POLOS - Sublevação.
1 Capítulo 1
CAPÍTULO 1
8:59 da manhã, exatamente. No próximo minuto, Sil abrirá com suavidade as portas do meu nada simples quarto para me acordar como uma mãe deveria acordar um filho. Mas ela não é minha mãe, apesar de alguns traços de personalidade façam-na parecer com a mulher que me deu trouxe à vida.
Como de costume, às 9:00 da manhã Sil me acordava. Todos os dias. Uma figura encorpada, alta e com o rosto marcado por rugas adentrou no quarto com aquele singelo sorriso de sempre, trazendo consigo uma rara rosa branca. Ao se aproximar de minha cama e perceber que eu já estava acordada, estendeu a mão para me entregar a rosa. Eu a peguei e a segurei com força, pois sabia que os espinhos já haviam sido retirados.
- Quem foi o interesseiro desta vez? – perguntei enquanto mudava da confortável posição deitada para a indesejável posição sentada.
— Na verdade, minha querida, desta vez não foi nenhum interesseiro. Foi o seu irmão, Bernardo. – Sil continuava a sorrir. Se eu não a conhecesse, se não soubesse pelo que ela passou, diria que aquela era a única expressão que ela possuía.
— É interesse do mesmo jeito. Ele só me deu essa rosa porque provavelmente quer que eu faça algo por ele – dei um riso abafado e pulei para fora da cama.
— Hayline, talvez esteja certa... Pois ele mencionou algo sobre esgrima quando me pediu para entregá-la a você.
Sil fez um gesto com a mão dizendo para eu me sentar na cadeira da penteadeira. E assim eu fiz. Não é fácil aceitar o fato de que eu, Hayline, uma garota de 17 anos, ainda tenho uma espécie de babá. Na realidade não é o fato de eu ter uma, e sim de eu ter a consciência de que preciso de uma. Tento todos os dias não me importar com a constrangedora situação.
— Onde está papai? – perguntei enquanto ela desembaraçava meus médios e negros cabelos com uma delicadeza fora do comum. Quando eu tentei fazer isso, quase arranquei minha cabeça fora.
— No escritório dele, e não está sozinho. Ainda antes de o sol nascer, ele recebeu um dos secretários do governador do Polo 3 e está com ele até agora.
Meu pai recebe muitas pessoas, por muito tempo e o tempo todo. Ele é um homem importante. Quero dizer, muito importante. Para ter uma noção do grau de importância: os homens mais poderosos do mundo são quatro. O meu pai é um desses quatro. Ele é o governador do Polo 1.
Essa divisão de Polos, divisão do nosso planeta por meio de terras, se deu ao fim da terceira guerra mundial. Guerra esta que foi a mais duradoura, a mais cruel e devastadora manifestação de violência já vista entre seres humanos. Conta meu pai que a Terceira Guerra Mundial ocorreu inicialmente pela divergência de ideias entre dois governos da época. Governos estes que tiveram poder suficiente para reunir uma legião de seguidores e exércitos que colocaram um fim longo, mas provisório, da paz na terra. Após décadas de sofrimento e irracionalidade, houve renúncia dos governos. Precisou ocorrer um verdadeiro massacre para que a humanidade retomasse a consciência. Sendo assim, um novo governo em conjunto foi estabelecido e ele é chamado até os dias atuais de Autocrático. A Guerra acabou, mas meu pai nunca me permitiu sair de nosso exageradamente cercado e grande bairro. Nem nunca permitiu que eu soubesse o que há lá fora. E o desconhecido por mim não é um segredo. Todos sabem. Até Sil sabe. Mas ele me acha pura e inocente demais para isso, o que aguça minha vontade de explorar estes locais que não podem receber minhas visitas, por hora. Bernardo, meu irmão, é apenas dois anos mais velho que eu e já esteve fora do bairro por quatro vezes. Ele concorda com meu pai, acredita que eu não deva sair por enquanto.
— Terminei querida – Perdida em pensamentos, havia me esquecido que Sil estava arrumando meu cabelo já que eu era aparentemente incapaz de fazê-lo. Como de costume, ela fez um rabo de cavalo com perfeição – Está bonita. Gosto de seu cabelo preso, pois realça seus olhos.
— Obrigada Sil – sem expressão, encarei-me no espelho por um longo tempo enquanto minha babá deixava o local. Sil tinha razão, meus olhos cor de mel destacavam-se quando meus cabelos estavam presos. Mas, por outro lado, deixava meus lábios, que já eram grandes, maiores e isso não me agradava. O barulho das portas se fechando causava um eco em meu imenso quarto.
Troquei o longo e folgado pijama por um vestido simples, branco, sem nenhum decote e na altura dos joelhos. Minhas roupas sempre foram comportadas. Eu era da seguinte opinião: se você não tem o que mostrar, não mostre. Eu absolutamente não tinha o que mostrar. Além de magricela, tinha o rosto de um feto. Era impossível imaginar que dentro de alguns dias eu faria 18 anos.
Saí de meu quarto e fui diretamente para a sala de refeições, onde deparei-me com a pessoa que eu mais gostava no mundo: o meu irmão.
Isso vai soar como incesto, mas, meu irmão é um gato. Tudo o que aparentemente deu errado em mim, nele deu certo. Alto, ombros largos, cabelos loiros acinzentados em perfeita sincronia com seu rosto. Sua pele era tão pálida quanto a minha, e ainda tinha aquela cicatriz em sua clavícula que completava o charme em pessoa que ele conseguia ser. Eu tenho um pai, mas em questão de relacionamento, presença e exemplo, Bernardo é o meu pai.
— Esgrima. Eu e você. Em meia hora. – ele sorriu enquanto eu me aproximava. Achei que fosse me abraçar e dar um bom dia com aquele colo aconchegante que ele tinha, mas para minha nada surpresa, acabou jogando uma maçã na minha perna – e faça o favor de tirar esse vestidinho de marica. Tá mostrando muito as suas pernas.
— Bom dia, obrigada pela maçã e consequentemente pelo roxo que irá ficar na minha perna. E é claro que eu vou ter que tirar esse vestido, você quer me matar na esgrima e esse modelo pacífico não combina com brutalidade – rimos juntos. Sentei-me em sua frente na mesa e comecei a comer uma salada de frutas feita por Sil. A melhor salada de frutas.
— Nem fale com o pai hoje, ele tá uma bunda – Bernardo falava com a boca cheia. Pior, falava besteiras com a boca cheia. Isso irritaria minha mãe de uma maneira incalculável. Mas eu apenas ri. Ele era o cara mais engraçado que eu já conheci, apesar de ter conhecido poucos caras.
— Uma bunda? – perguntei mesmo sabendo que a resposta não seria nada agradável.
— Uma bunda bem fedida e nojenta, com estrias e furos – ele deu seu tradicional sorriso do canto esquerdo, onde sua ‘covinha’ se realçava – Ele está estressado com algo que nós jamais saberemos.
— Não chegarei nem perto daquele escritório – assegurei enquanto tomava o cuidado de não ingerir uma uva. Não gosto de uvas.
— Seu aniversário está chegando – a mudança drástica de assunto fez com que meu sorriso se perdesse do meu rosto — Mamãe ficaria orgulhosa em te ver atingir a maioridade.
Engoli em seco, e olhei para a tigela de salada de frutas que agora já não parecia ser tão boa.
— A vejo em você, Hay – mesmo com a cabeça abaixada pude perceber que ele me olhava com aqueles inquietantes olhos castanho claro — se parece com ela. E não digo na aparência porque eu sou a cara dela.
Ele realmente se parecia muito com a minha mãe, Lucy. Os cabelos claros, o nariz pequeno e proporcional a todos os outros traços de seu delicado rosto, as expressões serenas.
— Ela não está mais aqui Bernardo, – finalmente tomei coragem para encará-lo – ela morreu. Ela não vai me ver virar uma mulher, ou seja lá o que a ‘magia dos 18 anos’ faz acontecer.
— Ela está mais viva do que você possa imaginar – ele deu aquele sorriso torto e respirou fundo – está em nós e nos nossos dias. Assim como Kendall.
Aquele nome me deu náuseas. Como se não bastasse perder minha mãe, perdi também o meu melhor amigo. Kendall era filho de Sil, e nos conhecíamos desde sempre. Não, nunca tivemos um caso porque ele sempre aparentou ser homossexual. Ele me ensinou as coisas boas da vida como subir em árvores, correr até cansar e me sujar na terra. Isso parece idiota, mas para mim teve um significado imenso já que a única que eu podia aprender dentro daquela casa era como acenar para as pessoas que me viam na sacada do meu quarto.
Há aproximadamente dois anos, no meu aniversário, Kendall desapareceu misteriosamente. Depois de um tempo, o governo deu-o como morto por incineração, já que seu corpo foi supostamente encontrado em cinzas. Ironicamente, a cor preferida dele era cinza. Sil jamais foi a mesma depois do ocorrido. Por mais que ela sempre estivesse com aquele sorriso estampado e permanente no rosto, eu sabia que ela estava numa depressão que aparentaria não ter fim.
Meu irmão me encarava como se a qualquer momento eu fosse desabar ou falar algo. Não o questionei como de costume, apenas continuei ali, em silêncio, até terminar de tomar o café da manhã. O meu último café da manhã ali, naquela mesa, com a presença do meu irmão.
A porta da cozinha se abriu num estrondo, e imediatamente meu irmão se levantou. Ele apoiou as mãos na mesa, fazendo com que seus braços tomassem formas e seus músculos ficassem visíveis. Assumindo uma postura intimidadora para quem fosse que estivesse olhando, ele disse rispidamente:
— Você?
Curiosa, me virei para ver a quem ele se referia. Preferi não tê-lo feito.
— Mas que droga... – falei num tom de voz mais alto do que o planejado.
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