Notas iniciais
Fala galera! Demorei mas saiu mais um capitulo ! Aqui e mais um capítulo explicando a conexão entre os personagens. Espero que gostem.

Martha King mantinha as mãos firmes no volante da mini van, um vermelho escuro demais e quase desbotado, os olhos pesados de cansaço enquanto a estrada da rota 23 se estendia infinita diante dela.

Os últimos dias na casa dos sogros deviam ter servido de descanso, mas a fadiga ainda a dominava como se tivesse carregado os pesadelos junto na bagagem.

Com um suspiro, ela estendeu a mão para o suporte e puxou a garrafa d’água. O plástico frio escapou dos seus dedos trêmulos e rolou até se aninhar contra o tornozelo, numa sensação incômoda que a fez apertar os lábios.

— Mark… — chamou em voz baixa, tentando acordar o marido adormecido no banco ao lado.

Deu dois tapinhas no braço dele, mas ele apenas se remexeu, indiferente. Ao fundo, os gêmeos Victor e Paul se desmanchavam em risadas altas, competindo com os sons estridentes de seus celulares, ambos sem fones e no último volume.

Era um caos de vozes metálicas e música repetitiva, e Martha não entendia como Mark podia dormir em meio àquilo. Perdendo a paciência, deu um tapa mais forte. Mark abriu os olhos de repente, a testa franzida.

— Mas o que foi, amor? — resmungou.

— A garrafa caiu no meu pé. Pega antes que eu perca o controle do carro. — Sua voz tinha um tom nervoso, quase ríspido.

Ele bufou, ainda meio sonolento.

— Era melhor eu estar dirigindo no seu lugar.

— Para com isso, falta pouco pra gente chegar em casa. — respondeu ela, entre dentes, sem desviar os olhos da estrada.

Mark se abaixou, pegou a garrafa e, em vez de guardá-la, abriu e bebeu um gole

— Quer? — ofereceu, estendendo-a.

Martha aceitou com um sorriso rápido.

— Obrigada… eu ia morrer de sede a qualquer momento.

Enquanto devolvia a garrafa, Mark se virou para trás.

— Victor, abaixa esse som! E coloca o cinto, já falei mil vezes!

— Ah, pai… — o menino resmungou, rolando os olhos. — A gente pode ir de novo no aquário?

No instante em que ouviu a palavra, Martha sentiu o estômago revirar. Seus dedos se apertaram mais forte no volante e uma expressão sombria atravessou seu rosto, rápida mas perceptível. Mark percebeu o brilho estranho em seus olhos e respondeu firme:

— Já falamos sobre isso.

Martha desviou o olhar para a pista bem a tempo de notar um ônibus penitenciário se aproximando pelo retrovisor. Reduziu a velocidade e deixou-o passar.

As janelas eram cobertas por grades e sombras, mas mesmo assim conseguiu distinguir silhuetas encostadas contra o vidro. Homens imóveis, moldados pela luz da tarde, e um deles — ela tinha certeza — mantinha os olhos fixos nela.

Um arrepio correu por sua espinha.

O ônibus seguiu pela curva adiante, mas a sensação de estar sendo observada persistiu, impregnando sua mente.

Ela engoliu em seco. Desde o dia do atentado fracassado no aquário, tudo parecia fora de lugar. Era como se a vida tivesse se fragmentado em antes e depois.

À noite, revivia a cena em sonhos: um atirador invadindo sua casa, abrindo fogo contra ela e seus filhos indefesos, os gritos ecoando até o despertar brusco, encharcada de suor e lágrimas. Ela acreditara que uns dias na casa dos sogros seriam suficientes para curar essa angústia, mas não foi. O peso permanecia, firme como chumbo em seu peito.

E agora, naquela estrada ensolarada e aparentemente tranquila, Martha tinha a estranha certeza de que o pior ainda não tinha começado.


○○○

O ônibus penitenciário sacolejou levemente ao passar sobre um buraco irregular no asfalto. O motorista nem sequer pareceu notar, mas a vibração teve consequências invisíveis e fatais.

Um pedaço metálico corroído da calota dianteira — enferrujado e esquecido por anos de descaso da companhia — rachou um pouco mais. O veículo, já velho e negligenciado, transformara aquele detalhe mínimo em uma sentença silenciosa.

A lasca passou a raspar contra o pneu, girando em círculos frenéticos como uma lâmina escondida. A cada curva que se formava à frente, a fricção cresceu, o destino se aproximando sem pressa, mas implacável.


○○○

Dentro da minivan, Martha sentiu o peso da estrada e dos pensamentos que a assombravam. Mark murmurou algo, arrancando-a de sua neblina mental.

— O que você disse? — ela perguntou, ainda dispersa.

— Você anda no mundo da lua ultimamente. Está mesmo bem? — insistiu ele, o olhar carregado de preocupação.

— Estou. Só queria descansar mais um pouco… mas as férias acabaram justamente hoje. —

Ela forçou um sorriso.

Mark tentou aliviar o clima:

— Pelo menos aproveitamos um pouco, apesar do que passamos.

— Eu não quero falar sobre aquilo. — Martha acelerou, as árvores se fechando ao redor da estrada.

À frente, apenas a traseira do ônibus penitenciário, cuspindo fumaça negra que se infiltrava em seu nariz como um mau presságio.

Mark suspirou.

— Não aconteceu nada demais com a gente. Devia estar feliz… Encontraram um dos terroristas foragidos. Está morto.

Por um instante, Martha se sentiu mais leve. Um sorriso involuntário brotou em seus lábios.

— Isso é… bom.

Paul, curioso, ergueu a cabeça do celular.

— Então acabou?

— De certo modo, sim. Aquele homem era muito mau. — respondeu Mark.

— Então podemos comemorar com um pote de sorvete gigante? — Paul pediu, animado.

Martha riu, acariciando os cabelos dele.

— Claro que sim.

Mas ao retornar os olhos para a estrada, seu corpo gelou. Um estampido seco e brutal ecoou à frente.

O pneu dianteiro do ônibus explodiu em pedaços que voaram pelo ar como estilhaços de granada.

O veículo perdeu o controle, guinando com violência para a lateral, bem no momento em que um carro tentava ultrapassá-lo. O impacto foi devastador, metal contra metal, faíscas contra o asfalto.

O grito dos gêmeos e de Mark se misturaram ao pânico que já habitava os pesadelos de Martha. Ela esmagou o freio com toda força, girou o volante para a direita, mas a minivan deslizou, travada pela inércia, atravessando a pista de forma lateral.

Não havia mais para onde correr.

O choque foi inevitável. O painel saltou contra suas pernas, quebrando-as em estilhaços de plástico e metal. O mundo desacelerou: Martha viu Mark arremessado contra o painel, o vidro do para-brisa explodindo em centenas de cacos afiados.

Um deles atravessou a garganta dele, jorrando sangue quente sobre sua blusa.

— Não!

Victor foi projetado para frente, seu corpo pequeno atravessando o espaço estreito entre os bancos antes de desaparecer pelo para-brisa estourado. O carro girou, rodopiou, até perder o equilíbrio e capotar.

A violência do movimento fez Martha ouvir seus ossos partirem abaixo da cintura, a dor queimando como fogo líquido.

Quando abriu os olhos, estava de cabeça para baixo. O cinto a prendendo, mas ferragens retorcidas já haviam penetrado em seu abdômen. Tossiu sangue, gotas escorrendo até o teto agora manchado com celulares quebrados, objetos pessoais e um trevo de quatro folhas do chaveiro da família.

— Mark?… crianças? — sussurrou, mas não houve resposta.

Pela janela rachada, viu os presos emergirem do ônibus tombado. Alguns mancando, outros correndo com desespero animalesco. Era a chance de suas vidas.

Martha, entre a consciência e a escuridão, distinguiu uma figura. Um homem alto, a sombra do pescoço marcada por uma tatuagem de caveira ardente.

Seu coração congelou. Reconheceu aquele símbolo.

Nos últimos instantes, Martha compreendeu a ironia cruel: sobrevivera ao atentado no aquário apenas para morrer pelas mãos indiretas do mesmo terrorista.

O destino encontrara um caminho tortuoso, mas certeiro.

A escuridão tomou seus olhos. O último sopro escapou de seus lábios, levando consigo a sensação fria de que nunca houve escapatória.


○○○

Miley ficou parada diante do espelho do banheiro, as mãos sobre a pia como âncoras, enquanto tentava forjar um semblante que não traísse o que ardia por baixo da pele.

Respirou fundo, estufou o peito, desenhou com os lábios um sorriso calculado e, pela mesma fresta, viu no reflexo algo que não combinava com a pose que queria vender ao mundo: uma versão sua de olhos arregalados, pálida, as veias do pescoço saltadas de medo.

Era como se o vidro devolvesse a verdade, não a máscara.

Ela afastou o rosto, quase riu de nervoso, e tentou convencer-se de que aquilo era apenas cansaço, trauma, a sobra do pesadelo que a acompanhava todas as noites.

"Acorda, Miley”, pensou, como quem chama alguém de volta de uma piscina funda.

Imaginou-se acordando de um sonho horrível qualquer ( o aquário, as mortes, a lista )e voltando ao seu apartamento inteiro, ao seu mundo seguro. Mas a imagem não cedeu; o reflexo devolveu o que via, insistente, e ela percebeu com uma frieza que arranhou seu peito: aquilo era a realidade nua, sem retoques.

Ela estava fadada a morrer. Só depois de ver todos que tentou salvar serem mortos primeiro. A impotência veio rápida, como um nó apertando.

Não era apenas a angústia de ter falhado; era a certeza de que a ordem já estava escrita, e que sua ação para libertar uns só adiava o que era inevitável.

Cada rosto que piscava em sua memória — Lana, Brad, Piper, Wayne — parecia gravado numa tabela que alguém, em algum lugar, riscava meticulosamente. E a culpa era um peso tão físico que a fazia curvar os ombros.

Foi então que a fala de Fiona veio à mente, nítida como se tivesse sido dita há segundos:

Encontrem aquilo que liga todos vocês.”

Ela vira aquelas palavras como uma chave na mão, agora quente. Procurar o elo — aquilo que unia as mortes, o elemento comum — fora a luz tênue que atravessara seu pavor.

E ela acreditava ter encontrado: algo sutil, escondido entre as rotinas e os objetos dos sobreviventes, um fio que cruzava suas histórias. Estava pronta para desmontar a vereadora de coincidências e mostrar o que havia ligado o aquário àquela sequência de horrores.

Do outro lado da porta, a sala cedida pelo homem cego a quem haviam conhecido no dia anterior esperava . Um espaço simples, cortesia de um estranho que, com a calma dos que já se acostumaram com a fragilidade do corpo, lhes emprestara abrigo e audição.

Dylan Zahler, com sua voz mansa e olhos que não viam, mostrara-se mais receptivo do que qualquer pessoa com toda a visão do mundo: acolhera confissões como quem recolhe cartas antigas.

Talvez porque já não tivesse nada a perder; talvez porque, com a perda do marido, a morte lhe soasse menos como ameaça e mais como companhia inevitável. Ele havia oferecido o lugar sem perguntas, apenas presença.

Alguém bateu na porta: três toques leves, metódicos, quase protocolares. Miley estremeceu, levou um lenço ao rosto e respirou, contando silenciosamente até três.

Um fio de água da torneira ainda pingava. Um som mínimo em meio ao silêncio pesado que se instalara. A voz que veio de fora era a de Brad, curta e cautelosa:

— Miley? Está tudo bem aí?

Ela sentiu o mundo apertar por um segundo, mas forçou o sorriso que havia treinado no espelho. A resposta saiu firme, embora a emoção tremesse por baixo:

— Sim. Já vou.

Guardou o lenço no bolso, ajeitou o cabelo com as pontas dos dedos e deixou a porta entreaberta para que o corredor a trouxesse à sala onde, agora, as verdades deviam ser ditas.


○○○

O loft de Dylan Zahler parecia maior do que realmente era. As amplas janelas cobertas por cortinas pesadas permitiam apenas frestas de luz cinzenta, que riscavam o espaço com uma atmosfera fúnebre.

Fotografias e lembranças espalhadas pelas paredes e prateleiras davam a sensação de que Travis ainda estava ali, pairando invisível em cada detalhe — uma réplica de carro de sua concessionária sobre a cômoda, um quadro com o casal juntos, um bilhete preso com ímã na geladeira.

Miley atravessou o ambiente devagar, seus passos ecoando no assoalho de madeira. Os olhos percorreram cada rosto presente, como se precisasse registrar a cena antes que algo — inevitavelmente — a desfizesse.

Lana estava no balcão da cozinha, mexendo lentamente o chá de camomila. Seus dedos enfaixados revelavam as queimaduras da jacuzzi, lembrança recente de uma morte horrível.

Tentava disfarçar o tremor servindo os demais, mas a forma como as mãos se agitavam denunciava o trauma ainda pulsante. Mais adiante, Brad se afundava numa poltrona reclinável, sustentando um diálogo descontraído demais para o clima, tentando arrancar de Wayne algum traço de normalidade.

Wayne, o guia turístico do aquário, pareceu deslocado. Havia aceitado o convite sem saber exatamente o motivo, localizado às pressas pelas redes sociais, e agora estava observando todos ali com um misto de curiosidade e suspeita.

Ao lado dele, Piper estava encolhida na mesinha de vidro, rabiscando com um giz de cera colorido. Seus cabelos castanhos claros formavam uma cortina que escondia o rosto delicado. Miley estremeceu ao vê-la com a lembrança cruel de sua visão voltava: a cabeça da menina se chocando contra o corrimão, o corpo pequeno despencando até o piso frio.

Do outro lado, perto das janelas, Dylan estava sentado, imóvel. O óculos escuros refletiu o pouco de luz do ambiente. Usava uma blusa clara sob um casaco de frio, o rosto sereno demais, como se ocultasse algo. Ao seu lado, repousava uma pasta escura. Ninguém ousara tocar nela.

Lana, com a voz trêmula mas ainda tentando soar hospitaleira, entrou na sala com a bandeja de xícaras fumegantes.

— Está pronto — disse. — Não sejam tímidos, por favor.

Ela ofereceu uma xícara a Dylan. Ele aceitou, agradecendo baixo:

— Você é um anjo, Lana. — A forma como a palavra saiu parecia mais despedida do que elogio.

— Apenas estou fazendo minha parte. — respondeu ela, forçando um sorriso.

Wayne pegou a sua xícara, mas não bebeu.

— Com todo respeito… — sua voz quebrou o silêncio. — Eu ainda não entendi o que estamos fazendo aqui. Sei que Dylan perdeu Travis… sinto muito, aliás. Mas por que me chamar? Por que todos parecem tão… abatidos?

Brad ergueu os olhos, pesados de entendimento, e interveio:

— Você se lembra do que aconteceu no aquário. É sobre aquilo. Miley vai explicar melhor.

Wayne pareceu desconfiar, o olhar deslizando até Piper, que continuava desenhando distraída.

— Eu não devia ter trazido minha filha... — murmurou. — Mas sou sozinho, não tinha escolha. Se isso for conversa de adultos, ela não deveria ouvir.

Piper ergueu o rosto, resmungando:

— Eu sou adulta. Não tenho medo de nada.

Wayne suspirou, rindo sem humor.

— É corajosa demais. Vá desenhar na cozinha, querida. Depois a gente conversa.

De má vontade, Piper arrastou a baqueta até o balcão, sentando-se com o giz ainda na mão.

O clima pesava como neblina. Miley respirou fundo, tentando encontrar a primeira palavra.

— Eu… não sei bem onde começar.

— Talvez pelo começo. — sugeriu Lana, ainda abraçada à sua xícara.

Wayne sorriu sem graça, mas Brad permaneceu sério, tenso, como se já conhecesse o desfecho.

Miley sentou-se na poltrona diante deles.

Puxou da bolsa um punhado de arquivos, fotografias em preto e branco, recortes de jornais amarelados. Espalhou-os na mesa de centro. O som do papel se abrindo pareceu ressoar na sala como um sussurro do passado.

Dylan, curioso, estendeu os dedos e tocou em uma fotografia: um teleférico despedaçado nas montanhas, corpos sendo retirados por equipes de resgate. Dez jovens mortos logo após escaparem da explosão de um shopping.

Lana engoliu em seco ao pegar um recorte mais recente: o obituário de Victor Aster, o pai de sua amiga.

Miley, com um meio sorriso sombrio, explicou:

— São provas. Fotografias. Registros. Todos ligados a um mesmo ponto. Todos sobreviventes de tragédias que… não deveriam ter sobrevivido.

Wayne estreitou os olhos.

— O que isso tem a ver conosco?

— Em 2009... — continuou Miley, firme —, um rapaz chamado Nick O’Bannon impediu uma explosão no shopping Target. Centenas escaparam. Só que… a Morte não deixou barato. Ao longo de dez anos, foi atrás de cada um. Um por um. Até que todos os nomes fossem riscados da lista.

Um silêncio gelado se espalhou. Lana fechou os olhos por um instante, a memória invadindo.

— Eu e Miley devíamos ter morrido no cinema naquele dia. Nós fugimos da aula, nos escondemos numa sessão. Houve o alarme de incêndio… e saímos. Eu achava que foi uma bênção. Agora vejo que não.

— Exato. — disse Miley. — É difícil lembrar os detalhes de um dia específico dez anos atrás, mas Wayne… você estava lá. E isso significa que também está na lista.

Wayne arregalou os olhos, indignado.

— Isso é loucura! Minha filha nem era nascida! Que sentido teria a Morte ir atrás dela?

Miley pegou outro recorte e deslizou até ele. Era a notícia de um acidente de metrô. Pai e filho mortos. A criança tinha apenas um ano.

— Porque Piper nunca deveria existir. Se alguém escapou, se gerou vida onde não deveria, a Morte corrige. Não poupa nem as crianças.

As palavras ecoaram pela sala como um decreto. O silêncio seguinte foi quase insuportável. Cada um, em silêncio, sentiu o peso invisível da sentença pairando sobre si.

E, pela primeira vez, Wayne não conseguiu olhar nos olhos da própria filha.

Brad franziu a testa, as mãos inquietas prendendo a borda da xícara com força.

— E esse tal de Nick… — perguntou, baixinho — ele sabia que isso aconteceria? Tinha noção de que as pessoas que salvou iam morrer depois?

Miley abanou a cabeça, mas a voz saiu firme, carregada do peso de horas sem dormir.

— Pesquisei a vida dele durante essa tarde. Achei registros de um incidente num autódromo em McKinley. — um artigo de jornal com chamas contorcendo sobre um carro de corrida poderia ser vista — Ele fugiu de lá com um grupo. Dizem que teve uma visão parecida com a minha.

— Pela Deusa... — Falou Lana.

— Ele tentou salvar seus amigos no cinema, mas parece que eles morreram duas semanas depois em uma cafeteria. A sua tentativa de salvar eles e a forma como ele evitou as mortes no shopping… foi o que lançou a nova lista. É como uma bola de neve: cada vida salva criou um novo erro no destino. E enquanto tiver uma pessoa que deveria estar morta, isso não vai parar.

A sala ficou menor por um instante, como se as paredes tivessem se inclinado para ouvir. Lana aproximou-se devagar, deixando a xícara sobre a mesa com cuidado de quem toca vidro fino.

— Isso não vai acontecer... — disse ela, com a voz que tentou soar firme demais para ser verdadeira. — Fiona disse que a chave era achar o que liga todos. Nós encontramos esse elo. Agora temos que descobrir como parar a Morte.

Miley levantou os olhos, e a determinação que a cansava brilhou por um segundo.

— Alguém tem que morrer fora da ordem. — falou, cortando o ar. — É o único jeito. Foi isso que permitiu que Fiona ainda estivesse viva depois de tantos anos. É doloroso, é cruel… mas parece ser a regra.

Wayne levantou-se de repente, o corpo inteiro tenso, e avançou um passo na direção dela. A voz era baixa, um rosnado de incredulidade.

— Quem é o próximo? — perguntou, ameaçador, e aproximou-se até que o calor de sua respiração tocasse a pele dela.

Brad ergueu-se também, a postura de quem não dá um centímetro sequer, ficando entre a jornalista e o guia.

— Não toca nela. — avisou, a sombra de uma promessa de violência no tom. — Nem pense nisso.

— Existem muitas pessoas, Wayne. — Miley falou — Muitas vidas que saíram ilesas naquele dia. Foram 35 ao todo e parece que um terço delas já... morreu.

— E você não consegue ter majs uma de suas visões esquisitas para saber quem é a porra do próximo?

Miley manteve-se calma o quanto pôde. Abriu uma pasta amassada na mesa e, como quem revela uma sentença, disse:

— Eu não sou uma merda de uma vidente para saber disso. Eu não sei quantos mais precisam morrer para chegar em quem está nessa sala... mas posso falar com toda certeza quem vai morrer na ordem aqui.

— Já é um avanço. — Resmungou Wayne.

— Cala a boca, cara. — Brad falou, incomodado.

— Nessa sala... o próximo é o Dylan, depois o nosso querido e simpático amigo Wayne... — Ela observou o bombeiro com apreensão — E então Brad...., Piper, a Lana e, por último eu.

A reação de Wayne foi instantânea: o rosto lhe inchou, e as lágrimas vieram quentes, traçando sulcos vermelhos na pele.

— Eu já perdi minha esposa no parto de Piper. — murmurou ele, quebrado — Agora isso… a Morte atrás de mim? Eu não posso… — Sua voz falhou, carregada de uma angústia antiga que vinha de mais cedo, de um medo que sempre carregara nas costas.

Miley desviou o olhar, apertando os dedos até que os nós das unhas ficassem brancos.

— Podemos tentar salvar o Dylan... — sugeriu ela, com pressa, como quem estica a mão para agarrar um fio tênue de esperança. — Fazer algo que o mantenha seguro, que impeça o destino de alcançá-lo.

Dylan, que estivera quieto até então, ergueu a pasta escura ao lado do braço e estendeu-a com um movimento calmo.

— Não tentei esconder isso. — disse ele, como se falasse de um destino anunciado. — Pegue. Leia.

Brad abriu a pasta com cuidado e puxou de dentro um exame: um raio-x craniano. O silêncio que se seguiu foi como um soco no estômago. Miley sentiu a espinha gelar.

— O que… o que isso significa? — balbuciou.

Dylan olhou para eles com uma serenidade que doía.

— Não tenho muito tempo. — falou, sem dramatizar. — É um aneurisma. Está prestes a romper. Me disseram que é do tipo bumerangue... imprevisível, traiçoeiro. Está em fase final. Não há nada que possam fazer.

A sala perdeu o equilíbrio por um segundo. Lana foi até Dylan e o envolveu num abraço, as mãos enfaixadas tremendo.

— Não. — murmurou ela, como se fosse capaz de negar a própria ciência com força de vontade. — Nós temos que fazer alguma coisa.

— É impossível. — Dylan respondeu com uma calma quase compassiva. — Depois que Travis se foi, nada mais fez sentido. Quero ir logo. Ir encontrá-lo.

Miley sentiu o aperto no peito, a vontade de gritar, de rasgar o papel, de cuspi-lo ao chão e arrancar a inevitabilidade daquela sentença.

— Não... — insistiu, porque insistir parecia a única coisa que ainda podia fazer. — Temos que tentar. Pelo menos aqui, por agora, proteger quem está nesta sala. Não vou aceitar que vocês se rendam assim.

Dylan respondeu então com uma oferta que parecia tanto resignação quanto generosidade:

— Meu chalé, na beira do lago, na divisa de Cloverdale com McGregor. Coloquem-nos lá. Sem barulho de cidade, sem buzinas, sem gente. Se eu vou, quero que seja num lugar de paz. — Seus olhos se perderam por um momento numa janela imaginária, vendo talvez as margens do lago, o reflexo das árvores, a calma que já não cabia mais no corpo.

Miley observou-o e sentiu um aperto distinto, misto de pena e de raiva. Era intolerável vê-lo entregar-se tão fácil; mas havia também, no rosto dele, uma aceitação que trazia consigo uma estranha clareza.

— Tudo bem. — murmurou ela, já despertando para a logística da fuga improvisada. — Vamos para o chalé. Agora.




Notas finais
Eae! Chegamos acho que na metade dessa fic kkk aqui é a famosa parte em que os personagens de Premonição se unem para saberem oque diabos eles estao passando após algumas mortes brutais ja terem ocorrido. Aqui decidi unir Premonição 4 com a minha fic ( e sim, essa história se passa em 2019, dez anos após as mortes de Nick, Janet e Lori na cafeteria). Sempre me interessei no que realmente aconteceu com o tanto de gente morta naquele cinema e no shopping como um todo. Eles realmente morreram antes de Nick? Eram para estar em uma lista nova? Ou oque? Entao baseado nisso adicionei Miley e todos os personagens apresentados aqui sendo da lista da Morte do cinema, unindo o útil ao agradável kkkk Espero que gostem pois no próximo cap teremos a presença de mais um terrorista na area e mais mortes. Falou e ate.