, a visão da cabana acendeu algo dentro dele: não era apenas um destino, era a próxima etapa.
Derek cerrou os dentes, ajustou a jaqueta encharcada ao corpo e atravessou o brejo em direção à pequena estrutura ao longe, sem saber ainda se encontraria salvação ou mais uma porta para o que jurara realizar.
○○○
O vento frio da garoa varreu o asfalto da estrada quando dois carros pararam diante do chalé de madeira, iluminado apenas pelas luzes amareladas do pórtico.
O som distante do trovão pareceu anunciar o início de algo maior. Miley saiu do banco do passageiro e ajeitou o capuz, sentindo o arrepio subir-lhe pela espinha. O ar estava pesado, úmido — como se o próprio lugar respirasse uma expectativa silenciosa.
Wayne e Piper vieram no primeiro carro. No segundo, Miley, Brad, Lana e Dylan. O grupo se reunia sob a fina garoa, observando o refúgio diante deles. O chalé, de aparência acolhedora, estava cercado por um amplo gramado que terminava num lago reluzente à distância.
No quintal, um imenso cedro estava de pé como um guardião — ou um presságio. Os galhos haviam sido podados de forma abrupta, cortados rente ao telhado, e as pontas pareciam dedos retorcidos prestes a rasgar o céu.
Miley fixou o olhar na árvore, o coração pulsando em um ritmo estranho. Ela tinha a sensação de que aquele detalhe — o cedro mutilado, o balanço lento dos galhos encharcados — poderia, de alguma forma, ser o prenúncio de algo terrível.
Mas, por mais que procurasse, nada parecia perigoso à primeira vista. Apenas o lago sereno e o campo amplo, silencioso demais.
— Parece tranquilo demais… — murmurou.
Lana, fechando o guarda-chuva, soltou uma risada curta.
— Tranquilo? Você não viu as notícias, não? Um homem morreu esmagado por um poste mais cedo. Aposto que é mais uma vítima.
Miley franziu o cenho.
— Sabe se teve mais alguém?
— Sim, — respondeu Lana, ajeitando o cabelo molhado. — Um acidente horrível na Rota 23. Dois carros, uma família inteira morta… E, pra piorar, um ônibus que estava indo pra penitenciária tombou. Uns presos fugiram. E você não vai acreditar em quem estava entre eles.
O trovão rompeu o ar. As gotas começaram a bater com força nas janelas do chalé, ecoando como dedos tentando entrar.
— Quem? — perguntou Miley, o tom carregado de inquietação.
Lana olhou para Brad, hesitante.
— Derek Morris.
O silêncio que se seguiu foi denso. Brad passou a mão no cabelo e soltou um riso sem humor.
— Ah, ótimo. O terrorista que eu mesmo contive. Espero que ele morra logo.
Miley manteve os olhos na tempestade. Ela subiu a varanda aconchegante com cadeiras reclináveis caras demais para estarem expostas ali enquanto pegava as chaves da bolsa.
— A Morte não costuma ter pressa. Mas espero que ele não cause mais estragos antes disso.
Lana suspirou.
— É um mau sinal. Igual com o Sean. Eu só espero que ele encontre paz rápido… nem que precise morrer na frente de alguém, como Fiona disse.
Dylan, apoiado no bastão, ergueu o rosto.
— Creio que pessoas como ele mereçam ser castigadas da pior forma possível... eles queriam nos matar não?
— Sim. — respondeu Miley, pensativa. — E quase conseguiram.
Dylan assentiu lentamente.
A garoa engrossou. Wayne e Piper correram até a varanda. Wayne, o último, parou por um instante e olhou para cima. Os galhos do cedro se moveram de maneira quase intencional, rangendo com o vento, as pontas brilhando sob relâmpagos distantes. Um estalo fez seu coração acelerar.
— Vamos logo pra dentro, — ordenou.
— Brad, veja se não há nada de errado lá dentro...algo que possa causar um acidente. _ Miley falou, abrindo a porta.
Brad estranhou, limpando a garoa dos cabelos cortados rentes a cabeça.
— O que poderia acontecer?
— Com jacuzzi com defeito e postes assassinos por aí, tudo é possível. — rebateu ela.
A fechadura girou. Brad entrou primeiro, passando o olhar pela sala rústica. Tudo pareceu em ordem. Os móveis antigos, lareira apagada, o cheiro de madeira úmida.
Ele virou-se e ergueu o polegar, esboçando um meio sorriso.
— Tudo limpo, senhores.
Dylan deu uma risada breve.
— Me sinto especial com tanta gente se arriscando por mim.
— É o mínimo que podemos fazer, — respondeu Lana, colocando a mão no braço dele. — Eu só queria poder fazer mais.
Dylan sorriu, cansado.
— Só quero deitar um pouco. Vocês fiquem à vontade e tem mais dois quartos lá em cima. Pode me ajudar a subir, querida?
Miley os observou aproximarem-se da escada.
— Verifiquem se os degraus estão firmes. E o corrimão também. Não quero ninguém despencando lá de cima.
Lana olhou por cima do ombro e soltou uma risada suave.
— Adoro o modo como você vê perigo em tudo, Miley.
Ela suspirou, tirando o casaco e pendurando-o no gancho.
— Talvez eu esteja ficando paranoica… ou só cansada demais.
— Cansada, mas atenta. Foi por isso que a deusa escolheu você, — disse Lana, sorrindo.
Miley retribuiu o sorriso, ainda com o olhar fixo na escada. Os degraus rangeram sob o peso dos dois. O vento lá fora aumentava, e o som dos galhos arranhando o telhado fez o chalé inteiro estremecer.
E, por um instante, Miley teve a certeza de que aquele lugar estava apenas fingindo estar em paz.
Uma das fileiras de telhas, já fragilizadas pelo último vendaval, deslizou num movimento seco; a peça corroída escorregou e bateu com um estrondo na calha metálica, entupida de folhas úmidas.
O ruído ecoou com precisão cruel — e, ironicamente, aconteceu exatamente acima do triturador de madeira no quintal e sobre a varanda que dava para o quarto de Dylan.
Miley sentiu o golpe no peito como se o som ao alto tivesse acionado um botão de alerta em seu corpo.
Wayne entrou com Piper, que pareceu encantada com o novo espaço — a mochila rosa da Hello Kitty saltava nas costas da menina, sua franja castanha caindo sobre os olhos enquanto ela correu para espiar as prateleiras.
A alegria infantil contrastou com a tensão que cubria o grupo como um manto pesado. Piper perguntou, saltitante:
— Onde vamos dormir?
— Pode ser na sala... — respondeu Wayne, ainda forçando um sorriso.
— O Dylan falou que tem dois quartos de hóspedes lá em cima. — disse Miley. — Podemos usar um.
Os olhos de Piper brilharam.
— Eu quero cachorros-quentes e filme até tarde!
Wayne titubeou, rindo de modo sem força.
— Talvez a gente leia um livro de história... e meça quanto tempo o trovão demora a chegar depois do relâmpago. — Era a melhor tentativa de normalidade que pôde oferecer.
Piper pulou em direção às estantes, cantarolando enquanto vasculhava objetos e brinquedos. Miley foi até a cozinha americana; o som do lume no bule competia com os estalos da casa velha, o lustre amarelado pendendo sobre a mesa de carvalho como um olhar cansado.
Ela encheu a chaleira e deixou a água começar a ferver, repetindo mentalmente as medidas que a mantinham no controle — observar, listar, antecipar.
Wayne aproximou-se, o corpo ainda carregado pelo medo antigo. Ele usava uma camisa de flanela surrada e calças jeans caqui quando se escorou no batente do balcão.
— Você sabe exatamente quando Dylan vai morrer? — perguntou, seco. Um pedido mascarado de exigência.
Miley hesitou.
— Não sei. Muitas pessoas morrem entre Sadie e ele. — Sua voz era apenas um fio. — Mas vou pensar em tudo. Vou tentar proteger o máximo que puder.
Wayne riu, um som sem alegria.
— Vai pensar? Depois de tudo isso, vai apenas pensar? Assim que aquele cego morrer, você acha que a Morte vira para mim e diz "não hoje"? — O deboche gritava, ferido, e Wayne bateu a mão no balcão.
Brad surgiu na cozinha com os braços cruzados, rosto fechado.
— Está tudo bem aqui? — perguntou, a rigidez de sempre.
— Se estivesse, estaríamos em casa — Wayne explodiu. — Não estou aqui para brincar de esconde-esconde com a coisa que vai me levar. Quero fazer algo! Não vou ficar esperando sentado!
Miley sentiu a respiração falhar.
— Wayne, nós já falamos. — ela respondeu, tentando manter calma — Dylan escolheu os seus termos. Ele quer esperar em paz. Não somos juízes para forçá-lo a nada.
— Você aceita isso? — rosnou Wayne. — Vai assistir um velho morrer?
— Ninguém aceita. — rebateu ela.
A tensão escalou, as palavras mudando de tom. Wayne avançou um passo, o pânico prendendo sua raiva como um punho.
— Me diga o que fazer. — exigiu, transtornado. — Matem alguém agora! Não é isso? Alguém tem que morrer fora da ordem! — apontou para Miley, com os olhos incendiados. — Se te matar isso acaba.
Brad explodiu:
— Cala a boca! — ergueu a voz, cerrando os punhos em proteção ao lado dela.
— E se isso funcionar? — Wayne perguntou, a voz baixa e afiada. — Se for isso… eu faço. Diga que é isso. Diga que terminará tudo.
Miley escutou algo lá em cima, um pequeno som metálico, quase como uma respiração longa. Olhou para as portas duplas da cozinha: as folhas de vidro batucavam compenetradas, já agitadas pelo vento.
Ela percebeu então que não as tinham destrancado ao entrar; elas estavam — agora — se movendo por conta própria, rangendo no batente com um sopro.
Um medo frio a agarrou pela nuca.
— Acho melhor você calar essa merda de boca, seu idiota. — murmurou ela, andou até a porta para fechá-la. — Wayne, dá um passo para trás, por favor.
Ele não obedeceu, as mãos cerradas, seus dedos fechados com força. Brad tentou contê-lo com um gesto, pedindo silêncio, e a sala tremeu com a expectativa do que viria a seguir.
Quando Miley fechou a porta da cozinha, o ar cortou o rosto dela: Algo estava errado. A fechadura estava arrombada — a trava arrancada, os ferros tortos num gesto de violência recente.
Havia pegadas na terra molhada, trilhas de lama que apontavam em direção àquela varanda.
— Alguém... — disse ela, a voz fina — ...entrou aqui. Deve estar perto.
Os olhos se encontraram na penumbra: Wayne esmoreceu um pouco; Brad alcançou uma faca afiada do faqueiro no ato de proteger. Piper deixou de cantarolar. O som da chuva preencheu o vácuo deixado pela palavra.
Eles ouviram — então — um estalo mais distante, vindo do lado do triturador, como se algo pesado tivesse esfregado contra metal.
Uma telha havia caído na alavanca da máquina e agora suas engrenagens pesadas e circulares estavam rodando agitadas à todo vapor.
— Lana e Dylan... — Miley falou.
— Merda! Vamos lá pra cima!
○○○
O quarto cheirava a madeira antiga e chuva distante. Dylan subiu as escadas com o braço apoiado no de Lana, sentindo o peso leve dela conduzindo-o com cuidado.
O cardigan que ela vestia roçava nos dedos dele como uma lã solta, áspera em alguns pontos e macia em outros. Um perfume sutil — lavanda e algo adocicado — o envolveu por um instante, trazendo-lhe uma paz breve. Quando chegaram ao quarto, ele suspirou.
Sabia exatamente onde estava. A cama ficava à direita, com o colchão de molas antigas que reconheceria pelo som e pela lembrança. Ele estendeu a mão, encontrou o lençol frio e sentou-se devagar, sentindo a pressão dos joelhos estalando.
Lana se afastou com delicadeza, a mão dela soltando-se da dele como se fosse um fio que se partia.
— Precisa de alguma coisa? — perguntou, a voz dela trêmula, quase pedindo para ficar.
— Não. — Ele sorriu de leve. — Só quero um tempo sozinho, se não se importar.
Mas havia algo na respiração dela. Uma hesitação que não cabia em Lana. Ele sentiu isso antes de ouvir qualquer som. Então, buscou novamente a mão dela no ar e a encontrou fria, trêmula.
— Isso não combina com você — disse com doçura. — Cadê a garota radiante que servia chá mais cedo e ria de tudo?
Ela riu, mas o riso soou fraco, quase engasgado.
— É difícil fingir alegria quando a gente sabe que coisas ruins estão vindo.
— Não pense tanto no que vai acontecer comigo — respondeu. — Pensar demais é como morrer antes da hora.
Um som o cortou. Um estalo seco, seguido por algo metálico, pesado, vindo lá de fora. Dylan ergueu o rosto, os ouvidos atentos. Sentiu as mãos de Lana se afastarem rapidamente.
— O que foi isso? — ela murmurou, já se movendo.
Os passos dela ecoaram no piso de madeira até a varanda. Dylan ouviu o som das portas de vidro deslizando, aquele rangido típico que ele conhecia desde a primeira vez que visitara aquele chalé.
Ele se levantou, guiando-se pelas mãos, tateando o ar e as bordas do criado-mudo.
— O que está acontecendo, Lana?
— Eu... acho que alguma coisa ligou sozinha lá embaixo — respondeu ela, hesitante.
Então, outro som — mais próximo. Um rangido vindo do closet, lento, arranhando o silêncio como uma unha no metal. Dylan prendeu a respiração. Pensou que fosse o vento, até ouvir os passos. Lentos. Precavidos. Indo direto na direção deles.
O coração dele começou a bater mais forte. Virou-se um pouco, de costas para o som, instintivamente protegendo-se.
— Lana? — chamou, tateando o ar. — O que foi?
Ela respondeu, mas a voz dela quebrou no meio:
— Meu Deus...
Antes que Dylan pudesse entender, ela o empurrou com força para o lado. Ele tropeçou, o ombro batendo no batente da porta, e ouviu o corpo dela cair logo depois. Um som surdo, um gemido contido.
— Quem está aí?! — gritou.
A resposta veio próxima demais, o hálito quente roçando seu rosto:
— Você não precisa saber.
A voz era jovem, carregada de raiva e prazer. Dylan sentiu o corpo inteiro gelar. Ele sabia — Derek.
Duas mãos o atingiram no peito. Fortes. Ele cambaleou para trás, batendo a cintura contra o parapeito da varanda. O ar lhe fugiu. Tentou se segurar, mas a chuva havia tornado tudo escorregadio.
O grito dele se perdeu na ventania quando caiu. O mundo girou em som e ar, até que algo girando — um ruído monstruoso e metálico — tomou conta do ambiente.
Houve dor. Uma dor que o partiu em pedaços antes mesmo de entender o que acontecia. O cheiro de madeira, sangue e ferro se misturou. Sentiu a pele rasgar, o corpo ser puxado.
Ele tentou sair, mas suas pernas estalaram em um ruído frágil antes de se torcerem em um ângulo que jamais pensou que deveriam fazer, espremendo dentro de algo que parecia espremer sua carne.
Tentou gritar, mas o som virou um soluço abafado. O pescoço cedeu com um estalo seco antes de seu crânio explodir entre as engrenagens.
Então, silêncio.
Do outro lado do triturador, o gramado começou a se tingir em vermelho, respingando em pétalas de carne, como se o chalé inteiro exalasse a morte que ele tanto esperava. O barulho cessou. A chuva caiu sobre o sangue, lavando, espalhando.
E a casa — aquela velha casa à beira do lago — respirou fundo, como se tivesse acabado de se alimentar.
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