PARADOXO - Seson 3
25 Capitulo 22 - Metamorfose
Notas iniciais
ISIS
A parte engraçada dessa situação é que o diabo em pessoa está me mantendo sobre meus pés, segurando meu cotovelo enquanto observamos uma Isis de meses atrás, que era inocente e boba o bastante para cair na conversa fiada de qualquer pessoa. Lucífer estava no céu, bom, não sei se isso é apropriado, mas ele nos encarava como quem encara o passatempo preferido.
—Seu namorado simplesmente saiu em um restaurante desses? – Phoebe olha em volta e dou risada, provavelmente estava achando hilário a descrença dela sobre algum motivo forte o bastante para atrapalhar um encontro e eu estar tão de boa. – Sabe que se não for um encontro às cegas, isso só pode significar pedido de casamento, ou morar juntos!
-Não tenho nem vinte anos – respondo com risinhos. – Nós temos nossa própria forma de compromisso – meus olhos vão automaticamente para o anel negro em minha mão.
—Isso é bem legal – sorri com uma delicadeza encantadora.
Phoebe não é exatamente o que se descreveria como bonita, mas ao ver seu sorriso consigo entender o que foi que Damian acabou vendo nela. Seu rosto é redondo, mas as bochechas apontam para os lados, não para frente, como se estivesse inchada por algum motivo. Os cabelos são lindos, ondulados e escuros, do tipo que qualquer uma teria que dormir de bobs para conseguir. Tem olhos pequenos para o restante do rosto que fica parecendo maior do que deveria, de um azul meio desbotado. Sua boca é grande, não carnuda, ela tem lábios finos, mas largos. Mas o nariz é lindo, empinado dando a ela um ar de inteligência que ninguém questionaria. Usava um vestido largo laranja, de corte reto, bonitinho. A deixava elegante.
—Ela não tem nada de atraente – Lucífer murmura quando nós duas começávamos a falar sobre amenidades sem importância. – Seu namorado é estranho.
—Acho ela fofa – nem sei por que estou defendendo, mas é estranho ficar julgando a aparência de uma garota e esperar que alguém a escolha por seus atributos físicos, pelo que Sara e Babs me contaram a menina é um gênio.
—Hum, lealdade feminina – ele sorri com deboche claro, mas ignoro. – Tem que confessar lindinha, os dois juntos, precisava ter alertado você. Pela forma que se olhavam a pouco, vocês têm o tipo de ligação que não é só física.
—Bom, não acho que sejamos destinados e essas coisas como meu irmão e a esposa dele, ou Sara e Wally. Dam nem deveria estar vivo, e se não tivesse sido morto nós teríamos uma grande diferença de idade. Acredite em mim, já vi dezenas de versões nossas, de dezenas de terras diferente, nenhuma se atrai pela outra além de nós dois.
Quando termino meu discurso apaixonado, estou sem fôlego. Lucífer me encara com um jeito engraçado, como se quisesse saber se não começaria a chorar em algum instante. Ele olha para o teto, abre e fecha a boca como se quisesse dizer algo, mas desistisse no meio do caminho.
—Você não faz o tipo que hesita – reclamo, agora minha outra versão e Phoebe estavam falando sobre o cardápio, e por algum motivo aquilo era engraçado para nós duas. – Isis.
—O que? – me olha confuso.
—Perguntou meu nome ontem e confesso que fui bem preconceituosa em não dizer, sinto muito – agora ele sorria de lado, sem a lascívia que normalmente acompanha esses sorrisos. – Isis Smoak-Queen – estendo minha mão para um aperto, mas ao invés disso, ele a leva a seus lábios, dando um beijo cheio de charme que faz meu estomago revirar com cosquinhas. Uau! Ele é incrivelmente lindo.
—Sempre quis entender por que vocês humanos gostam tanto dessa história de predestinação, sinceramente, acho que é só uma desculpa para meu Pai brincar com sua cidadezinha de formigas como bem entende! – bufa indignado. – Eu pensei que tinha tudo o que sonhava, mas era só eu sendo manipulado mais uma vez por aquele... – solto uma risada e recebo um olhar cheio de ofensa.
—Ah, não estou rindo de você, me perdoe – murmuro entre o riso. – É só que eu falo do meu próprio pai com esse mesmo tom, e a mesma revolta! – rio mais, o que isso faz de mim no fim das contas?
—Também o odeia? – a esperança em seus olhos me faz sentir uma pontada de compaixão misturado a pena.
—Não vai gostar da minha resposta e por algum motivo, não quero te magoar – ele respira fundo, mas não insiste, deve ter percebido minha sinceridade. – Olha, minha cunhada é uma pessoa que acredita muito no seu Pai, sabia? – tento o distrair, só para tirar o olhar de tristeza do seu rosto, era de partir o coração.
—Querida, esse não é um assunto interessante – diz com uma delicadeza forçada que me faz sorrir. – Não me importo nem um pouco com seus parentes – seguros o riso, retirando o que disse sobre ser delicado, ele é sincero ultrapassando as barreiras da educação social.
—Não, não é isso! – continuo. – Ela não fica falando sobre você como aqueles religiosos loucos, sinceramente ela mal fala dEele, mas tem um jeito que – tento encontrar uma forma de explicar Lunna. – Ela não deveria ter toda aquela luz, não com a vida que teve as coisas que passou, mas eu fiquei imaginando como seria se ela te conhecesse.
—Quer assustar a cunhada beata – sorri animado outra vez. – Vamos fazer isso, não tenho nada em minha agenda quando você acordar!
—Não quero assustar a Lunna... – protesto, mas ele tapa minha boca e aponta para a mesa.
—Mitologia grega é fascinante! – Phoebe começa com seus pequeninos olhos brilhando de animação. – Encontrei esse livro gigantesco sobre a guerra de troia e pela primeira vez eles não pintaram a Helena como uma vadia por completo. Sabia que existia um motivo para o romance dela com Paris ter começado?
—Hum, não foi atração e oportunidade? – franzo o nariz e ela sorri aparentemente contente por minha ignorância.
—O pai dela hesitou muito em enviar o resgate, enquanto o irmão do rei, apenas usou o rapto da cunhada para conseguir um exército. Deram aos dois um tempo que não teriam se ela não fosse tratada como um objeto e não uma pessoa – sorrio, aquilo era realmente interessante. – Dizem que ela possuía a Katoptris, uma adaga que segundo a lenda pode revelar o futuro ao seu dono – minha versão engole em seco, e vejo minha mão desviar automaticamente para a coxa. – Algo de muito interessante ela possuía, ou não seria a dona de um objeto desses.
—Talvez fosse apenas azarada! – comento.
—Não, isso definitivamente não. Dizem que até seu interesse por Paris pode ter sido gerado pela adaga, bom, era nisso que o Rei Menelau acreditava quando implorou aos deuses uma forma de libertar a esposa amada das garras do Paris. Havia um mito sobre a adaga atrair pessoas que a protegessem, Paris definitivamente proporcionaria isso para ela.
—Talvez o que faltava em suas outras versões, fosse a sua adaga – Lucífer comenta, mas resolvo ignorar. Katoptris se pudesse escolher alguém por conta própria, definitivamente seria o Phill, ela e aquelas luzinhas todas nas mãos dele não me enganaram!
“Falou a garota que estava babando pelo diabo” protesta ofendida em minha mente. “Phillippe é lindo, não me culpe por gostar de olhar, até onde sei, isso não ofende ou caracteriza algum crime.”
—Vocês são próximas – ele volta a focar a atenção em mim.
—Somos a Katoptris – me limito a responder com meus olhos pregados na mesa a minha frente.
—O rei fez alguns sacrifícios – Phoebe continuava. – Com muito esforço ele conseguiu a atenção de Apolo, mas o deus o avisou que aquilo era perigoso e que havia um meio de ele ter um desejo realizado, mas o preço seria terrível.
“Aquele porco. Sacrificou as esposas de seus comandantes, uma a uma. Tirou o que os homens que lutavam suas batalhas mais amavam, em meio a sua busca egoísta por tirar a escolha que Helena fez de forma consciente. Minha prisão foi alicerçada a custo de sague de mulheres inocentes. Tudo o que lutamos para proteger. Uma afronta sem perdão!” A fúria da Katoptris era imensa, crescendo com a injustiça do ato em nosso peito.
—Ele teve o que mereceu, ainda está tendo. Como vai ser por toda a eternidade – Lucífer diz, os olhos com um brilho vermelho que me fez estremecer.
—Não é menos do que merece, uma eternidade pagando por seus crimes horrendos – minha voz duplicada o responde, Lucífer assente, em uma mensura formal. Levando a mão direita ao peito e inclinando levemente a cabeça em uma espécie de reverencia respeitosas.
—Ele pagou? – minha outra versão questiona, imersa na história que lhe era apresentada.
—Creio que sim, mas o livro não dava detalhes do sacrifício, só falava do objeto. Uma arca que pode realizar qualquer desejo ao prender a Katoptris, e que quebraria a ligação da adaga com o dono – ela sorri, para demonstrar como a história era ridícula, mas a cor havia desaparecido do meu rosto a esse ponto.
—Nos manipulou— Katoptris volta a dizer, aparentemente revoltada demais para permanecer apenas em minha mente. – Foi a isca perfeita, minha Isis estava balançada com a vida normal e tudo chegaria a seu ápice quando perdessem o Wally. Foi perfeito.
—Ela não parece saber o que está fazendo – argumento em minha voz normal.
“Ah, ela sabe bem o que está fazendo!” esbraveja a Katoptris.
—O que esperava? – Lúcifer questiona após um suspiro cansado. – Achou que sentiria a aura maligna enquanto ela está te manipulando para fazer o que deseja?
—Sinceramente, sim! – reclamo irritada. – Cheiro de enxofre, ou sei lá, uma voz masculina macabra! – isso o faz rir.
—Possessões são discretas, O Exorcista é um insulto a eficiência do meu pessoal.
—Sem vômitos verdes ou andar de costas pelas escadas? – finjo estar desapontada e bufa.
—E nada de cabeças girando, eles até fazem isso as vezes, mas só para poderem rir da cara de idiota de vocês! – ri como se aquela fosse a melhor piada do mundo, seus olhos chegam a soltar algumas lágrimas. – Claro que o corpo não sobrevive, então é uma manobra que usam para o grande finale!
—Isso é horrível! – o encaro esperando que ele perceba, o que o faz encolher os ombros e reprimir a animação em seu rosto.
—Tem um cara que jura que um tal de Senhor do Destino tem essa caixa escondida em uma espécie de casa magica – Phoebe solta mais um risinho.
—Pegamos ela! – Lucífer declara e estrala os dedos diante dos meus olhos.
LUNNA
—Isso é ridículo, não vou sair da cama agora – murmuro tapando minha cabeça com um travesseiro enquanto Connor tenta arrancar a coberta do meu corpo.
—Amor, precisa treinar, Wally já está aqui fora – sua voz suave soa quase torturada, sei que odeia me contrariar dessa forma.
—Wally está assustador, Connor! – reclamo me virando para encará-lo. – Nunca pensei que Damian seria o treinador bonzinho entre os dois.
Connor estava parado em frente a nossa cama, com uma calça de moletom cinza que parece peça de anuncio de revista no corpo perfeito dele. Seus cabelos curtos estavam espetados de um jeito fofinho e a cara de mau que ele tem por natureza completava a melhor visão do mundo que poderia desejar em qualquer manhã.
—Baby, não gosto de te obrigar a sair da cama para ir ver dois marmanjos, mas não saberia viver nem um dia se acontecesse qualquer coisa com você em campo – agora ele está apelando, e lá vem o olhar da Isis. Suspiro me sentando na cama, ainda não curtindo a ideia de levantar. – Se para mim é assim, imagina como seria para o Phillippe?
—Golpe baixo, Hawke! – me levanto emburrada, jogando meu travesseiro nele e me arrasto para o banheiro.
—Estou desesperado, não vou jogar limpo – ele me segue, posso ver seu reflexo pelo espelho.
Estava escorado na parede ao lado da porta, me encarando de um jeito que me faz pensar que ir treinar é o último dos seus desejos. Seus olhos cheios de luxuria, passeiam lentamente por minhas costas e param por algum tempo em minha bunda, antes de se voltarem para minhas pernas e fazerem todo o processo outra vez.
—Olha, foi você quem insistiu para que eu fosse nesse treinamento, mas se tiver mudado de ideia, eu posso ficar... – sorrio o provocando e ele sacode a cabeça, obrigando a se focar em meu rosto. Connor as vezes é tão sem controle com as coisas mais bobas que me faz pensar como ele consegue ser esse guerreiro tão letal.
—Vamos falar sobre isso quando tudo acabar – semicerra os olhos me encarando e tento não rir.
—Foi assustador, Hawke – brinco e ele continua me encarando sério, Deus obrigada por esse marido lindo.
—Sou assustador, Delphine.
Nossa, agora até eu acreditei. Solto um suspiro tentando não me excitar com aquilo e me concentro em escovar os dentes. Lavo meu rosto e enrolo o cabelo em um coque improvisado, usando um elástico para o manter no lugar. Me troco de olhos fechados, não estava mais confiando em mim mesma com Connor e seus olhos me queimando e seu rosto sem expressão.
—Acho que você simplesmente sabe esconder melhor o que sente – ele conclui quando saio do banheiro com calças de malhar e uma blusa de mangas colada ao corpo. – Era a mesma coisa quando ainda éramos amigos.
—Minha timidez ajudava – dou de ombros procurando por um par de meias pequeno na gaveta.
—Mas você levantou de lingerie, escovou seus dentes e se vestiu na minha frente, Lu – conta nos dedos. – Não tem nada a ver com timidez, e você nunca foi tímida em relação a isso! – gesticula pra nós dois.
—Por que mesmo estamos falando sobre eu me sentir confortável com meu marido? – calço meus tênis e paro de frente para ele, com as mãos espalmadas em seu peito. Connor parece ter dificuldade de puxar o ar ao sentir meus dedos em seus músculos, o que é divertido se eu ignorar o efeito que essa vulnerabilidade dele causa em meu corpo.
—Não tem um motivo especifico, só foi algo que me veio à mente ao tentar ignorar sua bunda enquanto escovava seus dentes, parecendo ser o monge dessa relação – dá de ombros, os olhos perdidos em meu rosto, a declaração soa como se estivesse em uma espécie de transe, vomitando as informações. – Sabe que vai ser um inferno quando sair em missão com o Wally, não sabe?
—Sei me cuidar – garanto e ele assente sem parecer duvidar disso.
—Não é esse o ponto, Lu – acaricia meu rosto com seus polegares. – Você é durona, inteligente, forte e provavelmente vai salvar a bunda do Wally. Mas é o amor da minha vida, e quando estiver em missão, uma parte minha vai estar com você, por que não sei como existiríamos separados – pisco, sem palavras. Connor sorri e beija o alto da minha cabeça. – Virou o centro do meu mundo Delphine, desde a primeira patada que me deu no elevador – beija meus olhos com tanta delicadeza que me faz arfar. – Meu primeiro e último pensamento do dia, todos os dias desde que vi seus olhos pela primeira vez – suspira, agora entre meus lábios, só me mantenho firme sobre meus pés, por suas mãos fortes me apoiando. – Entende o que está em jogo? Por que preciso que treine tudo o que for possível? – balanço a cabeça concordando.
—Vou me cuidar, não vou deixar nada me acontecer – prometo com uma certeza estranha. – Preciso voltar para seus braços – fico na ponta dos pés e o beijo. Lento, carinhoso e cheio de certeza.
—É só o que te peço – murmura em minha boca, com sua voz mais rouca que o normal.
Saio do quarto e pareço ter entrado no mundo invertido. Escorados na parede em frente à minha porta estava um Wally com cara de bunda e um Damian radiante. Nunca vi um sorriso tão grande em seu rosto sem envolver ninguém despencando ou um de seus irmãos pagando mico.
—Estou começando a mudar de ideia com relação a esse treino – estreito os olhos, observando meus garotos. – Desfaz essa tromba Wally, meu quarto era muito mais interessante do que estar aqui com você também! – Dam dá risada, uma risada sonora e relaxada.
—Sinto falta de quando você era doce e delicada, Lu – Wally reclama e sinto o braço de Damian se apoiar em meus ombros.
—Lunna é doce e delicada – defende e agora até o Wally o encara erguendo uma sobrancelha. – Não é mentira, ela é! – insiste me fazendo prender o riso, quando passo pelo corredor e vejo a falta de uma porta, o motivo de sua alegria começa a fazer sentido.
Minha vontade de rir tem fim no instante em que meu treino começa. Wally passou a ser meu oponente fixo e comecei a sentir vontade de pedir pela Sara, até ela seria menos assustadora. Lutar contra ele, era como enfrentar vinte pessoas ao mesmo tempo. Seus movimentos são tão rápidos e precisos que mesmo minha visão modificada pela velocidade tinha dificuldade em acompanhar. West era basicamente um ninja mutante com a velocidade do Sonic. Damian nos olhava sério, a preocupação clara em seu rosto que estava transbordando de alegria a segundos atrás.
—Você não quer assumir, mas é uma velocista – Wally esbraveja, quase me fazendo encolher. – Isso não impediria outro velocista de te matar, sabia? – reclama quando mal consigo sair de seu golpe.
Ele reaparece no lado para que me esquivei, como se tivesse se teleportado, me lançando ao chão. O impacto me faz morder os lábios para suportar a dor, seja o que for se curaria em alguns segundos, mas durante esse tempo, respirar estava bem dificil. Me levanto em um salto, já aprendi que usar as mãos só levaria a mais retaliações dos dois mentores. Wally quase me acerta um chute no peito, mesmo não tocando, a velocidade me faz recuar dois passos com o deslocamento de ar causado.
—Eu não consigo controlar – murmuro deslizando para o chão, saindo novamente do seu ataque.
—Então aprende! – um raio passa a centímetros do meu rosto, mal reconheço o Wally quando o encaro chocada. Damian está de olhos arregalados e a boca entreaberta, ele volta o olhar para mim e depois encara Wally de novo.
—Isso não – murmura baixinho com o rosto estranho, parecendo alguém que acabou de levar uma surra. Seu rosto se contorce em uma expressão de pavor e medo, algo que nunca vi antes no Wayne. Wally balança a cabeça para ele, como se quisesse calá-lo. – Preciso de ar, vocês deveriam tirar um tempo – depois aponta para West, claramente irritado com meu treinador. – É para dar a ela um tempo! – me encolho inconscientemente sob seu tom ameaçador.
Damian sai e Wally cai no tatame tapando o rosto com as mãos. Continuo parada, congelada onde escapei de sua descarga de energia por pura sorte, sentindo o calor de seu raio nas maçãs do meu rosto. Os ombros de Wally tremem e levo um instante para entender que estava chorando. Me sento ao seu lado em silencio, e fico ali, o deixando colocar aquilo para fora.
Bom, uma hora aconteceria. Estava esperando por isso desde que saiu da minha cabeça ou sei lá o que. Os soluços começam e abraço meus próprios joelhos, aquele som desesperador de alguma forma me é familiar o bastante para não causar desconforto. Connor aparece na porta, mas aceno com a cabeça para que não entre e ele dá meia volta sem contestar. Meu amigo se encolhe todo no chão, da mesma forma que eu fazia quando precisava lidar com meu buraco. Acaricio suas costas com cuidado e os soluços vão diminuindo.
Wally não diz nada, sua cabeça passa para meu colo e continuo vendo as lágrimas escorrerem sem mais nenhum som. Tenho tentado muito não adivinhar seus motivos, ele contaria o que pudesse, não teria segredos se não fosse necessário, e Sara disse que ele evita até citar a palavra “futuro” desde que voltou, aceitou apenas o que ela contou da missão, sem exigir nenhum detalhe, o que é atípico do nosso velocista. E me faz concluir que de alguma forma ele sabe. Mas isso é insanamente cruel, ter que carregar todo esse peso sozinho. E bom, eu não sou idiota, estou tentando não pensar a respeito, mas sei muito bem o que isso significa.
—Sinto muito – diz com a voz rouca depois que já não conseguia estimar mais quanto tempo havia se passado.
—Me ensina – ele descobre o rosto e me encara com os olhos vermelhos. – A controlar a Força da Velocidade, se faz tanta questão, sei que não sou uma aluna ruim.
—Não está com medo de mim? – a forma como me faz a pergunta, deixa claro o pavor de receber uma concordância.
—Sinceramente, você me assustou – acaricio seus cabelos ruivos. – Mas é meu mentor desde que descobri sobre Connor e vocês, nunca forçou nada que não conseguisse lidar e vamos combinar que você não é uma flor o tempo todo Wally!
—Não sei do que está falando – se senta, o nariz franzido com minha ofensa. – Sou um doce, Delphine!
—Você em seus melhores dias é um carrasco – corrijo e ergo a mão quando ele começa a abrir a boca para me interromper. – Antes, quando começamos, se lembra de como Connor nunca mais voltou depois de assistir um treino nosso?
—Seu marido é um frouxo! – desdenha se levantando e estica a mão para me erguer. – Vai mesmo fazer isso? Não vai ser fácil e bem, com essa missão da Sara, vou estar 100% focado em você – aquilo é uma ameaça e ele nem tenta a amenizar.
—Claro, não pode ser pior do que os últimos dois dias – sorrio para ele que revira os olhos.
—Me fala isso depois que o conceito de “âncora” começar a fazer sua cabeça doer.
Wally passa os próximos minutos me explicando como é perigoso abrir o acesso a FV como estava prestes a me ensinar a fazer. Me disse que é muito mais perigoso do que a Força da Aceleração, a matriz do Barry que deu origem a sua variável. Minha cabeça já estava doendo, quando vejo Connor entrar ao lado de Sara.
—Bem na hora – Wally se levanta.
—Bom, Constantine está de babá, e dei um kit de maquiagem para Nina, enquanto Isis não aparecer com a resposta de quem vamos encontrar, sou toda de vocês!
—Perfeito – concorda indicando a outra ponta da sala para os dois. Eles se afastam e observo como se movem em sincronia, cada passo com a mesma distância até mesmo os braços se moviam limitando aos movimentos do outro. Era fascinante.
—Vai me fazer aprender na pratica? – murmuro ao me dar conta de que o gesto que ele faz a seguir já era para me colocar em posição.
—Sara está aqui para você ter o exemplo – aponta a esposa que dá um tchauzinho. – Acho que qualquer um de nós funcionaria no seu caso, você tem ligações muito intensas com quem se importa, mas Connor e Phill são as opções seguras, não quero arriscar em sua primeira vez sem rodinhas.
—E Connor não faria perguntas, o que te poupa tempo – concluo e ele estala os dedos.
—Principalmente isso — sorri de lado. – Quero que feche seus olhos – instrui. – Connor é sua âncora, então se concentre no magnetismo que te puxa na direção dele – faço o que pede, mesmo sem entender direito.
—Tipo a atração? – questiono de olhos fechados.
—Você pensa que é isso, é um começo, mas vai entender que atração não é tão forte quanto seu laço com a sua âncora, por mais que venha a ser parecido. Quando Sara fingia ser Linda Park, eu pensei estar ficando louco por me sentir tão atraindo por uma mulher que havia acabado de conhecer no enterro da minha esposa.
—Sério? – abro os olhos e o encaro, Wally cora antes de desviar seu olhar para Sara do outro lado da sala de treino.
—Não conseguia evitar, é muito mais forte que o meu bom senso— murmura coçando a nuca. – Meu corpo a reconhecia, mesmo por trás da magia do colar, resistir ao laço de ancoras pode ser bem... – pondera tentando encontrar a palavra mais apropriada. — Desconfortável?
—Está me perguntando? – sorrio o vendo dar de ombros. – Nunca resisti ao meu, então não saberia dizer. Se tudo o que teorizamos estiver correto, você me deu acesso a Força da Velocidade no dia do meu casamento.
-Verdade – murmura parecendo falar sozinho. – Só tenha em mente que é uma merda tentar ignorar o magnetismo. Mas chega de tricô, fecha os olhos – obedeço. – Agora respira – faço o que ele diz. – Perfeito, você só precisa deixar o Connor te puxar, consegue sentir?
Ao me concentrar em minha respiração sinto o magnetismo de sempre, aquele sentido que me faz saber sempre onde ele está. Posso girar prendendo a respiração mil vezes, e se me mandarem apontar sua direção eu nunca falharia, todo meu corpo formiga e preciso impedir que meus pés sigam até ele.
—Conseguiu – não era uma pergunta, posso sentir o orgulho na voz do Wally. – Ele é sua segurança, mantenha isso em mente a partir de agora. Entendeu? – aceno. – Pode abrir os olhos. Quando vai lutar contra mais de um inimigo por vez, o que precisa ter em mente?
—Encontrar um adversário de velocidade parecida e colocá-lo entre meu corpo e os outros, correr em círculo mantendo meu oponente como escudo enquanto não terminar com ele, e sempre ter uma rota de fuga, caso seja encurralada – recito o vendo sorrir satisfeito.
—Perfeito, onde deve atacar?
—Não existe uma receita, preciso analisar o caso em questão – me esquivo de sua pegadinha, sinceramente, não sei por que ele ainda insiste nisso. – O maxilar pode me machucar mais do que ao oponente, dentes são duros e vai destruir minhas mãos. Nariz é lenda, ninguém morre com cartilagem no cérebro envida pela força de um soco, bom, talvez se for um soco do Superman ou seu – pondero coçando a nuca. – Atacar a virilha me deixaria exposta, abrindo minha guarda e acertar o joelho de um oponente não é um movimento fácil de ser executado. Clavícula, garganta e têmporas podem me dar alguma vantagem, mas isso seria um problema se for alguém muito mais alto.
—Claro que você recitou exatamente tudo como te falei – revira os olhos. – Esqueço sua memória fotográfica por algum motivo. Se lembra quando disse que sempre deve deixar tudo de fora, não escutar provocações, não pensar em seus aliados e apenas se concentrar no que estiver fazendo? – aceno concordando e ele continua. – Com super velocidade não pode deixar as pessoas que são importantes para você de fora, jamais.
—Ah, me lembro disso – sorrio. – Uma vez você disse que precisa focar nas pessoas a sua volta, por que elas são o único motivo para você desacelerar.
—É como se estivesse sendo sua própria professora, Delphine! – me recrimina e tento não sorrir em resposta. – Sim, mentalize Connor, Phill e quem mais for importante o bastante para te fazer parar, por que isso vai ser um grande desafio, acredite em mim.
—No que você pensa? – questiono, para montar um parâmetro do que formular mentalmente.
—Linda? – diz um pouco mais alto e Sara interrompe a conversa que estava tendo com Connor, o sorriso que abre é lento e deslumbrante. – Nisso aí.
—Vou soar muito materialista se pedir o Connor para tirar a camisa? – debocho o fazendo gargalhar, o som é de alguma forma é tranquilizador.
ISIS
Era estranho ter as duas perspectivas do que aconteceu aquele dia. De fora era fácil perceber como havia caído feito uma bela bobona em uma manipulação, sério, acho que meus pais deveriam ter aquele papo de novo comigo, o papo de não aceitar doce de pessoas desconhecidas, mesmo que fosse só uma indicação de onde o doce pode estar.
Me olho no espelho do banheiro enquanto escovava os dentes, vendo que perfeita tapada tinha me saído. Talvez deva dar mais credito ao Connor por se preocupar tanto comigo, depois de lembrar tudo o que tinha acontecido, ou ver tudo o que tinha se passado, não me surpreende ele achar que preciso de uma babá, por que realmente acho que preciso.
Mas ao mesmo tempo conseguia ver o que aquela Isis enxergou em Phoebe. Uma ingenuidade boba, um caminho fácil para as coisas que estavam por vir, mesmo com tudo que aconteceu não consigo me sentir arrependida de ter confiado, por que a desconfiança que tenho hoje, significa um terrível preço.
—A quão burra eu sou? — Olho para Katoptris esperando uma resposta, mas ela está especialmente silenciosa essa manhã. – Sabe como vou contar sobre isso ao Dam? – ela tem uma aura dourada em sua volta. – Não está ajudando – a coloco em um compartimento da minha bota over knee, um tubinho preto, um sobretudo off White, e um guarda chuvas vermelho para completar o visual.
Faço uma maquiagem básica, e vejo um colar acima de todos os outros em meu porta joias. Era um medalhão delicado e antigo, algo que recebi de presente no meu aniversário de dezoito anos, e que por algum motivo, a “Arca” preferiu deixar de usar enquanto estava sob o comando do meu corpo. Mesmo nunca tendo retirado a aliança negra.
“O colar tem magia antiga e poderosa, por ele trazer alguém que você realmente precisa em um momento de crise, seria uma ameaça clara ao nosso algoz.”
—Ele poderia me trazer de onde estava imersa – suspiro, concluindo o obvio e posso sentir Katoptris concordando. – Pensei que estivesse decidida a me ignorar hoje – reclamo. E nada, ela volta ao seu estranho silencio de antes.
Saio do meu quarto parecendo mais decidia do que realmente estava. De todas as coisas ruins que tinha feito sendo um monstro sem alma, talvez aproximar Damian de Phoebe tenha sido a pior. Wayne não costuma se abrir normalmente, mas quando cria uma relação ela é profunda, forte como a corrente que prende uma âncora.
Paro a frente da sala de treinamento a tempo de ver Lunna ser arremessada em direção ao peito de meu irmão, que coitado, não parecia estar em seu melhor estado. A cena me faz estremecer involuntariamente, mas ela apenas se move evitando o impacto e parte para cima do Wally, como se não fosse nada, os dois velocistas se tornando quase invisíveis em seguida. Todos estão ali, menos Constantine e Nina, o que era bom, ela estaria completamente desesperada com os dodóis que o papai estava fazendo na Tia Lu.
—Sara? – cinco pares de olhos se voltam para mim. –Podemos terminar a missão.
—Pelo menos não é tão inapropriado quanto o de ontem. – Sara parece realmente aliviada ao perceber como me vestia.
—É, você só precisa parecer uma super modelo – Lunna sorri para ela ainda sem folego pelo último golpe. –Só mais uma típica segunda-feira. — Sara faz careta.
—Vou precisar de um tempinho – fica com o semblante de quem está pensando. – Talvez umas três horas.
—Trinta minutos seria legal – sorrio inocente. – Vai estar chovendo – foi a única informação de Katoptris me forneceu, o que resolvi interpretar como um bom sinal, pelo menos resfriado não iria pegar. – Dam, podemos... – aponto para fora.
Ele me segue em silencio a tensão em seus ombros mal disfarçada. Completamente diferente da noite que passamos juntos a poucas horas. Algo definitivamente não está certo. Posso ter entregado quem vamos encontrar enquanto dormia, mesmo não sendo do tipo que tagarela enquanto dorme, segundo o próprio Damian eu basicamente o imobilizo e ocupo todo o espaço da cama. Dam entrelaça nossos dedos enquanto voltávamos para o nosso quarto, sua mão gelada me assusta como se fosse um tipo de pressagio.
—Você está bonita – me surpreende tentando parecer mais ameno apesar da tensão gritante, era tão errado ele carregar tanto e agora essa traição, não me parece justo, não depois de tudo que eu o havia feito passar.
—Tenho uma pergunta – encosto minhas costas na porta do nosso quarto enquanto Damian se senta na cama. Ele apenas assente com a cabeça para que o fizesse, seus olhos confusos e desfocados, como se sua mente estivesse pensando em mil coisas ao mesmo tempo.
—O que quiser.
—Não leve a mal o assunto do nada – começo preparando o terreno e seus olhos azuis se focam em mim, com um esforço claro. – Por que você aceitou tão facilmente o nosso termino?
—Não estou entendendo.
—Qualquer idiota pode dizer que eu te amo, assim só de bater o olho – começo a falar, sentindo a impotência aumentar em meu peito. – A forma como eu... Bom, não é diferente do jeito de Lunna olha para Connor, ou o Wally para a Sara, ou minha mãe para o meu pai. Quase provoca vergonha alheia quando visto de fora, o que me faz pensar que não tem como você não saber que eu te amava.
—O que? – Damian ri, mas não consigo acompanha-lo. Minhas memórias me deixaram uma tonelada de dúvidas de brinde.
—Ontem pela primeira vez eu nos vi de fora, antes de todas essas coisas acontecerem. E por Deus, Damian, não precisa ser um gênio para entender que eu tenho uma queda de um penhasco por você. Não me entenda mal, não faço o tipo de pessoa que não consegue se ver com clareza, sempre soube o que sinto, mas não sabia que era tão explicito. É quase pior do que o Connor – quem eu quero enganar, possuímos a mesma patologia, medir os dois é só passar vergonha em família.
—Isis, estou perdido aqui. Isso deveria ser uma declaração de amor? – questiona franzindo o rosto de um jeito bonitinho. – Mas então por que sinto que estou em perigo? – Arrumo a saia do meu tubinho sem conseguir olhar para ele.
—Você não está em perigo, preciso parar de tentar colocar meus erros nas costas dos outros – pisco algumas vezes encarando o teto, em uma tentativa de conter as lágrimas que começavam a se formar. – Eu faço isso quando me sinto encurralada, mas nada do que a Arca fez foi sua culpa.
—Isis, estou começando a ficar preocupado – posso sentir seus olhos em mim, mas não consigo encará-lo no momento, não sem abrir uma torneira que não vou conseguir fechar tão cedo. – Não foi sua culpa tão pouco, não era você, amor – a forma como me chama baixa minha guarda e finalmente olho em sua direção vendo seu rosto lindo cheio de preocupação ao me estudar o que me faz encarar o teto outra vez.
-Minhas lembranças com a Arca são turvas, como ver em um dia chuvoso, mas consigo me lembrar de quando nos olhávamos, mesmo ali eu consigo enxergar sua certeza sobre meus sentimentos – por fim olho para ele. – Então depois de nos assistir por alguns minutos juntos, como uma telespectadora do nosso relacionamento, não consegui tirar isso da cabeça. Como foi que acreditou que eu não te amava mais?
—Não foi assim que aconteceu – ele se encosta na cabeceira da cama, parecendo exausto. – Você começou desmarcando nossos encontros, depois me dizia para não ir ao seu apartamento, então não atendia mais o telefone e parecia muito ocupada sempre que aparecia sem avisar.
—E só me deixou ir? – um nó se forma em minha garganta, mas quando seus olhos se erguem de encontro aos meus, posso ver o abismo imenso que suga o ar dos meus pulmões me fazendo encolher por reflexo.
—Eu lutei a princípio. Fiz coisas idiotas como ir te buscar quando sabia que sairia tarde de algum programa que estava fazendo com suas amigas, até mesmo pedi ajuda da Mia para organizar um jantar em seu apartamento – esfrega o rosto com força e odeio não conseguir me lembrar de nada disso. – Abri mão do meu próprio orgulho, até parecer que aquela não era mais a sua escolha – Dam suspira e passa a mão sobre o cabelo. – Então só me esforcei para aceitar, precisei me afastar dos outros quando o Wally também se foi e ainda me culpo por não ter estado lá por Lunna e Connor, mas não seria de grande ajuda a princípio.
Minha escolha. Algo que a Arca arrancou de minhas mãos sem nenhuma cerimônia e esse cara a minha frente parece reverenciar como se fosse algo divino. Mesmo a forma como se responsabiliza por deixar meus irmãos, é deixando claro que foi uma escolha unicamente dele, não minha, não era minha culpa. Sinto a Katoptris tentando buscar imagens, algo que saciasse meu desejo de saber qual foi aquele momento, mas só havia escuridão, ela não poderia me mostrar quando eu a havia obrigado a permanecer no escuro. Isso trava minha garganta de uma forma dolorosa e sufocante, a dor dela, a minha, todas juntas.
—Não é bem sua cara desistir – falo para ele, e talvez muito mais para mim.
—Você tocou em algo que estava sempre lá, Queen. E pensei que estava fazendo o certo.
—E como me deixar ir poderia ser certo? – sussurro incrédula.
—Talvez por que fosse boa demais para mim. Eu posso ter esperado que caísse na real e entendesse que eu sou o neto de um psicopata, ex defunto, com sérios problemas de temperamento – suspira baixando os olhos, algo que nunca o vi fazendo antes. -Fui assassinado por minha própria mãe, Isis. Acho que esperar a rejeição é um dos efeitos colaterais disso – responde por fim. – Uma parte enorme dentro da minha cabeça, antecipa o momento em que todos a minha volta vão me deixar, faço isso o tempo todo – sua voz é baixa, tornando o tom grave ainda mais forte e cheia de uma tristeza visceral que me parte o coração.
Não esperava por tanta sinceridade, por mais que eu tivesse pedido exatamente isso. Damian estava completamente exposto diante dos meus olhos, como nunca antes havia feito. Ele abaixa a cabeça e posso ver seus ombros se curvarem pela primeira vez desde que o conheci. Minha vontade é dizer que aquilo era absurdo, depois pegar em sua mão e fazer com que cada um de nossos amigos diga o quanto ele é importante, um a um, como minha mãe fez ao perceber que eu não queria passar o sábado na casa de Patty Parkinson. A percepção me choca, mas ao mesmo tempo torna tudo sobre ele muito mais claro.
—Damian Wayne – seu nome sai como uma reverencia.
Vou até ele, sento em seu colo, com uma perna de cada lado de seu corpo, olhando bem para aquele rosto, e passo minhas mãos por sua face. Ele é tão lindo. Não tem nada que mudaria, nada que acrescentaria, adoro cada uma de suas partes.
—Não existe nenhuma chance de se ver livre de mim, acho melhor começar a se acostumar com isso – era uma ameaça e ele entende imediatamente, a diversão despontando abaixo da tristeza sufocante em seus olhos. – E se algo acontecer comigo que demonstre o contrário, por favor providencie um exorcismo! – encosto minha testa na sua, e ele concorda com a cabeça, um leve sorriso nos lábios – Tenho algo para te dizer.
—Mais? – sorri com nossas bocas quase se tocando. Emolduro seu rosto em minhas mãos e deixo que meus lábios toquem os seus, precisava disso para tomar coragem de prosseguir.
—Mais, e não vai ser fácil, me desculpe – suspiro encostando minha testa na dele. – Odeio ter que te contar isso.
—Vai terminar comigo? Esse é o momento perfeito, Constantine não está nem a sete metros de distância, ele pode fazer o tal exorcismo – levanta uma de suas sobrancelhas em descredito.
—Não seja absurdo! — dou leves tapinhas em seu ombro.
—Você anda me chamando muito disso – a frase faz meu rosto corar e involuntariamente desponta várias imagens da noite anterior, me esquentando de uma forma que não deveria no momento. — Então? – ele toca meu queixo, fazendo com que olhe nos olhos.
—Lucífer me acompanhou no sonho ontem... – balanço a cabeça a fim de manter o foco, isso não seria fácil, não preciso deixar que minha incapacidade de pensar com clareza em seus braços me distraia ainda mais.
Dam levanta o olhar e quase engasgo com a tristeza que transparece em seu azul liquido. Sei que acabei de dizer que não diminuiria o impacto. Então por que não consigo encontrar as palavras?
“Por que você tem uma alma.” Katoptris responde, nossas vozes soando delicadas mesmo sobre o efeito sobrenatural de sempre. “Não tem como ser fácil, só precisa começar a dizer.” Me encoraja.
-Eu descobri quem é o agente de Rath – fico em silencio com Dam me olhando em expectativa.
—Isis! – a voz de Sara atrás da porta ressoa como um despertador pela manhã.
— Um momento – grito em resposta.
—Você quem me apressou – retruca contrariada.
—Só um momento, Sara!
—Acho melhor você ir, ela não gosta de esperar – Damian me dá um beijo na testa, me tirando do seu colo. – Posso esperar para descobri com todo mundo.
—Não Damian, você não pode – respiro fundo, ele nunca foi tão calmo quanto agora. Culpa do boboca do Connor e sua filosofia zen! – Phoebe, Dam foi ela quem me indicou a arca – ele não esboça nenhuma expressão de primeira até parecer realmente incrédulo. – Não queria que fosse assim. Juro que não sei por que ela se aproximou de você depois de ter me manipulado, eu sinto muito– o abraço.
—Phoebe Morley? – questiona confuso e confirmo balançando a cabeça.
—Vou arrombar essa porta mágica! – Sara vocifera do lado de fora, mas apenas continuo o abraçando, até que pôr fim a porta é aberta, mas não por Sara. Nina vem na nossa direção, ficando entre Dam e eu, abraçando as pernas do meu namorado.
—Acho melhor você ir, Sara não parece muito feliz – Damian beija de leve meus lábios, pegando Nina no colo. – Tenta não demorar, está também? –não havia rancor na sua voz, não sei nem mesmo dizer se a notícia o deixou ainda mais triste do que seja lá o que já o atormentava antes.
—Não vou – beijo seus lábios, mais forte que um selinho, então me viro para Nina. –Cuida o tio Dam para mim princesa – beijo o auto da cabeça de Nina, que sorri concordando.
—Quero a minha tia Lunna – a escuto exigindo de seu jeitinho extremamente doce e escuto um riso fraco do meu namorado como resposta.
Me viro para Sara que não tinha uma carranca habitual de quando a deixamos esperando, parecia mais confusa do que qualquer coisa. Ela usava bota cano alto marrom escuro, calça vinil preta e uma mine veste de gola alta da mesma cor, seu casaco camurça vermelho queimado ia até a metade da sua coxa, colares compridos, voltas e voltas deles, um coque dunet, brincos de argola, e um grada-chuvas preto completava o seu look.
—Você está parecendo uma modelo.
—Olha quem fala.
SARA
A Casa dos mistérios nos deixa em um beco escuro, em algum lugar em Gotham. Não era sujo como de costume, o que indicava que estávamos no centro econômico da cidade, algo bom, essa cidade não tem o melhor dos aromas, mas com a chuva o fedor era de queimar as narinas. Isis abre o guarda chuvas, e entramos no emaranhado de pessoas que andavam apressadamente na avenida principal.
—Onde vamos? -Isis aponta para o um prédio enorme, não é dos mais altos da cidade, esse posto fica com a sede da empresa dos Wayne’s. – Cisco e Caitlin não podiam fornecer o que você precisa? – Isis para olhando para o prédio, e a chuva agora começa a aumentar. A puxo para um café que estava parcialmente vazio, nossos guarda chuvas molham a entrada da cafeteria e um homem que estava de saída, ele nos olha feio por um momento, mas quando ele realmente nos enxerga, encara por mais tempo do que é educado. – E aí, quando vai começar a dividir a informação.
Trabalhar as cegas acabou se tornando um precedente ruim dessa missão. A última vez que me deixei ser guiada, acabei no inferno. Isso no sentido figurado. Então hoje me sinto um pouco menos propensa a observar e esperar.
—Você é bem parecida com a Sara original, sabia? A irmã da Laurel quero dizer. – Isis se senta de frente para a janela encarando o prédio. – Esse lugar vai ser apropriado, quer um café?
—Quero respostas – depois do treino louco de mais cedo com Lunna e Wally, um bagel não seria de todo ruim.
—Um muffin por favor – Isis solta antes mesmo que o garçom nos ofereça o cardápio.
—Um bagel com creem cheese e dois cafés, por gentileza – complemento e espero ele se afastar. – Você se lembrou ontem à noite, não foi?
—Ela é enérgica e forte como você, mas você é muito mais bonita, e me dá muito mais medo – arregala seus olhos azuis, a tornando quase idêntica a mãe com a mesma expressão.
—A pessoa que está ajudando os demônios? – a encaro sem entender direito.
—Não! Estou falando da outra Sara, a que fez seus pais escolherem seu nome. Ela está viva, bem, não sei dizer se essa é a definição. Vez ou outra Katoptris me mostra algumas coisas de outra sintonia. Acho que ela gosta de brincar, como se estivesse zapeando as centenas de canais, só que os canais são os universos paralelos, diferentes linhas temporais e os programas a nossa família, em sua maioria. Essa Sara voltou a vida como Dam, Tommy e Jason, mas ficou mais parecida com Tommy, sem controle e tudo mais. Hoje ela é tipo uma policial do tempo, ou fora da lei, ainda não consegui entender todos os vislumbres.
—Você quer chegar em algum lugar? – começo a entender a frustração do meu pai ao lidar com o Tio Ollie.
—Não, Katoptris tem focado bastante nela nesses últimos dias, e como estamos esperando aqui até alguma coisa acontecer, minha adaga está meio que focada na Sara Lance – reviro os olhos para segurar o palavrão que estava na ponta da língua para não assustar o garçom que trazia os nossos pedidos.
—Então? – olho para ela fingindo uma paciência que não tenho.
—Não pode me culpar por ser evasiva, treinei isso por muito tempo – dá de ombros. – Phoebe Morley – diz antes que uma resposta mal criada escapasse por meus lábios.
—O que tem ela? Está aqui? – viro por sobre os ombros procurando a garota com o olhar de inteligente, mas nada, enquanto Isis toma um gole do seu café. – Phoebe? – entendo por fim, tomando um gole do café também, mas para tentar colocar as ideias em ordem. Merda! Por isso aquele abraço mais cedo, e Nina correndo para perto de Damian. — Como? – havia perdido até o apetite, mas Isis empurra o pão para perto de mim.
—Katoptris insistiu que comesse – enquanto ela mesmo beliscava sem vontade o bolinho de mirtilo e me lançava olhares significativos de tempos em tempos para que fizesse o mesmo, Isis contou sobre o sonho e como Lucífer a tinha ajudado. Esse Diabo estava estragando a sua reputação.
—Olá meninas – Jason nos abraça passando seus braços sobre nossos ombros. Estava tão concentrada no que Isis me contava que tive que me segurar para não lhe dar um soco por reflexo. – Ela está lá dentro cunhadinha. Nunca pensei que fosse das mais ciumentas, mas está me saindo melhor que encomenda.
—Ela não tem culpa se sua família tem um dom de escolher pessoas erradas. Por falar nisso, como vai aquele seu caso com a mãe do Damian? – retruco já que Isis não parecia querer se defender.
—Aí Sarinha! – reviro meus olhos e me arrependendo do meu auto controle de agora pouco, um dente a menos no sorriso sarcástico de Jason não faria mal algum a humanidade.
—Ela está lá dentro. Há três guarda roupas fazendo sua segurança, não que isso nos impeça, mas tenho essa sensação de que aqueles caras não são normais – já se inclui na manobra.
Jason não era de trabalhar em equipe, não com alguém além de Estelar e Roy que formam um grupo estranhamente funcional que ele integra. Ainda tem o lance da Batfamília, mas particularmente ele anda mais sozinho que acompanhado.
—Não podemos fazer um ataque direto Jason, isso seria um alerta muito grande – Isis desiste do bolinho e seu café já estava tão frio quanto o meu.
—Você acha que ela vai vir até a gente por livre espontânea vontade? – observo seu rosto. – Se você fosse o Damian, mas vamos evitar de envolver o pirralho.
—Nada de Damian! – Isis e Jason repetem ao mesmo tempo.
Então era isso, ele estava irritado por fazerem algo tão baixo com o irmão mais novo dele, como manipular a ex namorada antes que ela se torne ex, depois se infiltrar na vida do garoto. Ai esses morcegos, nunca deixam de me surpreender!
—Tudo bem, então vamos fazer no estilo ARGUS – respiro fundo, deixando dinheiro sobre a mesa em que estávamos e os dois apenas se encaram antes de se levantarem e me seguir para fora daquele café.
JASON TODD
Dos arqueiros, o único com quem costumo trabalhar frequentemente é o Arsenal, as vezes a Speed. E bom, os dois não são o exemplo de politicamente correto dentro do Time Arrow. Isis já andou bastante por Gotham com o pentelho do Damian, e apesar da aparência saltitante e feliz da pequena Queen, ela até que é uma boa escolha quando se trata de entrar em uma briga. Mas Sara Diggle tem fama. A garota que passou anos no submundo a serviço da Waller, e uma das poucas que se libertou das garras asquerosas da Amanda. Os boatos são de que ela ameaçou cortar a garganta da atual líder do CADIMUS com uma faca de manteiga, em frente a todos os guardas da ARGUS, outros dizem que ela implantou bombas por toda a base em que estavam a mantendo e ameaçou jogar tudo pelos ares, o meu preferido é o que ela envenenou todo o suprimento de água da base, e os ameaçou com um único frasco de antidoto. Tudo fantasioso demais, mas consigo reconhecer o treinamento militar no olhar frio e focado em seu rosto enquanto se comunica com o Marciano para o convencer a liberar a tecnologia da Spiral.
Algo que o Grayson conseguiu roubar, quando foi obrigado pelo Batman a forjar a própria morte. Um motivo de discursões bem acaloradas na mansão Wayne nos dias de hoje, principalmente agora que Alfred está de volta. Essa tecnologia nos deixaria irreconhecíveis, mas não a primeiro momento. A pessoa que nos visse não poderia se lembrar de nossos rostos no momento em que deixasse de vê-los, ficando apenas com uma espiral confusa em sua mente.
—Feito – Diggle declara, enquanto ajusta o comunicador em seu ouvido. – Tem a planta do prédio?
Era uma pergunta idiota e ela sabia disso. Então apenas aciono um holograma que se projeta do meu relógio de pulso e mostro todas as plantas baixas do prédio. Aperto um botão pequeno na lateral e dou a elas todas as leituras de calor do local. Mas Sara e Isis não se surpreendem com essas coisas. As vejo estreitando os olhos e estudando todas as alternativas possíveis.
—Vocês dois podem ir por essa janela – Sara aponta. – Sobem dois lances de escadas e estarão na sala atrás do laboratório da Phoebe.
—E você? – questiona a pequena Queen.
—Vou pela entrada principal, como qualquer aluna – dá de ombros. – Preciso passar pela segurança – gira um pequeno dispositivo entre os dedos, era do tamanho de uma tampa de garrafa, preto com uma luz prateada no centro. – Presente da Lu, pode criar um loop automático em qualquer câmera de segurança por dez minutos. Sem rastros, vinte segundos para fazer o download – se gaba. – Vou pedir informações, enquanto vocês dão a volta.
—É o suficiente para entrar e pegar a fura olho – bufo irritado. – Nos encontramos no corredor, para lidar com os guardas dela – completo e Sara assente.
—Precisamos ter sincronia, um para cada e sem enfeitar demais – Isis completa me olhando de soslaio. – Não podemos deixar que avisem ninguém.
—Entendi, nada de diversão – reviro os olhos, pego o seu guarda-chuva, passo meu braço por seus ombros e começamos a andar casualmente, contornando o prédio em que nos infiltraríamos.
Simulamos uma conversa divertida enquanto andávamos no meio das pessoas, como qualquer casal faria. Ao chegar nos fundos do prédio fazemos uma varredura rápida, a fim de não deixar rastros, quando nos damos por satisfeitos, ergo a Queen para a ajudar a alcançar a janela do segundo andar. Ela entra sem dificuldades, com um único impulso gracioso, a vejo sentada no parapeito forçando o vidro a se abrir. Então dou dois passos para trás, corro e apoio um pé na parede do prédio, salto usando o Impluso para segurar no muro ao lado e por fim pender para o parapeito da janela. Isis agarra minha mão e me puxa para dentro.
—Limpo – informa tocando o seu comunicador. – Quando quiser, Artêmis.
‘Estou chegando ao corredor’ Sara conta.
—Vamos – tomo a frente e abro a porta da sala, conferindo os dois lados antes de sair sendo seguido de perto por Isis. Entramos na escada de serviço e segundos depois estamos ao lado oposto de Sara, encarando três guardas que estavam parados como uma muralha humana, a frente do laboratório da ex do Damian.
Não posso dizer que foi um desafio. A parte divertida foi ver que os caras eram dois da Sara e provavelmente três da Isis, mas não duraram mais do que alguns segundos nas mãos das duas. Dei um golpe certeiro e limpo no pescoço do meu e o segurei para evitar o barulho da queda, mas quando o deixei estirado no chão, Isis e Sara já estavam arrombando a porta com um cartão magnético.
Phoebe Morley estava parada do lado oposto do laboratório, usando um jaleco e fazendo algumas anotações. Ao levantar os olhos para a porta não teve tempo nem mesmo de ver o que a atingiu, só o que capitei foi um dardo verde em seu pescoço, seus olhos se fechado e Sara Diggle abaixando o braço. Nem mesmo Roy seria tão rápido, por segundo começo a cogitar que os boatos sobre como se livrou da Waller podem ser mesmo reais.
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