Notas iniciais
Fala galera! Mais um capitulo saiu! Espero que gostem, boa leitura!

O bairro modesto de Cloverdale parecia adormecido naquela tarde cinzenta. As casas simples tinham cortinas pesadas nas janelas, e poucas pessoas caminhavam pela rua estreita.

Entre um mercado abandonado e uma loja de roupas usadas, uma fachada discreta chamava atenção: vitrine cheia de velas, símbolos antigos, incensos consumidos até a metade e bonecos de pano presos por fitas vermelhas.

Era ali — a loja de ocultismo.

Miley Aster empurrou a porta primeiro. Um sino antigo soou acima da entrada, ecoando pelo espaço apertado. O cheiro de sálvia queimada e mirra tomou suas narinas, deixando uma sensação de confusão, quase sufocante.

Ela olhou ao redor: estantes abarrotadas de objetos estranhos, desde crânios decorativos até livros gastos de lombadas rachadas. Era tanta coisa que seus sentidos pareciam entorpecidos. Nada a tocava de forma específica — apenas um emaranhado de misticismo acumulado.

Atrás dela, Lana West entrou em silêncio. Seus olhos varreram o ambiente com desconfiança, e os dedos buscaram instintivamente o pingente de cristal em seu pescoço. Passou-o entre as unhas como quem acaricia um amuleto.

— Hécate, cuide de nós… — murmurou, quase inaudível.

Miley lançou um olhar rápido, percebendo o nervosismo da amiga.

Então Brad Eggers entrou por último, fechando a porta atrás de si. O rangido das dobradiças pareceu mais alto do que deveria. Ele mantinha a mandíbula travada, os olhos atentos como se esperasse algo saltar da penumbra a qualquer instante.

— Tem certeza de que isso vai resolver tudo? — perguntou, a voz baixa, quase um rosnado de ansiedade.

Miley se aproximou do balcão e bateu a pequena campainha de latão ali. O som metálico ecoou pelo ambiente abafado.

— Eu não sei… — respondeu, ainda encarando o reflexo distorcido da campainha. — Mas pretendo que se resolva logo.

Um silêncio pesado pairou.

Lana caminhou até uma prateleira próxima, distraindo-se por instantes ao passar os dedos sobre um telescópio antigo de latão. O objeto rangia levemente quando tocado, como se há muito não fosse manuseado.

— Dizem que a Fiona é uma excelente cartomante — murmurou. — Já ouvi vários comentários de amigos meus.

No fundo da loja, uma cortina de contas coloridas chacoalhou suavemente. O som foi delicado, mas nele havia algo que soou como um aviso.

Fiona surgiu dali.

Era uma mulher de cinquenta anos, mas sua presença preenchia o espaço como se fosse muito mais velha, muito mais antiga. Os cabelos curtos, loiros, estavam presos em um penteado extravagante que destoava do bairro modesto onde se encontravam.

Seus olhos azuis, duros, fixaram-se neles com intensidade. Não havia sorriso, apenas uma frieza inquisitiva.

— O que desejam? — perguntou, a voz firme, sem rodeios.

Miley respirou fundo. Seus dedos tremeram levemente ao se apoiarem no balcão. Quando falou, sentiu o peso da sentença cair sobre todos os três.

— Queremos quebrar a maldição da Morte sobre nós.

O silêncio seguinte foi tão denso que até o cheiro dos incensos pareceu apagar por um instante.

Fiona soltou um sorriso breve, mas que não alcançou os olhos.

— Isso é uma piada, não é?

Miley não piscou. Sua voz saiu firme, mas havia desespero escondido nela:

— Não é piada. Precisamos da sua ajuda. Você… passou pelo mesmo que nós. É a única que pode nos dizer como sair disso.

O sorriso de Fiona se dissolveu. As mãos, antes repousadas sobre a mesa, subiram até a echarpe vermelha enrolada no pescoço. Ela a apertou como se fosse um amuleto.

— Vocês não entendem… o simples fato de estarem aqui já é uma ameaça para mim.

Lana franziu o cenho, desconfortável.

— Ameaça? Como assim?

Os olhos de Fiona brilharam como facas sob a luz das velas.

— Porque eu tenho inimigos. Muitos. E a presença dos escolhidos da minha maior inimiga aqui dentro… é um presságio de que algo terrível está para acontecer.

Ela se ergueu devagar, a saia arrastando pelo chão de madeira. Caminhou até a porta e, sem tirar os olhos deles, girou a placa de “Aberto” para “Fechado”. O estalo da tranca ecoou na loja como um aviso final.

— Venham. — Sua voz soou baixa, quase um sussurro. — Até a sala de leitura.


○○○

Sadie Bruckner afundou no estofado macio do sofá enquanto os créditos de Amor Mata subiam pela tela da televisão.

Seus olhos estavam úmidos, o coração acelerado. Haviam se passado dez anos desde que vira aquele filme pela primeira vez — na noite em que sua vida quase terminou no cinema, quando o caos e a morte tentaram ceifar tantas pessoas e, por pouco, não levaram nenhuma delas.

Lembrar era como tocar uma cicatriz invisível. E, no entanto, ali estava ela: viva, mais do que nunca. A sobrevivência tinha um gosto agridoce, e hoje parecia mais agradável.

Não apenas por ter sido salva novamente — no recente acidente do aquário, graças àquela jornalista atrevida de cabelos cor de fogo — mas porque a vida, apesar de cruel, ainda lhe oferecia triunfos.

Sadie sorriu sozinha, os lábios manchados de vinho, e despejou os últimos vestígios da garrafa na taça. O cristal tilintou contra o vidro vazio.

— Eu quero mais. — murmurou, como se fosse uma confissão íntima.

Deslizou o roupão felpudo pelo corpo, as iniciais “S.B.” bordadas em dourado nas costas, e caminhou até a pequena adega climatizada. Escolheu a garrafa mais cara, um Bordeaux de safra única, girando-a na mão como quem segura um troféu.

Hoje era um dia de celebração: o contrato com a campanha em Paris estava assinado, e dentro de alguns dias ela estaria partindo.

Quando retornou ao jardim, encontrou Teddy Fresno, seu pretendente do momento, enxugando o corpo molhado da piscina. O sol refletiu nas gotas que ainda escorriam de sua pele.

Ele vestiu um roupão simples e lhe ofereceu uma piscadela preguiçosa.

— Queria ser você. — Disse, com um sorriso enviesado — Paris… isso é grande.

Sadie riu, erguendo a taça.

— Ora, Teddy. Você já esteve em Milão.

— Mas oportunidades assim não duram pra sempre.

— Eu tenho uma vida inteira esperando por mim. — Retrucou, com aquela confiança que ele admirava.

Sadie caminhou até a jacuzzi instalada sob a edícula. O teto de treliças estava coberto por ramos e trepadeiras floridas, que filtravam a luz em desenhos delicados sobre o piso de madeira. Um recanto paradisíaco, escondendo perigos invisíveis.

Ela digitou no pequeno painel lateral, programando a água para 25 graus em potência baixa. O visor piscou com um aviso discreto: “Não exceder potência acima de 5.0V.”

— Quer companhia? — Teddy perguntou, já se servindo de cerveja do balde de gelo.

— Não. — respondeu com firmeza, mas sorrindo.

— Quero um tempo só meu… depois da manhã que nós dois tivemos. E também se importa se abrir para mim? Esses músculos tem que servir para alguma coisa.

Teddy riu, recordando como ficaram na cama fazendo amor, e agarrou a garrafa de vinho que ela trouxera.

— Você é sortuda de ter alguém tão prestativo como eu.

Girou o saca-rolhas com destreza. Sadie, distraída, ajeitava os cabelos soltos, até que um estouro seco a fez estremecer. A rolha voou com força, zumbindo pelo ar.

Próximo demais em seu olho esquerdo. Ela instintivamente recuou com um gritinho.

— Quase acertou minha cabeça, seu idiota!

Teddy riu, sem se preocupar. A rolha ricocheteou e atingiu a base metálica da luminária suspensa sobre a jacuzzi. O impacto foi pequeno, mas suficiente para fazer um dos pingentes de vidro balançar.

O movimento delicado, porém insistente, fez o gancho de apoio se deslocar dois milímetros — quase imperceptível, mas letal no silêncio da tarde.

No chão, a rolha rolou até parar entre as sombras das plantas, repousando próxima a uma mesinha lateral onde estavam alguns incensos meio queimados, óculos escuros esquecidos e o balde de gelo com garrafas de cerveja vazias.

Sadie não notou nada. Apenas revirou os olhos, rindo do absurdo. Teddy lhe roubou um beijo rápido antes que ela o empurrasse de leve.

— Vai jogar sinuca ou sei lá… me deixa relaxar um pouco.

Com um suspiro, ela se aproximou da jacuzzi, tirando seu roupão e ficando apenas de biquíni.

A tampa retrátil deslizou com lentidão, soltando vapor. Sadie mergulhou um pé, depois outro, sentindo o calor envolver sua pele. Por um instante, fechou os olhos e deixou escapar um suspiro satisfeito.

Do alto, o pingente de vidro ainda balançava, quase imperceptível, sustentado por um gancho que rangeu de leve… como um presságio que ninguém ali escutava.


○○○

O espaço era sufocante: paredes cobertas de tapeçarias escuras, o ar espesso de incensos, e velas consumindo o oxigênio. O círculo de luz tremeluzente parecia estreitar-se sobre eles. Fiona sentou-se primeiro, rígida como uma estátua, e apontou as cadeiras em frente.

Miley quebrou o silêncio:

— Eu sou Miley Aster. Eles são Lana e Brad. Eu tive uma visão no aquário, vi o que ia acontecer, e...

Fiona levantou a mão com rapidez:

— Não precisa. Eu vi no jornal. Vi a carnificina evitada. Ousado, ousado demais… Mas não pense que isso os salvou. — A voz dela desceu para um sussurro. — Só atrasou. Agora as pontas estão sendo cortadas, uma a uma.

Miley respirou fundo, tentando se manter firme.

— Eu sei. Já contei oito mortos... nove se for contar um dos terroristas que está sendo caçado agora… ele é o próximo.

Fiona entrelaçou os dedos.

— Então vamos às cartas. A sua sorte, minha querida, não deve ser muita.

Ela embaralhou com movimentos lentos, hipnóticos, até estender o baralho gasto e amarelado.

— Corte.

Miley obedeceu. No instante em que separou as cartas, o ar pareceu mudar. O facho das velas oscilou levemente, como se algo invisível tivesse atravessado a sala.

Fiona abriu a primeira carta.

— Nove de Espadas. — Sua voz soou como uma sentença. — Angústia. Pesadelos. A presença inevitável da morte já se esgueirando entre vocês.

A segunda carta deslizou sobre a mesa.

— Oito de Paus. Rápido. Breve. Um destino que se precipita sem que possam impedir.

Lana levou a mão à boca.

— Isso quer dizer que… que não temos saída?

Brad tentou segurá-la pelo ombro, mas até sua mão estava tremendo.

— Calma. Vamos ouvir até o fim.

A terceira carta surgiu, com a imagem de uma torre sendo despedaçada por relâmpagos.

— A Torre. — Fiona falou quase com prazer. — A queda. A destruição dos alicerces. O que vocês conhecem será reduzido a cinzas.

Por fim, Fiona colocou a última carta. O silêncio da sala ficou absoluto.

— A Morte.

Miley piscou, atenta e tentando não cair na tentação de se perder nas emoções pessimistas dos outros dois ao lado.

— Eu conheço essa carta. Lana já me explicou… ela ama essas coisas esotéricas. Isso significa mudança.

Fiona sorriu sem alegria.

— Sim. Mudança. Transformação. Mas não se enganem: há mudanças que abrem portas, e há mudanças que abrem covas.

Ela tragou um cigarro, acendendo-o com a própria vela. A fumaça misturou-se ao incenso, sufocando-os ainda mais.

— O destino de vocês foi selado no aquário. E agora a Morte está apenas… reequilibrando a balança. Depois de muito tempo, ela finalmente caça o que lhe foi roubado.

Brad se inclinou sobre a mesa, nervoso.

— Reequilibrando? O que diabos isso significa?

— Significa que algumas das almas que deveriam morrer naquele dia já estavam marcadas há muito tempo. Só agora ela conseguiu arrastá-las de volta para a ordem.

Miley apertou as mãos contra o colo, aflita.

— Mas… o que isso quer dizer? Para nós?

Miley sentiu uma leve baixa da temperatura passar em sua pele, mas não sabia se aquilo era real ou coisa da sua cabeça. Fiona permaneceu imóvel, soltando a fumaça pelo nariz.

— Quer dizer que cada um de vocês vai morrer. Em breve. Dias, talvez semanas… meses se tiverem sorte. Mas a lista é longa. E ela não erra.

Brad ergueu a voz, a raiva misturada ao pânico:

— Não! Você saiu da lista, não saiu? Então nos diga como!

Fiona gargalhou, um som áspero que cortou o ar. Lentamente, ergueu a barra do vestido. Debaixo dele, uma perna metálica refletiu o brilho das chamas.

— Este foi o preço. Viver imcompleta... viver sozinha depois de presenciar todos que eu amava serem levados antes de mim.

Lana engoliu em seco.

— Como você conseguiu…?

Fiona soltou uma baforada de fumaça. Seus dedos deslizaram pelos anéis, tocando as contas místicas no pescoço como quem acaricia cicatrizes.

— Muitos anos atrás, evitei um atentado em um acampamento. Vi cada pessoa que eu amava morrer em pedaços diante dos meus olhos. Então conheci outra sobrevivente, de um desastre chamado Sky View. Foi com ela, com Íris, que aprendi a quebrar a lista.

Miley se inclinou, desesperada:

— Então diga! O que precisamos fazer?!

O olhar de Fiona queimou, frio como gelo.

— Alguém precisa morrer fora da ordem. Só assim a Morte perde o rastro.

— Isso é suicídio! — Lana disparou, com a voz embargada.

— Foi o que Íris me disse também. Mas eu tentei. E veja… — ela ergueu a perna metálica — estou viva até hoje. Ou faria isso ou viveria isolada em uma cabana como ela para sempre.

De repente, Fiona se levantou e soprou todas as velas de uma vez. A escuridão se fechou sobre eles, restando apenas a brasa incandescente do cigarro.

Sua voz saiu baixa, quase como um feitiço:

— Descubram o que conecta vocês ao passado, afinal essa não é a primeira vez que vocês enganam a Morte. Essa é a única saída que terão.

Ela abriu a porta da sala, o rosto agora meio oculto pelas sombras.

— E vão embora. Odeio me sentir observada pela Morte.


○○○

A placa da loja de ocultismo, “Laços do Destino”, rangeu quando Miley, Lana e Brad empurraram a porta de saída. O cheiro denso de ervas queimadas ainda grudava em suas roupas, impregnando o ar como se tivesse se infiltrado em seus pulmões. Lá dentro, a vidente havia sussurrado coisas que pareciam ecoar até agora.

Brad passou a mão pelos braços, arrepiado.

— Aquela mulher… deu arrepios em mim. — Sua voz saiu mais baixa que o normal, quase um segredo.

Lana ergueu o queixo, como quem não queria demonstrar fraqueza.

— Se Fiona está viva depois de décadas, nós também podemos resistir. — Ela encarou Miley — Ainda dá pra lutar… antes que aquilo nos alcance.

Miley abriu a boca para responder, mas parou.

Um vento gelado cortou a rua estreita, balançando as árvores com uma suavidade quase traiçoeira. As folhas sussurraram, como se alguém as tivesse empurrado com dedos invisíveis.

Miley estremeceu. O frio penetrou por debaixo da jaqueta, arrepiando sua pele. Foi então que ouviu: o choro de um bebê.

Do outro lado da rua, um casal empurrava um carrinho, tentando atravessar apressado. Miley fixou o olhar — e nesse instante, uma onda de cheiro forte de incenso tomou seu nariz. O mesmo odor da loja, mas mais agressivo, como se tivesse explodido do nada.

Seus olhos vagaram e viram o sistema de irrigação de um jardim ligar sozinho. Jatos d’água espirraram, encharcando uma revista de moda caída no chão, junto de sacos de lixo.

Na capa molhada, o rosto de Sadie estava sorrindo, borrado pela água.

Miley piscou, perturbada. Quando voltou os olhos para frente, Lana e Brad estavam a encarando de forma estranha, imóveis, como se esperassem que ela dissesse algo.

— O quê? — Miley perguntou, desconfortável.

Brad franziu o cenho.

— Lana te chamou umas três vezes.

— Eu… — Miley hesitou, pressionando os lábios — Acho que algo ruim vai acontecer com Sadie.

— Ela é a próxima? — Lana perguntou — Então Sean...

— Já deve estar morto. A Morte se encarregou de apressar a lista nesse meio tempo.

O silêncio pesou. Então Lana deu um passo à frente, os olhos fixos e intensos.

— Isso só pode ser um sinal da deusa. Talvez seja nosso dever salvá-la.

Eles seguiram até o estacionamento público. O chão estava coberto de folhas úmidas e restos de lixo. Miley desviou de uma garrafa de vinho quebrada, os cacos refletindo a luz da rua como lâminas afiadas demais.

Brad chutou uma pedra e suspirou.

— Não sei se acredito nisso… Mas tanta gente morrendo em menos de uma semana não pode ser coincidência.

Miley o encarou de lado.

— Você já foi salvo alguma vez?

— Bem... — Ele riu — Conheço uma jornalista ruiva que me salvou de um aquário. Conhece?

— Eu tô falando sério. Se lembra de alguma coisa?

Ele pensou, coçando a nuca.

— Não lembro… mas, sendo bombeiro, é claro que já estive perto muitas vezes.

Miley sorriu de forma sombria.

— Bingo. — E continuou, destravando o carro. — E se um desses dias em que sua vida foi posta à prova… não era pra você sobreviver? E se a Morte só estiver corrigindo isso agora?

Brad ficou sério.

— Isso seria péssimo. Tenho muitos planos pela frente.

O jeito que ele a encarou fez Miley sentir um aperto. Havia algo pessoal, quase íntimo, naquelas palavras. Ela desviou o olhar com um sorriso breve, como se tivesse compreendido a mensagem.

Lana quebrou o silêncio:

— Se Fiona estiver certa, nós... todos nós já escapamos da Morte antes, cada um à sua maneira.

Miley respirou fundo, ligando o carro.

— Talvez. Eu sei que eu e você escapamos da explosão no cinema. E precisamos cavar fundo nessa história.

Brad se segurou no assunto, mudando-o rapidamente.

— Só… dirige devagar, por favor.

Lana soltou uma risada nervosa.

— Essa é a Miley que eu conheço.

— Você sabe onde a Sadie mora? — Miley perguntou, os olhos no retrovisor.

— Mais ou menos. Eu fiz uma matéria com ela meses atrás. Mas não sei se ela vai querer nos receber.

Miley apertou o volante com força.

— Se for preciso, eu arrebento a porta. Mas não vamos deixá-la morrer.


○○○

Sadie acreditava que estava no auge do seu ritual de autocuidado.

Máscara facial espalhada com perfeição, fones de ouvido acomodados como se blindassem o mundo, e a voz calma da meditação sussurrando em seu cérebro:

Relaxe… entregue-se… o calor cura todas as tensões…

A modelo deslizou até o pescoço dentro da hidromassagem, respirando fundo quando as bolhas se acenderam sob sua pele. Do lado de fora, Teddy, desajeitado como sempre, decidia travar um duelo contra as leis da física em uma partida de sinuca.

Uma tacada mal calculada — e a bola disparou da mesa como um projétil em miniatura. O destino não precisava de armas, só de oportunidade.

O impacto na churrasqueira metálica ecoou seco. A válvula do tanque de propano girou um milímetro — só o suficiente. Um sopro fino escapou, serpenteando invisível pelo ambiente. Um gás silencioso, paciente, como um predador à espreita.

— Droga! — Teddy resmungou, indo atrás da bola no gramado.

— Disse algo? — A modelo falou, tirando um dos fones.

— Foi nada demais. Só uma das minhas belas tacadas.

Então veio o vento. Um sopro gelado atravessou o jardim, balançando os ramos das treliças da edícula e acabando por mexer o lustre acima da banheira.

O cristal pendurado oscilou, oscilou… até que cedeu à gravidade. Caiu no painel lateral da banheira com precisão irônica, pressionando o botão ON.

As turbinas aceleraram. A potência subiu além do programado.

4.5... 5.0... 5.5...

Sadie não percebeu. Sorriu de leve, acomodando-se. Pegou a taça de vinho, mas o braço úmido deixou rastros traiçoeiros: pequenas gotas escorreram, deslizando direto para as frestas do painel.

Entraram sorrateiras, se infiltraram nas entranhas da máquina até que… estalo abafado.

O curto-circuito matou o termômetro interno, o único que poderia alertá-la. A temperatura de 25 graus subiu para 26... 27... 28, gradativamente.

Sadie ergueu a taça, satisfeita, olhando de canto para o visor portátil na bancada: 25 graus. Estável. Seguro. Uma mentira convincente.

"Relaxe seus músculos, respire fundo e deixe o silêncio entrar dentro de você". — Continuava a meditação em seus ouvidos.

Ela bebeu, relaxada. Um leve incômodo percorreu sua pele, mas ela riu, acreditando que era apenas o efeito “terapêutico” da água.

O gás, agora mais denso, impregnava o ar, invisível e impiedoso. Os incensos acessos perto da banheira ainda não tinham sido atingidos pelo vazamento, mas era uma questão de tempo.

30... 31... 32...

Sadie respirou fundo, confiante, tentando ignorar o pequeno fio de suor que se formava na sua máscara facial.


○○○

Teddy girou o taco de sinuca entre os dedos, ajeitando a mira como se o salão fosse só dele. Um gole rápido da lata gelada de Hice Pale Ale, que descansava na beirada da mesa, serviu como pausa antes da jogada. Ele inclinou o corpo, mirando a tacada, quando o som metálico do interfone cortou o silêncio.

— Mas que droga... — resmungou, erguendo-se.

Encostou o taco em pé, ao lado da lata, e foi em direção à porta. Assim que saiu, o taco deslizou lentamente, perdendo o equilíbrio. A ponta de madeira bateu contra a lata, derrubando-a no chão.

A cerveja rolou preguiçosamente até a pilha de ferramentas de jardinagem. O toque metálico ecoou e um dos rastelos vibrou, escorregando até a caixa de utensílios. O impacto foi suficiente para fazer uma tesoura de poda cair e se cravar no piso, em pé, com as lâminas abertas, apontadas para cima como uma armadilha paciente.

No interfone, Teddy perguntou:

— Quem é?

A voz do porteiro soou abafada.

— Três pessoas pedindo para falar com a senhorita Sadie. Urgente.

Teddy arqueou as sobrancelhas, desconfiado.

— E quem seriam?

Houve uma pausa antes da resposta:

— Uma delas é a tal Miley… reconheci do jornal.

Confuso, ele caminhou até a edícula. O vapor já escapava pelas frestas, formando uma leve neblina perfumada. Dentro da banheira de vidro, Sadie repousava de olhos semicerrados, a cabeça apoiada contra a borda.

— Você está esperando alguém? — perguntou Teddy.

Ela abriu os olhos devagar.

— Não… por quê?

— O porteiro disse que a Miley está lá embaixo.

Sadie arqueou as sobrancelhas, surpresa.

— Miley? Deve ter se confundido.

— Talvez seja alguma entrevista… sei lá.

— Se fosse, teria hora marcada. — A voz dela soou firme, quase impaciente.

— Certo. Vou dispensar, então. — Teddy saiu, fechando a porta atrás de si.

Sadie soltou o ar, tentando retomar a calma.

Mas o calor parecia mais denso. O vapor envolvia o rosto como um lençol pesado, tornando cada respiração mais difícil. Ela se ajeitou na água, mas, antes que pudesse relaxar, um estalido seco cortou o silêncio.

O painel brilhou com falhas. O sistema entendeu que a sessão havia terminado e, sem aviso, começou a fechar a tampa de vidro, deslizando de forma lenta e traiçoeira.

Sadie suspirou, de olhos fechados, só percebendo tarde demais o movimento sutil. Quando abriu os olhos, a tampa já descia rente à sua garganta.

— Ei! — tentou chamar, a voz abafada.

Empurrou para cima, mas o mecanismo travou com precisão cruel. A borda pressionava seu pescoço, deixando apenas a cabeça para fora. O calor da água já não era relaxante — tornava-se insuportável. Bolhas começaram a subir, estourando contra sua pele.

Sadie bateu com força contra o vidro.

— Teddy! — gritou, mas a voz saiu fraca, deformada pelo vapor.

O painel piscou. A temperatura disparava. 45… 48… 50 graus.

A água queimava cada vez mais. A pele dos ombros já estava ardendo, como se fosse descascada viva.

O desespero apertava o peito. Sadie golpeava o vidro com os punhos, os olhos arregalados, a respiração ofegante. No movimento brusco, sua garganta raspou contra a borda, abrindo um corte fino que espalhou um filete de sangue pela pele.


○○○

Miley mantinha os dedos cravados no volante, os nós das mãos brancos de tensão. O rádio ainda ecoava a confirmação cruel de que sua inscrição fora ignorada, e o silêncio dentro do carro parecia mais pesado do que qualquer palavra.

Brad olhou de canto e percebeu aquele olhar fixo e voraz no rosto dela — não era só raiva. Era um instinto. Ele engoliu seco.

— Miley… calma. Não faz besteira.

Ela apertou mais o volante, a boca dura como uma lâmina.

— Não tenho tempo pra calma.

E pisou fundo.

O carro rugiu, assustando o porteiro idoso, que se arrastava de volta à guarita como se esperasse sua aposentadoria dali a cinco minutos.

As rodas mancharam o chão recém-polido do condomínio de luxo, estourando a cancela como se fosse de papelão. Algumas vizinhas recuaram para trás das cercas vivas, bocas abertas em choque.

— Você ficou louca?! — Lana gritou, segurando o banco com força.

— Louca é quem não faz nada. Onde a Sadie mora? — retrucou Miley, os olhos em brasa.

Lana apontou com o dedo trêmulo.

— Ali… à direita. A mansão de colunas brancas.

O carro voou pelo asfalto, dobrando uma esquina e entrando com tudo, desviando por pouco de acertar um casal de adolescentes que estava ali andando.

Miley parou o carro bruscamente junto ao meio-fio. Teddy estava ali, curvado para pegar o jornal. Quando ergueu os olhos, viu os três e recuou como se estivesse diante de criminosos mascarados.

Miley saiu primeiro.

— Se acalma, Teddy. Onde está a Sadie?

Ele ergueu as mãos, tremendo.

— Você não devia estar aqui! Estragou a grama artificial da Sadie! Se ela ver isso, vai enlouquecer!

— Eu não tô nem aí pra grama, idiota. A Sadie tá correndo risco de vida!

— Isso é invasão de privacidade! Vou chamar a polícia! — Teddy puxou o celular, mais firme agora.

Lana saiu também, abraçando os braços contra o corpo. Algo havia aterrorizado ela mais do que aquela corrida até ali.

— Miley… eu sinto… alguma coisa horrível aqui dentro. Tem algo errado.

Brad olhou para trás: os seguranças da portaria vinham correndo, rádio na mão, prontos para agir. Ele soltou o ar com força.

— Vão logo! Eu seguro eles.

Miley não hesitou. Empurrou Teddy para o lado com brutalidade e correu com Lana. O cheiro metálico de gás já estava no ar, misturado a um calor sufocante que parecia brotar das paredes.

E então os gritos abafados chegaram — vindos dos fundos da casa.

Quando atravessaram a edícula, Miley congelou. Sadie estava se debatendo dentro de uma hidromassagem fervendo, o painel piscando, faiscando como se estivesse prestes a cuspir fogo.

A água espumava, transbordando em ondas que soltavam vapor quase sólido. A máscara facial escorria grotesca pelo rosto dela, derretida como cera.

— Meu Deus… — Lana murmurou, levando a mão à boca.

As duas correram até a tampa. Tentaram levantar, mas o metal queimava as palmas como ferro em brasa. Sadie gritava, já sem voz, o rosto inchado, a pele em carne viva.

— Tá muito quente! — Lana recuou, desesperada.

— NÃO DESISTA! ELA NÃO PODE MORRER!

— Merda! — Lana pegou a beirada da tampa e puxou — AAAAH!

Miley, com os dentes cerrados, empurrou com todo o corpo até abrir uma fresta. Sadie puxou o ar como quem emergia do inferno, tropeçando para fora, o corpo vermelho em carne viva.

Qualquer toque arrancava gritos dilacerantes dela. Ela desceu os degraus da banheira antes do painel explodir em fagulhas assassinas, obrigando o trio se afastar da jacuzzi.

Foi então que o gás propano acumulado encontrou o corpo superaquecido. Um sopro invisível, um estalo — e Sadie explodiu em labaredas azuis e laranjas. O grito dela virou um uivo animal.

— NÃOOO! — Miley berrou.

A churrasqueira atrás da edícula vibrou, o tanque de gás explodindo em chamas azuis que iluminavam todo o quintal. Sadie tropeçava, rodopiando como uma tocha humana.

Tentou avançar, mas o destino já havia preparado o último detalhe: uma rolha de vinho caída sob seus pés.

Ela escorregou, caiu de bruços — direto sobre a tesoura de poda esquecida, erguida como uma armadilha discreta. As lâminas cravaram com precisão cirúrgica nos dois olhos, atravessando até o cérebro. O grito cessou de uma vez, deixando apenas o crepitar do fogo devorando o corpo.

Quando os seguranças chegaram, Teddy vinha atrás, pálido. Bastou ver a cena para soltar um grito agudo, quase cômico, que destoava da carnificina: um urro afeminado que ecoou pelo jardim enegrecido.





Notas finais
Fala gente! Como vão? Espero que tenham gostado desse cap! Esse deu trabalho para fazer kkk a principio eu iria fazer em um estúdio de fotografia com Sadie sendo a modelo principal, mas o acidente que fiz era meio sem graça (basicamente um holofote caindo) então mudei uma coisa mais brutal como da sauna ( que até tem suas semelhanças) e fiz uma da hidromassagem. Acho que a maioria das fics de Premonição tem um acidente envolvendo essa banheira e queria trazer a minha visao de como seria isso na minha fic kk acabei curtindo o resultado. É isso. Agora, Miley terá que correr contra o tempo se quiser tentar salvar mais alguem. Quem será o próximo a morrer? Até o cap que vem! Falou!