Notas iniciais
Fala pessoal! Como vão? Penúltimo capítulo no ar. Esse promete ser mais emocionante e levar mais uma vítima. 💀 Boa leitura.

Jamie apertou o passo atrás de Michael, a multidão atrás deles se acumulando em torno do palco interditado, onde gritos e ordens de guardas próximos saturavam o ar pesado.

O cheiro de ferro queimado e carne chamuscada ainda pareceu pairar na brisa fria.

Dean Jenkins estava no meio da confusão, olhos cravados em Jamie como um cão farejador. Ele estava avançando com sua mão em seu coldre como se fosse pessoal.

Jamie gelou. Mas antes que pudesse reagir, Michael puxou ele pelo ombro.

— Não perde tempo com esse cara, Jamie… — a voz de Michael estava rouca, com um chiado de cansaço e paranoia. — Ele só quer alguém pra culpar porque não consegue parar isso. Ninguém consegue.

Dean tentou avançar, mas um casal de idosos parou de andar assim que viu o cadáver no palco, bloqueando a passagem. Jamie aproveitou a brecha e seguiu com Michael pela lateral de um caminhão de iluminação.

Ali, no corredor estreito entre cabos, caixas e estruturas de palco desmontadas, Jamie olhou de lado para Michael.

O cara pareceu um vulto de si mesmo: os olhos fundos e agitados, a pele pálida e suada, as mãos trêmulas enfiadas nos bolsos da jaqueta amarrotada. Tinha um leve tremor nos lábios — e não era de frio.

Michael bufou e parou de andar, forçando Jamie a fazer o mesmo. Ele encarou o outro de cima a baixo.

— Para de me encarar assim, porra. — rosnou.

Jamie desviou os olhos.

— Desculpa. Só… só tô tentando entender se você tá bem.

Michael deu uma risada torta.

— Ninguém tá bem, cara. A gente só finge.

— Você poderia ter nos encontrado. — Jamie disse, num tom mais de desabafo do que cobrança.

Michael riu seco, quase um soluço.

— Você acha que eu não tentei? Eu… Eu vi o que ia acontecer. Eu sabia, sabia que aquela porra daquele celeiro ia virar um inferno… mas eu…- ele passou a mão pelos cabelos sujos, o olhar perdido. — Fui um covarde. Me escondi. Deixei todo mundo se foder. E agora metade já tá morta.

Jamie respirou fundo, tentando organizar os próprios pensamentos no meio do caos.

— Você não é o único. Eu consegui salvar algumas pessoas naquela noite… e… e perdi outras. E estou tentando impedir que isso continue.

Eles seguiram e, adiante, puderam ver Ramon e Megan, do outro lado de uma grade de segurança. Megan tinha o celular em mãos, o rosto pálido, enquanto Ramon parecia tentar disfarçar o medo sob a máscara de durão.

Jamie reconheceu aquele olhar. Era o mesmo que o irmão tinha quando eram crianças e se escondiam debaixo das cobertas achando que o bicho-papão ia puxá-los pelos pés.

Assim que se aproximaram, Ramon veio rápido.

— Eu recebi uma ligação da mãe… Kimberly… — a voz dele falhou por um instante. — Ela disse que Ruby… ela matou a Sasha.

O chão pareceu sumir sob Jamie.

— Não… — sussurrou.

Megan olhou para Jamie, os olhos marejados.

— Talvez a teoria deu certo… a Morte tentou pegar o Ramon, não conseguiu… foi pra Natalie. Agora… — ela hesitou. — Você é o próximo.

Jamie engoliu em seco. Sentiu o ar cada vez mais pesado. Ramon lançou o braço na frente de Jamie, impedindo que ele se aproximasse de um emaranhado de cabos que estava perto de uma caixa de fusível.

— Fica atrás de mim. Eu não vou deixar nada acontecer com você.

Jamie tocou o braço do irmão, apertando de leve.

— Eu sei. Mas eu preciso entender o que tá acontecendo. Se tiver um jeito de quebrar esse ciclo…

Michael limpou o nariz com as costas da mão.

— Eu não quero me meter nessa merda. Se vocês são burros o bastante pra continuar cutucando isso, problema de vocês.

Megan deu um passo à frente, desafiadora.

— Você já tá envolvido, Michael. Ou não se preocupa em morrer também?

Ele riu, um som baixo, meio insano.

— Quer saber o que eu vejo, garota? — ele apontou pra Jamie. — Eu vejo o celeiro desabando. O corpo da Natalie no chão... esse cara caindo e a cabeça dele rolando. Todo mundo gritando. E eu? Eu sou um dos poucos que assiste tudo queimar.

Jamie sentiu o estômago embrulhar.

— Na sua visão… você morre? — a voz saiu arranhada.

Michael deu um sorriso de canto.

— Nunca.

Jamie entendeu ali. A Morte nunca estivera atrás dele. Alguém armara o tabuleiro… E Ruby… Ruby estava no meio disso desde o começo.

— Tudo isso foi pra pegar a Sasha… — sussurrou Jamie, mais pra si — A Morte... O destino... ou seja lá o que for, fez Michael ter a visão também apenas para me confundir e... abaixar a guarda para quem mais precisava. A culpa é minha.

— Não fala bobagem! — Megan o tocou no ombro — Como você iria saber disso? A gente tá tentando proteger todo mundo... salvar vidas não vem com um manual de instrução.

— Mas eu deveria ter ficado lá naquela casa. Tentado ficar com Sasha ou... sei lá! QUE MERDA!

— Não se martirize, ok? — Megan falou — Caímos em outra armadilha da Morte. Só basta aceitar isso.

Ramon puxou ele pelo ombro.

— Chega. A gente tem que sair daqui. Agora.

Michael ergueu a mão num aceno preguiçoso e começou a se afastar.

— Boa sorte pra vocês. Eu tô fora.

— E vai ser assim? — Ramon falou, incrédulo — Sair como se nada tivesse acontecido? Qual é a sua?

— Eu... não tenho nada a ver com isso. Eu só vi algo horrível e me salvei porque era para isso ter acontecido desde o início. Vocês... são só um bando de cadáveres que ainda precisam cair na cova.

Ramon ameaçou avançar, suas mãos cerradas para partir para uma briga, mas Jamie o deteve. Sua cabeça estava cheia e ele não queria chamar atenção daquela parte afastada do palco.

— Deixa. Ele tem razão. Se ele interferir demais, ele morre. Pode ir.

— Valeu. — Michael disse, se afastando, mas parou e se virou para eles — Espero que saiam dessa. De verdade.

Jamie sorriu, de forma fraca e viu Michael caminhar as pressas. Ele desapareceu no meio das tendas dos bastidores e da equipe do palco, assustada e ansiosa.

Jamie, Ramon, e Megan se entreolharam. O primeiro quebrou o silêncio com um suspiro e disse:

— Precisamos achar a nossa mãe.

Eles não tinham mais tempo.

XX

O ar estava úmido e impregnado do cheiro de lixo e fumaça de escapamento.

O barulho das sirenes e da multidão ao longe abafados pelos prédios pequenos. Jamie encostou-se à parede de tijolos, tentando controlar o ritmo acelerado do coração.

O telefone de Ramon ainda estava na mão dele, a tela rachada refletindo o aviso de bateria fraca. Um vulto familiar surgiu na entrada do beco.

— Jamie! — a voz de Kimberly soou abafada pela distância e o medo, mas carregada de alívio.

Ele correu até ela sem pensar. Assim que a alcançou, Kimberly o abraçou forte, como fazia quando ele era criança e acordava no meio da noite assustado. Jamie se permitiu desabar ali.

Sentiu as lágrimas arderem nos olhos e deslizar pela pele suja, os soluços engasgados pela garganta. O peso das últimas mortes, da incerteza, do terror constante.

Kimberly o segurou com força.

— Você aguentou até aqui... mas ninguém consegue sozinho, Jamie. Nem eu.

Ramon se aproximou logo depois, com o rosto pálido, a respiração pesada. Tentava manter a expressão fechada, mas Jamie viu o brilho úmido nos olhos do irmão. Ramon limpou o rosto rapidamente e deu um tapinha nas costas de Jamie, forçando um meio sorriso.

— Tá bom, chega. Antes que eu chore também... e você sabe que eu não fico bonito chorando. — a voz dele falhou no final.

Jamie riu baixo, ofegante, enxugando as lágrimas. Megan veio logo atrás, olhando nervosa para os lados.

— Dean tá rodando a área. Eu posso tentar despistar ele e vocês seguem. Se ele achar a caminhonete, vai ferrar tudo.

Jamie balançou a cabeça com força.

— Não. Porra, não. Separar é a primeira coisa idiota que fazem em filme de terror antes de morrer, Megan. Não vai rolar.

Kimberly respirou fundo.

— Na verdade... é uma boa ideia. Megan tá segura. Tá no final da lista de novo. A Morte vai atrás de Ruby antes dela. É o padrão. Ela pode ficar e ganhar tempo pra gente.

Megan hesitou, mas assentiu. Ramon se adiantou.

— A gente precisa ir. Agora. Antes que aquele filho da puta ache a gente. — ele indicou a caminhonete a meia quadra dali.

Jamie ainda segurava a mão de Megan.

— Se cuida, tá? — ele disse, os olhos grudados nos dela.

Megan se esticou e o beijou rápido, tenso, como se aquele beijo pudesse ser o último.

— Se mantenham vivos. E acaba com aquela psicopata. Eles se separaram com relutância.

XX

Dentro de um sedã velho, com fios desencapados e o painel aceso por ligação direta, Ruby Raimi observava o beco. Os olhos dela tinham aquele brilho maníaco, a pele manchada de sangue seco que ela não se incomodou em limpar. Um sorriso cortou seu rosto quando viu o trio embarcar na caminhonete.

— Achados e perdidos. — sussurrou, girando a chave improvisada no painel e dando partida no motor.

Sem faróis, deslizou pela rua escura, seguindo o veículo discretamente.

XX

A velha caminhonete rangeu sob seus próprios eixos, atravessando a rua semi-deserta, onde uma fina garoa começava a cair sobre o asfalto rachado. Dentro do veículo, o som da estrada era interrompido apenas pela música baixa de um rádio antigo, e pela respiração tensa dos três ocupantes.

Jamie olhava para o celular a cada minuto, conferindo mensagens e tentando contato com Megan — sem resposta. Kimberly segurava o volante com força, os nós dos dedos brancos. O olhar atento, como se esperasse que a própria escuridão à frente criasse braços e a puxasse para dentro. Ramon estava sentado ao lado dela, ainda pensando na morte de sua namorada fresca na memória.

— Nenhum lugar é seguro. — ele murmurou. — A Morte vai atrás de mim, onde quer que eu vá.

Kimberly olhou pelo retrovisor.

— É por isso que a gente vai até ao apartamento de Ramon. Lá... a gente arma um acidente. Um acidente pra Ruby. A gente usa a teoria do Servo da Morte contra ela.

Jamie ergueu os olhos.

— Como?

Ela respirou fundo.

— A Morte vai usar ela para tentar te matar. Mas se a gente conseguir armar o acidente certo... Ruby morre antes de você. E você sai da lista. Como se ela tivesse tentado e falhado.

Ramon franziu a testa.

— Então é isso? — murmurou Ramon. — A gente vai até meu apê, tenta matar aquela vaca... e torce para ninguém virar estatística no processo?

Jamie suspirou, passando a mão pelo rosto.

— É o melhor plano que temos.

Kimberly franziu a testa, os olhos fixos na estrada. O comércio estava fechado naquela área da cidade e só restava eles vagando ali com a aglomeração no centro.

— Sabe que cada interferência que eu fiz até agora... pode ter mudado minha própria posição, né? — a voz dela saiu mais baixa. — Hoje de manhã eu quase fui atropelada por um carro. Se eu não tivesse desviado...

Jamie fechou os olhos por um instante, a garganta apertando.

— Mãe... eu não devia ter te arrastado para isso.

— Você não me arrastou, filho. Eu vim porque quis. Porque mãe nenhuma abandona filho para morrer. — ela respirou fundo, os olhos brilhando. — Se for pra morrer, que seja tentando fazer a coisa certa por vocês.

O silêncio tomou o carro, pesado. Sem aviso, um estampido seco ecoou pelo ar.

PLOFT.

A caminhonete derrapou de leve para a esquerda. Jamie se abaixou instintivamente no banco de trás, temendo de algo voasse e acertasse sua cabeça. Seus braços cobriram seu rosto e aguardou a pancada, mas nada aconteceu.

Kimberly segurou o volante, mas o veículo perdeu velocidade.

— Merda! — esbravejou, encostando o veículo no meio-fio. — Pneu furado. Que timing maravilhoso.

Jamie olhou pela janela, o estômago revirando ao notar a rua deserta, os prédios velhos e os becos escuros. Havia alguns balões de Dia de Ação de Graças pendurados nos postes e confete derramado no chão.

— A gente vai ter que ir a pé...

Ramon bufou.

— Até meu apartamento são tipo quatro quadras. Sem contar o maldito guindaste de obra no meio da rua. Eles deixaram aquela porcaria suspensa de novo.

Kimberly desceu do carro, averiguando se havia algum risco de fazer aquela simples ação, respirou fundo e olhou para os dois.

— A gente consegue. Juntos.

Jamie abriu a porta e hesitou, então deu dois passos até ela e a abraçou. Um abraço apertado, com força. Ramon observou por um instante. Por anos ele evitou qualquer aproximação física, qualquer demonstração. Mas naquele momento... ele foi. Se aproximou e envolveu os dois num abraço desajeitado.

— Ah, droga... que merda é essa. Tô ficando mole.

Kimberly riu, sentindo o cheiro familiar de Ramon, aquele misto de couro, sabonete barato e loção pós-barba.

— Meu Deus... o cheiro do seu cabelo, moleque. Anos sem isso.

Ramon soltou uma risada curta, emocionada.

— Deu saudade, né, KIm?

— Saudade e enjoo. — ela brincou, e os três riram, um instante de leveza em meio ao horror. Kimberly secou uma lágrima. — Se eu sobreviver a esse dia, vou escrever um livro. Vou chamar de "Como enganar a Morte e destruir sua família".

Jamie sorriu de lado.

— Primeiro capítulo: nunca fique parado no meio da rua.

Eles seguiram andando, cruzando a rua até a quadra seguinte. Jamie parou de repente, os olhos arregalados.

— Droga... é o Dean. — apontou discretamente para o carro parado duas esquinas adiante.

Havia uma movimentação de policiais naquela área, fazendo escolta para alguns espectadores do desfile retornarem para suas casas. Muitos pareciam aborrecidos com o cancelamento e outros chocados ao verem alguém morrer em um palco.

Ramon resmungou.

— O desgraçado nos seguiu de novo.

Kimberly ficou tensa.

— Se a gente for por aqui, ele vê a gente.

Jamie olhou ao redor, então para a lateral do prédio em construção. Havia uma grande cerca velha e metálica que isolava a área, ocultando qualquer coisa que estivesse lá dentro. O guindaste pairava sobre o local, os cabos balançando levemente, a estrutura iluminada só por algumas lâmpadas de emergência.

— A gente corta caminho pela obra.

Kimberly franziu o rosto.

— Tá brincando, né? Com a nossa sorte, esse prédio desaba.

Ramon fez uma careta.

— Pior ideia de todas.

Jamie deu um passo à frente.

— É de mim que a Morte está atrás. Se alguma coisa acontecer, ela só atingirá a mim. E eu tenho vocês dois para me protegerem de qualquer merda. Não podemos perder tempo nos arriscando com Dean nos parando com perguntas idiotas e nos atrasando ainda mais. Vem.

Relutantes, os três atravessaram a grade caída e sumiram na penumbra da construção.

O cheiro de cimento fresco e madeira cortada invadiu as narinas deles. Os passos ecoavam no concreto nu, e o guindaste acima estalava ao vento.

Kimberly resmungou baixinho.

— Esse dia vai me matar.

XX

A Avenida Principal começava a se esvaziar, como se a própria cidade quisesse esquecer a tragédia que acabara de presenciar. O desfile havia sido cancelado, os carros de polícia bloqueavam cruzamentos e os paramédicos removiam o corpo da vítima no palco em uma maca.

A multidão se dispersava aos poucos, rostos atordoados, vozes murmuradas e olhos curiosos.

Ruby Raimi assistiu tudo de dentro de um carro roubado, um sedan preto, andando discretamente a meia quadra dali. Os dedos dela tamborilavam impacientes sobre o volante, os olhos fixos na movimentação, vendo seus alvos logo à frente.

Jamie, Kimberly e Ramon seguiram no fim da rua, caminhando rápido pela calçada lateral, a caminhonete abandonada com o pneu estourado ficando para trás.

Um sorriso frio se formou no canto da boca de Ruby.

— Aí estão...

Ela desligou o carro e desceu, ajustando o casaco sobre os ombros. A brisa quente da manhã carregava o cheiro de fumaça, pipoca queimada e sangue seco. Ao redor, algumas pessoas ainda espiavam pelas janelas dos prédios ou filmavam com os celulares. Sirenes cortavam o ar.

Ruby avançou pela calçada, desviando dos curiosos e dos policiais. Foi quando cruzou com Dean Jenkins.

Ele estava conversando com outro agente junto a uma viatura, falando rápido e de testa franzida. Ruby se aproximou casualmente, fingindo estar absorta na tela do celular. Esbarrou nele de propósito.

O contato foi rápido, os corpos se tocando de leve. A mão dela, ágil, deslizou para o coldre dele num movimento quase imperceptível, e a pistola desapareceu como mágica sob o casaco.

Dean virou-se, olhando por reflexo.

— Cuidado aí, moça. — resmungou, e já voltava a se concentrar no rádio do cinto.

Ruby forçou um sorriso nervoso.

— Desculpa, senhor... distraída.

Dean mal lhe deu atenção e seguiu. Ruby se afastou devagar, e só quando dobrou a esquina de uma rua lateral, deixou o sorriso crescer.

— Obrigada por não ter notado, babaca.

Com a arma segura junto ao corpo, ela caminhou pela viela estreita, onde o som das sirenes era abafado e a movimentação rareava. No final da rua, avistou a cerca de metal semiaberta da construção, a mesma que dava para os fundos do canteiro de obras ao lado da estação de trem.

O guindaste parado no alto era uma sombra retorcida contra o céu nublado.

A estrutura de andaimes, tapumes e placas velhas formava um labirinto perfeito. Ruby passou os olhos pela placa amassada jogada no chão:

"Acesso restrito — PERIGO."

Ela sorriu, um brilho maníaco nos olhos.

— Perigo para quem?

Sabia que Jamie e os outros não tinham opção.

E ela tinha tudo: a arma, o plano e a chance de ser finalmente imune. Se Jamie morresse ali, a Morte seria obrigada a aceitar mais um sacrifício.

Empurrou a cerca com cuidado, passando sem ser vista. O canteiro estava vazio àquela hora, a maioria dos operários dispensada após o tumulto no desfile. Apenas algumas ferramentas largadas, placas enferrujadas e andaimes de metal que estalavam com o vento.

Ruby sentiu o cheiro de poeira e cimento. Olhou ao redor e viu, à distância, a movimentação de Jamie e os outros pelo lado oposto do terreno.

"Tá perto, Ruby... bem perto."

E com isso, desapareceu nas sombras da obra, carregando o revólver e o desejo insano de trapacear a Morte.

XX

Megan estava sentada em um dos bancos de madeira da praça central, os joelhos juntos, as mãos entrelaçadas no colo.

O desfile havia terminado em tragédia e tentava encontrar Dean Jenkins. Ela sabia que ele estava atrás deles e que se visse Megan ali, exposta, com certeza iria até ela.

A garota olhava para os restos de confete grudados nas calçadas, tentando organizar os próprios pensamentos — e ignorar o aperto no peito. Era difícil deixar Jamie Corman longe dela, mesmo sabendo que a Morte estava com ele e que iria tentar matá-lo. Essa ideia de que ele estava correndo perigo a fez abanar a cabeça como forma de afastar esses pensamentos.

Foi então que a sombra de Dean Jenkins se projetou ao lado dela.

— Megan. — ele chamou, a voz grave e cansada.

Ela ergueu os olhos devagar. Ele estava ali, usando a mesma jaqueta surrada de sempre, os olhos afiados como facas. Havia suor em sua testa e o tom de quem já havia perdido a paciência há horas.

— Detetive. — Megan forçou um sorriso curto.

Dean se sentou ao lado, sem pedir permissão, e passou a mão pela barba malfeita antes de falar.

— Sabe onde a família Corman foi se enfiar?

Megan hesitou, desviando o olhar para a rua deserta adiante.

— Não faço ideia.

Dean soltou um suspiro longo, inclinando-se para a frente, os cotovelos nos joelhos.

— Esse garoto... James... ele é tipo um imã para tragédias, sabe? E pior... para tragédias em série. — olhou de lado para ela. — Acabei de receber pelo rádio. Encontraram o corpo da garota... Sasha Wong. No ateliê dela. Uma cena horrível. — ele franziu o cenho. — Testemunhas disseram ter visto duas mulheres saindo de lá às pressas.

O estômago de Megan revirou. Ela sentiu a boca secar, e um nome latejou na mente dela como uma sirene.

Ruby. Ela engoliu em seco.

— Eu... não sei nada sobre isso. Nem sobre duas mulheres. E você não tem como provar nada contra o James. Ele não tá envolvido nessas mortes. — tentou manter a voz firme, mas ela vacilou no fim.

Dean a encarou por longos segundos. Então relaxou um pouco a postura.

— Você é esperta. E parece gostar daquele garoto. — ele se recostou no banco. — Vou te levar para casa. Por precaução. Melhor você não ficar sozinha por aqui.

Megan balançou a cabeça.

— Obrigada, mas não. Eu tô bem.

Dean tirou um cartão do bolso e entregou a ela.

— Se lembrar de qualquer coisa. Qualquer detalhe. Ou se o Jamie aparecer. Me liga. — ele ficou de pé e ajeitou a jaqueta.

Foi quando percebeu. Seu olhar caiu para o coldre no cinto. A arma não estava lá.

O detetive ficou rígido. O olhar dele varreu a praça, as ruas e vielas próximas, o rosto ficando sombrio. Megan percebeu a mudança na expressão dele.

— Merda... a garota ruiva... — murmurou Dean, como se finalmente ligasse os pontos — Ela era uma das sobreviventes daquela merda de celeiro. Como não percebi aquilo antes? Que droga.

Megan arregalou os olhos.

— Ruiva? — o sangue sumiu de seu rosto. — Você tá falando da Ruby?

— Vocês eram próximas?

— Bem... não. Steven estudava na mesma faculdade que eu e... só isso. Ela trabalhava naquela bar perto daqui...

— Black Flame. — Dean resmungou, se pondo de pé — Eu sei disso.

— Acha que ela é uma suspeita?

Dean não respondeu. Já estava se afastando, ativando o rádio no ombro.

— Atenção, todas as unidades. Temos uma suspeita de furto de arma e possível perigo armado nas imediações da área do desfile cancelado. Descrição: mulher ruiva, aproximadamente vinte e poucos anos... — ele continuava, a voz ficando distante enquanto sumiu entre as ruas.

Megan apertou o cartão na mão, pegou o celular e tentou discar para Ramon. O número chamou, chamou, e caiu na caixa postal.

Droga. O pavor rastejou pela espinha dela. Ruby estava ali e Jamie iria morrer.

XX

O cascalho estalavam sob os passos apressados. O guindaste parado no alto da construção parecia uma foice suspensa, imóvel e ameaçadora, como se a própria Morte observasse dali.

Jamie seguia ao lado de Kimberly, os dois desviando por entre pilhas de blocos de concreto e vergalhões deixados pelo caminho. Ramon caminhava mais atrás, o rosto tenso, as mãos nos bolsos da jaqueta.

O cheiro de poeira e metal impregnava o ar.

— Mãe... — Jamie quebrou o silêncio. A voz dele saiu baixa, carregada de algo mais profundo. — Quando... quando era a sua vez. Você ficou com medo?

Kimberly desviou os olhos, o rosto marcado pela dor que carregava desde os vinte e poucos anos.

— Não. — respondeu, depois de um instante. — Quer dizer... eu nem tive tempo. Quando percebi que era eu, só pensava em tentar salvar o próximo. Naquela época, eu era como você. Queria impedir tudo. Queria quebrar as regras. Queria ser mais esperta que a Morte. — sorriu amargo. — Consegui impedir algumas mortes. Mas não todas. Carrego isso desde então. E sei o peso que é.

Jamie apertou os lábios, os olhos marejando.

— Obrigado por estar aqui agora. Eu só... espero que a gente termine esse dia inteiro.

Kimberly pousou a mão no ombro dele, apertando.

— Eu também, filho.

Foi quando ouviram o clique seco de uma arma engatilhada.

Viraram-se e ali, à sombra de uma pilastra, Ruby surgiu. O rosto sujo de poeira, os olhos faiscando de satisfação insana.

Ramon estava rendido, o cano da pistola encostado contra a têmpora dele.

— Olha só... a família feliz. — disse Ruby, com um sorriso torto. — Sabe o que é divertido? Aposto que o próximo da lista é você, Jamie. E se eu te matar... com as minhas próprias mãos... usando o Servo da Morte... eu me torno intocável. Eu ganho.

Jamie levantou as mãos devagar. Ramon estava com olhos marejados, provavelmente pela perda de Natalie, tenso com a arma encostada em seu pescoço.

— Calma, Ruby. Isso não vai mudar nada. A Morte não joga limpo. Você sabe disso.

Kimberly avançou um passo.

— Abaixa essa arma, garota. Não faz isso. Você ainda pode parar.

Ruby deu uma risada curta, sem humor.

— É tarde demais.

O disparo ecoou.

Kimberly deu um passo para trás, a expressão surpresa antes da dor explodir no estômago. O sangue escorreu quente pelos dedos dela quando levou a mão ao ferimento.

— MÃE! — gritou Jamie.

Ramon, num ímpeto, empurrou Ruby de lado. Ela tropeçou, batendo seu corpo contra uma pilha de tijolos, e a arma escapou de sua mão.

Jamie se lançou para cima dela, lutando com as mãos sujas. Ramon pulou em cima da ruiva, tentando segurar seus braços agéis em meio à um berro de ira.

— EU VOU TE MATAR! — berrou Jamie.

Jamie conseguiu apanhar a arma antes que Ruby o alcançasse. Ele se lembrou do plano da mãe: criar um acidente fatal para a garota. E foi isso que ele fez.

Jamie disparou para o alto.

As estruturas da construção rangeram, um lamento metálico agudo preenchendo o espaço, como se a própria obra previsse o que viria.

O tiro de Jamie acertou de raspão um cabo de aço, sustentando uma placa de metal no alto de um andaime.

O som seco ressoou entre as vigas e colunas. Por um segundo, o mundo pareceu parar. O eco se propagou e, como se tivesse acionado uma sequência já programada, um cabo de aço se arrebentou no alto, liberando a placa metálica que desabou em queda livre.

Ela atingiu uma seção abaixo do andaime, e tudo começou.

Vergalhões se soltaram. Placas de vidro mal encaixadas deslizaram dos suportes. Correntes tensionadas estalaram.

— ISSO! — Kimberly falou, se esforçando a ficar em pé.

Jamie sorriu ao ver as peças caindo, mas logo veio a tensão. Seus olhos focaram no exato instante em que uma das placas de vidro enorme se desprendeu, girando no ar como uma guilhotina mortal.

Vinha direto na direção dele.

O reflexo gritou em seu cérebro antes que o corpo obedecesse. Jamie se lançou para o lado, agarrando Ramon pelo braço, puxando o irmão junto.

A lâmina de vidro cortou o espaço onde segundos antes estava a cabeça de Jamie.

O impacto dela no chão produziu um estalo surdo, e estilhaços se espalharam, um deles cortando o braço de Jamie na altura do antebraço. O sangue esguichou, mas ele mal sentiu.

Tudo ao redor era caos.

Vergalhões despencavam como lanças, espetando o chão ao redor deles. Um passou tão perto de Ruby que arranhou o tecido do casaco, deixando um risco de metal queimado.

Kimberly, mesmo cambaleando e sangrando pelo tiro no estômago, segurava Ruby com força desesperada, as duas rolando entre as tábuas e destroços.

E então, outra lâmina de vidro desabou.

Ela atingiu o braço de Kimberly com força brutal.

O membro foi decepado num corte limpo, o sangue jorrando quente e rápido. Kimberly gritou, o som ecoando pelo canteiro de obras, um urro de dor e também de desafio.

Ruby tentou se soltar, mas Kimberly a puxou com outro braço ainda mais para si.

— VOCÊ FICA AQUI, SUA VADIA!

O rosto dela estava pálido, mas com um sorriso torto, quase aliviado. Ela olhou para o lado, vendo os seus filhos caídos embaixo de uma marquise de concreto. Protegidos da chuva de destroços.

— Eu vivi. Deus sabe... eu vivi cada maldito dia... e amei vocês dois até o último segundo.

As palavras saíram trêmulas, a voz fraca, mas clara o suficiente para Jamie ouvir em meio à barulheira.

Foi quando outra placa de vidro, essa ainda maior, caiu do alto.

Girando como uma foice translúcida e cruel, ela desceu e atingiu Kimberly bem no topo de sua cabeça, dividindo seu crânio até a base do septo do nariz.

O sangue explodiu num jato grotesco.

O corpo dela ainda ficou meio segundo de pé, como se desafiasse o inevitável, antes de cair, arrastando Ruby consigo.

Ruby gritou, o rosto coberto pelo sangue quente de Kimberly, a expressão de pavor misturada ao choque.

Os estilhaços do vidro voaram para fora da cabeça repartida, uma das partes pendendo mais para fora do que a outra. Um dos cacos se cravou na mão de Ruby profundamente.

— MERDA!

Jamie, com o braço ensanguentado, olhou para o horror diante dele. A garganta apertada, a dor explodindo no braço, mas o desespero maior era no peito.

— MÃE!! — gritou, a voz se partindo.

Mas não havia mais nada.

O cheiro de sangue, cimento e madeira queimada encheu o ar. A poeira se espalhava. O som da estrutura parou de ranger assim que tudo havia sido jogado.

Ele ainda estava vivo. Por enquanto. Ramon agarrou o braço bom de Jamie.

— A gente precisa sair daqui, cara. Agora.

Ruby rastejava, tossindo, olhos arregalados de puro terror. Jamie não esperou. Com as pernas bambas e o coração batendo nos ouvidos, deixou as últimas forças o guiarem enquanto seguiam tropeçando pelos escombros e poeira, deixando para trás o último pedaço da mulher que havia os protegido por tanto tempo.






Notas finais
Eae, como vão? Esse final foi bem épico kkk queria deixar tudo bem pesado com uma perda tão importante como essa para a família Corman. A Morte de Kimberly já era prevista e por curiosidade esse final seria no chalé dela kkk ela iria morrer com um machado, mas achei que seria algo parecido com o final do sexto filme (explosao e coisas parecidas) , então alterei para essa obra. O último capítulo será o próximo e iremos descobrir que terão sobreviventes ou só mais corpos para a Morte recolher.