PREMONIÇÃO - A Última Nota
10 Epílogo
Notas iniciais
O chão de terra batida e concreto irregular fazia Jamie tropeçar a cada passo. O braço estava ardendo, o sangue pingando e formando pequenos pontos escuros no chão poeirento.
Ramon vinha ao lado, mancando e tossindo pela fumaça que ainda se dissipava atrás deles.
Eles passaram pelos tapumes caídos e canteiros abandonados até que os trilhos da antiga estação surgiram diante deles. A plataforma desbotada estava vazia, exceto por velhas placas e papéis sujos rodopiando ao vento.
Ao longe, o som metálico de um trem ecoava como o anúncio da sentença final. O prédio em que Ramon morava estava visível mais adiante.
Ramon parou, ofegante.
Seus olhos pareciam vidrados, sem brilho, o rosto pálido de poeira e trauma.
— Ela… ela tá mesmo morta? — perguntou, a voz rouca e falha.
Jamie abaixou a arma um instante, passando a manga da camisa suja no rosto. As palavras pesavam como chumbo.
— Tá. — a voz dele quebrou no meio. — Ela... se foi.
Por um momento, ambos ficaram ali, cercados de silêncio, exceto pelo som do trem crescendo à distância.
Jamie fechou os olhos, imagens do passado invadindo a mente: Kimberly mais jovem, as mãos trêmulas colocando cadeados na janela, os olhos paranoicos sussurrando sobre a Morte, sobre sinais, sobre sorte e azar.
E ele, criança, sem entender.
A raiva e a culpa se misturaram.
Ramon tossiu, limpou o sangue do canto da boca e balançou a cabeça.
— A gente precisa fazer valer a morte dela. Não podemos deixar essa desgraçada sair viva.
Antes que Jamie pudesse responder, passos arrastados ecoaram pela lateral.
Ruby surgiu.
Ferida, suja, o cabelo ruivo colado ao rosto, cortes e arranhões por todo o corpo. Sua mão esquerda estava com um talho sangrento na palma, herança de um caco de vidro voador.
Os olhos marejados. Ela ergueu as mãos.
— Eu… eu só queria justiça… pelo Steven…
Jamie apontou a arma para ela, o dedo tenso no gatilho.
— Isso não é justiça! Você virou um monstro, Ruby. Steven nunca quis isso. Ele era meu amigo. E sabe o que mais? Não é minha culpa que ele morreu ontem!
Ruby chorou mais forte, a voz vacilando, mas tomada de rancor.
— Devia ter percebido antes, Jamie. Desde o celeiro. Tínhamos que ter resolvido isso rápido. Era só… Sasha. Ramon. Natalie… — olhou para Jamie, o rosto encharcado de ódio. — A culpa é sua. Você que causou isso!
Ramon avançou meio passo.
— Vai pro inferno, sua vadia. — cuspiu as palavras, o ódio transbordando.
Ruby ergueu o queixo, o rosto uma mistura de dor e arrogância.
— Pode tentar me matar, idiota. Mas não vai adiantar. Já tô salva. Já consegui minha imunidade. E sabe por quê? Porque eu terminei o serviço da Morte. E vocês só estão adiando o inevitável.
— Então porque tá atrás de nós, sua cretina?
— Porque depois de tudo que passei... do Steven... vocês dois não merecem viver.
Jamie então olhou para trás dela.
Uma parte do andaime superior, fragilizada pela queda das placas de vidro, os cabos de aço mal presos, os suportes inclinados, pronta pra cair.
Jamie ergueu a arma.
O mundo pareceu girar devagar. O disparo acertou a barra frágil do andaime.
— Mas oque...
O estalo metálico foi ensurdecedor.
A estrutura de ferro desabou numa onda de estalos e rangidos, tombando em direção à plataforma como um predador faminto.
Ruby gritou, rolando para fora.
Jamie viu o andaime se entortando para onde ele estava, ele respirou fundo e esperou.
No entanto, Ramon o empurrou para o lado e os dois deslizaram na plataforma. Os ossos protestando, o braço doendo.
O impacto do andaime foi brutal, as madeiras estourando, poeira subindo em nuvem densa. A arma de Jamie voou da mão dele, deslizando pelo chão.
Ruby se levantou, tossindo, os olhos cravados na arma. Ela se arrastou, a mão ensanguentada agarrando o cabo.
Jamie avançou. Os dois se atracaram ali, no chão de concreto, as mãos tentando dominar a arma.
— Pode atirar, Jamie! Pode tentar! Mas eu tô imune. Não vai adiantar. Eu preciso terminar isso... pra ele.
O rugido grave do trem se aproximava, sacudindo o chão. As buzinas soaram como um aviso de fim.
Nesse momento, Dean Jenkis e dois policiais apareceram na plataforma do outro lado da linha, armas erguidas.
— Abaixa a arma, Corman! Agora! — berrou Dean, apontando para Jamie.
O policial não enxergava a loucura nos olhos de Ruby.
Não via a ameaça.
Jamie olhou para eles, depois para Ruby. Ela estava em cima dele com suas mãos envoltas no revólver com força.
— Ela matou Sasha... matou a Natalie... minha mãe tá morta por causa dela! — gritou, a voz partida de dor.
— Abaixa a arma, agora!
Ruby sorriu de leve, tremendo.
— Vem, Jamie. Vem comigo. Steven vai te perdoar...
O trem estava ali. Os vagões passaram com rapidez ao lado dos dois, tremendo a plataforma de forma ameaçadora. O vento balançando seus cabelos contra o rosto.
Foi então que os dedos de Ruby se moveram rapidamente no gatilho e ela puxou, apontando o cano da arma no peito dele. O eco do disparo retumbou nos ouvidos de Jamie.
— JAY! — Ramon gritou ao longe.
O vento quente do trem pareceu mais intenso, levando as farpas e pequenos cascalhos da beirada da plataforma para dentro dos trilhos como se fosse imã.
Vendo aquilo, Jamie teve uma ideia. Ele girou o corpo, usando o peso dela contra si.
Ruby tombou para o lado, para além da plataforma e direto nas rodas que passavam. As pernas dela foram engolidas pelo impacto lateral do trem.
O barulho foi grotesco, acompanhado pelos seus berros. Sangue espirrou. O corpo dela começou a ser arremessado e suas mãos se prenderam nas calças de Jamie.
Ele deu um chute em seu rosto e ele viu Ruby ser levada de lado, vomitando sangue com um olhar ficando desfocado e sem vida.
O corpo dela desapareceu em uma massa vermelha sob o som metálico das rodas de aço.
— Abaixa! Abaixa, agora!
Ramon não obedeceu. Se ajoelhou ao lado do irmão, pressionando a mão contra o peito de Jamie.
— Aguenta aí, cara... não faz essa merda comigo! — a voz de Ramon falhava.
Dean se aproximava com cautela, as armas apontadas.
— Ele não fez nada! — Ramon gritou, a voz cheia de ódio e desespero. — Ele é a porra da vítima aqui!
Jamie tossiu sangue, os olhos começando a se fechar.
— Tá... tudo... bem?
Ramon engoliu em seco, com as lágrimas se misturando à poeira do rosto.
— Jamie, cara... segura aí... fica comigo... — ele pressionava a ferida, tentando estancar o sangue que jorrava.
O peito de Jamie subiu e desceu, cada vez mais devagar. O sangue quente tingiu a camiseta rasgada. O olhar de Jamie começava a se perder, embaçado.
— A gente... conseguiu? — a voz era um sussurro.
Ramon assentiu, com lágrimas nos olhos.
— Conseguimos, mano... você fez ela pagar. Fez valer.
Jamie sorriu de leve, o rosto sujo e manchado.
— A mãe... ficaria... orgulhosa...
A mão de Jamie apertou a de Ramon, antes de sua cabeça tombar para o lado, os olhos se fechando.
Ramon soltou um grito engasgado, segurando o irmão nos braços.
A fumaça baixava. O sangue secava no concreto. E pela primeira vez em muito tempo, o ar parecia... quieto.
XX
Três Meses depois
A cicatriz no braço de Ramon ainda incomodava nos dias frios, mas a dor era agora só um lembrete de tudo o que ele havia sobrevivido.
A Morte tinha tentado… e falhado.
Naquela noite, o Parque de Eventos de McKinley estava cheio. Luzes penduradas entre as árvores, food trucks alinhados, famílias reunidas em cadeiras de praia e cobertores sobre a grama.
Um palco simples, com as letras “FALL NIGHT IN THE PARK” penduradas sobre a tenda.
Ramon Corman pegou o microfone, a pele bronzeada e os cabelos bagunçados em um mullet pelos ventos de outono. Os olhos castanhos brilhavam sob os holofotes, alegres por estar fazendo aquilo que gosta mais uma vez.
Atrás dele, Jason — velho amigo e baterista da formação original dos Wild Strangers e um dos sobreviventes do incêndio do celeiro — sorriu enquanto batucava, aquecendo.
— Vamos fazer essa noite entrar para história! — falou ele.
A banda agora contava com um novo guitarrista, um moleque local cheio de atitude, e uma tecladista de cabelos negros, que por um instante lembrou Ramon de Natalie.
Mas não o suficiente para doer. Só para aquecer. Mesmo não sendo a primeira vez que eles tocavam juntos desde o desfile, era ainda difícil não se recordar dela.
Ramon ajeitou o pedestal do microfone, inspirou fundo e falou, a voz rouca e carregada de emoção.
— McKinley… obrigado. Obrigado por estarem aqui. Por segurarem as pontas quando a vida resolve te dar porrada atrás de porrada. Esse som é pra todo mundo que perdeu alguém… e pra quem ainda tá aqui, lutando.
A plateia vibrou, palmas e gritos cortando a noite fresca. Jason contou no baquetão.
— Um… dois… três… quatro!
E os acordes surgiram. Ramon soltou a voz, forte, rouca, crua — uma mistura de dor, alívio e redenção. A música falava sobre vidas partidas, acordos com o destino e sobreviver ao inevitável.
Na beira da pista, Jamie Corman estava assistindo com um sorriso cansado, os olhos marejados. Ele sabia o quanto aquele palco significava para seu irmão.
O quanto eles tinham lutado para que todos tivessem aquela segunda chance.
Megan estava ao seu lado, o braço dela entrelaçado ao dele. O rosto de ambos carregava algo além de alegria pelo show — uma espécie de orgulho silencioso.
De saber que, contra tudo e contra todos, Ramon Corman estava ali, gritando no microfone, com a voz rouca e rasgada, depois de tudo.
O show se estendeu noite adentro, a plateia balançando os braços, cantando o refrão, como se expulsassem de vez os fantasmas daquele outono sombrio.
Ramon terminou a última música de olhos fechados, a voz falhando no grito final.
Silêncio.
E então, a explosão de palmas e assovios. Ramon sorriu, um sorriso de verdade. Pela primeira vez em meses.
— MUITO OBRIGADO, CAMBADA!
Um tempo depois, Ramon acenou na direção dos dois.
Jamie sorriu de volta, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se leve.
Quando Ramon desceu do palco e veio até eles com uma garrafa de água na mão, foi Jamie quem falou primeiro.
— Cara, que show do caralho. — Jamie disse, o sorriso aberto.
— Você tá me devendo esse elogio há anos. — Ramon respondeu, dando um tapa no ombro do irmão
Eles se abraçaram. Um abraço apertado, daqueles que guardam mais do que palavras. Quando se afastaram, Ramon reparou de novo no irmão
Jamie estava diferente.
Mais forte, os braços marcados por tatuagens novas — símbolos discretos, datas e números. Mas o que mais chamou atenção foi a marca no peito esquerdo, onde antes estivera a cicatriz da bala que Ruby disparara.
Agora, um desenho elaborado de uma ampulheta quebrada envolta por espinhos.
Ramon tocou de leve o local.
— Essa é nova.
Jamie deu um meio sorriso.
— É… precisei cobrir a marca velha. Mas queria que ficasse… simbólico. — ele apontou. — Ampulheta quebrada. Para lembrar que o tempo da gente pode acabar a qualquer instante. E que, enquanto não acaba, a gente vive.
Megan apertou a mão dele, sorrindo. A garota estava radiante com suas mechas onduladas e com uma regata listrada coberta por uma jaqueta jeans gasta.
Megan deu um leve empurrão no ombro dele.
— Sério, Jamie? Depois de tudo continua péssimo com essas frases.
Ele deu risada e a puxou para perto, beijando sua têmpora.
— Mas é verdade.
Ramon observou os dois e balançou a cabeça, sorrindo.
— Vocês dois, hein? Quem diria. A gente devia se encontrar mais. Me verem tocar, trocar ideia… essas merdas que a gente só percebe que importa depois que perde alguém.
Quando se afastaram, Ramon notou de relance uma moto estacionada perto da cerca lateral, meio escondida sob a luz fraca de um poste.
Seus olhos brilharam.
— Porra… não é que tem uma Triumph Bonneville ali? — apontou com a cabeça, caminhando até a moto. — 1976… pintura original… escapamento de época… mano, essa máquina é rara.
Jamie sorriu, se aproximando casualmente.
— É minha.
Ramon parou, encarando.
— Tá brincando.
Se abaixou e passou a mão pela lateral do tanque.
— Caralho, suspensão recalibrada, pneus novos… você mexeu no carburador?
— Troquei todo o sistema de alimentação. Achei ela meio detonada numa venda de garagem em Silvertron. Tava há meses mexendo na garagem. — Jamie deu um sorriso satisfeito. — Coisa boa demais pra ficar esquecida.
Ramon sorriu, aquele tipo de sorriso de quem sabia que, pela primeira vez em anos, os dois estavam inteiros. Ou quase.
Ramon apontou com o polegar por cima do ombro.
— Finch’s ainda fica aberto até tarde. Bora? Primeira rodada é minha.
Megan ajeitou o cabelo e olhou para Jamie.
— Se você não fizer mais piada mórbida no caminho, eu topo.
Jamie ergueu as mãos em rendição.
— Sem promessas.
Os três riram.
XX
O letreiro do Finch’s piscava de leve, refletindo tons avermelhados nas janelas empoeiradas.
Do lado de fora, numa área de mesas de madeira perto do estacionamento e de um velho posto de gasolina, os três amigos riam e bebiam ao redor de uma mesa de canto, embalados pelo som abafado de uma jukebox tocando algum rock clássico de décadas passadas.
Ramon ergueu o copo de cerveja e se recostou na cadeira, um sorriso cansado, mas genuíno no rosto. Sua jaqueta de couro, velha amiga de guerra, estava cobrindo seu corpo da noite abafada.
— Nunca imaginei, de verdade… minha carreira decolando. A banda de volta, o pessoal curtindo, e um produtor querendo tocar a gente em rádio regional. Talvez até nas nacionais se continuar assim.
Jamie esticou o braço, erguendo seu copo.
— Ao Ramon.
Ramon fez um meio sorriso, engolindo em seco, e ergueu o copo.
— À Natalie.
A voz saiu rouca, carregada de uma saudade cravada no peito.
— Se não fosse por ela, eu não tava aqui agora.
Megan se apressou a erguer também.
— E a todos que escaparam daquele maldito celeiro.
Os três brindaram, o som dos copos tilintando abafado. Jamie virou o copo e pousou-o na mesa, soltando um suspiro.
— Menos a Ruby.
Megan deu uma cotovelada leve nele, o olhar reprovador.
— James…
Mas ele só deu de ombros, os olhos cansados, mas serenos.
— É verdade.
— Foi uma psicopata de marca maior, mas se não fosse por ela… — resmungou Megan — Talvez nenhum de nós estivesse sentado aqui agora.
Ramon deu uma risada curta e amarga.
— Concordo. Detestava aquela doida… mas foi o caos dela que deu uma brecha pra gente. E tô curtindo essa sua versão repaginada, mano. — bateu de leve no peito de Jamie — Cicatriz de guerra e tudo mais.
Jamie deu um sorriso discreto e puxou a gola da regata, ocultando a tatuagem recém-feita. Um traço fino deslizava ao lado, exatamente onde a cicatriz da bala atravessava.
— Às vezes eu me pergunto… o que foi que eu fiz certo pra ter sobrevivido. — deu um gole. — Tanta gente se foi…
Megan ajeitou-se na cadeira, pousando a mão sobre a dele.
— Você morreu, Jamie. Por quatro minutos. — falou em tom baixo — Os paramédicos disseram que o tiro raspou o coração e que você ficou sem batimento. Uma Nova Vida e agora estamos aqui.
Ramon balançou a cabeça, pensativo.
— Ou talvez… eu tenha sido pulado da lista quando Ramon me puxou daquele andaime. Nada me tira da cabeça que me tornei um Servo da Morte ao matar Ruby.
Ramon olhou para os dois, pensativo.
— Seja lá o que for... deu certo.
Uma brisa mais fria passou pela mesa, fazendo as folhas no chão arrastarem-se levemente.
O letreiro do bar piscou, e a música na jukebox mudou para “Falling”, uma balada antiga que falava sobre quedas e coisas assim.
Jamie olhou ao redor, olhos atentos.
No alto da parede do bar, um cartaz desbotado de um campeonato de hóquei na semana seguinte. Do outro lado da rua, a placa da Triumph Bonneville indicava os números 0513.
"13 de maio... isso faz três meses..."
Jamie girava seu copo entre os dedos, pensativo, o olhar perdido nas luzes tremeluzentes do posto de gasolina ali ao lado.
— Sabe… — disse ele, quebrando o silêncio. — Talvez… só talvez… eu tenha saído da lista. Só eu. Igual a Ruby.
Megan riu, meio debochada.
— Jamie… você bebeu demais, cara.
Deu um soquinho no ombro dele.
Ramon levantou a mão, chamando o garçom.
— Mais uma pra mim. E pra esse aí também.
Apontou para Jamie. Megan lançou um olhar atravessado para o vocalista e ele apenas deu risada. A garota se voltou ao seu namorado.
— Mas e se essa sua teoria… tiver algum fundo de verdade? Se você saiu da lista… e a Morte continuará vindo até nós…
Jamie respirou fundo, fechando os olhos por um instante.
— Não sei. Mas acabei de sentir aquele calafrio maldito. Na porra dessa noite quente.
Apontou discretamente com o queixo.
Um Chevelle 69 azul-escuro passou devagar pela rua, as lanternas traseiras vermelhas cortando a noite. O mesmo modelo que esmagou Mike Maverick, meses atrás.
Ramon também viu.
— Se você tá fora, então só restamos eu e a Megan.
Virou-se para ela.
— E eu não quero morrer agora, garota.
Megan riu.
— Acho que seria eu.
Ela se aproximou e Jamie a puxou para um beijo quente, denso, daqueles de quem sabe que pode ser o último.
Ao se afastar, Jamie murmurou.
— Eu estou cansado de perder pessoas que amo. Eu não sei ao certo se eu realmente quebrei a lista ao empurrar Ruby... e se... nada do que eu fiz tenha válido a pena?
— É claro que valeu, querido. Você salvou tanto eu como seu irmão. Isso não vale alguma coisa?
— A sua namoradinha tem razão. — Ramon falou, tomando mais um gole — Nada aconteceu com a gente nesses... O que? Três, quatro meses? Enquanto nada de ruim acontecer comigo ou com a Megan, você pode ficar tranquilo.
— É... tem razão. A Morte pode ter parado a sua poda.
— Acho tão engraçado essa analogia que você usa. — riu Megan.
— A gente precisa ir. Não tô me sentindo bem com isso tudo. Tem coisa errada no ar.
Ramon suspirou, rindo de leve.
— Sempre na hora boa… porra. — levantou o copo — Vai lá, mané. Mas se amanhã você acordar e o mundo ainda existir, me manda mensagem.
Jamie deu um meio sorriso. Pegou o capacete e montou na moto com Megan.
— A gente se fala.
Eles partiram pela avenida.
XX
Do outro lado da rua, um cliente da loja de conveniência do posto de gasolina saiu distraído, soltando um filete de nicotina de seu cigarro. Ele deu a última tragada, jogou a bituca acesa no asfalto.
O vento quente da noite fez a brasa dançar e rolar até parar sob um sedan azul, onde outro motorista abastecia sem notar que o combustível já transbordava e escorria pelo asfalto em direção à rua.
XX
Jamie e Megan seguiram pela avenida, o capacete dela reluzindo sob os postes. Aproximaram-se de um cruzamento e, no exato instante em que o semáforo ficou verde para eles, um carro desgovernado atravessou o sinal vermelho.
— MERDA!
Jamie reparou que o motorista do Jeep estava com um sorriso largo e com uma garrafa de cerveja na mão. Ao lado dele, uma garota risonha acabou cuspindo seu alcóol assim que viu o erro que seu companheiro havia feito.
Jamie girou o guidão, a moto derrapou no asfalto empoeirado. Megan se soltou, rolando pelo chão até parar próximo ao meio-fio, justo na direção do posto de gasolina.
Jamie perdeu o controle, a moto caiu e deslizou até atingir a traseira de um carro estacionado do outro lado da rua.
A leve brisa da derrapagem fez a bituca rolar até o filete de gasolina perto da bomba de combustível em que o sedan estava parado, aguardando seu motorista pagar de dentro da loja de conveniência.
Um estalo abafado, depois o fogo rastejou em uma linha ardente direção à bomba.
Megan, atordoada, tentou se erguer, sangue escorrendo do supercílio.
— Jamie…
A chama chegou ao tanque transbordado. Uma explosão seca e brutal rasgou a bomba de combustível e brilhou à noite. Fragmentos de vidro, metal e pedaços de carro voaram pelo ar.
Megan ergueu a cabeça, mas foi tarde.
A nuvem de chamas e detritos alcançou seu corpo em questão de segundos. Ela gritou de dor assim que seu corpo foi empurrado pelo deslocamento de ar, conforme sua pele era queimada brutalmente.
Ela sentiu o calor subindo pelo corpo até chegar na sua garganta, estourando suas cordas vocais e deixando que o brilho amarelo-alaranjado do fogo atrapalhasse sua visão antes de rolar pelo asfalto.
Seu mundo se apagou em dor e agonia lentamente, vendo seu namorado assistir tudo poucos metros dali.
— MEGAN!
Jamie se arrastou, sentindo o braço arder, as lágrimas misturadas à fuligem.
Ramon se levantou num pulo, os olhos arregalados. Ele correu até onde a explosão ocorreu, mas só encontrou destroços de um carro em chamas e o cheiro de carne queimada.
— Pensei que essa merda tinha acabado...
Jamie observava de joelhos Megan caída no meio da pista como se fosse uma fogueira. O capacete ocultava seu rosto, mas a viseira estilhaçada e levantada deixava o par de olhos opacos e chamuscados à vista.
Ramon se aproximou, a expressão devastada. Jamie virou-se para ele, os olhos marejados e cheios de raiva.
— Ela me pegou… de novo.
Ramon só conseguiu balançar a cabeça, encarando as chamas. Ali, Jamie percebeu a verdade cruel:
A Morte não esquece. Ela só espera a hora certa.
E essa hora sempre chega.
FIM
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