PARADOXO - Seson 3
8 Capítulo 8 - Fúria
Notas iniciais
LUNNA
“Eles são incrivelmente lentos!” a voz de Wally parece torturada.
—Só podemos esperar -olho em volta para a caverna vazia, tão frustrada quanto alguém pode estar. Se não a tivesse pressionado, se tivesse agido de qualquer outra forma, agora Isis estaria em casa e não caída em uma boate velha, sozinha. Posso sentir o buraco começando a se abrir, fecho minhas mãos em punhos resistindo com todas as minhas forças a usar a dor física para me desviar da emocional.
“Eu estou aqui.” O escuto dizer. “Bem do seu lado, sei como te fazer me ouvir agora, então quero que se concentre em minha voz e só respire. Minha mão está do lado da sua e se pudesse estaria a segurando nesse instante.” Não posso senti-lo, mas me esforço para fazer o que diz, sentindo o nó em minha garganta se tonar menos doloroso. “Vamos trazer Isis de volta, eu vou fazer tudo o que for preciso para voltar e vamos cuidar um do outro como sempre fazemos. É uma promessa.”
—Sei que vai fazer tudo a seu alcance...
“Não Lu, vou fazer além do que estiver ao meu alcance. Quero mais do que tudo abraçar minha filha, quero estar com minha esposa. Tenho uma família agora e pode ter certeza que vou fazer parte dela a cada segundo que puder.” Olho para Nina que dormia tranquilamente em um carrinho de bebê ao meu lado. “Quero estar aqui por você, então pode acreditar que vou voltar e trago Isis de volta a qualquer custo.”
—É, sinto sua falta -murmuro, e escuto o que parece um riso bem triste.
Ficamos em silêncio, sem mais nada a ser dito na verdade. Sinto falta de orar, mas simplesmente me vejo cheia de culpa e peso, incapaz de encarar a Deus em um momento como esse. Pouco tempo depois, Connor entra carregando Isis, ladeado por Sara e Damian. Ele a coloca na maca e Damian a leva direto para o ala hospitalar onde Caitlin a esperava, sem esperar por Connor que estava estagnado onde havia deixado Isis.
“Vou ir ficar com Isis, Connor não vai sair do lugar sem ajuda.” Caminho em direção a meu marido, sem conseguir nem mesmo olhar em seus olhos, mas já o conheço o bastante para saber que os dele estarão marejados agora.
—Connor? -o chamo baixinho tocando seu braço com cuidado e me obrigo a olhar seu rosto, que estava exatamente como previ. -Ah Con. -minha voz soa cheia de tristeza, e ele me abraça apertado como se precisasse de algo para se firmar naquele instante. -Sinto muito -sussurro acariciando suas costas.
Ele se solta do meu abraço com cuidado, beija o alto da minha cabeça, vai para a escada e senta no segundo degrau. Sara balançava o carrinho de Nina mais por não ter nada o que fazer do que por qualquer outra coisa. Nada, não tem uma palavra que seria suficiente naquele momento, deixo meu corpo cair sobre a cadeira mais uma vez e fixo meus olhos no computador.
—Precisamos avisar aos seus pais. – Sara estava tão compenetrada olhando para filha, que não parecia estar falando com ninguém.
—Só depois que Caitlin tiver algo para falar. – Connor não deixa espaço para que ninguém discorde dele o que só torna pior ter que dar a notícia a seguir.
—Eles estão a caminho -digo, e vejo os dois me olhando. -Felicity me mandou uma mensagem quando estávamos em casa ainda, no meio de tudo o que aconteceu não tive tempo de falar nada. -Sara volta a balançar Nina e Connor abaixa a cabeça parecendo ter perdido a maior de todas as batalhas.
Depois de um tempo incalculável Damian apareceu, mas sem nenhuma novidade apenas se sentando na cadeira de Felicity e olhando as câmeras de vigilância da cidade, acho que é o que os morcegos fazem para tentar desligar a cabeça, mas de alguma forma é reconfortante o ter ao meu lado, Connor sempre se afasta em sua tristeza e não estou na minha melhor forma ao enfrentar a minha sozinha, a presença silenciosa do morcego acaba por me ajudar mesmo não sendo intencional. Escuto o elevador abrir e me levanto em um salto, na verdade todos se levantam da mesma forma.
—Ela está desacordada. –Caitlin fala antes de qualquer pergunta. –Não sei o que levou a tudo. É frustrante, vocês sempre encontram alguma coisa fora dos livros de medicina para atingi-los – respira profundamente mostrando toda a frustração de anos cuidado de nós. –A coloquei em coma induzido, não sei o que vai acontecer se a tirarmos sem descobrir de fato o que tem. Damian me falou dos distúrbios de humor que ela vem tendo, talvez possamos fazer alguma ressonância, mas não vejo nada que possa causar algo assim. -distúrbios de humor, não seria o termo que mais ninguém aqui usaria para definir, mas provavelmente Damian não quis dizer a Cait que a garotinha de todos, parece estar possuída.
—Não é melhor que ela acorde? – minha voz era mais baixa que o habitual.
—Não indico. Não sem saber o que está acontecendo.
—Mas só falando com ela teríamos alguma resposta concreta. – Damian me ladeava, como um escudeiro, é a única rota de trabalho que temos. – Sua saúde deveria estar perfeita, nada que você viu nela justifica o seu estado.
—Verdade. Parece que algo a está parasitando, se alimentando de suas forças, mas não conheço nada capaz de fazer o que vi lá em cima. Como disse não indico – então Caitlin se vira para Connor que concorda levemente com a cabeça. – Mas se é o que querem – dá de ombros. – Vou subir e diminuir os sedativos, vai levar um tempo para acordar. – Caitlin aperta a mão de Sara com ternura. – É bom te ter de volta – e se vira para Nina que dormia alheia a tudo que nos cercava. –Ela é linda – beija o rosto da minha amiga e volta para acordar a minha cunhada.
—Espero que nós estejamos certos. – Damian me olha em desespero.
— Eu também.
DAMIAN
Em Gotham é normal não acreditar no que vemos. As ruas escuras e inimigos insanos nos obrigam a desconfiar, por que o ruim pode ficar pior e o pior não está nem perto do fim da linha. Estar um passo à frente, visualizar todas as saídas, nunca dar as costas para um alvo. Ter foco é o único meio de sobreviver.
Star City te faz ter esperança. As pessoas se importam e tem a mania irritante de demonstrar. Não é nada cheio de abraços e palavras carinhosas, nesse caso ainda dá tempo de fugir. Mas esses Arqueiros te olham nos olhos, descobrem seus problemas e sem nenhuma dor na consciência enfiam o nariz sem esperar convite. Quando se der conta está sentado em uma caverna que nem mesmo deveria levar esse nome. Colocando a porra dos próprios interesses em segundo plano e se preocupando com meia dúzia de heróis que podem cuidar do próprio traseiro, mas por algum motivo idiota preferem fazer isso em uma espécie retardada de culpa que compartilhamos. Que inferno, acabei de me incluir na terapia grupal.
-Quanto tempo? -Connor pergunta olhando para o nada, escorado em uma parede.
-Estão vindo. -Lunna o responde cada vez mais rápido, com menos detalhes e mais irritada.
O ciclo não para. Cada um se sentou em um canto, estou em um degrau da escada, sentado em uma ponta e a Delphine em outra. Sara está perto do elevador, com um braço no carrinho de Nina que dorme como se nada estivesse acontecendo. Connor em uma pilastra, perto de onde estamos, mas longe o suficiente para não precisarmos ver seu rosto irritado. A Cada três minutos ele vai perguntar quanto tempo ainda falta, mesmo sabendo que nada mudou. Lunna responde por não conseguir deixar de reagir a ele. Sara vigia Connor, eu fiscalizo Lunna e nós dois tentamos manter o auto controle em dia.
-Um de nós deveria subir lá e ficar com ela, o sedativo vai perder o efeito em breve. -Sara joga no ar.
-Eu a sufoco. -Connor responde levantando a mão, sem nenhuma energia.
-Tenho muitos problemas emocionais para aconselhar os dela. Ah, e não tenho pais. -Lunna murmura.
-Estou rodeando para tentar consegui-la de volta -dou de ombros. -Também sou patético.
-Nossa, que raiozinho de sol nossa Pequena Queen é! -olhamos chocados Sara achar graça dos nossos lamentos. Ela traz o carrinho e deixa Nina perto de Lunna. -A garota conhece e usou tudo o que pode machucar vocês para afastá-los. Connor, não seja babaca, sua irmã sabe se cuidar e nunca foi de ligar para seus excessos a ponto de deixar tudo por causa disso. -diz rapidamente acordando o amigo como quem lança um balde de água gelada em alguém. -Lunna, meu amor -sua expressão suaviza de imediato. -Ninguém aqui é mais forte que você, me entendeu? -Lu balança a cabeça com um sorriso triste para a outra. -Seus pais estariam orgulhosos. E Dam. -Sara abaixa em minha frente e me obriga a ver seu rosto. -A gente pode fingir o quanto você quiser, vamos te fazer pensar que acreditamos que não sente nada. Qualquer coisa para que fique confortável, mas seu lugar é aqui -se levanta e bagunça meu cabelo indo em direção ao elevador.
-Vai ficar com ela? -Connor grita.
-Quero muito ver a pequena Queen tentando me tirar do sério -a última coisa que vemos é o sorriso debochado da West, e as portas do elevador se fecham.
-Acha que um de nós deveria ir para manter Isis a salvo? -olho para Lunna, realmente preocupado e nós dois olhamos para o Connor juntos. Ele solta um riso sem humor e nos encara de volta como se fossemos loucos.
-Quer que eu fique entre Sara e alguém que a irrite? -dá mais risada, provavelmente o estresse que acumulou sendo liberado. -Aí, eu precisava mesmo disso -limpa as lágrimas que acabaram saindo em meio ao riso estranho. -Olha Lunna, vamos combinar que você é a mais indicada -ela o olha entre a traição e o choque.
-Faz sentido -concordo entrando no jogo, e recebo o mesmo olhar.
-Sara te ama e não fica muito irritada na sua presença. -Connor volta a argumentar. -E mesmo se chegar ao ponto de ser atacada, com essa nova velocidade de combate aí...
-Não vai nem mesmo conseguir tocar em você -completo.
-E você ainda escuta o marido velocista meio fantasma dela! – Hawke acrescenta dando a cartada final.
-Vocês são idiotas -reclama feito criança e conseguimos rir o suficiente para tirar o vermelho que enxergávamos.
CONNOR
—Você não quer dormir um pouco? – Lunna aperta os meus ombros com carinho, coitada, não deve ser fácil se casar com um cara como eu, muito menos em dias como esse.
Depois do breve momento de euforia nervosa que nós três vivemos no Covex, eu me levantei em silencio e vim tomar o lugar de Sara ao lado de Isis. Minha amiga não pareceu nada surpresa ao me ver, apenas se levantou e saiu em silencio, mas não sei quanto tempo levou até que Lunna aparecesse, acho que muito tempo, julgando a forma que seu rosto lindo está levemente retorcido de preocupação.
—Estou bem aqui – puxo sua mão e deposito um beijo, talvez como meu pedido de desculpas mudo, mas agora preciso focar em Isis.
—Tudo bem -escuto sua voz sussurrada.
Então ela se vira e vai para o elevador, volta para os seus computadores tentando encontrar alguma coisa para ajudar minha irmã. Faz muito tempo que Caitlin tirou os sedativos, mas Isis ainda estava imersa em um sono profundo. Ela parece tão tranquila, como se estivesse apenas dormindo. Apesar de tudo que já passamos Isis nunca ficou nessa maca mais do que o tempo de fazer alguns curativos ou se reidratar, me mata a ver dessa forma e só piora quando estou de mãos atadas.
—A nossa mãe vai te matar, sabe disso, não é? Vai descobrir como te trazer de volta, só para dar fim a sua vida com as próprias mãos -falo acariciando seus cabelos. -Não é que não te respeite como igual Isis, mas você é minha melhor parte. Quando estou te protegendo, é para me proteger. Tenho medo da escuridão que posso emergir se não estiver aqui por mim -seguro sua mão, a sentindo quente, o que deve ser bom. -Não posso te salvar ainda, mas preciso que faça o que faz de melhor e se mantenha viva, podemos fazer isso como uma equipe...
—Ei – ouço a voz de Felicity atrás de mim, suas mãos estão sobre o coração, meu pai logo atrás dela, como se tivesse desaprendido a andar.
—Oi — me levanto e me deixo ser envolvido por seus braços, ela é baixa, seus braços finos. Não é fisicamente confortável, mas nada mais poderia me acalmar além disso. – Me desculpem. Eu devia a ter protegido.
—Ah querido, não é sua culpa. – Fel segura meu rosto em suas pequenas mãos, me sinto aquela criança que ela acolheu novamente. – Meu bom menino -diz com ternura e apenas me encara com seus olhos marejados por um instante. -Precisa parar de carregar o mundo em seus ombros, sei que é um mal patológico que herdou do seu pai, mas tem que saber que é prepotência achar que tudo que está errado é culpa sua. Isis é nossa filha, nossa responsabilidade. Me desculpa se alguma vez te fizemos pensar que era a sua obrigação a proteger, isso é conosco meu amor, e mesmo nós, — aponta para ela mesma e para o meu pai que aos poucos parece estar voltando a si — só podemos ir até um certo ponto, foi o que fizemos com você e é o que estamos tentando fazer com Isis.
—Acha que de alguma maneira eu a afastei de nós? -olho para os dois, sem conter o desespero que sinto. -A sufoquei demais? Por que eu só quis que ela...
—Não pense nem por um momento... – meu pai me interrompe e passa a mão por meus cabelos, é como voltar a ter oito anos. –Você é o melhor filho e irmão que poderíamos querer. Seja o que for que aconteceu com Isis, vamos a trazer de volta como família. Por que nós sempre voltamos uns para os outros -ele se junta ao abraço, deito minha cabeça em seus ombros e fico por algum tempo entre os dois, me permitindo ser consolado.
—É bom vocês estarem de volta -digo quando nos afastamos. Meu pai toca meu rosto e apenas ao olhar em meus olhos, sei que ele quer que desça e cuide dos outros, que seja forte só um pouco mais. -Estou indo -respondo, e sinto a mão de Felicity em meu braço.
—Nós encontramos a ajuda que precisávamos – diz com ar de desculpas e não tenho ideia do motivo. -Barry foi ver Iris e os gêmeos, mas vai voltar com Cisco para cuidarmos do Wally também.
—Isso é bom -dou um beijo no alto de sua cabeça e vou em direção ao elevador.
John Constantine, um detetive, mago ocultista inglês e o motivo das desculpas que minha mãe pediu. De onde estou consigo sentir o cheiro de álcool e cigarros que emanam dele. Caras como esses são como imãs quando estão perto de monges como eu. Sou quase um catalizador portátil para sua magia. Não gosto de me lembrar da última vez que estive envolvido com algo assim, mas por algum motivo meu pai sempre gostou desse cara e Oliver Queen não é exatamente do tipo que distribui amor pelo mundo.
-Ollie, seu filho não parece à vontade -sorri de lado, acendendo mais um cigarro que Sara toma pela trilhonésima vez, o lembrando que tem uma criança por perto.
Diggle tinha Nina nos braços, completamente alheio a tudo o que o rodeava, perdido nos olhos da garotinha que revezava entre a inconsciência e olhar para o avô com ar deslumbrado. Constantine parece estar prestes a pegar mais um cigarro.
-Se fizer isso de novo, ela vai te bater -aviso por cordialidade.
Ele se aproxima, me observando. Felicity acaricia meu braço para me acalmar, o que nem faz sentido por que não estou nervoso, bom, talvez minha expressão não corresponda com meu estado de espírito, mas até aí não é minha culpa.
-Por que te puseram um bloqueio? -questiona andando em minha volta. Levo minha mente para o vazio, e me concentro em permanecer lá. -Estou o irritando.
-Connor não sou eu, John -meu pai diz em tom de aviso. -Dá um espaço para o garoto.
-Não posso, ele é uma das ligações mais fortes da sua menina, talvez a mais forte de todas e se não estiver inteiro a ligação também não vai estar -responde.
-O que é isso de bloqueio? -Felicity questiona olhando para meu pai, como se já suspeitasse que ele fosse responsável por algo. -Não colocou nada no meu filho, por que se tiver Oliver, Deus te ajude...
-Hey! -se não estivesse tão tenso por Isis, estaria rindo. -Juro que não fiz nada.
-Eu fiz -todos me olham chocados.
-Grande D. eu até dou conta da aparência, mas não deixa esse idiota pegar as manias irritantes do meu tio também. -Sara falava sozinha, me lançando um olhar mortal.
-Sério, até você? -meu pai finge ofensa olhando para a afilhada.
-Não conseguia me lembrar, até agora -dou de ombros.
-Connor, por que não explica com um pouco mais de detalhes. -Lunna gira sua cadeira para me olhar, respiro fundo e faço o que ela pediu.
-Quando estava voltando de Ashram, o Sr. Destino me encontrou e disse que em alguns anos ele precisaria resgatar uma alma em nome da minha família, para consegui-la precisava de algumas de minhas habilidades.
-Acabou? -Dam parecia quicar no mesmo lugar, como se contivesse a irritação com muito, muito esforço. -Não perguntou o porquê? Se era permanente? De quem era a alma? Quais habilidades perderia?
-Não -respondo e o vejo me olhar chocado. -Não sinto falta de nada na verdade.
-Connor não faz perguntas. -Sara, Lunna e minha mãe dizem ao mesmo tempo.
-Foi a alma de Tommy -meu pai conclui me olhando com ar orgulhoso. -Eu estava lá quando o Sr. Destino a trouxe.
-Bom, nesse caso o preço foi pago e você pode receber restituição. -Constantine revira os olhos em minha frente, os deixando completamente brancos, diz coisas estranhas e toca em minha testa.
-Então? -Felicity olha para o homem como quem pede efeitos especiais e um show que valha seu ingresso.
-Retirei o bloqueio -diz rapidamente e volta a olhar para a arca com a Katoptris sobre a mesa.
-Amor, como se sente? -Lunna está ao meu lado, e parece conferir cada parte do meu corpo, Felicity faz o mesmo, como se buscasse um sexto dedo ou terceiro mamilo.
-Não sinto nada -falo para as duas. -Sou só eu.
-Nossa, como ele é frustrante -escuto Damian dizer a Sara que apenas sorri.
-É só um bloqueio de habilidade, ele não vai soltar fogos ou ser impenetrável. -John percebe a necessidade de explicar. -O Destino deveria estar atrás de um lutador habilidoso, e Connor foi escolhido como o melhor. Pelo que sei esse tal Tommy estava biruta pelo poço.
Todos me olham como se eu fosse um ET que baixou na terra naquele momento. Gesticulo para a arca tentando os fazer focar no que era importante. Com algum esforço seus olhos se desviam de mim e se voltam para o fumante compulsivo que provavelmente vai apanhar da minha amiga antes do fim da noite se não parar de acender cigarros.
JOHN CONTANTINE
As pessoas tendem a ser idiotas, até aí nenhuma novidade, mas tem um ponto de idiotice que deve ser destacado, colocado nos livros de história e ensinado as crianças. Espera, eles já fazem isso! Em um mundo onde o desconhecido é temido, pessoas foram escravizadas, mulheres com uma aptidão incrível para medicina foram queimadas vivas. Raças e povos dizimados, holocausto e a bomba atômica. É de se esperar que pessoas que convivem dia a dia com o desconhecido sejam menos idiotas, bom, acontece que não são.
Nesse caso especificamente, Oliver e suas crias não tinham problemas. Ao menos não tinham nenhum problema antes de conseguirem um objeto impregnado de magia das trevas e colocarem a maior benção que uma mulher pode alcançar dos deuses dentro. Então tento explicar da forma mais didática que poderia, na esperança que a vontade de ter a menina de volta, superasse a idiotice.
“Ao falar em Katoptris pensem em seus laços, a adaga só pode ser dada a uma mulher amada por todos e vista com bons olhos pela sociedade, capaz de mobilizar multidões e manipular massas. Por sua própria preservação, ela escolhe pessoas que serão guardadas e protegidas, é atraída por vínculos inquebráveis que durariam mesmo após a morte. A adaga tem personalidade, mas essa personalidade vai mudar de acordo com seu dono, ela pode ser incrivelmente vaidosa, carismática, incorruptível ou puramente petulante, que parece muito ser o caso dessa aqui.
A relação de sua portadora com a adaga pode ser comparada a relação de irmãos, profunda, tanto para o bem quanto para o mal. Nos bons casos elas se protegerão e cuidarão uma da outra. Serão o refúgio em momentos de dor e tortura e esperança quando só houver trevas. A adaga confiará em sua dona se receber a mesma confiança como resposta. Nos piores, ela será destrutiva. Mostrará visões dolorosas e ambíguas, levará seu dono a morte da forma mais brutal possível, geralmente causada por aquilo que o caracteriza diante dos outros. Uma vez morto ela poderá se ver livre e migrar para outro. O que não é imediato, as vezes levam centenas de anos para uma nova mulher estar à altura de portá-la. Quando existe resistência a seu poder, ela tentará ganhar a confiança de seu dono. Mas todos seus pensamentos e sentimentos estarão ligados, uma vez que não é amada, também não desenvolverá amor e aí é onde mora o perigo.”
-Primeiro, a criança tem que sair -digo gesticulando para John Diggle que carregava uma descendente de Rudá, e não serei eu a sofrer a ira dos deuses Tupis, ao colocar uma protegida em risco, Tupã nunca perdoa quem toca em seus descendentes. -Então xará, preciso que seja rápido -falo enquanto começo a desenhar o círculo no chão e todas as trancas necessárias.
-Acho que vou embora -se levanta com a neta no colo, espero sem muita paciência que ele se despeça de todos e da filha, combine como fariam para pegar a criança e finalmente entre no elevador.
-Agora quem me conta o motivo de terem colocado uma das relíquias mais preciosas que existem dentro desse emaranhado de podridão? -acendo um cigarro, desviando da amazona gostosa que ficava tirando eles das minhas mãos.
-Ela trancou esse treco sem dizer nada -o mini morcego diz e chega a doer meu coração.
-Não garoto, não deve se referir a Katoptris dessa maneira -me viro para Oliver e Felicity. -Por que não educam seus filhos? -volto novamente meu olhar para o morceguinho, sem os dar chance de responder. -A Katoptris é uma benção, não prestou atenção na aula? -olho para Connor que estava tentando se manter controlado, para que evitar ter sua energia sugada. -Se ambas se amarem, elas vão se proteger e cuidar dos interesses uma da outra. Rezem para que a Katoptris não guarde mágoa por muito tempo -sussurro para eles.
-Mas desde que ganhou essa adaga, Isis deixou de ser ela mesma. -Felicity diz em tom de confissão. -Guardando segredos e se isolando.
-Mais um fato engraçado -pego um tecido sagrado, para posicionar a arca dentro do círculo. -Não é contar as visões que consome suas portadoras, mas a rejeição a adaga, ganancia por poder ou a quebra das ligações de quem a usa. Que é o caso da sua filha -olho em volta procurando a garota. -Por que não a trouxeram ainda? -questiono confuso e vejo Oliver correr em direção a ala hospitalar deles. Termino de posicionar tudo e demarco os lugares.
-Por que está usando um pano para tocar nisso? -a mulher mais linda que já vi, pergunta em voz baixa. Ela me faz lembrar de uma aparição da deusa Afrodite a alguns anos, bons tempos!
-Isso é magia amor, e magia tem um preço. Essa arca está cobrando da sua? -me inclino em sua direção.
-Cunhada. -Oliver responde atrás de mim, e dou um passo para longe da mulher, segurando o riso. -Ele coloca a filha na cadeira que posiciono no centro do círculo.
-Como todas as arcas, essa também exige um sacrifício -explico, sendo bem mais legal do que o necessário, mas mulheres bonitas me inspiram e o que não me faltava era inspiração. -A caixa de Pandora trouxe todo mal a humanidade quando foi aberta, exigindo seus dias como sacrifício, lhes dando a mortalidade. A arca da aliança só deveria ser tocada por pessoas livres de pecado, levitas do templo, que ofereciam anteriormente sacrifício de expiação, mas só atravessavam o véu com uma corda amarrada ao calcanhar, para puxarem o cadáver caso o sacrifício anterior não surtisse efeito.
-Qual o preço dessa arca? -Oliver pergunta.
-A arca da Katoptris foi feita a mando do marido de Helena, o Rei Menelau que sacrificou as mais belas esposas de seus comandantes em honra ao deus Apolo. Desesperado para reaver o amor da esposa outra vez -conto amarrando bem a pequena Queen a cadeira -deuses tendem a ser sacanas, então Apolo fez a arca, sob os moldes usados para as outras duas que contei antes, ensinando passo a passo para os artesãos do Imperador. Quando os homens terminaram o serviço, não sabiam mais quem eram, onde moravam, qual o oficio que exerciam. Essa arca se alimenta das ligações das pessoas. Ela está sugando os sentimentos de Isis, e um dia vocês serão incapazes de reconhece-la assim como ela não poderá se lembrar por que cada um aqui importa.
-Ai meu Deus. -Felicity sussurra apavorada, e certamente deveria estar, seria estupida se não estivesse.
-Então crianças, tomem seus lugares e não saiam deles, ou estaremos incrivelmente fodidos -aviso olhando cada um. -Acreditem, ela vai ferir e machucar onde mais doer, mas será a arca, não a menina que vocês amam, bom um pouco dela também, mas não levem para o pessoal -fecho meus olhos e começo a entoar o cântico. -Busquem pela Katoptris em Isis, a chamem para fora quando a arca os ofender. Entenderam? -Bom, se não, vamos só improvisar e torcer pela sorte.
-Eu mereço -a garota abre os olhos com cara de tédio.
-Isis, pode me ouvir? Katoptris, pode fazer a gentileza de trazer sua parceira para fora? -pergunto, e os olhos dela escurecem por completo.
-John Constantine, quem mais você está tentando levar para a perdição eterna?
-Então Pequena Queen, soube que é uma lutadora das boas -digo ignorando o vudu. -Que tal sair para brincar um pouquinho? -me preparo e entoo. — Olhe para ela, veja no espelho quem não é você, mas a adaga. Confesse sua ignorância e implore seu perdão como se fosse o seu primeiro amor e se existir sinceridade em seu coração a adaga que é você e ela, te perdoará.
-Não vai dar certo. -diz sem expressão, praticamente entediada. -Eu não tenho nenhuma vontade de voltar a ser a menina idiota que era antes, não quero ser inocente -olha diretamente para o pai. -Não vou ser sua redenção, esqueça. Você mente, trai e deturba tudo a sua volta, isso não mudou e não vai mudar com essa ilusão de família perfeita que tem. Olha para seu filho! -aponta para Connor. -Nem mesmo pode dizer que é um pai normal, ele é seu soldado. Segue suas ordens e vive pedindo a aprovação do papai, morrendo de medinho que a madrasta perceba que não tem obrigação de cuidar dele e o abandone como a mãe fez -solta uma risada de gelar a alma. -Olha aí, ele se casou com o mais próximo dela que conheceu, se isso não é síndrome de Édipo, não posso mais dizer o que é.
-Felicity, não -digo com firmeza para a mulher que estava prestes a correr em direção do enteado a fim de assegurar que aquilo não era verdade.
-Isis, filha nós precisamos que lute. -diz a ela com a voz doce, conseguindo de imediato sua atenção.
-E você, senhora Queen -encara a mãe, que engole em seco, mas seus olhos esfriam com raiva e frustração ao olhar para o que controlava sua filha. -Acha que sua Isis não sabe que prefere o menininho aí? Que pensa a noite que ele e não ela parece muito mais ter o seu sangue? Por que ela sabe! -sorri com uma doçura assassina. -Sabe que é a dificil, por que você a fez ser assim. Sempre amando e protegendo essa garota que não é nada sua -cospe as palavras olhando para Sara com ódio. -Adorando e exaltando sua cópia barata -se volta para a cunhada. -Então Lunna, quer fazer mais uma seção? -todos parecem ficar tensos imediatamente. -Sobre o que vamos falar primeiro? Quem sabe quando foi amordaçada por aquele garoto do internato e ele chamou os amigos...
-Talvez você devesse se esforçar um pouquinho mais para me superar, Pequena Queen! -Sara chama a atenção da garota, a olhando com um sorriso debochado no rosto. -Ah, qual é, eu ignoro essa inveja por toda a nossa vida -revira os olhos, gosto dessa garota, parece ser a única a entender o que acontecia de verdade. -Pensou que amava o meu namorado, odeia o fato de eu ser ligada a seu pai e Connor de uma forma que não consegue entender. Faz um drama enorme e cisma que não é vista como igual. Bom, quem sabe nós a veríamos se não agisse como uma criancinha pretenciosa! -dá de ombros completamente à vontade, posso ver a aura de Tupã a sua volta.
-Bom, posso tentar -a arca recupera o controle, mas a voz não é mais completamente firme como antes. Isis estava lutando. -Quantos exatamente eu preciso matar para alcançar o seu número?
-Connor, se lembra de quando estava se mudando para a casa da Lunna? -Robin começa a dizer, ignorando totalmente a entidade. -E fez aquele lance de humilhação para demonstrar afeto que vocês Arqueiros fazem? -os olhos de todos se acendem, e Sara apenas revira os dela, dando a entender como os outros são lentos. -Acho que o bebê Queen está carente -dá a garota um grande sorriso sacana, que a faz engolir em seco. -Por onde nós devemos começar?
—Talvez mostrar todas aquelas fotos constrangedoras de infância? Sinto falta da Isis que não tinha os olhos de um psicopata. – Lunna sorri timidamente entrando na jogada. Sabia que ela não era só um rostinho bonito.
—Uh! Tenho um vídeo! – Felicity incorpora um papel. Meche em seu bolso e tira o seu celular, uma projeção mostra Isis com talvez dois anos a menos que agora, com fones no ouvido dançando em seu quarto. Seus quadris balançavam no ritmo da música em seu ouvido, enquanto era filmada escondida pela fresta da porta. -Não que você consiga ser assim um dia -encara a garota com o rosto seco. -Não pense que nos engana
—Madona? – Damian faz cara de decepcionado. –Tão anos oitenta.
—Gosto da escolha. –Lunna argumenta com o garoto. –Se lembra Connor, quando ela foi te contar que estava namorando? -sorri nostálgica. -Coitadinha, todo mundo já sabia, ninguém mais se importava e ainda assim a Pequena Queen fez todo aquele drama!
—Minha irmã, é a rainha do drama -a observa mais profundamente. –Mas acho que perdeu a petulância que dava charme a ele antes -acrescenta pensativo. -Sem as emoções só restou a parte irritante.
—Não dê tanto credito para ela. Não é como se conseguisse se passar por nossa Isis. – Oliver, com toda a dificuldade, mas pelo bem da filha resolve colaborar.
—Vamos lá? Perdeu a fala? – Sara a pressiona. – Não tem nada mais sujo para jogar nas nossas caras – os olhos de Isis eram negros de fúria, pareciam até os de um demônio que eu enfrentei a algum tempo.
—Isis não perderia. -Damian provoca e o rosto da garota fica completamente vermelho.
—Você é patético -solta entre dentes olhando para Damian. -Tão absurdamente arrogante, mas sabe que sempre vai viver a sombra dos seus irmãos, sempre sendo comparado com Dick, nunca tão inteligente quanto Tim ou realmente bom como Jason. Você é uma abominação tão grande que até sua mãe viu isso e resolveu poupar o mundo da sua presença -o garoto tenta não demonstrar que se afetava, mas seus olhos tremem por um instante.
—Ela tem ciúmes de mim agora -Lunna tira o foco, falando com Sara com a voz casual, mas seus olhos queimam da forma que uma felina ficaria ao proteger um de seus filhotes. -Aproveita cada instante que pode para cutucar o ex, esperando alguma reação que a faça sentir algo. Quase como se estivesse viciada.
—Não, sério? -Sara dá risada. -Ah qual é? -os outros parecem se divertir também o que parece tirar novamente a arca do sério. -Mandou bem em grandão! -Sara brinca com Damian e consegue tirar a expressão de tristeza de seu rosto, mas Connor e Oliver parecem enjoados. -Acho que não pode se lembrar agora Isis, mas ser amada por alguém faz com que suas ligações com outras pessoas se fortaleçam, nós nos protegemos, levamos bala uns pelos outros.
—Sério, você quer me falar de ligações -força um riso. -Sabe que não fui eu a falhar com o Wally. Afinal não é para isso que uma ancora, é esse termo que vocês esfregam nas nossas caras o tempo todo, não é? Uma ancora que não é capaz se ancorar seu navio. Para que você serve mesmo? – um sorriso cínico surge em seus lábios, mas ela estava enfraquecida não iria durar muito tempo.
—Aí bebê, precisa superar essa paixonite... -faz cara de tédio, então olha para a garota com o rosto cheio de afeto. -Não vamos desistir de você, não importa o que diga. Pode me tirar do sério, se conseguir -destaca de uma forma que me faz pensar que ela adoraria pagar para ver. -Chuto sua bunda e depois volto a te puxar.
—Ninguém aqui é bom em ceder a uma competição. -Connor acrescenta. -Vamos continuar quebrando essa maldita casca até que você seja atingida -o olhar de Isis procura por ajuda, o feitiço estava funcionando, a magia da arca estava se afrouxando, era a hora de voltar a emendar as conexões, apenas indico com a mão para que não saíssem de seus lugares.
—Sei que essa arca não tem a menor chance. -Damian comenta com Lunna que tem o rosto moldado pela expressão mais linda que já vi, os olhos se enchendo de esperança ao encarar o morcego. -A Isis que conheço nunca gostou de ser presa, muito menos de ter alguém que a diga o que fazer.
—Começa a lutar, filha! -Oliver diz como uma ordem clara, e vejo que estavam a alcançando, era o momento. Não posso simplesmente invadir a mente de Isis com magia, ela era forte demais, mas poderia induzir a mente dela se conectar com cada um ali.
ISIS
Fazia muito tempo que estava tudo escuro, como se não visse a luz por toda minha vida, e não de maneira figurada. Então uma visão me toma como se Katoptris tivesse voltado a falar comigo, mas não era uma visão de um mundo paralelo, ou do futuro. Era eu com pouco mais de sete anos tentando impedir meus pais de subirem para o andar de cima, Sara e Wally não tinham chegado ainda, e se os dois descobrissem John saberia, Barry saberia, pior que isso, tia Isis e tia Lyla descobririam, e não quero que eles fiquem de castigo. Connor estava do outro lado do mundo, eu iria ficar sozinha o verão inteiro. Até que não tenho mais desculpas para segurar meus pais ali em baixo. E eles sobem, até pensei em simular um desmaio, mas não sei fingir tão bem, não para minha mãe. E quando estávamos perto do topo da escada Wally sai do seu quarto com o cabelo todo bagunçado e cara amaçada como se tivesse acabado de acordar e Sara aparece segurando um livro. Respiro aliviada.
Tudo perde o foco e estou correndo, não tinha mais folego em meus pulmões, Lunna estava abraçada a um menino de olhos violeta, e não podia deixar que nada acontecesse com eles, com ela, mas por que? Parte da minha mente me responde que é por que sou filha dos meus pais, e esse é o negócio da família, mas não era só isso, não podia ser, e uma parte minha sabia que que eu a amava.
A imagem muda e agora Damian entra correndo pela porta de casa e consigo ver do topo da escada e todo o medo que sentia desparece só pela presença dele. Ele não deixaria nada de ruim me acontecer, não que fosse salvar o dia, mas lutaria ao meu lado e é tudo que preciso, ele estaria lá, por que não é o tipo de garoto que abandona.
Tudo se desfoca novamente, e nem sei se é uma imagem, tudo era destorcido, só um sentimento de calor que me preenche. ‘Querida, você iria se impressionar com o seu velho hoje.’ ouço a voz do seu pai. ‘Três lanternas não puderam com ele, seu pai meteu uma flecha bem na testa do homem malvado’ Ouço o pigarro da minha mãe chamando a sua atenção ‘Como foi isso mesmo?’ sinto seus braços em volta do meu corpo. ‘Mais foi tudo muito seguro baby. Tudo com o máximo de segurança.’ fala e consigo ouvir a gargalhada da minha mãe.
Agora estava parada no portão de entrada da escola, tentando me esconder de todos, quando vejo Connor chegando cheio de pose no alto da sua adolescência com toda as erupções de acne que a pior fase hormonal poderia propiciar a alguém. Ele se senta ao meu lado sem falar nada, e empurra uma caixinha de suco.
‘É um saco não poder revidar, não é.’ Ele me dizia, olhando para frente. ‘Mas tem outras formas de vencer uma luta, sem precisar usar a força física.’ Seu tom sugestivo, me faz olhá-lo com um sorriso largo se abrindo em meu rosto.
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