PARADOXO - Seson 3
29 Capitulo 26 - Escrito Nas Estrelas - Parte II
Notas iniciais
CONNOR
A alguns anos atrás jamais me imaginaria aqui, sentado em uma sala bizarra de uma casa insana, babando feito idiota ao ver uma garota brincando com duas crianças. Pensar nisso me faz querer rir, eu era um idiota de marca maior. Pulando de cama em cama como se minha única missão fosse manter a faixada de playboy irresponsável, que sinceramente, eu até curtia. Hoje isso é impensável, toda a minha vida, minha verdadeira missão, está sentada a minha frente.
Não consigo tirar meus olhos de Lunna, ela é incrível a ponto de as vezes me perguntar se tudo o que vivemos é mesmo real. Seus cabelos cacheados caiam sobre o rosto lindo, enquanto ria para as carinhas fofas que Al e Nina faziam a fim de chamar sua atenção. Não posso dizer que não os entendo, passei muito tempo me esforçando como um louco para não precisar dividir a atenção dela com ninguém. Parecendo sentir meu olhar, ela ergue os olhos em minha direção e o sorriso se transforma em um que é só meu. Mais contido, com traços sutis de timidez e um brilho de admiração que por Buda, até hoje não entendo o que fiz para merecer.
—O que foi? – questiona movendo os lábios, sem emitir som.
Balanço a cabeça a lançando um sorriso de lado que faz as maçãs perfeitas de seu rosto, ganharem um tom levemente avermelhado. Seus olhos se soltam dos meus, mas ela demonstra certa timidez, mesmo não tendo nada em seu corpo que eu ainda não tenha visto, tocado e adorado como ela merece.
—Você está ainda mais estranho do que o normal – Sara comenta, se sentando ao meu lado no sofá, e passa a assistir a mesma cena que eu. – Nina realmente a ama – suspira me fazendo olhar em sua direção.
Sara sempre foi forte, mas nunca precisou esconder nada do que sente. Provavelmente por se garantir contra a maioria das coisas, nada nunca pareceu forte demais, ou perigoso demais para a Diggle. Conquistar a espada das Amazonas foi mais uma prova disso. Mas agora ela estava diferente, como se representasse um papel e contivesse algo como nunca antes precisou fazer.
—Qual o problema? – pergunto, alto bastante para que só ela escutasse.
—Três deles – gesticula em direção as crianças. – Os manter aqui, me faz perceber o que está em jogo se perdemos.
—A logística não é das melhores – faço careta seguindo sua linha de raciocínio.
Três crianças sobre o mesmo teto que nós, enquanto tentamos parar algo que mal compreendemos. Definitivamente, não foi nosso movimento mais inteligente. Nina precisa estar aqui, mas mesmo que temporário, Al e Chloe podem estar ainda mais em risco. A verdade é que ninguém quis dizer não ao Damian depois de toda merda pela qual ele e minha irmã passaram. Mas não era esse o motivo do estado de espirito de Sara. Provavelmente ela já sucumbiu ao o que estou evitando com todas as minhas forças, começar a pensar a respeito.
—Ao menos não vamos pirar quando eles estiverem em missão – comenta, com os olhos presos nos três, confirmando minhas hipóteses. Sempre estamos em sintonia. – Não vamos se quer ter tempo para qualquer coisa.
—Para ser sincero, eu estou aliviado por a missão dela ser com o Wally – confesso vendo Al piscar para Nina, fazendo charme para a garotinha. – Os dois sabem lutar juntos e são bem inteligentes.
—E rápidos – acrescenta. – Vão ficar bem! – prende o ar por um instante.
A verdade, estamos os dois a ponto de pirar, mas essa listagem é uma forma de manter nossas cabeças no jogo. É tudo o que podemos fazer um pelo outro no momento.
Damian volta com Isis da enfermaria que a casa projetou, parecendo quebrado. Tento levar isso como um bom sinal. Antes de preferir sair da sala de treinamento, os dois atacavam Lunna ao mesmo tempo, seu estado preocupante deve significar que ela conseguiu se defender deles. Vou fingir que seu fator acelerado de cura não tem nenhuma influência nisso, não preciso de mais motivos para testar meu auto controle. Merda, e agora estou finalmente pensando no que tenho evitado.
—Isso está começando a parecer pior do que foi com Zoom – Sara suspira e percebo algo muito raro vindo dela, suas mãos estavam tremulas quando as pousou em seu colo. – Naquele caso, nós conhecíamos a ameaça, crescemos com ela, mas agora tudo o que sabemos é que esse desgraçado torturou a Lunna, ferrou o psicológico de Isis e de alguma forma precisa da minha filha – Sara fala para que só eu possa escutar. – Jurei não matar nunca mais depois do Hunter...
—Não sei como isso vai acabar – suspiro a interrompendo, por não desejar que ela precise dizer o obvio. – Mas acredite quando te digo que estamos todos mais do que motivados. Poucas vezes algum inimigo acertou tão bem os pontos para deixar cada um de nós o mais putos possível – penso em minha irmã clamando por ajuda em uma poça do próprio vômito e nas manchas roxas que pintavam a pele alva das pernas da minha esposa. – Quando pensei que você... – estava morta, não consigo completar em voz alta, mas Sara me observa com atenção enquanto desabafo. – Jurei que nunca mais perderia nenhum de vocês, não sob minha liderança – sei que ela pode sentir o fogo em minhas palavras, nunca fui do tipo que faz declarações vazias.
—Eles vão voltar inteiros – diz com firmeza, pousando uma de suas mãos em meu antebraço.
Conheço Artêmis melhor do que qualquer um, assim como sei que ela sabe mais sobre o Arqueiro Verde do que eu mesmo. Wally e Lunna desenvolveram uma dinâmica parecida, consequência dos anos que treinam juntos. Mas nem isso é infalível, nada é. Aprendi essa lição a duras penas. Quando tanto minha parceira, quanto minha esposa estavam correndo risco e não pude fazer nada para ajudar.
Zolomon Hunter, foi um psicopata assassino. O enfrentamos no ano passado, e o desgraçado me fez esquecer toda e qualquer filosofia que o mosteiro de Ashram me ensinou. Orquestrou a morte de Sara, sequestrou Isis e quase assassinou minha mulher. Sendo indiretamente responsável pela super velocidade de Lunna, afinal Wally só inseriu acidentalmente a Força da Velocidade nela, após o esforço literalmente sobre humano que teve para manter o amor da minha vida, vivo.
—Eles vão se cuidar – declaro vendo Sara engolir em seco. – Não existe nada que não fariam um pelo outro – isso é verdade e minha amiga sabe bem, Lunna e Wally se protegeriam sem pensar duas vezes, um nunca arriscaria perder o outro.
Dick volta com Chloe, os dois imersos em um debate acalorado. Grayson, fala com a filha como se ela fosse uma bomba relógio perto de explodir, o que é divertido em meus bons dias, hoje só penso no quanto meu amigo é perturbado. Mas é quando Constantine se junta a nós que preciso prender minha respiração.
—Hum, mais crianças? – força um sorriso ao receber um olhar mortal de Sara. – Ótimo, nem estamos lutando contra demônios!
—É o lugar mais seguro – Damian justifica e o mago dá de ombros.
—Ou o mais perigoso, afinal todos os que realmente importam na luta final estão bem aqui, juntinhos no mesmo lugar.
—Lunna e Wally, já estão de saída? – questiono ignorando seu sarcasmo e me levanto para me sentar ao lado de Lunna, pegando Nina e a passando para meu colo.
—Podem usar o restante do dia de hoje para se prepararem – responde, mas o pesar estranho em seu rosto me deixa em alerta.
—O que está acontecendo? – Dick estuda seu rosto, enquanto o mago ponderava o que dizer.
—Outra onda de suicídios – respira fundo. – Alguns conhecidos meus foram vitimas dessa vez, parece que qualquer um pode estar suscetível agora.
—Sinto muito, John – Lunna o olha com real empatia, o fazendo esboçar um sorriso triste em resposta, murmurando um agradecimento antes de sair. – Temos trabalho a fazer – suspira sentando Al no sofá ao meu lado, dá um beijo nas crianças e um selinho rápido nos meus lábios.
Nossos olhos se encontram por um breve momento enquanto ela acariciava meu rosto e penso ter visto um sutil brilho amarelado nos olhos de Nina que nos observava quase em transe. Mas devo estar mais perto de perder o controle do que imaginava. Lunna se levanta, fazendo um gesto para Damian que acaricia a mão de Isis antes de seguir minha esposa para a direção contrária de onde fica a sala de treinamento.
—Eles já foram? – Wally aparece, bagunçando os cabelos ruivos molhados.
—Está falando de Lunna e Dam? – Dick questiona e ele assente. – Por ali – aponta o caminho e então o velocista não está mais diante de nossos olhos.
—O que vão fazer agora? – Isis parece preocupada, encarando o caminho por onde eles desapareceram.
—Lunna quer programar um tipo de lente de contato/Super computador/câmera em tempo real – Sara conta com os olhos na filha que estava em meus braços. – Acha que assim vamos ficar mais seguros e também podemos nos tranquilizar enquanto eles estiverem em missão.
—Vou ver se posso ajudar – Dick se levanta e segue o mesmo caminho que os outros.
—Deveria ter prestado um pouco mais de atenção as aulas de programação gratuitas que mamãe dava – minha irmã murmura, e tanto eu quanto Sara concordamos.
WALLY
Ano 2048
Acordo e não tenho nem mesmo o conforto da confusão para me consolar. Não posso dizer que a realidade me atingiu com tudo, por que não pareço ter saído dela nem mesmo ao ser sedado. Me lembro de cada detalhe. Todos morreram, meus mentores, amigos, família. Minha melhor amiga se foi, e não posso chorar pela perda do meu irmão e minha esposa em seus ombros, perdi todos eles. Ou melhor, eu os matei. Puxar o ar parece um desperdício nesse momento.
Me sento sobre a maca e estava sem a parte superior do meu uniforme, meu corpo completamente recuperado. Dam estava em frente aos computadores que controlavam os aparelhos médicos que estavam ativos nos outros velocistas, eles parecem melhores, mas ainda me lembram pessoas retiradas de centros de concentração nazistas, minha versão não tanto mais, parece que meu fator de cura é realmente mais acelerado do que o dos outros. Wayne usava o uniforme do Batman, sem máscara ou capa, do mesmo jeito que Bruce costumava ficar na caverna. Outra semelhança estranha.
—Finalmente – murmura com sua rabugice característica, sem nem olhar em minha direção. Isso de Batman deve vir acoplado ao uniforme. – Acho que vai querer respostas, é mais fácil se passarmos por isso rapidamente, estamos com o tempo corrido – exatamente o que esperaria do Batman.
—Onde estão os outros?
—Esse é o subterrâneo do lugar em que vivemos – diz apontando para cima. -Bom, ainda vivemos em andares subterrâneos, mas é o mais seguro, pode acreditar. Por fora isso parece só um prédio dos Glades abandonado. Descobrimos que Oliver era tão paranoico quanto o Bruce, e havia um projeto de cidade subterrânea, que parece ter aproveitado de algum de seus vilões, um louco que queria selecionar pessoas para uma nova vida – faz cara de nojo. – Bom, foi bastante útil em meio a todo esse caos. Star City é uma das poucas cidades que abrigam sobreviventes em segurança.
—Star City? – ele dá de ombros em resposta. – Como está o time?
—Isis não sai a campo, bom, você deve ter visto o motivo. Phillipe está mantendo as crianças em casa, eles devem comer e descansar, mas sinceramente espero que sua filha o faça comer alguma coisa e dormir por algumas horas. Mia está em seu turno com Isis – ele quase sorri por um instante, mas por alguma razão penso que Damian mal se lembra de como fazer isso. – Elas cuidam uma da outra.
—Você vai ter um filho – digo com uma sensação de orgulho estranha.
—Outro – respira fundo. – Gab já é nosso filho, desde que perdeu os pais ele parece ter escolhido Isis e eu para essa função – esfrega o rosto e então se vira para me encarar. – Bart colocou sua mãe e seus irmãos no futuro, foi só o que o garoto teve tempo de fazer antes de ser pego.
—O Bananão disse algo assim quando eu estava preso – me recordo, ao menos tia Iris e os gêmeos estão a salvo. – Mas ele não tem ideia de onde eles estão – Dam assente, o rosto perdendo gradativamente a máscara controlada que usava com esforço. -O que aconteceu com Sara? – é melhor ir direto ao ponto, já que ele mesmo falou que não temos tempo.
—Esse não é o mundo que conhece, West – solta com um tipo doentio de sarcasmo em sua voz. – Nós somos os foragidos agora, e todos os que caçávamos passaram a ser a lei. Consegue imaginar? – desafia me olhando com aquele rosto paralisado em uma expressão constante de fúria e desesperança. – Um mundo regido por todos os que mais detestamos?
—Não – respondo com sinceridade. – Mas ainda quero saber o que aconteceu com o time – insisto.
—Primeiro, precisa entender que todos nós mudamos muito depois da morte de Lunna. Já está quase completando dois anos desde que ela se foi, mas é como se tivesse sido ontem – sua voz vai morrendo ao decorrer da frase, como se não possuísse mais forças. – Queríamos vingança a qualquer custo. Uma vez um... – ele pondera por um momento, como se cogitasse quanta informação poderia me dar. – Cara – o termo soa incerto. – Ele disse que Lunna moveria um exercito em seu nome se quisesse, e bem, duvido que ela realmente aprovasse o que fizemos depois que partiu, mas o tal cara estava coberto de razão.
—Isso faz sentido – massageio meu peito, sem conseguir suportar a dor. – Lunna quem costumava ser o “grilo falante” entre nós.
—Você e Sara estavam muito revoltados, ela principalmente, queria muito vingar Lunna. Mas precisávamos encontrar o Bart, bom estamos procurando por ele a muito tempo – começa fechando os olhos e respirando fundo antes de voltar a falar. – Depois de tentarmos basicamente todos os planos possíveis, a ideia passou ser enviar o verdadeiro Impulso antes do falso, em uma última chance de nos deixar preparados para o impostor. A alguns dias recebemos uma pista realmente boa sobre a localização dele e você e Sara foram atrás.
—Só eu voltei? – confirma. – Como foi? Como ele a matou? – Damian faz careta, mas continuo esperando por resposta, o deixando sem escolha a não ser me contar todos os detalhes.
—Felix arrancou o coração dela em sua frente, usando magia. Vocês lutaram e ele fugiu. Depois te convenceu que se voltasse lá ele poderia trazê-la de volta – sinto a bile subir por minha garganta.
—Eu não acreditaria nisso.
—Não acreditou, você e Barry foram para o deter – Dam bagunça os cabelos. – Acho que estavam dispostos a mata-lo, mas foram capturados e não quis arriscar mais ninguém sem um plano certo depois disso.
—Fez bem – murmuro com a voz falha.
Me concentro em respirar, só isso se torna um trabalho dificil o suficiente para me manter ocupado. Não quero imaginar a cena, mas é automático. Vejo o coração de Sara sendo arrancado de seu corpo, meu coração sendo arrancado dela pelas mãos esqueléticas do ninja que conheci ontem, sua vida, nossa vida, se esvaindo bem diante dos meus olhos. Damian me dá tempo para sofrer, espera em silencio enquanto estou digerindo a informação.
—Connor e Lunna? – digo com a voz ainda fraca, é melhor saber logo o que diabos aconteceu.
—Como eu disse, Lunna foi a primeira – ele olha para o chão. – Ela se sacrificou para que Isis pudesse escoltar Phill, Halo e o Gab do esconderijo onde estavam. Bem a cara dela, não acha? – uma lágrima escorre de seu rosto e estranho aquilo por um instante, mesmo parecendo sentir dor ao contar sobre a morte de Sara, agora era visceral. Não me lembro dele ser tão próximo de Lunna assim. – Ela foi uma heroína, você a treinou bem – Dam engole em seco e passa a mão pelo rosto de forma brusca.
—Quem a matou?
—O garoto que te trouxe – murmura a resposta entre dentes e mais uma vez a reação de Lunna ao se despedir toma minha mente. Eu coloquei o ultimo prego em seu caixão ao ignorar seus instintos. Mas ainda tem algo estranho nessa história, sei que Damian está omitindo uma grande parte.
—Por que um hacker lutaria contra um velocista? – aquilo não faz o menor sentido. Lunna é durona, extremamente rápida se comparado a um humano normal, a treino para isso, mas não espero que lute contra um velocista maligno sozinha. Por que Isis concordaria com algo assim?
-Queria saber o futuro só uma vez, queria o deter assim que colocou os pés no Bunker! — Dam solta perdido em meio a revolta, ignorando minha pergunta no processo.
—Se alguém tem culpa nisso, sou eu – digo com a voz seca e mesmo sem concordar verbalmente, ele não se dá ao trabalho de me contradizer. – Como ela morreu? – novamente não parece querer contar, me encara com os olhos trêmulos e balança a cabeça em negativa. – Damian!
—Acredite, é melhor não saber. Eu adoraria ter essa opção – solta um suspiro cansado.
—Dam! – exijo e vejo seus ombros penderem em derrota.
—Ele a atravessou como se fosse uma parede, sem fazer o lance de vibrar no processo – engulo em seco. – Correu através dela, não teve nada para um velório ou qualquer coisa que pudesse ser enterrada de seus restos mortais, Lunna virou uma poça de carne e sangue – meu estômago revira em resposta. – Encontramos sua aliança, mas foi só isso. Phillippe a usa em uma corrente no pescoço desde então. Connor preferiu que ficasse com ele, achou que assim ela um dia acabaria com Gab, na hora certa, quando seu filho crescesse.
Deus! Minha mente fica em branco e mal consigo formular um pensamento coerente. Quando finalmente recupero minha linha de raciocínio me obrigo a questionar.
-E Connor? – pergunto depois de algum tempo.
—Ele morreu a seis meses, em uma incursão que fez com Dick e Babs – a voz dele parecia tão morta quanto as pessoas da qual falava. – Queriam resgatar o Impulso – aponta para o meu sobrinho que parece um pouco melhor, mas ainda é o retrato de alguém a beira da morte. Anos, ele estava sendo torturado por anos. – Perdemos todos eles, mas enviaram a localização do cativeiro, não que tenha sido útil. Babs conseguiu instalar um vírus no servidor deles que apagaria qualquer registro nosso em câmeras de vídeo, ou qualquer outra forma digital que usassem para nos rastrear. Connor e Dick ganharam tempo, mas sabe como eram. Muita marra contra superpoderes é até eficiente para ganhar tempo, mas não exatamente um meio de exterminar o problema.
—Aquele mago os matou? – esfrego meu rosto, sentindo minha pele formigar devido a toda a eletricidade que meu corpo produzia diante do meu estresse.
—Encontraram o velocista clonado com ele – ergo a sobrancelha. – Inércia é um clone de Bart que Thawne criou em laboratório – o desprezo volta a ser aparente em seu rosto. – Não sei dos detalhes, tudo explodiu e nenhum dos três sobreviveu.
—Parece uma chacina sem motivos – minha vontade é bater minha cabeça contra a parede.
—Não é sem motivos. Você ainda não entende, mas é importante que Fausto nunca consiga colocar suas mãos em Halo – diz com seriedade. – Todos nós pagaríamos o preço necessário sem pensar duas vezes.
—Ela disse algo sobre não poder morrer – comento o vendo comprimir os lábios.
—Não pode, mas é ainda mais importante que os demônios e o Fausto, nunca consigam matá-la. Mesmo que sua morte dure poucos minutos.
Não tenho coragem de perguntar como ele sabe disso. Não quero mais uma imagem mental para fazer parte da minha galeria particular de pesadelos eternos. Não quando esse pesadelo envolve minha filha.
—As coisas mudaram aos poucos, nós mal conseguimos perceber, mas em um instante todos que conseguiram sobreviver as três ondas de suicídios, passaram a lidar com perigos muito piores e viver escondidos para não serem pegos ou alistados a força ao exército de Fausto e os demônios. Politica, economia, até mesmo entretenimento, eles se infiltraram aos poucos e quando percebemos era tarde demais. Conseguimos salvar poucas pessoas, que agora vivem em uma espécie de comunidade escondida do resto do mundo. Somos a última esperança deles, Wally – Damian volta a falar, me arrancando dos meus pensamentos cheios de auto piedade.
—Por que não me impedi de chegar aqui?
—Você já tentou parar isso de todas as formas – agora soava como alguém exausto. – Tentou se parar, parar eles, acho que já tive essa conversa com aquela versão sua um milhão de vezes – aponta para a maca onde uma versão seriamente desidratada minha se encontrava.
—Mas não adiantou – concluo descendo da maca, paro ao lado do corpo inconsciente de Bart, Dam desce o domo dele e posso segurar a mão do meu sobrinho, vendo horrorizado as cicatrizes tão profundas em seus pulsos que nem mesmo nossa habilidade de cura foi capaz de apagar.
—Nada funcionou, por que não deve ser parado no futuro – ele murmura com a primeira chama de esperança que reconheço desde que o vi aqui. – Precisamos fazer isso quando voltar, dessa vez juntos.
—Acha que podemos impedir isso? – murmuro passando o dedo sobre a marca irregular e escura no pulso de Bart.
—Preciso que impeça – Damian respira fundo. – Perdemos tudo, não quero isso – puxa a manga de seu uniforme. – Grayson é o sucessor do meu pai, eu deveria estar usando o manto dele quando chegasse a hora, e mesmo assim iria odiar. Quero que Dick conheça meu filho, que inferno Wally, quero que Lunna esteja esperando no corredor do hospital quando Isis for ter esse bebê e sei que ela vai precisar do irmão ao seu lado. Você e Halo precisam de Sara, nada disso está certo.
—Você e Lunna, não eram assim tão próximos – comento e ele solta um riso seco.
—Acho que de tudo o que sua escolha de viajar para o futuro gerou, essa é a única consequência que me faz ter vontade de te agradecer – bom, ele ainda elogia em meio a insultos, por algum motivo isso é reconfortante. – Ela foi uma irmã, me aceitou com todas as minhas falhas sem nem mesmo perceber nenhuma delas, ou percebia e não se importava.
—É, ela costuma fazer isso – sussurro sufocado pela culpa. – Você tem um plano? – questiono, ao perceber que ele começava a vigiar as horas.
—Tenho, mas vai ser uma merda.
—Se puder me dizer o que nesse tempo que, não é uma grande merda.
—Sabemos onde os demônios vão surgir, e vamos lá morrer tentando impedi-los – é o mesmo foco suicida do Bruce, já consigo até adivinhar o que vem a seguir.
—Quer que eu deixe vocês antes que morra ao seu lado – concluo e ele assente.
—Mesmo se nos ver ser despedaçados Wally, mesmo se for os filhos do Dick ou a Halo, você tem que voltar no tempo e esperar o momento em que vai conhecer sua filha, não pode agir antes disso. Impedir a morte de Lunna é a chave, sei que existia mais no seu sacrifício do que nós percebemos. Ela descobriu algo que nós não fomos capazes. Mas quando Lunna caiu, nós fomos juntos como um bando de dominós. Nenhum de nós pensava direito, deveríamos ter prestado atenção antes, mas agora é tarde demais para todos nós, mas não vai ser tarde para você evitar tudo isso.
—Se é o único jeito – murmuro e ele assente quase aliviado.
LUNNA
—Vou ficar bem – sussurro baixinho, sentindo os braços de Isis ao meu redor.
—Não consigo ver nada, Lu – reclama parecendo com Felicity ao se frustrar. – Odeio isso.
—Lunna é muito boa – Damian se aproxima, passando o polegar sobre o lábio inferior arruinado, aquilo causa um aperto de culpa em meu peito, independente do brilho orgulhoso em seu olhar.
—Não duvido disso – a pequena Queen argumenta, se apoiando nos braços do namorado. – Só não gosto de todas essas missões separadas.
—Sua visão foi o que levou a essas divisões – Dam a lembra, recebendo um olhar cortante como resposta.
—Posso ser parcialmente responsável por algo, e ainda assim detestar – reclama emburrada e não consigo não sorrir em resposta.
—Sei que não tenho que dizer isso, mas fiquem de olho no Connor e na Sara quando estivermos longe – olho para os dois que assentem concordando.
No mesmo momento, Connor e Sara aparecem no sentido contrário do corredor. Ele se mantinha firme, em sua pose de líder, quase sem expressão. Já Sarinha abraçava o próprio corpo, e tinha seus olhos grandes e escuros cheios de preocupação. Esconder sentimentos nunca foi a praia dela, e talvez seja o que mais admiro em minha melhor amiga.
—Sempre mire a garganta quando for lutar com alguém maior, se não alcançar, lembre-se do truque sobre pressionar o nervo do ante braço, pode fazer com que perca momentaneamente as funções motoras – sussurra em meu ouvido ao me abraçar. – Vilões gostam de falar, sei que não é do tipo tagarela, mas pode aproveitar esse momento para analisar todas as opções – nos afastamos e ela mantêm as mãos em meus ombros, com seu olhar intenso preso ao meu rosto. – Volta inteira, entendeu?
—Sim senhora – sorrio com meu peito transbordando de afeição por todos eles. – E seu marido?
—Atrasado como sempre – dá de ombros, se afastando para dar espaço ao Connor.
Ele apenas me abraça, como se sua sanidade dependesse disso, seus braços fortes se fechando ao meu redor como se nada no mundo fosse capaz de me tirar deles. Memorizo a sensação de segurança, a forma como meu corpo se molda perfeitamente ao dele e respiro o quanto posso de seu cheiro. Começa a se afastar, apenas o bastante para colar sua testa na minha. Seus olhos azuis sondando cada detalhe do meu rosto, acaricio sua face, vendo um sorriso quase automático moldar seus lábios.
—Eu amo você – declaro e ele assente, parecendo não conseguir encontrar a própria voz.
Connor me beija como se o mundo estivesse prestes a acabar, e mesmo constrangida com a plateia a nossa volta, só consigo retribuir, em meio a toda aquela intensidade que emanava dele. Nada no mundo é melhor que seu gosto, quando sua mão grande e cálida segura minha nuca inclinando minha cabeça da forma que desejava, me movo de forma instintiva apertando minhas mãos em suas costas, sobre a camisa branca de malha que usava, tão fina que conseguia sentir o calor agradável de seu corpo.
—Hum, eu não quero continuar vendo isso – a voz de Isis nos puxa de volta a realidade e ela é seguida por um murmuro teatral de dor e uma risadinha debochada do Damian. – Sarinha! – reclama.
—Para de ser pirralha! – Sara ralha com a pequena Queen, como se fosse a Nina fazendo arte. – Ninguém está te mandando olhar!
—Preciso te deixar ir – Connor murmura, completamente alheio a pequena discursão a nossa volta, seus olhos totalmente focados nos meus.
Me soltar de seus braços foi a coisa mais dificil que fiz nos últimos tempos, mas de alguma forma eu consigo dar as costas a eles, e não me atrevo a olhar para trás. Sigo pelo corredor escuro de uma parte isolada da Casa dos Mistérios. Quando viro à direita uma porta brilha e vou em sua direção. Entro no local e sinto uma rajada de vento ao meu lado, Wally.
—Por que continua usando a velocidade humana? – pergunta olhando em volta.
—Você é acostumado a se mover na velocidade da luz, eu na de tartaruga – dou de ombros. – Temos preferencias diferentes.
Estávamos em um lugar que me lembra a versão da Sala Precisa em que Harry escondeu o diário do Tom Riddle. Estantes com livros estavam dispostas pelo local, sem nenhuma ordem lógica, mesas com artefatos e algumas esculturas. Acho que se procurar posso até mesmo encontrar uma das jaquetas que Sara rouba de Connor no meio do entulho. Vemos um brilho parecido com um portal e Constantine aparece batendo o pó de suas roupas.
—Chegaram! – cumprimenta com um sorriso cordial. – Vou contar as duas partes de suas missões, mas preciso que entendam que se falharem nisso, tudo o que os outros fizeram até agora será inútil.
—Ótimo, sem pressão – murmuro cheia de sarcasmo.
—O que vamos fazer? – Wally toma a frente, no modo 100% herói.
—Se são inteligentes como deixam transparecer, já devem ter percebido que duas coisas são constantes em todas as missões que sua equipe tem feito – fala com o semblante fechado.
—Linhas do tempo e nossas ligações – murmuro sem conseguir conter o impulso de dar uma resposta quando questionada, Constantine assente, parecendo orgulhoso.
—Você não é só um rostinho bonito – comenta, mas a seriedade em toda a sua postura não parece fazer sentido com sua declaração. – Rath, Gast e Abnegazar são demônios temporais.
—Passado, presente e futuro – Wally faz careta e o ocultista volta a concordar.
—Peguem isso – me entrega um disco prateado parecendo uma moeda e dois para Wally. A moeda brilha em minha mão e parece se fundir pele do meu pulso em seguida, percebo a do Wally fazer exatamente o mesmo, restando apenas uma em sua mão.
—O que é isso? – pergunta com seu tom naturalmente desconfiado quando o assunto é qualquer coisa que envolva magia.
—É um receptáculo de sacrifício – Constantine começa a explicar e sinto todos os cabelos de minha nuca se eriçarem. – Não esse tipo de sacrifício, ninguém precisa morrer. Os ciclos desses demônios se dão por sacrifícios de morte, o que vocês carregam na pele é o inverso, representam vidas poupadas por pequenos atos – acrescenta vendo a expressão do West. – Pequenos momentos são quase divinos na vida humana, como quando mesmo machucada compareceu ao jogo do seu irmão, ou se colocou em risco para evitar a morte de Sara – me observa por um instante. – Quando Iris o deixava na fábrica do mostro que te criou, por não ser hora de te buscar ou como não desistiu da vida de uma amiga – se vira para o Wally. – E tantos outros. Precisarão pedir três sacrifícios para as pessoas que os amam, eles vão preencher os receptáculos que os manterão estáveis na luta.
—Estáveis?
—Somos velocistas, não existe tempo que nos prenda – Wally parece entender as dúvidas crescentes em meus olhos. – Parece que essas moedas, presas a nossa carne vão nos estabilizar assim que pagarmos o preço por isso – é claro o quanto ele está odiando o plano.
—Preço? – murmuro baixinho.
—Sim amor – Constantine começa. – Toda magia tem um preço e vocês não vão gostar nada desses. Mas fiquem calmos, esses sacrifícios já foram feitos, vocês só precisam usar a inteligência para conseguir distinguir cada um deles, assim não alteram nada no passado, presente ou futuro que conhecem.
—O que faço com a moeda que está sobrando? – questiona Wally, balançando o objeto entre os dedos.
—É a segunda parte do plano, sabe quem precisa buscar – agora o mago parecia realmente desconfortável. – Isso vai protege-la, apesar do corpo indestrutível, sua alma é frágil e preciosa demais para arriscar. Desejo sorte a vocês e que os deuses tenham piedade – aceno em agradecimento e Wally faz o mesmo ao meu lado, então John já estava ocupado em algum feitiço para nos enviar ao local correto.
—É isso então – suspiro. – Vamos para o passado?
—Depois para o futuro – Wally completa estalando o pescoço. – Sabe como usar isso? – aponta para o anel, com o uniforme que Cisco me fez, não sei por que ele colocou uma dezena desses em uma mala enorme, com um vídeo tutorial que eu adoraria “desver”. Cheguei a sentir gratidão quando aquela coisa se auto destruiu.
—Cisco fez questão de explicar com mínimos detalhes – faço careta. – Por sinal, se já tive qualquer quedinha por ele, isso – levanto o anel, bloqueando as imagens mentais do tutorial de Raimon em minha mente. – Acabou com qualquer resquício.
—Sinto muito – murmura prendendo o riso. — Pronta?
—Vamos só acabar com isso de uma vez – faço careta andando na direção do portal que John acabou de abrir.
WALLY
Ano 2048
Motivo 1005 para odiar magia: Geralmente envolve coisas mortas e fedorentas.
Somos deixados pelo Batwing no alto de uma torre em Metrópoles, acho que aqui costumava ser o planeta diário, mas é dificil deduzir quando tudo é entulhos e ruinas em volta de uma imensa cratera onde nem mesmo as plantas nascem mais. Precisei assistir Isis se despedir de Damian, Halo e dos Grayson com a certeza da morte deles em seus olhos idênticos aos do meu padrinho.
Ela me abraçou apertado e foi se sentar ao lado de minha versão esquelética que ainda estava em uma maca no Bunker, as mãos repousando sobre a barriga. Connor, era o nome que haviam escolhido para o garoto, Damian disse isso para ela antes de sair, logo depois de abraçar Gab como se estivesse perdendo um de seus membros. Connor é mesmo um nome legal, mas o filho dela pode chamar Will, Marlon, ou qualquer outra coisa, pois Connor vai estar vivo quando ele nascer.
Vou garantir que todos eles estarão. Sinto uma mão fina tocando a minha e Halo está ao meu lado, entrelaça seus dedos nos meus e não sou capaz se quer de abraça-la, me recuso a me despedir da minha filha. Não tive tempo o bastante para ser seu pai, não ainda.
—Acho que me sinto como meu pai hoje – Chloe diz com uma voz animadamente mórbida, o que não é exatamente coisa do Dick, mas da Babs.
—Parece insana como ele – Dam sorri para a sobrinha que sorri de volta, os olhos elétricos brilhando intensamente.
—Fui seu único Robin, isso é muito maneiro – Al estava ladeando o Batman, a visão é mesmo incrível. – Acho que não sobreviveria até hoje se não fosse por mim – diz com um deboche característico do pai.
—Não conseguimos deixar de ser bons – Dam diz encarando os dois sobrinhos, depois se foca em Al. – Você foi notável, Robin. Menino prodígio, Alfred.
—Somos os melhores – Al sorri com seus olhos cinzas brilhando, o discurso dos dois faz minha garganta se fechar, era o que Damian e Dick diziam um para o outro, quando Grayson era o Batman e ele o seu Robin. O que sempre falavam em meio a uma batalha de vida ou morte. Dam repetiu as exatas palavras para o filho de seu irmão. Merda, eu não gosto nada do desenrolar desse atual futuro.
—Chega dessas despedidas estranhas de vocês – murmuro depois de limpar a garganta, dando um passo para frente levando Halo junto. – Ninguém está autorizado a morrer hoje, me entenderam?
Vejo três pares de sobrancelha se erguerem, todos me julgando ao mesmo tempo, mas minha filha aperta minha mão e assente com um sorriso tranquilo nos lábios. Então caminhamos em direção a morte certa.
CONNOR
Essa casa é realmente bizarra. Assim que Wally e Lunna partiram, meu quarto tremeu por inteiro e metamorfoseou no meu antigo quarto em Central City, por Buda, eu nem mesmo consigo caber nessa cama. Havia um poster do Flash sobre uma cama infantil, com edredons vermelhos. Meu antigo arco e flecha de brinquedo pendurado abaixo de minhas prateleiras, cheias de bonecos de ação, intercalados com livros variados. Fui uma criança bem estranha, muito mais para o lado nerd ao extremo do que o que sou hoje. Acho que Lu iria curtir aquele moleque. Nós com certeza seriamos amigos.
Em cima da minha escrivaninha havia uma foto minha entre minhas mães. Sandra e Felicity beijavam meu rosto, estávamos atrás de um bolo de aniversário com uma velinha de nove anos, eu adoro essa foto, mas ela nunca saiu desse quarto. Bom, hoje ele tem paredes brancas e um conjunto simples de moveis em madeira escura, a foto continua em uma mesinha de cabeceira. A casa é quase a mesma, por mais que minha mãe não passe mais do que quatro meses por ano em Central, desde a morte do meu padrasto. Talvez eu deva tentar convencê-la mais uma vez a se mudar para Star City, acho que a deixo muito solitária, uma ligação por semana não pode ser suficiente, preciso transpor essa maldita barreira.
É isso.
Tenho algum tempo e esse quarto precisa estar tentando me dizer algo. Pego minha jaqueta e abro a porta dando de cara com minha irmã prestes a bater. Isis sorri, depois franze a testa ao ver que estava de saída.
—Onde nós vamos? – questiona com ar de desafio e prendo o riso.
—Se quiser vir comigo, não vou impedir – dou de ombros a caminho da porta. – Vou ir ver a minha mãe.
—Mamãe? – joga os cabelos para o lado, me encarando através deles.
—Hum, Sandra – agora ela ergue a sobrancelha, não costumo me referir a Sandra como mãe ao falar dela para outra pessoa, não normalmente. Mas Isis ajeita a jaqueta que usava e continua a me seguir. – Meu quarto se transformou em meu antigo quarto em Central City, o de quando tinha pouco mais de nove anos, julgando pela foto na escrivaninha – no fim já estava falando sozinho, mas o bom da minha irmã é que como ela sofre dos mesmos devaneios, raramente me interrompe.
—Não estou tendo visões, ao menos não sobre o nosso futuro, não quando estou dentro dessa casa – murmura, e também não tenho certeza se falava comigo. – É, parece que é dificil para a Katoptris prever qualquer futuro quando estamos em uma brecha temporal.
—Faz sentido, não estamos ocupando o tempo e espaço. Não há nenhuma vibração temporal para que ela possa captar – já estava de frente para a porta de saída, mas Isis me encarava de queixo caído. – O que foi?
—As vezes me esqueço que você é inteligente.
O mais ofensivo em sua declaração é que não era uma ofensa. Reviro os olhos e abro a porta, me sentindo benevolente o bastante para deixar passar, ao menos dessa vez. A casa nos deixa em uma Central City fria, o que é estranho. O céu estava nublado, quase cinza, como se uma tempestade estivesse a caminho. Isis aperta a jaqueta no corpo.
—Quer a minha? – começo a abrir o zíper, mas ela apenas nega apontando para minha casa do outro lado da rua.
Atravessamos em silencio, e toco a campainha. A luz da sala está acesa, então ela está em casa, mas depois de quase um minuto, nada. Isis e eu nos entre olhamos e ela me passa seu canivete, preso a um chaveiro. Me abaixo e abro a fechadura sem esforço, já ficando alerta. Nos separamos, ela vai em direção a cozinha e eu subo as escadas para o segundo andar.
—CONNOR! – minha irmã grita correndo em minha direção com sua adaga em mãos. – Rápido, no seu quarto!
Corro passando pelo corredor tão rápido que deslizo alguns centímetros ao frear. Ao passar pela porta tenho a pior visão de toda a minha vida. Minha mãe, pendurada no ventilador de teto. Seu corpo tremia com espasmos e corro em direção a ele sem hesitar, agarrando suas pernas. Suspiro aliviado ao constatar que ela ainda estava quente.
—Isis, chama uma ambulância – murmuro em um fio de voz.
Puxo a cadeira que ela deve ter usado para se prender ali, a mantendo segura em um dos meus braços e a coloco sobre a madeira, antes de subir e a soltar. Minha mãe tosse, mas não parece conseguir puxar o ar, a deito no chão e começo a prestar os primeiros socorros, suprimindo o pânico que só crescia em meu peito.
—Por favor, por favor – repito sem parar, as palavras embargadas de desespero.
—Estão vindo – escuto a voz de Isis, mas meus olhos se mantêm na mulher de cabelos escuros e o rosto ainda tão jovem para a idade. – Con, ela vai ficar bem – novamente a escuto, mas não paro de soprar ar nos pulmões da minha mãe biológica para poder responder. – Vou chamar a mamãe, você provavelmente vai querer ela por perto.
WALLY
2048
Três figuras humanoides monstruosas destruíam tudo em um raio de cem quilômetros. O maior tinha pele vermelha e era tão feio quanto Trigon, talvez sejam parentes, tem a mesma quantidade exagerada de olhos na cara, sua imagem parecia tremeluzir como se uma brisa densa a empurrasse para trás, quase a ponto de o desfazer. O segundo era roxo em um tom apodrecido, tinha escamas que pareciam muco verde tom meleca e olhos grandes demais para o rosto oval. O terceiro era meu preferido, o apelidei de fedorentinho. Era o menor dos três, uma bolinha de três metros marrom, mais feio que bosta e tem alta velocidade, um charme só.
—Se curvem! – o mago magrelo gritava isso pela milionésima vez, completamente esquecido no churrasco. Nenhum dos demônios parecia estar disposto a ser seu pet. – Curvem-se seus seres desprezíveis!
Bom, agora ele se fez ser notado. O maior de todos, vermelhão o acertou com sua mão gigante como se fosse uma mosca. Era uma vez o Palitão. Thawne estava correndo do fedorentinho, mas o monstro só se divertia com ele, Inércia nem mesmo estava presente. Algo pareceu mudar em meu julgamento sobre ele depois que soube que foi quem matou Lunna, aquele olhar no vulcão não era o de um assassino frio.
Sem o Palitão a atenção deles pouco a pouco se tornou nosso grupo. A luta foi ridícula, não teríamos a menor chance, Thawne foi despedaçado pelo fedorentinho que me julgou um brinquedo mais novo do que o Bananão, e o bicho era realmente rápido e forte. Mal vi quando surgiu a minha frente e me lançou contra a parede, sua presença parece acida e posso sentir partes do meu uniforme se desfazendo, senti o sangue fluir em minha garganta, enchendo minha boca do líquido viscoso. Uma luz roxa me parou antes que batesse na viga, anestesiando a dor sufocante em minhas costelas e vi Halo flutuando em meio aos três, atacando todos ao mesmo tempo, enquanto ainda me salvava.
—Essa garota não é humana – murmuro admirado. Linda seria eufemismo naquele momento, Halo era uma divindade, pairando sobre o ar, com o rosto focado sem nenhum traço de ódio ou raiva apesar da batalha brutal que travávamos.
—Sua filha é uma semideusa – escuto Damian dizer, mas ele rapidamente se lança em frente a um raio verde melequento, que estava indo na direção do Al. O barulho vem antes da cena de fato, um creck ensurdecedor. Seu corpo cai, o pescoço pendendo para o lado em um ângulo estranho... Dam, meu Deus, Damian estava morto!
Al congela encarando o tio e o puxo rapidamente evitando outra rajada. Sem tempo para sofrer pelo Wayne, sufoco toda a minha vontade de gritar. Começo a contra atacar, mas era o mesmo que bater em edifícios enormes com chinelos de dedo. Pedaços de um uniforme vermelho e preto caem diante dos meus olhos, pesados, cheios de uma gosma vermelha e Halo encarava horrorizada o maior de todos os demônios, que desmembrava Chloe como se ela fosse uma boneca de massinha.
—Meu Deus – é só o que consigo dizer, mas algo cresce em meu peito e sinto a Força da Velocidade em seu auge, formo um raio e o lanço em direção ao fedorentinho, que se desintegra. Minha pele passa a formigar, não devo ser nada mais do que um borrão aos olhos humanos normais. A velocidade crescia sem freios dentro do meu ser, nunca antes senti tanto poder em meu corpo.
Halo estava mantendo Robin e eu sob uma aura vermelha, mas continuava a atacar os outros dois. Avanço em direção ao segundo demônio, mas a aura me puxa para trás. – Não! – ela grita em meio ao choro.
—Halo, precisa me deixar ajudar! – protesto tentando vibrar sua barreira para transpassa-la.
—Não! – repete agora com tanta força que o ar ao seu redor tremula, meu corpo começa a acelerar contra a minha vontade, vejo seus olhos, luzes amarelas cheias de emoção, por um segundo antes de ser lançado em direção a uma brecha temporal. Ela abriu a Força da Velocidade?
A última coisa que vejo é um sorriso triste no rosto que nunca mais sairia dos meus pensamentos. Então estou correndo em meio ao tempo e espaço, sem controle, ela estava me fazendo voltar para meu tempo e só Deus saberia me dizer como.
Me vejo novamente no Bunker, meu sangue esfriando e eu começando a sentir todo o estrago que aquela luta havia provocado, agora que não tinha mais a aura da minha filha que parecia me manter sobre o efeito de morfina durante a maior parte da batalha, não, aquilo não foi uma batalha, foi um massacre. Todos estão exatamente como deixei, olhando para o local onde havia partido. Halo me envio para o momento exato. Cinco pares de olhos me encaram preocupados.
—Sentiram minha falta? – murmuro, minha voz entrecortada pela dor latejante em todo o meu corpo. Todos eles correm em minha direção por reflexo.
—Ai meu Deus! – é a voz de uma Lunna apavorada, o som me faz sorrir.
—Precisa ver o outro cara – digo reconhecendo os olhos castanhos e lindos de quem me segurava. Sorrio para Sara, mesmo com seu rosto angustiado eu não consigo imaginar como seria possível alguém ser mais linda do que ela. Engasgo, e acho que tem sangue saindo por minha boca.
—Ele precisa de atendimento médico – Isis, sua voz sem o peso da dor e luto soa como música.
Lunna murmura algo em resposta, mas estava ocupado demais olhando para minha esposa. Concentrado em sua respiração, apenas isso poderia juntar meus pedaços no momento. Elas estão vivas, Connor e Damian me levantam e por um breve momento concentro meu olhar no rosto do cara que considero meu irmão. Ele disse que sentia algo errado antes da minha viagem. Acho que preciso passar a te escutar melhor, Hawke.
FELICITY
Oliver e eu entramos no hospital de Central City, ele se esforçando para não mancar. Havia tomado uma bela surra de alguns capangas do Fausto, o filho de um pai ausente anda recrutando os bandidos de Gotham, de todas as cidades disponíveis o desgraçado precisava se engraçar com os do pior tipo. Mas isso não importa, nada importa quando recebemos a ligação de nossa filha.
Isis corre em nossa direção, estava nos esperando na entrada, os olhos e ponta do nariz vermelhos, mesmo que não deva ter soltado nem uma lágrima se quer. Ela não vai fazer enquanto o irmão estiver demonstrando tanta fragilidade. Tento absorver a maior parte do impacto quando ela se joga em nossos braços, mas ainda escuto um gemido de Oliver sendo reprimido com esforço.
—Oi princesa – diz alisando os cabelos da nossa garotinha. Ela abre um sorriso radiante, mesmo parecendo querer chora, sorriso do tipo que arranca um suspiro do pai.
—Filha, o que foi que aconteceu? – questiono.
—Connor de repente quis ir ver a Sandra – dispara. – Eu o encontrei e bom, não queria o deixar sozinho com Lunna em missão, pensei que ele precisasse que estivesse por perto, mas ele estava saindo e eu só o segui. Seu quarto se transformou no quarto de quando ele tinha nove anos, disse algo sobre uma fotografia...
—Isis! – Oliver a interrompe. – Direto ao ponto, querida.
—Claro – sacode a cabeça. – Ela não atendeu, então ele abriu com meu canivete e Sandra estava pendurada no ventilado de teto do quarto dele – sua voz vai morrendo e sinto minha garganta se fechar, as coisas girando em minha volta.
—Hon! – a mão de Oliver me firma e me forço a respirar de forma ritmada.
—Sandra não faria isso – balbucio me soltando dele, já indo na direção dos quartos. – Falei com ela ontem a noite, combinamos uma visita para que conheça a Nina, assim que toda essa loucura acabar – continuo tagarelando, isso me acalma, me ajuda a colocar a cabeça no lugar.
Nessas horas eu entendo um pouco dos super poderes que a maternidade nos concede. De alguma forma meu instinto me guiava ate meu menino. Isis andava passos atrás, abraçada ao pai, mas em momento algum corrigiu o caminho que fazia. O vejo, e é como ter meu coração despedaçado. Connor estava em uma cadeira de frente para a porta de um dos quartos. Os braços apoiados nos joelhos, escondendo seu rosto entre as mãos, ele parece sentir a aproximação e levanta a cabeça parecendo ter que se esforçar para concluir esse simples ato.
—Mãe? – me encara confuso e sorrio da forma mais doce que consigo, me abaixando em sua frente e o envolvendo em meus braços.
—Isis me chamou, vamos esperar com você – sussurro acariciando seus cabelos.
—Não estavam ocupados?
Deus, sua voz está como a de Oliver, quando John e eu o encontramos em um galpão abandonado no dia do enterro de Moira. Olho para meu marido que se apoiava em Isis para conseguir se manter sobre suas pernas, não sei se pela dor física ou por ver o estado do nosso filho.
—Nunca estamos ocupados para vocês – ele diz, chamando a atenção de Connor para sua presença e Isis o ajuda a andar até a cadeira ao lado do filho.
—O que aconteceu com o senhor?
—Não tem que se preocupar comigo agora – Oliver sorri com tristeza. – Estou bem, já apliquei o soro da Caitlin, vou estar novo em folha em poucas horas. Teve alguma notícia?
—Os médicos disseram que chegamos a tempo, mas o cérebro dela ficou sem oxigênio por alguns segundos, estão fazendo uma bateria de exames – responde voltando a apoiar a cabeça em meus ombros.
—Família de Sandra Hawke? – escutamos uma voz desconhecida e todos nós erguemos nossos olhos em sua direção. O médico que deve estar em seus cinquenta e poucos anos, com ar cansado, nos observa com pesar.
—Sou filho dela – Connor se levanta, segurando minha mão.
—Sua mãe está bem, fisicamente – começa a dizer. – A transferimos para a ala psiquiátrica.
—Psiquiátrica? – repito incrédula.
—Bom, estamos quase lotados por lá – ele murmura em um quase desabafo. – Se quiser a ver, já vai estar despertando em alguns minutos, mas precisa estar preparado.
—Por que? – Connor questiona entre a confusão e o desamparo.
—Se for como os outros vinte casos anteriores, ela vai tentar concluir o ato assim que abrir os olhos – pronuncia cada palavra com cuidado, e me dou conta do que se trata. Precisando me esforçar para manter minha expressão intacta.
—Tentativas de suicídio, não são surtos de gripe – escuto Connor dizer com sua voz lenta.
—Espero mesmo que não – o médico responde. – Vou leva-los ao quarto em que ela foi colocada.
O seguimos para outro andar, andamos por diversos corredores e quase travo ao entrar na ala psiquiátrica que parecia muito mais a sala de espera de um pronto socorro. Pessoas se consolavam por toda parte, murmuravam que o parente nunca cometeria tal ato, buscavam uma justificativa. Tudo ao mesmo tempo.
—Ela está aqui – o médico diz com mão sobre a maçaneta de uma porta branca. – Não se assustem, precisamos tomar precauções pela segurança dela – avisa.
Entramos no quarto pequeno, com uma cama hospitalar no centro, onde Sandra ainda dormia. Ela é uma mulher bonita, a principio tudo o que reparo é em como parece o que imagino da Branca de Neve em seu sono depois de engasgar com a maçã, mas isso é só a primeira impressão. Seus braços e pernas estavam amarrados as laterais da cama, com ataduras grossas, para minimizar os danos que aquilo causaria. Connor se encolhe ao meu lado e escuto Isis arfar.
—Ela é um deles – meu filho sussurra com o olhar desfocado. – Mas o que ela poderia querer em troca?
—Não tenho a menor ideia, meu amor. Mas prometo que vou descobrir – declaro com uma certeza sobre humana.
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