[PARALISADA]New Times
1 Ameaças na Livraria...
Notas iniciais

Pandora estava de folga naquele dia nublado, muitas pessoas prefeririam ficar em casa o dia todo em frente à televisão, mas a ruiva adorava andar na rua quando o tempo estava fechado. Era tudo tão calmo e silencioso, ela escutava os batimentos do peito enquanto pequenas baforadas de vapor saiam de sua boca, essa era mais uma razão para ela amar a nevoa e o frio. A garota estava indo para a livraria da cidade, onde costuma passar a maior parte do tempo, porém ela não estava indo lá por diversão. Há poucos dias um cliente do antiquário estava em busca de um livro antigo e precioso, mas infelizmente a loja de antiguidades não possuía tal produto.
Fascinada pelas informações que o cliente havia dado ela resolveu ir mais a fundo no assunto, a garota não havia percebido, mas em seu interior ela sabia que procurava respostas para dúvidas profundas, dúvidas essas que estavam entalhadas em seu ser.
A livraria estava mais próxima e o clima estava ficando cada vez mais frio, as folhas secas se desprendiam das árvores e caíam ao chão devido ao vento que havia aumentado de intensidade, os cabelos vermelhos de Pandora balançavam desordenadamente, pois a menina já havia desistido de arrumá-los. Pandora parou e percebeu que havia chegado ao seu destino, a livraria era melhor dentro do que aparentava ser para quem via de fora. Parecia pequena, porém tinha um amplo espaço que abrigava pessoas de todos os tipos.
A ruiva girou a maçaneta fazendo a porta ranger e um sininho pequeno bater anunciando a chegada, lá estava quente então Pandora retirou suas luvas brancas e as guardou no bolso. Por um instante ela aproveitou o calor do local e deixou que o cheiro dos livros atiçasse sua imaginação, era sempre assim, era como se a garota estivesse em um mundo próprio. De repente ela escutou duas vozes exaltadas, parou um pouco e percebeu que eram masculinas.
– Mas o que... — Ela sussurrou seguindo o barulho até o corredor no qual ficava o caixa.
Ainda cuidadosa ela não se mostrou por completo, deixou que apenas um de seus olhos e metade de seus fios ruivos ficassem expostos, para a surpresa da mesma, Marco estava discutindo com um garoto de cabelos acobreados e físico um tanto deslumbrante aos olhos dela. O cabelo de Marco estava totalmente bagunçado e se parecia com bolas de algodão puxadas, seu óculos de armação grossa parecia se equilibrar na ponta do nariz.
Pandora continuou prestando atenção na conversa e não pode deixar de notar o modo que o garoto se vestia, ele trajava uma calça preta surrada e uma jaqueta de couro preta. Isso apenas atiçava mais a curiosidade da garota, pois o dono da livraria sempre era gentil com todos e fazia tudo pelos clientes e os negócios.
A garota continuou observando escondida, de algum modo ela sabia que não seria muito bom se ela se mostrasse naquele momento, o garoto apontava o dedo para o rosto de Marco e apesar do velho parecer muito nervoso e exaltado o menino parecia manter a calma. Os dois falavam muito alto e Pandora conseguia ouvir a conversa perfeitamente.
– Vá embora Martin! Você não vai conseguir nada aqui, eu costumava ser um grande amigo de seus pais, por eles eu daria minha vida, mas por você eu não daria nem um copo d’água se me pedissem! – A voz rouca do velho retumbou forte como um tambor e a garota pode jurar que viu o garoto chamado Martin contorcer o rosto de dor.
– Oh, não não não. Pare já com isso seu velho tosco, você está fora de forma, sua voz já não é mais tão forte como antes. Eu preciso daquela velharia agora! E querendo ou não, você vai da-la para mim! – Bradou o garoto de fios acobreados no momento em que agarrou o velho pelos ombros e o prensou contra uma estante de livros alinhando seus olhos com os dele.
Pandora deu um suspiro alto e automaticamente tapou a boca com uma das mãos, ela tentou se acalmar e após alguns segundos conseguiu. A garota continuou parada por mais alguns segundos até que decidiu olhar novamente. O garoto ainda continuava na mesma posição, segurando os braços de Marco e olhando em seus olhos, ele parecia muito concentrado e permaneceu daquela maneira por longos minutos até começar a falar algo, Pandora tentou ouvir, mas o garoto falava muito baixo, enquanto o garoto falava o velho bibliotecário apenas balançava a cabeça para cima e para baixo em sinal de concordância.
O coração de Pandora estava em disparada, ela queria intervir, mas algo dentro dela a impedia. Pand se acalmou quando o garoto se afastou de Marco e sentou-se em uma cadeira de madeira colocando seus pés sobre a grande mesa de leitura, Marco continuou parado com o olhar vidrado no nada, o garoto colocou a mão dentro de sua jaqueta e tirou um maço de cigarros, acendeu um e após uma longa tragada bateu duas palmas leves, o velho Marco imediatamente se moveu em direção ao balcão da caixa registradora, abriu uma gaveta e de dentro dela retirou um pacote retangular de couro marrom, se dirigiu até o garoto e entregou o pacote. O garoto pareceu muito feliz ao receber o pacote em suas mãos, ele se levantou e deu as costas para o velho com um sorriso no rosto, enfiou o pacote na parte de dentro da jaqueta e começou a se distanciar. Marco continuava em pé ao lado da cadeira onde antes o garoto estava sentado, mas agora ele parecia tremer, o velho estava com os olhos esbugalhados e olhava para as mãos como se não acreditasse no que havia feito.
– Não... Não... Martin! Volte aqui garoto! – Falou o velho com voz fraca.
O garoto parou e se virou.
– Muito obrigado Marco, mamãe e papai ficariam muito gratos. Se estivessem vivos é claro. – O garoto disse as ultimas palavras com um tom um tanto quanto melancólico, então se virou novamente e começou a caminhar.
Pand percebeu que se continuasse ali seria vista, então correu em direção à saída e conseguiu sair da livraria antes do garoto, ela se sentou em um banco na fachada da loja e tentou disfarçar o nervosismo. Alguns segundos depois o garoto saiu pela porta e começou a caminhar pela calçada, Pandora obsevou discretamente enquanto ele se afastava e levou um susto quando o garoto parou, a menina desviou o olhar rapidamente para os galhos de uma árvore. Ela sentiu alguém se aproximar e parar ao seu lado.
– Olá. – Era a voz do garoto.
Pandora virou o rosto com receio e olhou para ele.
– Oi. – Disse a menina com voz baixa.
– Você por acaso não teria fogo teria? Meus fósforos acabaram. – Disse ele com um sorriso simpático girando um cigarro ainda apagado entre os dedos.
– Eu não fumo. – Disse ela observando os olhos cor de âmbar dele.
– Oh. – Ele exclamou com uma expressão de decepcionado.
O garoto começou a recuar.
– Meu nome é Martin. – O vento começou a soprar forte desajeitando os fios acobreados dele.
– Pandora. – Disse a menina com tom seco.
– Desculpe o incomodo, Pandora. – E se virou afastando-se cada vez mais.
A garota só se acalmou quando ele já estava longe e virou a esquina, então ela se levantou e por alguma razão atravessou a rua e correu na direção contraria a que o garoto havia tomado.
***
Pandora estava no começo da semana e de certa forma isso a deixava um tanto desanimada, o movimento na loja estava um tanto fraco e ela aproveitou para organizar os trabalhos acumulados. Sentada no balcão com um pequeno bloco de notas e uma caneta preta que estava com a tampa desaparecida ela fazia a contagem de vendas do mês. Lanna havia ido ao mercado e por isso poderia demorar algumas horas, a dona da loja era divertida, mas era organizada demais com os afazeres domésticos. A ruiva começou a cantarolar uma música qualquer, porém, o sininho anunciou um novo cliente e isso fez a garota perder o equilíbrio e se agarrar em um abajur velho.
– Olha quem está ai... — Uma voz masculina ecoou no lugar que até poucos segundos estava silencioso.
Era Martin.
– O garoto da livraria. — Pandora murmurou descendo do balcão e ajeitando o avental. — No que posso ajudar?
– Não precisa se arrumar para me impressionar, não sabia que você trabalhava aqui. — Martin disse com um tom irônico.
– Como poderia saber? Eu não te conheço. — Pandora sussurrou como se fosse um pensamento. — Quero dizer...
– Eu entendi você é um tanto tímida. — Ele se aproximou da garota a fazendo recuar um passo e corar um pouco nas bochechas.
– Apenas não sou de bater-papo com estranhos. — A ruiva cortou fingindo arrumar uma caixinha de músicas. — Está procurando algo específico?
– Eu vim falar com você. — O garoto falou em um tom calmo.
Pandora o ignorou e o observou por alguns segundos, ele estava mexendo em um pequeno pingente que estava ali havia semanas.
– Gosta de joias? — Ele perguntou tomando a peça em mãos e admirando-a com certo desdém.
– Não gastaria dinheiro com elas... — Pandora deu de ombros e sentou-se de volta no balcão. — Elas são apenas enfeites que aumentam a autoestima das pessoas.
– Por que você é assim? — Martin perguntou se aproximando do balcão.
– Assim como?
– Diferente.
– Diferente como?
– Você é você.
Pandora não havia percebido que estava bem próxima do garoto, e podia ouvir os batimentos cardíacos dele. O garoto levou a mão até o medalhão que ficava pendura na altura do busto da garota, ele era mais pesado do que pensava, e logo começou a observa-lo de uma maneira diferente.
– Pode se afastar? — A garota sussurrou com a voz firme.
– Por quê? — Martin perguntou olhando-a nos olhos.
– Estou ficando constrangida.
Então ele soltou o colar que balançou duas vezes e ficou imóvel novamente, ele não era como os outros medalhões, ele parecia carregar um mistério. Novamente Pandora desceu do balcão e ficou ao lado do caixa apoiando os cotovelos na mesa.
– O que realmente quer? — Ela perguntou com um tom raivoso e um tanto ignorante.
– Saber mais sobre você e o medalhão. — Ele respondeu fazendo o mesmo gesto e apoiando os cotovelos no balcão.
– Você é sempre assim? — Pandora perguntou rindo.
– Assim como?
– Idiota e intimidador.
– Isso não é sexy?
– Nem um pouco.
Pandora abaixou os olhos e olhou para o medalhão, ela cresceu com ele pendurado no pescoço, e até hoje não sabia a origem dele. Em seguida se afastou ainda olhando para Martin.
– Você vai comprar algo ou só vai ficar fazendo gracinha?
– Se eu escolher a segunda opção você vai me expulsar, não vai? — Disse o garoto com um sorrisinho.
– Depende, se você for um bom garoto e me contar o motivo de estar aqui. — A ruiva conteve um riso.
– Ai que está o problema, eu nunca fui um bom garoto. — Martin recuou em direção a porta. — Nos vemos outro dia então moça, não fique muito ansiosa. — O garoto piscou apenas um olho e saiu pela porta.
– Convencido... — Ela sussurrou bufando.
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