PARADOXO - Seson 3

32 Capitulo 29 - Projeto Apocalipse


WALLY

A tatuagem de Lunna agora estava completamente visível como a minha. Um círculo com um par de asas no centro e escritos em alguma língua estranha os rodeando. Mas não cabe a nenhum de nós dois a escolha do terceiro, afinal essa moeda nem mesmo nos pertence. Seguindo a lógica, Halo deveria escolher. O que faz nosso próximo destino ser mais obvio do que qualquer um dos outros.

Giro a carta antiga e entramos novamente na casa dos mistérios, dessa vez Lunna se enfia em um dos quartos para se livrar das roupas de secretária e voltar a usar o que vestia antes, mas nenhum de nós dois vai aparecer como civis naquela realidade, então descartamos os casacos, devolvo suas alianças, e apertamos nossos anéis antes de passar pela porta como Flash e Glaúks.

O choque é claro em seu rosto parcialmente coberto pela máscara. As ruas de Star City estavam em ruinas e não existia uma alma viva se quer para deixar nada em volta menos tenebroso e o sol vermelho completava o cenário horrível, brilhando frio e sombrio no céu. Corremos na direção do Glades enquanto pondero sobre o que devo ou não contar, talvez a deixar minimamente preparada para o que vai ver.

—Lunna, precisamos conversar – falo quando estávamos mais perto do prédio em ruinas que esconde a base do que restou de todos nós.

—Ele está morto, não está? – sussurra com a voz embargada me olhando de lado, mas posso ver seus olhos completamente castanhos. – Não consigo o sentir desde que atravessei aquela porta e por mais que fique repetindo que isso pode ser por meu eu já ter morrido nessa época e a ligação estar rompida...

—Sabe que está morta? – questiono surpreso e ela dá de ombros, parecendo não conseguir usar a própria voz.

Aguardo em silencio, enquanto ela processa o fato de ter sua vida despedaçada, o que para minha surpresa parece estar acontecendo com um controle que ela não possuía a alguns meses atras. Quando começo a pensar em algo que possa ajudar, Lunna volta a dizer.

—Não sou estupida Wally, você fez da sua missão de vida me deixar mais rápida, forte e resistente – funga secando uma lágrima. – Eu simplesmente resolvi não pensar a respeito, mas não é como se pudesse evitar a resposta quando ela estava bem na minha cara. Quem mais? – exige sem mais rodeios.

—A esse ponto só restou Isis, Nina, Mia e Phillipe e se alguma divindade tiver se lembrado da nossa existência o Alfred conseguiu sobreviver, assim como meu pai e Bart, não tenho certeza. Minha filha não me deixou ficar tempo o bastante para descobrir.

—Nina te fez voltar antes que se sacrificasse também – completa me olhando com uma dose de acusação. – Se ela não fizesse isso, você morreria lutando, não é mesmo? – concordo balançando a cabeça e desvio meu olhar ao ver o que parece muito ser fúria nos dela. – Sério West? – vocifera entre dentes. – Entende que o fato de estar respirando era a nossa única chance de vencer?

—Eu os vi morrer Lunna – sussurro cansado demais para brigar. – Damian foi morto tão rápido que não pude fazer nada. Sabe o que isso significa? – respiro fundo a garganta se fechando, mas me forço a continuar. – Chloe foi desmembrada diante dos meus olhos – conto e ela estremece horrorizada com meu relato.

—Deus do céu – murmura com a mão sobre seu coração como se a dor acabasse de se tornar mais física do que emocional. – Eles são crianças, quem faria algo tão monstruoso assim?

—Demônios – respondo com pesar, passando meu braço por sua cintura por ela não parecer capaz de continuar sozinha nesse momento. – Nem todos são como a tal de Maze.

Ao captar algum tipo de sistema de segurança a arma de Lunna se desprende de suas costas e entra no modo tablet, com as estranhas linhas de estáticas que as faziam pairar rentes uma à outra e vejo o padrão indecifrável de dados passando em super velocidade pela tela que elas formavam.

—Eu sou boa – Lunna sussurra fechando os olhos. – E nem estou viva.

—Difícil assim? – questiono ao lado da abertura oculta das ruinas.

—Felicity me daria uma estrelinha – zomba parecendo estar irritada com a própria eficiência.

—O que estão tentando fazer? – uma voz familiar ganha nossa atenção.

Ao virar vejo a minha duplicata e uma versão adolescente do Asa Noturna. Os dois nos encaravam com ar de poucos amigos até o instante em que reconhecem Lunna. Então vejo as feições não tão treinadas do Al para parecerem indecifráveis falharem miseravelmente e ele parecer muito mais um garotinho que quer colo, enquanto eu mesmo, bom, o outro eu parecia estar tendo alucinações.

—É a Glaúks? – Alfred sussurra para o Flash ao seu lado que assente.

—Voto para sermos mais evoluídos que nossos mentores e pular a parte quem que lutamos como neandertais uns contra os outros – debocho para esconder o alivio que senti ao ver o pequeno Grayson ainda respirando.

—Não precisamos lutar, sinto sua presença na Força da Velocidade, assim como a da Lunna – o outro eu, responde com o mesmo olhar vazio que tentava manter. – Só espero que não seja outra tentativa de parar isso das formas erradas.

—É melhor do que tentativa nenhuma – Alfred fala passando por ele a passos duros, e quando estava esperando um remake do Damian recém ressuscitado, o garoto se joga nos braços de Lunna que retribui mais por reflexo a princípio, até que reconhece e passa a abraça-lo de sua forma naturalmente maternal. – Oi Lu, eu fiquei quase da altura do meu padrinho, você estava certa – brinca com a voz cheia de emoção.

—Ainda tem tempo, sei que vai passar ele – responde acariciando seu rosto quando os dois se afastam.

Alfred mostra o que deveria ser um sorriso, mas o garoto parece despedaçado demais para sorrir de verdade. Minha versão mais velha passa por eles e abre a escotilha, nos dando acesso ao túnel que nos levaria ao elevador e depois os lances de escada. Percebo que ele permaneceu afastado de Lunna, como se não pudesse a encarar, bom, não sei por que faria algo assim, então me ocupo em encará-lo enquanto tento descobrir a resposta, só paro quando estamos diante da porta pesada que separava o bunker.

—Não tem ninguém aqui, vou chamar os outros – Wally começa a dizer quando Alfred já mostrava os computadores para minha amiga.

—Espera – Lunna o chama e mesmo se virando em sua direção ele não a olha nos olhos. – Só um segundo.

Delphine o alcança e segura seu braço o forçando a encará-la. Al para ao meu lado e nós dois apenas observamos a cena que se segue. Enquanto o outro eu, lentamente perde as camadas de resistência e passa a encarar Lunna com um semblante cheio de dor.

—Não foi sua culpa a minha morte – diz e de alguma forma aquilo me atinge da mesma forma. – Você me treinou como se sua vida e sanidade dependessem disso e tenho certeza que se cai, foi fazendo o que me ensinou.

—Me desculpa por não ter te escutado ao vir para o futuro – diz o que venho martelando em minha mente desde que entendi toda a merda que havia feito com minha impulsividade.

—Era um garoto precisando de ajuda, Wally – dá de ombros, sempre minimizando nossas merdas. – Não tinha como saber. Você se viu no Impulso, e hoje eu vi como estava assustado ao chegar em um tempo desconhecido sem ninguém para te amparar – isso me surpreende e percebo que estava prendendo o ar, quando ela se vira em minha direção e esboça um pequeno sorriso, depois o abraça como se o estivesse consolando. – Agora que resolvemos esse climão, vai lá buscar minha cunhada e meu irmão, não temos tempo e acho que não vai me amar tanto quando disser o que viemos fazer.

Wally 2.0 sai parecendo um pouco mais firme ao caminhar pela porta e me volto para esse bunker vazio e escuro que parece o resultado de uma procriação entre o antigo bunker dos arqueiros e a caverna do Batman. Constato que talvez seja exatamente isso, julgando como os times se mesclaram e minha clara falta de interesse em permanecer em qualquer lugar.

A porta volta a se abrir e a primeira pessoa a passar por ela é uma garota em seus doze anos, cabelos cacheados presos em um rabo de cavalo alto, usando jeans e uma camisa da Artêmis. Nina, toda sua aura fica branca ao nos ver e ela corre se lançando em nós dois ao mesmo tempo.

—Oi minha linda – cumprimento sorrindo, meus fios se prendendo um pouquinho nesse tempo, firmando meus pés no chão.

—O senhor está bem – solta com sua voz musical e delicada demais, me lembro de Sara a chamando de sua fada e nunca antes uma descrição me pareceu mais perfeita. – Fiquei tão preocupada.

—Claro que estou bem, tinha minha versão nesse tempo para comprovar – rio, mas ela se mantém entre nós, nos abraçando com tanta força que acho que mesmo se tentasse a mover, não seria capaz.

—Desculpe meu amor – Lunna começa acariciando as costas tremulas da minha filha que agora chorava em nossos braços. – Deve estar apavorada.

—Só a tia Lu que faz essas coisas – Alfred murmura em tom nostálgico, parecia a Barbara, parado com os braços cruzados sobre o peito, nos analisando. – Me chamava de bebê, mesmo quando eu estava saindo para alguma missão com meu tio Damian, as vezes até durante uma delas.

—Chamo por que é o que vocês são – retruca e escuto um risinho fraco da minha filha em resposta.

Então Nina parece sentir, pois se afasta quando os outros alcançam a porta. Mia passa sorrindo e abraça Lunna sem hesitar, mas Phill congela e Isis se escora em uma bancada com as mãos na barriga e os olhos cheios de lágrimas. Atras deles vejo meu outro eu segurando a mão de um garotinho em seus oito ou nove anos, que era a personificação do que acredito ser um anjo. Gab ou Joe, o filho dos Hawke estudava a mãe a distância, a boca entre aberta e os olhos assustados como se não acreditasse que aquilo era verdade.

—Phill – Lu solta quase sem fôlego ao ver o irmão travado na porta. – Isis!

Corre até eles e os abraça. Lunna beija a face dos dois e os agradece por estarem vivos, o que os faz rir e chorar ao mesmo tempo. Os Delphine têm uma das conversas mudas em que os dois se encaram e acabam se abraçando e colocando um ponto final no assunto, a vejo dizer que ele deveria ao menos cortar uns dois dedos do cabelo, mas isso só o faz dar risada. Com Isis é basicamente a mesma coisa, Connor e Lunna se tornaram irmãos de seus irmãos, o que só mostra o quanto se amam.

—O bebê não para de chutar com sua voz – Isis comenta com um sorriso emocionado no rosto e Lunna coloca a mão em sua barriga para sentir. – Está fazendo jus ao nome.

—Qual o nome? – Lu pergunta com um sorriso bobo no rosto.

—Connor – meu outro eu é quem responde, dando um passo à frente com Gab ao seu lado.

LUNNA

Tudo parece congelar a minha volta quando me viro para o Wally desse tempo. Um garotinho estava entre seus braços, me encarando com um par de olhos enormes cheios de lágrimas, um deles era de um azul esverdeado que nem parecia real, enquanto o outro era violeta como o do meu irmão. Mas seu nariz, e formato dos olhos eram idênticos ao do Connor, assim como os traços pareciam com os meus e os de Phillipe.

Esse garotinho é meu filho, ninguém precisa dizer em voz alta, sinto isso em cada parte do meu corpo. Me abaixo para ficar de sua altura e estendo meus braços em sua direção e ele se joga, era mais forte do que esperava, mas dever ter seus oito ou nove anos, não mais do que isso. Os braços me apertam e o sinto chorando contra meu peito. Deus, eu deixei um garotinho sem os pais no mundo?

Me viro para Isis que enxugava as lágrimas, agora sentada em uma cadeira que alguém parece ter trago para ela. Me desespero e volto a olhar em volta, meu irmão, ele tinha os olhos presos em nós dois, o maxilar travado e por algum motivo me faz lembrar do Connor. Phill percebe meu olhar e entende o que estava querendo.

—Joseph Gabriel Hawke – responde baixinho e sorrio para ele em agradecimento.

—Hey Joe – chamo e vejo a surpresa na maioria dos rostos ao meu redor. – Me deixa ver seu rosto? – me afasto o bastante para olhá-lo nos olhos e limpar suas lágrimas. – Está tudo bem, meu amor.

—Mãe? – sussurra baixinho e sinto meus olhos arderem com as lágrimas que se acumulavam. Retiro a máscara do uniforme que mal me lembrava estar usando e simplesmente não estava preparada para o sorriso deslumbrante que se aparece em seu rosto. – Era verdade Tio, o meu pedido se realizou mesmo! – exclama para Phillippe sobre meus ombros e então não posso mais segurar o choro.

Phill não tem tempo de responder quando os computadores apitam e eu sei bem o significado daquele som. Minha surpresa é que de todos em volta, Alfred é quem toma a frente e vai ver do que se tratava. Observo todos enquanto o mini Grayson fazia aparentemente meu antigo trabalho. Isis ainda chorava baixinho, acariciando a barriga e murmurando palavras doces para o bebê em seu ventre. Nina estava rodeada por seus pais, o do meu tempo e o do futuro, segurando a mão de cada um. Phillippe mantinha seus olhos cravados em mim enquanto segurava Mia pela cintura, e isso me faz sorrir com tristeza. Mia Lance estava preocupantemente magra, de um jeito que me faz lembrar do meu estado quando Wally desapareceu, parecendo só se manter sobre seus pés por meu irmão a estar sustentando.

—Droga – Al pragueja me fazendo desviar os olhos de Mia. – Desculpe, Tia Lu – diz me pegando de surpresa e tanto Isis quanto Phill dão risada da reação do garoto.

—Você e Dam o treinavam – Isis esclarece, parecendo se divertir com minha expressão de choque. – E acho que não se sente confortável ao xingar em sua frente.

—Droga não é um palavrão – murmuro vendo Isis estremecer, como sempre acontece ao escutar qualquer tipo de xingamento. – Tudo bem Al – me aproximo tocando os ombros do garoto. – Qual o problema?

—Bart e Barry estão escoltando um caminhão de alimentos para o grupo de sobreviventes aqui de Star City, mas... – ele tosse e olha para Wally, o do seu tempo, encolhendo os ombros em seguida como se não pudesse continuar a falar.

—Merda – o Flash do futuro já estava a meio caminho da porta quando me coloquei em sua frente o impedindo de continuar. – Super velocidade, ótimo – revira os olhos e passa a encarar o teto. – Sou mais rápido do que você, Delphine – me lembra, então sorrio ao sentir uma leve brisa ao meu lado e meu Wally estava de braços cruzados, encarando sua versão mais velha, que sorri com desdém. – Precisa de muitos anos ainda para chegar onde estou – se volta para o outro Flash.

—Uau, eu sou babaca assim? – Wally se curva um pouco para olhar o restante do time, espalhado pelo bunker. Eles pareciam prender o riso.

—Não é assunto seu – diz a sua versão mais jovem. – E você, aproveite seu tempo com seu filho – aponta na direção do Joe, que apenas assistia a tudo com um ar calmo que me lembra muito do Connor, mas um jeito de quem quer esclarecer as coisas que só pode ter puxado dos meus cromossomos.

—Aceita a ajuda, tio. Se der certo, vou poder ter minha mãe de volta – ele suspira e meu irmão acaricia seus cabelos cacheados, a tristeza em seus olhos, atinge em cheio a cada um no bunker. – Fazer tudo sozinho não melhorou nada, a única diferença é que agora temos os dois aqui – aponta para Wally e eu, que o observávamos boquiabertos. – Minha mãe falava que é coisa de gente doida, fazer sempre a mesma coisa, esperando um final diferente.

O garotinho solta fazendo um silencio sepulcral tomar conta do Bunker. O Wally do futuro perde toda a pose de “macho alfa” e vemos seus ombros caírem em derrota. Lanço sum sorriso orgulhoso para meu filho que responde sorrindo da mesma forma, e perco o ar vendo o sorriso de Connor naquele rosto lindo. Meu filho que não deve ter nem dez anos, acabou de argumentar e vencer contra uma sala cheia de adultos!

—Joe está certo – meu Wally declara, desviando de sua duplicata para se juntar ao resto do time que rodeava Alfred. – O que aconteceu?

—O Inercia deve estar com fome – Al profere as palavras com uma fúria que não deveria ser conhecida por alguém de sua idade. Mas o pior é que quase todos pareciam espelhar os sentimentos dele.

—Quem é Inercia? – questiono tentando entender a reação em cadeia.

—Acho que agora deveria te contar que não foi Bart quem foi me pedir ajuda no nosso tempo – Wally começa e vejo meu irmão travar o maxilar. Phill não costumava precisar reprimir a própria fúria, que era tão rara.

—Joe, o que acha de ir me ajudar a fazer algo para sua mãe e seu padrinho comerem? – Mia se abaixa falando com carinho ao meu filho, que troca um olhar com Phill antes de responder.

—Vai comer também? – levanta o queixo em uma expressão desafiadora que deve ter aprendido com Isis. – Ajudo, se a senhora for comer também – sorri de lado, e novamente posso ver Connor estampado em seu rosto, meu coração chega a falhar uma batida.

—Eu sou o padrinho dele? – Wally aponta para o próprio peito, os olhos brilhando de animação, enquanto encarava sua outra versão em busca de respostas.

—Quem mais poderia ser? – questiono sem entender o drama dele.

—Não sei Lu, você e o Wayne são quase uma coisa só, vai saber se ele não foi o escolhido – vomita as palavras até se lembrar de Isis e parecer desejar voltar no tempo e retirar o que disse, mas a pequena Queen parecia se divertir nos assistindo, os olhos cheios de nostalgia.

—Dam foi o segundo pai do Gab – conta se gabando e gesticulando para que o sobrinho fosse até ela e o abraça com cuidado. – Era provavelmente o tio favorito dele!

—Hey! – Phill protesta fazendo meu filho dar risada e Wally revirar os olhos.

—Por mais que sinta falta de ver as suas brigas absurdas pelo amor da Tia Lu, ainda temos trabalho a fazer – Alfred fala chamando a atenção de todos. – Barry pode segurar o filho da mãe, mas Bart não é tão poderoso quanto o avô.

—Alfred e Nina ficam – Mia se pronuncia rapidamente, fazendo todos a olharem e Joe segurar sua mão. – Eles não possuem super velocidade, e não tem motivos para se enfiarem em uma luta de velocistas.

Percebo seu corpo magro estremecer, como se estivesse apavorada. Phill aperta um pouco mais os braços ao redor dela a firmando no lugar, enquanto murmurava palavras tranquilizantes em seu ouvido. A cena aparentemente é normal, por que ninguém além do Wally do meu tempo e eu parece espantado.

—Seria melhor se só os Flashs fossem – Isis propõe com um tom de voz apaziguador, que tenho certeza, se trata do seu modo profissional em ação. – Lunna e Alfred monitoram e dão apoio daqui, Nina me ajuda a colocar sua madrinha a par de tudo e as duas ficam como suporte, apenas em último caso. O que acham?

Mia concorda parecendo muito abalada. Phillippe se mantêm ao seu lado, acariciando suas costas e Joe segurando sua mão. Não posso deixar de imaginar Connor aqui, vendo Isis tomar as rédeas e liderar a todos tão bem quanto ele. Ver que criamos Phill para ser um homem descente, e principalmente, conhecer nosso pequeno anjinho. Os Flashs continuam estáticos, me olhando meio hesitantes.

—Vão – digo para eles que desaparecem no mesmo instante. Chamo a Totó que se desprende das minhas costas e passa a monitorá-los, enquanto vejo Al haqueando algumas câmeras de segurança. – Agora, quem vai me contar a história do gêmeo maligno?

WALLY 2.0

Lunna, Connor, Dick, Babs, Sara, Damian, Chloe...

Continuo recitando mentalmente o meu dominó de perdas enquanto corro ao lado de uma versão minha que ainda não entende o que é acordar e saber que suas escolhas levaram todas as pessoas mais importantes de sua vida. Preciso fazer isso ou me perco na velocidade, mas dessa forma consigo me lembrar que a responsabilidade é minha, e desaparecer na Speed Force não vai consertar nada.

O som de estática nos faz frear subitamente quando entramos na área mais próxima do acampamento de sobreviventes, então sinto o impacto, como uma forte onda sônica me atingindo em cheio e explodindo algumas paredes que sobreviveram a todas as batalhas traçadas na cidade. Desvio dos destroços no último momento, mas minha outra versão não tem a mesma sorte e acaba indo com tudo de encontro com uma parede que restava do que um dia foi a delegacia de Star City.

—Que merda é essa? – pragueja se levantando com esforço, o som se tornando mais forte e muito mais irritante.

“Precisam sair daí agora!” A voz alarmada de Lunna surge através do comunicador. “Era uma emboscada, Barry e Bart acabaram de confirmar a entrega. Mas não conseguem sair do acampamento, estão trancados.”

“Algo acionou as medidas de segurança, eles estarão trancados por vinte e quatro horas.” Al acrescenta.

“Defcon 4, eu odeio esse código” Isis pragueja.

—Queriam me atrair – digo encarando os fatos.

—Parece que foi o dia de sorte dessa pessoa, pague um e leve dois – o outro Wally debocha, me lembro de quando usava humor para mascarar minhas emoções.

—Vamos – oriento e só espero o ver assentir antes de voltar a me mover.

Tentamos correr, mas de alguma forma parecemos humanos normais, com velocidade normal. Ah que inferno. Entendo o que estava acontecendo quando era muito tarde para fazer qualquer coisa a respeito. Um raio esverdeado vai tomando forma, até que Tad Thawne se materializa a nossa frente, com um sorriso desvairado em seu rosto. Ele usava uma espécie de armadura metálica verde e preta, muito parecida com seu uniforme, mas o que me chamou atenção foi o capacete com várias camadas de metal perto de seu ouvido e riscos que lembravam guelras.

“O que está acontecendo Flash?” Isis soa apavorada.

—O som – falo rapidamente, antes de receber um soco em super velocidade do moleque perturbado.

Abro meus olhos me sentindo de ressaca, bom, o que eu acho que deve ser uma ressaca. Ganhei minha velocidade aos quatorze anos e quando possuí idade para beber, o álcool não me afetava mais. Sinto meus ossos sendo puxados para direções não naturais, enquanto minha cabeça lateja como o inferno. Meu corpo estava preso a uma haste de aço em formato de X. Preciso piscar algumas vezes para minha visão ter foco e só então me vejo em um galpão que parece abrigar uma espécie de laboratório clandestino, mas não é isso que me deixa horrorizado.

Minha versão mais nova estava ao meu lado, com os olhos presos a algo a nossa frente que me tiraria o sono pelo resto da vida. Haviam quatro tanques compridos que estavam cheios de água, dentro deles os membros mortos do meu time boiavam, usando algo que se parecia com respiradores, com tubos metálicos presos a uma máscara em seus rostos. Sara... perco a capacidade de respirar ao ver minha esposa, com a mesma aparência do dia em que a perdi, boiando lá dentro. Seus olhos fechados e os cabelos cacheados flutuando para todos os lados. Usava apenas um short curto de malha branco e uma espécie de top que só tapava seus seios.

—São todos eles – o outro Wally solta, a voz transparecendo todo o choque.

Ao lado de Sara estava Connor, parecendo adormecido em meio a todo aquele liquido. Usava apenas algo que parecia ser uma cueca boxer, mas acho que é um short. Lunna ocupava o tanque ao seu lado e por último, Damian. Que porra é essa?

—Sara? – chamo esperançoso, mas nenhum deles parece ser capaz de responder.

—Não é a Sara – minha versão mais nova diz, me fazendo lançar um olhar mortal em sua direção, ele ignora ou simplesmente não se intimida, continua olhando para os membros do meu time com um olhar triste. – Se concentra, não existe o vínculo de ancora, e você já saberia se não estivesse tão emocionado. Não são eles.

—É a Sara, olha! – insisto vendo o corpo da mulher que amo. – É a Sara...

Minha duplicata dá de ombros como quem desiste de discutir. Era a Sara, precisava ser. Passo rapidamente meus olhos pelos outros e fico feliz pela primeira vez em anos, ao ver Connor e Lunna lado a lado, mesmo que desacordados, nunca fui capaz de me perdoar por ter caído na armadilha do Flash Reverso que culminou em Inercia a assassinando daquele jeito horrível. Connor nunca mais foi o mesmo, ele se forçava a parecer vivo quando estava com Joe, Isis ou Phill, mas o esforço parecia lhe custar todas as suas forças. E Dam... Ele vai poder estar junto de Isis quando seu filho nascer, vai poder cria-lo!

—Oi Tio Wally! – a voz que me saúda soa extremamente alegre. – E outro Tio Wally!

—Tad – o outro Wally semicerra os olhos o encarando.

O garoto estava agora com seu uniforme habitual, sem toda aquela armadura de antes. Ele sorri para nós dois enquanto caminha em direção a um painel que ficava a frente dos tanques. O vemos digitar por alguns segundos antes de se voltar novamente em nossa direção.

—Tenho uma proposta!

—Antes, preciso que explique aquilo – Wally olha em direção aos tanques.

—Eu encontrei algumas anotações do Eddie, descobri como fui feito e pensei que isso faria com que me perdoasse — aponta para o tanque de Lunna, então sinto a bile subindo em minha garganta.

—Você os clonou? – sussurro sentindo todas as minhas esperanças se esvaírem.

—Ora, como eles estariam aqui se não fossem clones? – soa confuso, mas só sinto vontade de me soltar e espanca-lo.

—Qual a proposta? – o outro Wally continua parecendo extremamente racional, enquanto eu já enxergava vermelho.

—Eddie se foi – Tad começa, os olhos se movendo de forma estranha. – Não tenho mais onde conseguir, e ficar pegando pouco a pouco quando consigo encontrar alguns de vocês não é o suficiente.

—Do que está falando? – o outro soa perdido na conversa.

—Ele é viciado em Speed Force – respondo sem conseguir conter o nojo.

—Pensa que me viciei por que quis? – esbraveja o garoto, seus olhos cheios de loucura me encarando enraivecidos. – O Flash Reverso me fez assim, provavelmente para conseguir me controlar melhor – coça a nuca, o olho esquerdo tremendo involuntariamente. – Eu sou a vítima!

—Lunna Delphine foi a vítima – respondo com o máximo de desprezo que consigo empregar a minha voz. – Aposto que conseguiu o DNA dela do uniforme que usava quando a assassinou – acuso o vendo se encolher. – Você não é vítima Thawne, é só um drogado que não tem a menor intenção de se recuperar e fica colocando a culpa de seus erros nos outros!

—Wally! – meu outro “eu” chama em tom de advertência, mas que se dane. – Ele foi usado. Criado em laboratório por um louco e sem ninguém para o ensinar o que é certo – defende me fazendo direcionar toda a minha fúria agora para ele.

—Entende que ele matou sua melhor amiga a sangue frio? – viro minha cabeça como posso, já nem sentia mais a dor das algemas de tanta raiva que se acumulava. A eletricidade começando a passear por meu corpo, a velocidade implorando para que eu a deixe tomar as rédeas. – Lunna só morreu por o ver como uma criança que poderia melhorar caso tivesse apoio – cuspo as palavras, irado. -Era mais poderosa, rápida e experiente do que esse moleque. Ele a atravessou, enquanto ela baixou a guarda para tentar fazer com que ele visse que estava do lado errado. Me desculpe Wally, mas não tenho a menor pretensão de cometer o mesmo erro. Não quando o sacrifício de Lunna salvou a nossa filha, mas tirou os pais do filho dela. Connor era basicamente um cadáver que se forçava a parecer vivo depois que a perdeu.

Não que eu fosse entender na idade dele, não quando tinha Sara dormindo e acordando todos os dias ao meu lado. Mas hoje sei a tortura na qual Connor viveu após a morte do amor da sua vida, e isso só se intensifica por ter sido a âncora dela, ele teve uma parte dele sendo literalmente arrancada de seu peito. Tento suportar essa dor maldita a pouco mais de um mês e já vejo minha sanidade se esvaindo pouco a pouco, ele viveu isso por mais de um ano, e ainda conseguiu estar presente para seu filho e seus irmãos. Eu sei que venho falhando mais a cada dia com Nina e por mais que tente, não consigo parar de correr por muito tempo.

—Halo não era o alvo – Tad diz conseguindo minha atenção. – Minhas ordens eram dar fim a velocista ou a mulher da adaga, mas Glaúks os evacuou e ficou para me atrasar. Nós lutamos, mas não era tão simples conseguir matá-la. Então a Nigthmare voltou para busca-la, como ela não possuía super velocidade, achei que seria um alvo mais fácil, afinal só precisava matar uma das duas, mas Glaúks se colocou na frente e foi quando ela morreu.

—Queriam desestabilizar o time – minha duplicata conclui com a voz fraca, seus olhos se enchiam de lágrimas. – Katoptris deve ter mostrado a Isis a morte de Lunna, e ela voltou para impedir.

—Profecias se concretizam quando as pessoas tentam evita-las – Lu me disse algo assim uma vez.

Odeio admitir que foi um movimento inteligente. Matar qualquer uma das duas faria o resto de nós cair como um dominó depois. Nina precisa de seus seis guardiões, mas os números vêm diminuindo mais e mais a cada dia. Fecho meus olhos sentindo mais uma vez o peso do mundo em meus ombros e fico apenas escutando a conversa que se segue entre os dois. Ao menos Lunna não veio conosco, isso de uma forma estranha me conforta, saber que ela permanece segura.

—Qual a proposta? – Wally volta a perguntar, e pela forma que ele vibrava involuntariamente a dois segundos atrás, sei que está tão irritado quanto eu, não tenho ideia de como está sendo tão racional.

—Você fica, e eu lhe dou os quatro em troca – o clone doente do meu sobrinho volta a narrar, como se fosse o negócio do ano. – Não você, ele – deve estar apontando em minha direção, mas sou incapaz de abrir meus olhos e ver os experimentos científicos com os formatos de seus corpos iguais aos dos meus amigos, que estavam na minha frente.

—Espera, quer dizer que eu... Bem, ele – o outro Wally continua a tagarelar. – Vai servir de “fonte de alimento” para seu vício em Speed Force, enquanto o que você pensa ser minha esposa e amigos, voltam para meu time e começam a viver no lugar deles?

—Aqueles são a sua esposa e amigos – Tad o corrige.

—Aparência e um código genético idêntico, não faz deles as pessoas que perdi, garoto – responde com uma paciência que não me lembro de já ter possuído. – Assim como você ter o rosto de Bart não te faz ser ele. Você tem um nome diferente, uma personalidade distinta. Pensa e sonha por conta própria. Comete seus próprios erros e faz suas escolhas.

—Eddie me vi...

—Eddie se foi – ele o corta, antes que voltasse a repetir o mesmo discurso. – O que ele fez é horrível, mas ele era uma pessoa horrível, você não precisa ser. Mas veja suas escolhas – o escuto estralando a língua. – Quer tirar o pai de uma garotinha, depois dela ter perdido a mãe a pouquíssimo tempo, e colocar no lugar alguém que até se parece com a mãe que perdeu, mas que nunca vai ser. Por que o que fazia Sara ser incrível, não era ser fisicamente perfeita. A aparência é só um cartão de visitas, tudo o que ela passou, as memórias que acumulou ao decorrer da sua vida, pessoas com as quais conviveu, isso tornava Sara uma pessoa maravilhosa. Esse era o meu motivo para amá-la.

—Mas eu a trouxe de volta – repete como uma criança mimada, exigindo o resultado que planejou ou faria birra. – Não pode só me agradecer?

Duas vezes em toda a minha vida, eu me vi desejando assassinar alguém. A primeira foi o Zoom, ele quase foi capaz de me fazer cruzar essa linha. E a segunda é esse moleque. O que o outro Wally ainda não percebe, é que Taddeus Thawne não é um garotinho assustado, é um assassino frio que faria qualquer coisa para conseguir o que deseja. E não dá a mínima para os sentimentos de ninguém, por que ele mal entende o que empatia significa.

Eu disse a Isis quando despertei após a morte de Damian e Chloe. Eles deveriam ter mostrado as filmagens de segurança do dia da morte de Lunna para minha duplicata. Me conheço bem o bastante para saber que dentro daquele contexto veria Tad como alguém a ser salvo. O vídeo acabaria com esse raciocínio. Lunna foi morta da maneira mais covarde possível, ele usou da bondade e amor incondicional que ela possuía, como arma. Não consigo perdoar algo assim.

WALLY 1.0

Não sei até quando consigo continuar enrolando esse moleque doente. Tento o manter falando, enquanto minha versão do futuro parece ter desistido de nós dois, ou simplesmente não suporta ver os clones e o pirralho. Já estava prestes a desistir quando a luz do galpão pisca, fazendo Inércia olhar apavorado para os tanques e se voltar para o painel digitando furiosamente neles.

—O que está acontecendo? – pergunto assistindo seu desespero.

—Não, não, não! – esbraveja o garoto. – Se a energia acabar todos eles vão morrer!

—Estão quebrando seu sistema de segurança? – o outro Flash questiona, olhando para os lados, como se esperasse que não fosse essa a resposta. Juro que não entendo esse cara, mesmo esse cara sendo eu de alguma forma.

—Impossível – Tad desdenha sem parar de trabalhar no painel. – A única do seu time que seria capaz de quebrar esse nível de segurança, com todos os anuladores de poderes ao nosso redor, está morta!

Bom, ele não sabe que a trouxe comigo. Reprimo minha vontade de sorrir, enquanto o outro Wally parece estar bem perto de ter um colapso mental. Antes de ir, vou sugerir que ele volte a fazer terapia, todo esse pessimismo não pode fazer bem para minha saúde.

“O que vamos fazer com esses clones, Wally?” a voz de Lunna surge em minha mente. “São pessoas inocentes. Não consigo deixar de pensar em Ko-nel, eles não pediram para serem criados, mas agora merecem ter uma vida.”

O sinal do comunicador foi cortado assim que fomos capturados, mas Tad não tem ideia dos colares encantados, então nunca saberia do meu escondido abaixo do meu uniforme. Durante todo o processo Lunna vem falando comigo e sou grato por isso, ou teria perdido a cabeça exatamente como o outro Wally fez.

—Estão morrendo? – questiono Inércia.

—Não, o gerador está suprindo os tubos de respiração, mas ele só vai durar duas horas.

“É o bastante” ela fala e a luz cai de vez, mas os tanques continuam acesos.

—O que é isso? – Inércia olha em volta.

Eu sou um treinador foda. É o que constato quando um bastão rasga o ar e atinge em cheio a nuca do moleque problemático o atordoando. Totó volta para a mão de Lunna no mesmo instante em que ela já se lançava na direção dele executando cada golpe que se seguiu com perfeição. Com a mão esticada ela atingiu a garganta do garoto da mesma forma que Sara a ensinou, dobrou os joelhos como a instruí e impulsionou seu peso enquanto girava e atingia o ombro dele com o cotovelo, depois o bastão. Quando Tad cambaleou para trás Lunna já completava o giro, o atingindo no peito com o segundo bastão, que dessa vez é pressionado no local, liberando uma carga elétrica potente. Antes que terminasse de cair, Inercia foi amparado por uma aura branca, que o manteve imobilizado no chão.

Nina vinha em nossa direção com seu rostinho cheio de temor e começa a soltar o outro Flash. Lunna se concentra no painel, e a vejo lendo algo em super velocidade antes de digitar algo que faz o nível de água nos tanques começar a baixar.

—Não deveria ter vindo, sabe como isso é perigoso? – minha versão do futuro começa em tom de bronca, fazendo minha filha baixar os olhos, mas não antes que eu percebesse o brilho de tristeza que se passou neles. – E ainda trouxe a Glaúks? Halo, isso é extremamente irresponsável, o que aconteceria se ela fosse morta?

—Ela nem chegou perto disso – o corto, irritado por seu tom, e mais irritado por ter me tornado alguém assim. – Glaúks foi perfeita.

—Ela teve sorte – me corrige, mas antes que revidasse Lunna já estava em frente a haste que o prendia, e Nina se abaixa para retirar a última algema que restava nele, então o liberta e se volta para mim, começando a me soltar de imediato.

—Qual o seu problema, Wally? – diz e mesmo com sua voz naturalmente baixa, sei que está irritada. – Quando você se tornou covarde assim? – ele abre um meio sorriso sarcástico que faz Lunna semicerrar os olhos.

—Covarde? – repete em um tom que a faz parecer tola. – Você é inexperiente, até agora só enfrentou uma ameaça real sob supervisão de alguém que pudesse ser realmente efetivo. E acha que sair em missão com Nina é uma boa ideia?

—Seu... – travo o palavrão em minha garganta por ter minha filha bem na minha frente.

Meu corpo vibra e Nina se afasta por sem querer acabar levando um choque. Eu ainda tenho um braço e duas pernas presos pelas algemas, então me obrigo a controlar minha fúria. Lunna comprime os lábios, os transformando em uma linha fina enquanto olhava cheia de decepção para minha versão mais velha. Minha filha libera o outro braço e já fixo meu olhar no Flash, pronto para soca-lo assim que me libertar por completo.

Mas chego atrasado, por que Lunna passa a mão no rosto e em seguida faz uso da sua velocidade e simplesmente chuta as bolas dele, tão forte que cheguei a me encolher com a visão. Quando ele se curva para frente, ela emenda um gancho de esquerda perfeito. A vejo respirar fundo, antes de olhar para seu feito com o semblante cheio de pesar. É quando se lembra de ter mais uma expectadora para sua perda atípica de controle. Lu suspira, e vejo que está realmente confusa e exausta com toda essa situação, mas ainda consegue se manter firme por algum motivo que desconheço.

—Desculpa Nina – se vira para minha filha, o semblante tomado por culpa. – O que a tia Lu fez não é correto, e eu amo o seu pai como se fosse meu irmão, em circunstancias normais isso nunca aconteceria – explica com delicadeza. – Mas vai entender quando crescer que as vezes precisa colocar um homem autoritário em seu devido lugar.

Rio sem conseguir conter o misto de satisfação e orgulho que ver minha versão babaca apanhando me deu. Isso alivia um pouco a expressão de culpa no rosto dela. Pisco para minha amiga que reprime um sorriso ao se voltar novamente para os tanques.

—Al está lá fora com o Batwing – avisa enquanto Nina ajuda o outro Flash a se levantar.

—Não está pensando em levar esses clones para a nossa base, está? – ele ainda tem coragem de perguntar no mesmo tom que o fez ter seus ovos mexidos, reviro meus olhos, desistindo de ter esperanças que esse cara seja parecido com um ser humano outra vez.

—Até pouco tempo você bateu o pé que ela era a Sara – o lembro.

—Até pouco tempo você fez questão de ressaltar que não era – revida.

—Virgil, Clark e a Kara vem pegar o Inercia – Nina intervém, se colocando em nosso meio para evitar que pulássemos no pescoço um do outro. – Virgil é o único com poderes – esclarece sobre o olhar questionador de Lunna. – O sol vermelho anulou os Kriptonianos, mas eles ajudam a guardar a prisão, onde os super vilões estão sendo mantidos.

—Ko-nel e Megg’n se ofereceram para ficar com os clones na fazenda deles, enquanto se adaptam. O Superboy disse que vai os ajudar com o que for possível, por entender o que vão passar – Lunna acrescenta, respondendo o questionamento anterior do Wally babaca.

—Eles possuem almas – Nina murmura com seus olhos presos ao clone da mãe. – Posso senti-las, estão confusas e solitárias, mas são pessoas pai. E estão vivos.

Isso parece acalmar um pouco da marra do babaca, ele solta um suspiro cansado e passa a ajudar quando os tanques se esvaziam por completo. Ao ouvirmos um barulho nina os envolve em uma aura laranja e carrega todos para fora, enquanto a seguimos em silencio. O Batwing estava entre um Javilin da Liga e uma espécie de Nave, que posso reconhecer de imediato como a Bio Nave da Miss Marte. Nina faz os clones levitarem para dentro da Bio Nave, e o Tad para o Javilin que alçam voo de imediato. Seguimos em direção do Batwing e Al ignora o clima estranho, enchendo Lunna de perguntas sobre programação durante o caminho.

Quando chegamos Isis nos força a receber tratamento médico, mesmo que tanto eu, quanto a minha versão super babaca tenhamos afirmado mais de uma vez que estávamos completamente bem. Mas se a Queen já era persuasiva antes de ter um diploma em psicologia, depois de se formar as chances de receber um “não” em sua vida, caíram significativamente. Quando dei por mim estava deitado em uma maca de metal, sendo escaneado por uma espécie de domo.

Mais tarde explicamos o que fomos fazer ali e para minha surpresa o Wally babaca não se opõe a deixar nossa filha viajar para o futuro. Mas Mia quase tem um ataque de pânico com a ideia de Halo partir. Isis me explicou que tudo se agravou depois da morte de Chloe, Mia não está lidando bem com o luto, desenvolveu ansiedade e está depressiva. Depois de alguma conversa e explicar que isso pode fazer com que Chloe nunca chegue a ser morta, Mia se acalmou e aceitou a partida de Nina.

Nina e Alfred me levam ao apartamento subterrâneo onde viviam, onde consigo um banho quente e posso lavar meu uniforme em uma máquina de última geração, em menos de vinte minutos estava vestido novamente com ele completamente limpo. Como uma gororoba estranha que consistia em uma massa sem gosto e uma mistura de legumes variados, que Nina ficou feliz em contar que Mia que cultivava a maior parte dos ingredientes em uma horta subterrânea, bom, não é mais tão estranho assim ela estar tão magra. Ao descer, apenas meu outro eu e Nina me seguem, consigo ouvir a voz rouca do Phillippe já no corredor. Minha filha toma a frente e para diante da porta de acesso, olhando através do vidro com um sorriso triste em seu rosto.

—Vamos esperar um pouco – diz se escorando no corredor e o outro Wally faz o mesmo sem questionar.

Olho na direção que os dois estavam observando e vejo Joe dormindo sobre a maca que eu estava ocupando antes, enquanto mantinha uma mão segurando o braço da mãe. Lunna estava em uma cadeira ao seu lado, conversando com Phill que ocupava outra cadeira.

“Sou o irmão mais velho nesse momento” Phillippe comenta, sem conseguir esconder certa satisfação em sua voz.

“Continua o mesmo moleque de sempre para mim” retruca Lunna quase que por reflexo. “Não precisa fazer careta, Delphine, vamos dizer que você é o irmão mais velho. Vai lá, fala logo o que deseja” acrescenta com desdém.

“Como irmão mais velho, você teria que me escutar, não é verdade?”

“Bom, tecnicamente...”

“Sem meio termos, Delphine” Phillippe a imita e posso escutar o riso musical de Lunna em resposta.

“Me pegou. Tudo bem, pode falar.”

“Sei muito bem que nós dois crescemos de formas diferentes e talvez fosse esse o motivo de você tentar tanto me proteger a qualquer custo, mas sou crescido o bastante para escutar agora, para ser alguém que te apoia e sei que está precisando disso.”

Por alguns segundos não escutamos nenhum barulho até que Lunna funga, antes de começar a dizer em sua voz doce.

“Você sempre me apoiou.” A voz de Lunna parece mais fraca agora, um tanto lenta, da forma que fica quando ela está tomando cuidado para não gaguejar. “Acredite Phill, eu não sobreviveria todos aqueles anos se não fosse por sua causa” declara o tom de voz sombrio.

Não escuto a resposta de Phillipe, mas posso ver como seu rosto ridiculamente bonito se contorce em uma careta de dor. Ele estende a mão e toca o rosto da irmã, sem se preocupar em secar suas lágrimas, apenas afaga com carinho sua bochecha, como se tivesse a vã esperança de que o gesto apagasse as lembranças do inferno em que ela viveu.

“Lembra quando estava tentando reaver minha guarda e passamos por todas aquelas audiências de custódias ridículas?” Phill bufa, como se o assunto o irritasse da mesma forma de antes.

“Seu breve período de rebeldia” Lunna dá risada, mas não parecia conter nenhum humor nela.

“Não era rebeldia, eu estava furioso. Passei semanas sem conseguir olhar para a Jô, e tinha dias em que nem mesmo a Martha eu conseguia suportar.”

“Phill, elas estavam com medo de...”

“Está vendo?” ele interrompe a irmã e posso escutar um riso baixo de Lunna. “Mas não estou falando disso para puxar briga com você, Lu. Ainda me lembro da primeira vez em que a Laurel te representou e de como a Sra. Queen parecia uma mãe ursa ao seu redor. Felicity era tão pequena, mas existia algo assustador nela quando alguém mexia com uma de suas crias.”

Sorrio e vejo Nina e o outro Wally fazendo o mesmo.

“Aquilo tudo era novo para mim. Ter pessoas me protegendo, tomando minhas dores e lutando ao meu favor.” Lunna comenta com um ar sonhador em sua voz. “Felicity e Laurel viraram noites ao meu lado trabalhando no seu caso. Quando Connor foi ao meu antigo apartamento e me viu a ponto de surtar, apavorada com a ideia de não ter mais direito de te ver. Ele não sentiu pena, não teve piedade. Ou qualquer sentimento vazio. A briga por sua guarda passou a ser tão dele quanto minha. Wally cumpriu todos os cronogramas de visitas assistidas comigo, e até parecia gostar de fazer aquilo.”

Eu adorava. Era como uma pesquisa antropológica, ver como Lunna se transformava no instante em que colocava seus olhos no irmão. Isso e...

“Acho que ele odiava a Jô” Phill comenta cheio de diversão na voz.

E isso... Eu realmente detestava aquela mulher.

Odiava aquela loura, a forma repugnante como olhava para Lunna, como falava com ela. Não importa o medo que estivesse em sua cabeça doente, afastar Phill, e tratar Lunna como se ela fosse a responsável por todas as atrocidades do mundo, não era justificável.

“Isso também era novo, a forma como ele se importava. Eu não tinha amigos antes dos dois, e bem, Connor não era exatamente um amigo desinteressado” completa rindo. “Mas existe algo sobre o Wally e eu. É como se ele tivesse decidido que seria meu melhor amigo no momento em que conversamos pela primeira vez, e só Deus sabe como isso me ajudou ao decorrer de todos esses anos” Isso realmente me toca, vejo a expressão da minha duplicata mudar também, ele pode ser um idiota completo, mas será que eu também não seria se perdesse minha melhor amiga?

“Wally se culpa por sua morte” Phill diz com a voz embargada e encaro minha duplicata que olhava para os próprios pés, com o semblante completamente fechado. “Ele mal consegue me olhar nos olhos, e parece torturado quando Joe fica mais abatido do que o normal.”

“Não sei qual parte de tudo isso é a mais triste. Meu melhor amigo sofrendo por algo que não está no controle dele, ou meu filho ter um estado normal de melancolia” Lunna suspira com pesar. “Posso te pedir um favor, Phill?”

“Qualquer coisa.”

“Não importa o quão desconfortável o West se sinta, nem quão desagradável ele se torne para te afastar, fique ao lado dele. Faça com que ele esteja mais presente na vida da Nina, sei que você e Mia estão fazendo o melhor que podem, mas sabe tão bem quanto eu que ela deve sentir muita falta do Wally. Eu entendo que tudo está uma loucura e ele é provavelmente o herói mais poderoso que restou, mas Nina precisa do pai. E todos vocês precisam dele. Então o ajude a se recompor. Me promete?”

“Falando assim, nem parece que acabou de chutar as bolas do cara” implica rindo da irmã.

“Ele implorou por aquilo” bufa indignada e pela primeira vez, um brilho genuíno de diversão, passa pelos olhos do meu outro eu. Por mais que não admitisse, estava tão orgulhoso da Delphine quanto eu.

“Ele não tem sido a melhor companhia, não que isso me incomode de qualquer forma.” Os dois riem e vejo o outro Wally corar.

“Ele tem muito medo que algo me aconteça, mas não sabe como se expressar mais” Lunna suspira entristecida. “E parece ter substituído o humor como auto defesa, por estupidez. Mas ainda é meu melhor amigo, Phill. E precisa de ajuda para se recompor, então me prometa que vai ser essa ajuda.”

“Não sei se prometer vai ser o bastante, mas vou fazer o que estiver ao meu alcance. Por você, por Sara e pela Nina.”

“Sara.” Lunna suspira com a voz cheia de tristeza. “Connor, Damian, Chloé, Richard, Barbara... Todas as pessoas que se tornaram nossa família. Nós temos que impedir isso Phillippe.”

“É o que peço a Deus todas as noites, Lu. E mais do que tudo, imploro para ter minha irmã de volta.”

Não consigo mais escutar.

—Posso ajudar com isso – Nina que secava as próprias lágrimas, diz e uma luz vermelha cobre a porta, abafando a conversa dos Delphine.

—Você leu minha mente? – questiono confuso e a vejo dando uma risadinha em resposta.

—Não né – responde de uma forma que me faz parecer uma criança pouco inteligente. – Eu leio emoções, pai, não mentes!

—Às vezes parece a mesma coisa, já te disse isso – o outro Wally murmura, o semblante ainda repleto de dor. – Quando encontrar sua mãe, dê um abraço nela por mim, diga a ela que eu a amo – se vira para Nina que assente. – Espero que quando voltar tudo esteja diferente, querida.

—Prometo que vou fazer o melhor para isso, pai – Nina sorri do seu jeito naturalmente encantador e abraça minha versão mais velha, que beija o alto da cabeça da garota, parecendo odiar se afastar a seguir.

—Não quero que se arrisque, tudo o que preciso é que volte inteira – garante a ela.

—Precisamos ir – suspiro. – Não quero fazer Lunna se despedir do Joe.

—Ele vai continuar com ela – minha filha responde com um sorriso enigmático, e sem poder mais protelar, abrimos a porta e presencio a cena mais triste de toda a minha vida, ao ver minha melhor amiga precisando acordar seu filho para dizer adeus.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.