PARADOXO - Seson 3
18 Capitulo 15 - Coração Negro
Notas iniciais
PHILLIPPE
Star City chega a ser deprimente quando venho de New York. Sombria, fria, só não posso dizer que o cheiro é pior, o que a cidade onde estudo tem de bonita, tem igualmente de poluída e fedorenta. Mas por algum motivo sou tomado pela sensação de casa no instante em que passo pelo terminal de desembarque. Connor segura uma plaquinha com meu nome, feito um idiota, ao lado de Wally que finge ser uma fã histérica, sacudindo as mãos em frente ao rosto, mas o ver parece bom demais para me importar com suas idiotices.
—Você voltou! -exclamo, batendo minha mão na dele antes de nos abraçarmos de lado. -Cara, dessa vez conseguiu protagonizar o drama do século -comento e Connor arranca minha toca, bagunçando meu cabelo. Eles já estavam na altura do meu queixo e já começo a me prepara para todas as tentativas futuras da minha irmã, para me fazer cortá-los -Hey! – reclamo, mas meu cunhado não dá a mínima.
—Minha irmã também está de volta -pega a beg de minhas mãos e me devolve a toca.
—Sério, Isis e Wally ao mesmo tempo? -finjo estremecer e os escuto dando risada, mas paro quando uma mulher muito gata, de pele escura e cabelos cacheados segurava a porta do carro de Connor aberta, com uma menininha de cabelos idênticos aos dela e um rosto tão delicado quanto, saltitava em seu colo apontando em nossa direção.
—Sara voltou? -olho para Wally que contém um sorriso. -Por que não começaram as notícias por aí? -implico vendo o sorriso de Sara se alargar.
—Eu não consigo me acostumar a ficar tanto tempo sem te ver e depois dar de cara com tudo isso -ela revira os olhos exagerando e solto uma gargalhada, Sara faz falta. -Que tipo de genética é essa que os Delphine possuem? -se volta para Connor e Wally.
—Acho que ganharam a simpatia do grande D, como você diz. -Wally dá de ombros. -Ninguém precisa ser tão bonito no mundo -solta como se estivesse nos xingando.
—Essa deve ser a Nina -ignoro o pai da garota, e me aproximo. -Ela é muito parecida com você, Sarinha -beijo o rosto da mulher e estendo minha mão para a garotinha que me olhava com timidez e um interesse nítido, então ela se joga nos meus braços.
—Está surpreso? -Connor pergunta ao Wally, ambos com expressões entre preocupação e certos níveis de vergonha.
—Cara, nem consigo pensar no que ela vai fazer quando ver o Grayson -responde o amigo e eu fico boiando entre os três que gargalhavam nervosos a ponto de romperem em lágrimas de desespero.
Dentro do carro, Wally para não perder o costume reclama durante todo o percurso. Mas é mais fácil dar conta de suas chatices depois de ficar muito tempo pensando que ele estivesse perdido em um universo estranho ou algo parecido. Connor estava radiante, o que ajuda também, afinal, eu sei bem o que significa a alegria dele. E sempre tenho Sara para melhorar qualquer tipo de ambiente no mundo, ou fazer os dois caras grandes resmungões tremerem de medo.
—Connor -chamo enquanto observava pelo retrovisor Sara brincando com Nina que tentava se soltar da cadeirinha a qualquer custo, fazendo Wally usar de sua velocidade várias vezes para mantê-la no lugar. -Se importa de me deixar na casa dos seus pais?
—Acho que é uma boa ideia -posso sentir o sorriso em sua voz, mas estava fascinado demais pela dinâmica familiar dos West para poder desviar os olhos.
ISIS
A visita ao Lodai despertou uma série de lembranças da arca. Por mais que tentasse parecer normal no caminho de volta não conseguia deixar de estremecer sempre que mais uma delas dava as caras. A pior parte foi rever meu processo de término com Damian, e não ajudou em nada ele continuar me evitando como se eu fosse uma espécie de doença contagiosa.
Aproveito que ao contrário de mim, todos estão ocupados pela manhã com seus trabalhos oficiais e passo algumas horas na sala de treinamento do Bunker. Usar a Katoptris tem se tornado mais natural a cada dia, quase como se fosse parte permanente do meu próprio corpo. Treino evitando pensar, e continuo até estar completamente esgotada. Uso o teletransporte para voltar para a mansão, e me arrasto escada acima sem muito ânimo. Mantendo os olhos parcialmente fechados, por não ter forças para fazer um escândalo e morrer de medo de pegar meus pais se engalfinhando em algum canto.
Tiro minhas roupas como um robô, entro debaixo do chuveiro, o dia está claro, e escuto meus pais chegando quase ao mesmo tempo, o que me faz pensar que com sorte posso aproveitar algumas horinhas de sono. Baixo minhas cortinas, odiando o fato de ter quebrado a parede, meu quarto é exageradamente grande, e já me sinto pequena o suficiente para ter mais alguma coisa que me faça parecer ainda menor.
“Eu sinto muito, de verdade.” Digito rapidamente a mensagem e aperto enviar, fico olhando para a tela do celular por alguns segundos, então desisto e me deixo ser guiada para a inconsciência.
Olho em volta e pareço estar na biblioteca da Bela, a do desenho animado. É bem estranho a princípio, mas como é um dos meus desenhos preferidos, não dou muita importância, não me importo até ver uma versão minha correndo escadas acima enquanto grita “Uhull!” e desliza para baixo no corrimão quando chega ao topo.
—Oi Pequena Queen! -a Katoptris sorria radiante, sem conseguir focar no meu rosto enquanto sua atenção era desviada para a biblioteca ao nosso redor. -Melhor. Sonho. Do. Mundo! -bate palminhas e fico sem saber o que fazer.
—É legal -murmuro sem nenhuma animação. -Por que nós estamos aqui?
Ela me puxa pelas mãos e sou arrastada escada acima, onde nos sentamos em poltronas muito confortáveis, e por algum motivo sinto cheiro de baunilha. -Precisava te lembrar do nosso trato -fala com um sorriso de empatia. -Sei que está sendo dificil se perdoar, mas é o primeiro passo para ficarmos bem novamente.
—Damian me odeia, precisava ver o olhar dele. -confesso com pesar.
—Ah querida, ele não te odeia -não sei o que dava tanta certeza a ela, mas não tenho energia para discutir. -Talvez deva prestar atenção nos outros, Damian tem os próprios problemas para resolver -então meus olhos, quer dizer, os olhos dela ficam completamente brancos. -Vocês terão uma jornada pelo tempo, atrás das armas que os salvarão, dois por vez devem reunir os instrumentos para destruir os irmãos do caos e banir e a pior das almas, finalmente conquistando a justiça—ela tosse e dando tapinhas na cabeça. -Odeio quando me fazem de porta voz, esses velhos bobões -pragueja com uma tromba de irritação no rosto. -E você! -aponta o dedo em riste e me encolho por reflexo. -Já deveria estar acordada, Felicity tem mais o que fazer. E se o garoto bonito for embora por causa dessa sua preguiça... -deixa a ameaça pairando no ar.
—Ai meu Deus! -exclamo me sentando na cama com o coração acelerado, então vejo o rosto de minha mãe em minha frente, ela parece segurar o riso. -O que aconteceu? -a olho confusa.
—Vim te acordar, mas antes que pudesse fazer, você levantou feito uma doida desvairada -tagarela balançando as mãos para ilustrar a cena. Ela é tão enérgica quanto a Katoptris, seus olhos brilhando de diversão com um ato tão pequeno, como me ver acordar toda atrapalhada fizesse todo o seu dia melhorar. Então percebe minha expressão. -O que foi, bebê? – mamãe se senta na beirada da minha cama e estuda meu rosto com aparente preocupação.
—Eu só acho que não te mereço -a abraço apertado, deitando minha cabeça em seu ombro. -Sinto muito, mãe. Prometo que vou ser melhor agora – choramingo.
—Ah amor, eu adoro isso, mas já deu de desculpas né. -diz com carinho passando as mãos em meus cabelos. -Precisa entender que ninguém espera que seja perfeita e tome todas as decisões certas aos dezenove anos. Pode fazer bobagem as vezes, eu mesma quase fui parar em uma prisão federal na sua idade -ela arregala os olhos ao se dar conta do que disse me fazendo dar risada. -Não que isso vá te livrar se for para uma prisão, é melhor nem chegar perto de uma mocinha -me esforço para demonstrar em meu rosto o medo que ela queria muito que sentisse. -A não ser que esteja em uma missão, nesse caso é bem compreensível -me dá um beijo no rosto antes de andar em direção a porta. -Você tem visita! -diz com um suspiro sonhador, me deixando sozinha em seguida.
Antes de qualquer coisa, envio uma mensagem no grupo do time, avisando da nova profecia, para a alegria de bem, absolutamente ninguém. Começo a me espreguiçar quando as respostas chegam.
Lunna: Não gosto que nos separem, mas quem sou eu para reclamar com uma entidade cósmica.
Con: Podemos trabalhar com isso.
Vampiro Wayne: Ok.
Wally: Já estava estranhando o silencio da sua faquinha.
Sarinha: Espero não ficar no seu time.
Wally: Hey! Sou seu marido!
Sarinha: E tem uma propensão absurda de irritar o que a Lunna denominou como entidades cósmicas, que costumam ser rancorosas. Então não, obrigada, tenho uma filha para criar.
Wally: Nós dois temos! A filha é nossa!
Sarinha: Mais um ponto a favor do meu argumento!
Lunna: Vocês não estão no mesmo lugar?
Con: Os dois estão na fila da cafeteria, bem na minha frente, fingindo que não se conhecem.
Wally: Não é educado gritar em público, mesmo que sua esposa esteja sendo completamente irracional.
Sarinha: Vou te mostrar o irracional seu...
Vampiro Wayne: Ótimo, vamos ir caçar essas armas com um Wally moreno agora, ainda tenho pesadelos com o que virou o cabelo dele depois da última briga.
Rio do casal estranho que meus amigos formam, e tento não pensar no fato de Damian responder o grupo, mas ignorar minhas mensagens diretas. Entro no banheiro apenas para lavar meu rosto e escovar os dentes, saio prendendo meus cabelos com um elástico que encontrei sobre a pia. Troco meus pijamas por um par de calças jeans e um moletom preto do Connor, bom era dele quando tinha dezesseis anos, mais ainda fica enorme em mim, terminando acima dos meus joelhos, e não tem nada em meu guarda roupas que seja mais confortável. Estava prestes a passar pela porta quando percebo o brilho da Katoptris sobre a mesinha de cabeceira.
—Não vai me mostrar nada? -murmuro surpresa quando ela apenas para de brilhar em minhas mãos, como se não quisesse que a esquecesse, o que é ridículo por que mesmo a deixando aqui a adaga apareceria em meu bolso em poucos minutos. -Tão esquisita!
Posso escutar a voz rouca e familiar no momento em que passo por minha porta. O que me faz saltar para o primeiro andar ignorando metade dos degraus da escada. Ele estava conversando animado com meus pais, que como sempre pareciam ter ganhado o dia com a visita. Vejo Phill e toda aquela beleza completamente desnecessária, dentro de um jeans surrado e uma blusa creme de manga longas que se moldava ao seu corpo, delineando os ombros largos e os músculos que fazem a maioria das garotas que conheço enlouquecerem. Agora o suspiro da Sra. Queen faz todo o sentido.
—Phill! -exclamo correndo em sua direção assim que passo pela porta da sala.
—Rainha da beleza!
Um sorriso enorme toma conta do seu rosto, e meu melhor amigo abre os braços para receber meu ataque estilo trator quando me jogo em sua direção. Phillippe dá um passo para traz ao me firmar em seus braços enquanto estava ocupada em apertá-lo com todas as minhas forças.
—Ela está mesmo de volta -percebo um certo deboche na voz do meu pai, ergo minha cabeça que estava enterrada nos ombros de Phill e com toda a minha maturidade, mostro a língua para meu progenitor.
—Está me estrangulando, Queen -a voz rouca parece não ter muito folego e o liberto dos meus braços imediatamente.
—Desculpa -murmuro o vendo massagear o pescoço.
—Que bom que escolheu essa palavra, por que se usar mais uma vez que seja comigo, vou ser bem criativo ao te fazer se arrepender -um sorriso diabólico faz com que seus olhos violetas escureçam momentaneamente.
—Mas eu ainda não disse...
—Acha que suas desculpas terroristas não chegaram aos meus ouvidos mesmo em Nova York? -argumenta, e me dou conta de que estávamos sozinhos na sala, meus pais parecem não se importar em nada quando o assunto é Phillippe, não era fácil assim ficar sozinha com Damian, não que o caçula Delphine e eu já tivemos interessados um no outro, bom, talvez esse seja o motivo no fim das contas. -Isis!
—Oi? -vejo sua mão enorme passando em frente ao meu rosto, tentando me puxar de volta para a realidade.
—Alguma visão? -parece preocupado.
—Nada disso -dou de ombros o puxando para fora da casa, em direção aos jardins. -Mas agora que tocou no assunto, acho que minha adaga tem algum tipo bizarro de atração por você -faz careta assim como eu, tiro a Katoptris do bolso e ofereço para ele, que não parece nada tentado com a ideia de toca-la. -Pode pegar, não é como se ela fosse te transportar para Oz.
—Isso seria bem legal, na verdade -sorri de lado esticando a mão cheio de hesitação. -É fria -a observa com cuidado e a vejo brilhar como uma discoteca.
—Está tendo alguma visão? -questiono preocupada.
—Não, só parece que estar esquentando -reviro meus olhos e a pego de sua mão a guardando de volta.
—Pronto, só que faltava -reclamo o fazendo dar risada. -Você foi a primeira visão que ela me mostrou -comento quando nos sentamos em um banco em frente as flores. -O dia que nos conhecemos.
—Quando você e Damian me salvaram -completa parecendo perdido em pensamentos. -Acho que deveria agradecê-la -aponta para meu bolso. -Isso foi o mesmo que salvar minha irmã, eu era tudo o que ela tinha na época.
—Parece ter sido em outra vida, não acha?
—Na verdade não -dá de ombros. -Nós tivemos experiencias diferentes naquele tempo, você era uma heroína, mas eu -retira a touca e passa as mãos pelos cabelos que já estavam abaixo de seu queixo, antes de recolocá-la. -Só o que queria era que me deixassem ficar com Lunna, e parassem de inventar histórias em cada maldita audiência de custódia. Agora é como se pudesse finalmente respirar em paz -um brilho de tristeza passa rapidamente por seus olhos.
—Esses últimos meses devem ter sido horríveis para você -comento deitando minha cabeça em seus ombros. -Odeio de verdade não ter estado lá.
—Está aqui agora, é bom o bastante.
—Como... -começo um tanto insegura, sei que independente da resposta eu vou odiar escutá-la, mas não imagino ninguém além de Phillippe me dizendo a verdade sem poupar meus sentimentos. -Como eles estavam? -tudo o que escuto é um suspiro profundo.
—Sabe como Lunna é -passa a olhar ao redor, sem se fixar em nada por mais de um instante. -Quando eu estava por perto ela se esforçava para não demonstrar, mas era como a ver se deteriorando lentamente, como alguém que sofre de uma doença incurável -sinto seu corpo estremecer ao lado do meu. -Connor era quase tão ruim quanto -faz uma pausa e se vira para estudar meu rosto antes de continuar. -Quer mesmo escutar isso?
—Preciso para de fugir -dou de ombros.
—Ele ainda era ele entende? Recebia uma ligação a cada dois dias, sempre checando se eu continuava fazendo as coisas básicas como respirar, me alimentar e dormir -revira os olhos. -Mas por vezes o pegava me observando de longe com Lunna, a observando na verdade... Era o tipo de olhar que vemos em velórios, quando os familiares procuram memorizar cada parte do rosto de seus entes queridos antes de dizer adeus.
—Acho que ela só deveria parecer viva quando você estava em casa -pondero. -Minhas lembranças são embaçadas e turvas, mas sei que estava muito diferente no dia em que a encontrei, apesar de todos repetirem que ela já parecia muito melhor.
—Damian ajudou – escuto um tipo de sorriso em sua voz. – Eu começo a pensar que minha dívida com seu morcego continua se acumulando ao decorrer dos anos.
—Eu nem consigo entender a nova dinâmica estranha dos dois, pensei que pararia agora que Wally está de volta... -sou interrompida por sua gargalhada rouca, me fazendo encarar seu rosto inutilmente bonito.
—Ah Queen! -parece limpar lágrimas dos olhos em meio ao riso -Eu precisava mesmo disso!
—É melhor parar de rir da minha cara Delphine! -aviso, mas isso não ajuda muito no controle dele.
—Não consegue ver o padrão?
—Nem começa a insinuar que eu estou com...
—Você está com ciúmes -declara sem dar nenhuma importância. -Mas não estou falando de você, é o padrão dos caras que se tornam amigos da minha irmã.
—Quer dizer todos os dois -cruzo os braços sobre o peito, irritada com a forma divertida que ele me fitava.
—Wally foi adotado e tem toda história triste sobre a mãe biológica e os maus tratos. Ele é o tipo de pessoa que se prende a todos a sua volta, e não esconde nenhum tipo de sentimento -a forma que explicava, faz com que me sinta uma garotinha birrenta. -Damian é o oposto em partes, mas apesar da pose de badboy, você mais do que ninguém sabe o quanto ele se importa com tudo e todos a sua volta.
—Aquele idiota ainda acredita que alguém compra a historinha de lobo solitário -reclamo.
—Eles fazem com que ela se lembre de outra pessoa -conclui e olho para seu rosto confusa. Phillippe aponta o dedo para o próprio peito. -Ela não se aproxima de qualquer pessoa, quase morreu se remoendo de culpa por pensar que havia falhado com o Wally, mas quando Damian voltou para o time era como se pudesse ter uma pequena brecha, um pontinho de esperança de não errar novamente.
—Mas ela não falhou com você.
—Isso não importa, não aos olhos dela -esfrega as mãos, aquele assunto parece ser o primeiro que vejo estar fora de sua zona de conforto. -Toda essa história de luta contra o crime, os trabalhos intermináveis antes disso e todos os diplomas que acumulou... Lunna quer me manter a salvo a qualquer custo, ela não é boa em perder ninguém que ama e se me perdesse -estremece incapaz de concluir.
—Não entendo essa mania dos nossos irmãos mais velhos, não é como se nós fossemos bebês -bufo. -Connor é inacreditável nesse quesito.
—Ele estava furioso enquanto você estava, você sabe -comenta parecendo não curtir muito meu tom. -Quase nada tira aquele cara do sério, pode incluir isso em sua lista de dons exclusivos! -empurra meus ombros de leve.
—Acha que sou ingrata -não era uma pergunta. -Mia age da mesma forma quando reclamo do meu irmão ou dos meus pais me super protegerem...
—Não acho que deixar a filha adolescente lutar contra bandidos armados venha a ser super proteção -faz careta cantarolando cada palavra. -Essa é a vida de vocês, se me perguntar se entendo por que é necessário ser assim eu vou afirmar sem pensar nem uma vez, mas a questão é o preço que esse estilo de vida exige -agora o sol já começava a se por. -Não acho que deveria ficar tão irritada por ter um pequeno exército cobrindo sua retaguarda -se levanta e estende a mão para bagunçar meus cabelos. -Só consigo estar em outra cidade, por saber que esse mesmo exército está protegendo como pode a vida da minha irmã.
—Você é irritante as vezes sabia? -implico o fazendo sorrir. -Deveria trabalhar mais em seus defeitos, acho que não faz mal.
—Pode deixar, Rainha da Beleza.
—Hey, onde está indo? -levanto apressada quando ele começa a se afastar.
—Jantar com nossos irmãos, vim direto do aeroporto, você está começando a parecer comestível -responde sem se virar.
—Espera! -corro para alcança-lo. -Vou com você.
—Ótimo, por que Connor que me deixou aqui e não estou com vontade de esperar o Uber -passa o braço por meus ombros e me sinto uns dez quilos de culpa mais leve.
—Phill -suspiro feliz por nenhum motivo especifico.
LUNNA
Phillippe tem seu rosto verde, quando somos teleportados para a torre da liga. Seguro em sua mão tentando não rir enquanto ele se recompõe, é estranho ver um cara grande e completamente dono de si, como meu irmãozinho costuma ser, não sabendo o que faz com as próprias mãos. Acaricio suas costas paciente sem o apressar, ele me sorri de lado e ajeito os óculos escuros em seu rosto, colocando uma mecha de seu cabelo cumprido atrás da orelha. Já desisti de tentar fazer com que corte, e preciso admitir que ele ficaria lindo de qualquer jeito.
—Qual é desses óculos? -desdenha. -Não é como se não fossem saber quem eu sou, por que coloquei isso no rosto -um cara ainda maior do que ele passa ao seu lado, trajando vermelho e azul e mostrando um grande sorriso cheio de simpatia.
—Bom dia Gláuks! -cumprimenta cordial como sempre. -Olá garoto, belos óculos! -o rosto de Phill perde a cor, e ele murmura um “oi”, que me faz segurar ainda mais o riso.
—Bom dia -devolvo sorrindo para ele. Clark toca meu ombro ao passar por nós, deixando Phill de queixo caído ao meu lado.
—Aquele é o Superman de verdade? -sussurra olhando para os lados.
—É sim -começo a puxá-lo em direção a sala do Marciano. -Você está com a mesma expressão que suas fãs ficam nos seus shows -provoco e imediatamente ele conserta a postura, com o rosto retorcido de desconforto. -Foi o Batman quem disse que teria que preservar sua identidade para vir aqui, se quiser posso te pôr em contato com ele -os lábios de Phill se tornam uma linha fina, tão fácil de provocar que quase não é engraçado -indico o sofá do lado de fora da sala para ele -pode esperar aqui.
—Tudo bem -passa as mãos nas coxas, como se secasse o suor delas e se senta ainda com os olhos correndo pelos arredores. -Se quiser dar uma olhada, não passe desse corredor!
—Não sou mais criança -responde calmamente, negando com um aceno, mas me limito a assentir e entrar na sala branca do J’onn.
—Olá Delphine.
O Marciano colocou um divã branco em sua sala, três poltronas da mesma cor, uma a frente ao divã, e outras duas mais afastas dispostas uma à frente da outra, ali parecia algo mais íntimo, como dois amigos em uma roda de bate papo, eu com um chá quente e J’onn estaria com um suco gelado, mas isso não era uma roda de conversa sem finalidades, e se era para entrar no personagem e descobrir tudo que me afligia era melhor fazer o papel completo. Uma coisa sobre marcianos, eles são extremamente quietos, e J’onn ficou aguardado silenciosamente minha mente decidir qual era o meu próximo passo, quando por fim me deitei, meio desconfortável no divã ele se sentou a poltrona a frente com um bloco de notas e caneta em mãos.
Há algo perturbador em se deitar em um divã, estranho explicar o sentimento, é como estar exposta, vulnerável. É como se os sentimentos que você nem sabia que existiam guardados em você viessem à tona. Isso ou a carga de filmes e series dramáticos que me veio à mente, sem falar naquele final de Soprano.
—Oi J’onn – o meu devaneio não durou muito tempo, mas havia um sorriso no canto dos lábios do marciano, como se todos antes de mim também passassem pela mesma escolha.
—Seu irmão quem veio acompanha-la? -questiona, mas não sei dizer o que seria aquela expressão em seu rosto.
—Sim, estou passando meu dia com ele -conto animada.
—Vejo que isso a faz bem.
—Sempre faz. -concordo.
—Lunna, acho que podemos começar agora -ele se metamórfica para sua forma humana, um homem negro com traços fortes e a roupa estilo Castiel, acabo de me dar conta que essa deve ser a roupa da moda, vou tentar tirar uma foto dele ao lado do Constantine em minha primeira oportunidade.
—Por que mudou? -olho para ele confusa.
—Acredito que seja mais fácil se abrir com alguém de sua própria espécie.
—Não me importo com sua forma verdadeira -ele pode ver a sinceridade em meu rosto, e esboça um mínimo sorriso em resposta. -Mas me incomoda todo esse branco -gesticulo em volta. -Por que isso?
—Algo de errado com a cor? -se desvencilha da pergunta, mas seu rosto parece divertido.
—Não, só fiquei curiosa -dou de ombros, então me inclino em sua direção e sussurro em tom de segredo. -Isis adoraria dar um jeito nisso! – J’onn faz uma leve anotação, tão rápida que nem saberia dizer o que realmente havia visto. – A análise já começou? Não estava preparada. – Ele não se aguenta e solta uma risada divertida.
—Não é como se precisasse disso. –Levanta a caneta – Mas os humanos tendem a ficar mais à vontade. E com relação a cor, prometo que pensarei a respeito, assim podemos falar sobre você? -balanço a cabeça concordando, ele assume um tom mais sóbrio agora, acho que prefiro o mais descontraído. -Ótimo. Me fale sobre seus últimos dias, Lunna.
—Não tenho muito o que dizer -respiro fundo, pensando a respeito. -Estamos enfrentando mais uma grande ameaça, mas acho que já sabe disso -brinco com meu celular em mãos, o trocando de uma para a outra. -Tenho segredos, J’onn, como todos os outros. Pessoas como nós possuem muitos segredos -ele balança a cabeça me incentivando a prosseguir. -Felix Fausto, eu o conheci e pensava que nunca mais teria que lidar com o filho da puta -afasto meus cabelos de meu rosto. -Desculpe pelo palavrão.
—Não me importo -ele escreve algo, depois volta a me olhar. -Está com medo, agora que sabe que vai enfrenta-lo em algum momento?
—Sua família -olho para seu rosto sério. -Você também os perdeu, não foi?
—Sim -responde com a voz profunda.
—Então sabe com o que tenho que viver diariamente. -J’onn concorda. -Eu tenho medo, mas não de ver o Fausto, tenho medo por Phill e Connor, por que esqueci como era ter uma família antes dos Queens me puxarem para o mundo deles, e agora -olho para as linhas em minha saia, traçando os padrões com meu dedo indicador. -Agora tenho certeza que não vou viver se algo acontecer com um deles.
—Não tem noção da força que possui.
—Talvez não tenha -dou de ombros. -Ou talvez eles sejam toda ela.
—Merece um pouco de mérito também -dou um sorriso em forma de agradecimento, mais por educação do que outra coisa. -Quando seus pais estavam vivos e precisava lidar com algo que a deixasse desconfortável ou temerosa, se lembra do que costumava fazer?
—Não me lembro de ter medo -respondo prontamente. -Não tinha ideia do que é realmente sentir medo naquela época.
—Quando foi a primeira vez em que se lembra de sentir?
Vasculho minha mente por um tempo. Me lembro das luzes vermelhas e azuis, e da campainha tocando tarde da noite. Uma vizinha que estava dormindo em nossa casa nos acordar e seus olhos muito vermelhos enquanto soluçava e chorava desesperadamente. Perdi a paciência e fui procurar informações com um dos guardas, Phill estava agitado demais para ficar esperando a mulher se resolver antes de encontrar as palavras. Um policial gordo, com o rosto marcado pelo descuido e idade me olhava piedoso, foi o instante em que percebi o que acontecera, me lembro de ver Phill tentando consolar a mulher sem noção, e de perder todo o chão sob meus pés.
—Foi a muito tempo -respondo simplesmente.
—Claro -se ajeita na poltrona. -Me fale do seu irmão.
—Phill? – me surpreendo, não era um caminho que estava preparada para seguir, Phill era a parte descomplicada da minha vida, apesar do passado, hoje ele era o humano mais incrível que conheço, era como ver Friends, os demais eram como Euforia, não estou dizendo que não é bom, mas é mais denso e pesado, Phill era como desligar a mente e estar à vontade. -Phillippe -recito seu nome com um sorriso automático no rosto. -Existe apenas uma parcela mínima de pessoas como ele no mundo -começo, esse é meu assunto preferido, e poderia ficar nessa por toda a vida.
—Como ele?
—Phill é bom -suspiro. -Não bom por que tem que ser. -nego. -Ele é realmente bom, do tipo que tira o agasalho se ver um morador de rua dormindo ao relento durante um dia frio, e tenta fazê-lo ir a um abrigo. Phill tem um coração que faz mais do que bombear o sangue, e acho que alguém assim me faz ver que todo o trabalho e sacrifício que fazemos diariamente, vale a pena.
—Isso é um traço em comum de vocês, não acha que ele possa ser alguém bem-educado? -pondero por um momento.
—Poderia ser, mas não teve tanto tempo com nossos pais como eu. Aprendi o caminho correto sendo educada por um pastor e uma médica voluntária. Ao longo dos anos passamos a ser quem somos, e não bondade propriamente dita -não me sinto mais confortável e acho que ele pode perceber isso.
—Não acha que ele possa estar espelhando suas atitudes? Você é o maior elo que ele tem como os seus pais, talvez tente reproduzir o que te ensinaram, assim podendo ser mais parecido com o que seus pais esperavam de vocês. –Não sei bem como assimilar essa hipótese. J’onn fica quieto por um momento, parecendo em duvida da próxima abordagem, mas por fim muda novamente para sua forma marciana e estuda meu rosto.
—Pode tocar minha mão? -estende a grande mão verde em minha direção, me levanto e tomo sua mão entre as minhas.
Era morna, e de pele grossa, mas estranhamente agradável, comparo o tamanho de nossas mãos e sorrio ao ver como as minhas parecem de crianças ao lado da dele. Chego a tirar minha aliança só para comparar a largura de nossos dedos, me divertindo realmente com aquilo, ela não passa nem nas pontas e quando levanto meus olhos vejo pela primeira vez seu rosto demonstrando alguma expressão, ele parece surpreso.
—Fiz algo errado? -pouso sua mão com cuidado sobre seu joelho e me afasto preocupada, me sentando onde estava antes.
—Na verdade não -me tranquiliza. -Só não parece me ver ou se ver.
—Como? -por um instante me vem à mente todos reclamando sobre como não conseguem compreender muito do que digo e posso finalmente ter empatia real por eles.
—Poderia me deixar te mostrar algo em sua mente? -sua voz se torna suave. -Prometo que não vou vasculhar seus pensamentos, só quero que veja o que nós vemos.
—Pode ser. -me ajeito na cadeira e um segundo depois é como se fosse transportada a outro lugar.
Tudo era cinza e sem graça. Uma garota magra, com um rosto agradável e cabelos cacheados bem rebeldes estava, lado do Marciano, completamente verde, com olhos tristes e solitários. Minha versão estende sua mão e pega a dele com respeito e um grande sorriso que a faz passar de agradável para bonita em um segundo. Mas tudo se dissipa como tinta sendo jogada em água.
Então estou à frente de um Marciano de dois metros, com a postura ameaçadora e os dentes afiados aparentes. Mas antes que o temor me tome, sei de quem se trata, seus olhos não mudam o que me faz permanecer firme, lido com J’onn a muitos anos para estranhar sua fisionomia. Ele diminui e para a minha frente, dou um sorriso de diversão, como se competisse em um jogo e o ver frustrado fosse minha forma de ganhar.
Mais uma vez ele muda o cenário e estamos em um parque, com muitas flores e famílias. Uma linda garota vem andando sobre seus saltos com a maestria de uma bailarina. Ela usa um vestido floral, rodado com os cabelos cacheados balançando graciosos sob a menor brisa. Seu rosto era sério, mas parece ter sido esculpido por algum artista profissional, com grandes olhos o direito de um verde vivo e o esquerdo com traçados castanhos sobre o verde que se fazem perceber de longe. Linda, tão bonita que não parece nem de pertinho ser real. Acho que me lembra um pouco o Phillippe, com certeza possui a mesma beleza inacreditável dele.
—Quem é essa? -pergunto admirada ao Caçador de marte. Ele pousa uma mão em meu ombro, fazendo que o olhe. Então estamos novamente em sua sala na torre.
—Você. -diz em sua poltrona.
—O que tem eu? -o observo confusa.
—A garota que viu no parque, aquela é você, como é realmente, como todos te veem -repete, mas não faz sentido. -Primeiro te mostrei como se via, ao lado de como me vê -me lembro da garota normal e o Marciano nada intimidador. -Depois te fiz ver como ambos somos de verdade, e não pareceu se afetar por minha mudança, mas nem mesmo conseguiu se reconhecer. Como se descreveria Delphine?
—Sou uma garota decente -dou de ombros, odiando o assunto. -Pago minhas contas em dia, tento ser boa e não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem comigo...
—Fisicamente -me interrompe.
—Por que isso entra em questão? -minha cabeça começa a latejar, e vejo que só temos mais dois minutos de seção, o que me faz respirar aliviada.
—Acredito que seja você quem deve me dar a resposta. Você tem problemas com a sua autoestima e sua autoimagem, mas não é como se não soubesse disso, não é mesmo? – J’onn volta sua versão humana e me dá um sorriso de lado. – Pessoas do seu passado te fizeram acreditar que não valia, não era o suficiente, que não era o bastante, e a Lunna do seu passado acreditou nisso, e está tudo bem. O que não está bem é que essa Lunna de hoje não consiga quebrar essas barreiras, aquela menina do passada está precisando da mulher que você é hoje. Lunna, você lutou pelo Phill, lutou pela Sara, lutou por todos, agora precisa entender que precisa lutar por você mesma, por que é tão digna de valor quanto todos nós. Você precisa lutar por você mesma — repete novamente. – Essa é uma luta que ninguém mais pode batalhar, o que podemos é te dar arsenal. Phil lá fora é um aliado, aqui – aponta para o próprio peito. – Você tem outro, mas cabe a você saber como ira nos usar para te ajudar.
— Eu não sei se estou pronta – digo sem ao menos pensar nas palavras.
—Está pronta para o que? – seus olhos são tão intensos, era essa a questão que ele estava querendo que eu enxergasse.
—Não sei se quero ser salva.
ISIS
O dia anterior com Phill me deu muito em que pensar, e a noite com nossos irmãos acabou sendo a melhor desde que me livrei da Arca. Cozinhamos todos juntos e jogamos mimica, Connor e eu, contra ele e Lunna. Não me lembro de me divertir tanto desde que me mudei para estudar em Havard, tudo estava perfeito.
Pela primeira vez sinto que as coisas estão começando a voltar para onde pertencem. Decidi parar de protelar, é melhor encarar tudo de frente e pegar de volta o que eu venho tentando ignorar. A festa dessa noite parece ser perfeita para acabar com a nova estratégia do Wayne de me manter o mais distante possível.
Escolho um vestido de noite, preto como minha alma, mas fofo, por que não tenho que ser tão mórbida também. Ele tem alcinhas finas, justo até a cintura, se abrindo em uma saia volumosa que acaba antes da minha panturrilha, mostrando meu scarpin preto com uma corrente de pedrinhas brilhantes sobre o peito dos meus pés. Prendo meus cabelos em um coque alto, que me faz parecer uma mistura da minha mãe com tia Thea, coloco um colar delicado de pérolas e um brinco do mesmo material. Dam vai estar possesso tentando com todas as suas forças me odiar, então vou dificultar ao máximo que ele alcance seu objetivo. Faço que me escute nem que seja aos murros, e vamos resolver nossos problemas de uma vez por todas.
—Oi princesa -escuto a voz do meu pai assim que saio do meu quarto. Ele caminha em minha direção, usando um smoking fino, com um sorriso largo no rosto, do tipo que faz minha mãe perder o ar. -Nossa, acho que não tenho mais uma garotinha. Está tão linda quanto sua mãe. -brinca me olhando.
—Uau, isso deve ser um grande elogio -pondero sem ter certeza, mas para Oliver Queen, Felicity é o ápice de tudo o que ele julga beirar a perfeição. -O senhor também está tão bonito quanto o Connor! -devolvo e ele leva a mão ao peito com cara de dor.
—Posso ter merecido, mas foi um golpe bem baixo -reclama me oferecendo seu braço para me levar ao salão.
—Onde está a mamãe? -questiono quando subíamos um jogo de escadas.
—Com Lunna, parece que as duas não puderam conversar desde que voltamos, então roubou ela do Connor assim que os dois passaram pela porta -mesmo tentando disfarçar com seu humor, posso ver a preocupação em seu rosto.
—Como estão as apostas? – questiono, tentando mudar o clima.
—Acho que estamos mesmo vivendo o apocalipse, princesa, tanto Wally, quanto Barry, já estão no salão a muito tempo – sussurra incomodado, me fazendo rir.
Quando entramos no salão, mal posso acreditar que conseguiram reunir todas essas pessoas em menos de uma semana. Sara estava linda em um vestido de gala perolado, completamente justo e com uma fenda lateral, que mostrava o corpo lindo que ela possuía, seus cabelos estavam meio presos, fazendo seus cachos dançarem em suas costas enquanto ela se movia. Wally a olhava feito idiota enquanto Nina que mais parecia uma bonequinha em um vestidinho estilo boneca, branco com uma fita perolada que combinava com o da mãe, ria para seus quatro avôs que a paparicavam ao mesmo tempo. Tia Thea nos vê entrar e corre em nossa direção com Roy a seguindo, mancando e com o supercilio tapado por um curativo.
—Oi querida -me aperta em seus bracinhos finos, fortes demais para tanto afeto.
—Oi. Tia -sai com esforço e meu pai me socorre, puxando a irmã com cuidado. -Oi -digo a Roy que está parado a minha frente, com os olhos brilhando e um sorriso discreto no rosto, então um flashback de um encontro com Jason me vem à mente, quão ruim uma pessoa precisa estar para o Jay ter a necessidade de dar lição de moral?
—Como se sente? -pergunta em voz baixa, discreto, mas cheio de preocupação.
—Completamente eu -dou a ele um sorriso genuíno que parece bastar para que me abrace apertado e se afaste em seguida. – Desculpe por preocupar o senhor, tio – sussurro em seu ouvido antes de nos afastarmos.
E se duvidava que estamos vivendo os fins dos dias, acabo de ter certeza que meus olhos estão vendo um presságio deles. Me concentro na Katoptris que está em um suporte na minha coxa, mas nada, é real. Bruce surge no topo da escada, com Dick, Babs e seus filhos atrás dele, mas até aí são os que normalmente comparecem as nossas festas, mas então Jason e Tim completam o que deve ser a quebra do primeiro selo do Apocalipse. E quando penso que não vai ser mais bizarro, Damian os seguia. Damian e uma garota, de braços dados. Deus. Inspiro com força, sem conseguir desviar meus olhos da cena.
—Isis. -Connor brota do chão, mas sua voz me traz de volta para terra. -Tem um amigo seu que chegou a um tempo, Mia me deixou com ele quando saiu para conversar com Phill, mas acho que só usou meu garoto como desculpas para se ver livre -não entendo a expressão em seu rosto até que aponta para um cara louro com porte atlético e um sorriso de marido da Barbie que acena para nós. Dentro de um terno feito sob medida azul escuro.
—Ah que merda -murmuro e Connor afaga meu braço com piedade. -Eu o convidei por educação, não pensei que viria a Star City -prego um sorriso democrático no rosto e aceno de volta.
—Isso vai ser complicado -meu irmão que olhava na direção oposta, fala com a voz cheia de pesar. -Com sorte temos um assalto a banco para impedir. -brinca tentando me deixar menos tensa. -Vou cumprimentar o Grayson -anuncia, me deixando sozinha com Collins.
—Olá, querida -cumprimenta em seu sotaque inglês e dou um sorriso amarelo.
—Oi! -tento parecer animada, afinal o cara viajou para me ver. -Que bom que está aqui -como minto mal, chego a ficar feliz por ele não reparar muita coisa.
—Senti sua falta em meus jogos -sorri, acariciando meu rosto e travo instantaneamente quando começa a se inclinar em minha direção.
—Isiss! -algo puxa a barra do meu vestido, olho para baixo vendo Nina rebolar de um jeito estranho, me agacho para ficar próxima à sua altura e seu rostinho se contorce. -Quero ir no banheiro -fala parecendo estar prestes a explodir. Sara e Wally estavam nos olhando com ar de desculpas, mas sei que nada faria a garota aceitar outra pessoa a levando quando fui claramente a escolhida.
—Claro meu amor -a pego com cuidado, e Nina não olha para Collins. -Vou levar minha sobrinha ao banheiro, já volto -digo rapidamente sem dar chance de resposta e ando apressada com Nina em meus braços. -Às vezes você é bem estranha -brinco imitando seu bico, ela segura um sorriso e foco em seu rostinho quando passamos por Damian e sua acompanhante, outros que foram completamente ignorados pela garotinha.
—Pode me dar sorvete depois? -pergunta com a carinha de anjo.
—Vai passar a noite toda comigo, não vai? -a olho sem conseguir segurar o riso e Nina confirma. -Então vou ser promovida a tia Isis?
—Isiss é minha Isiss! -explica séria e prefiro não tocar mais no assunto.
LUNNA
Felicity passou os últimos minutos se desculpando por não ter estado mais presente. Eu passo cada segundo a garantindo que está tudo bem, que não tem que se preocupar, em seguida aproveito a deixa e confesso que haquiei seus computadores. Fecho meus olhos esperando a fúria, mas só que escuto é sua gargalhada.
—Ai Lunna! -exclama limpando os olhos em meio a riso. -Pensou que eu ficaria furiosa? -tento ver se entendo seu rosto cheio de diversão, mas nada.
—Bom, sei que não gosta que encostem neles, mas juro que foi só por que precisava encontrar informações sobre o que poderia estar acontecendo com Isis... -disparo a falar.
—Lu, não gosto que aqueles abutres que você chama de sogro, marido e agregados mexam -corrige e não sei se posso rir, prefiro não arriscar. -Aliás, bom trabalho -sorri me dando tapinhas afetuosos em meu ombro. -Nem mesmo suspeitei que foram ligados.
—Tive uma boa professora -devolvo o elogio, mas somos interrompidas com batidas firmes na porta da biblioteca.
—Podemos entrar? -Damian pergunta formal demais, troco um olhar com Felicity que estava estranhando tanto quanto eu.
—Claro, Dam -responde a ele com sua animação natural, mas não conseguimos manter a expressão de sempre.
Uma garota o segue, estava elegante em um vestido longo com estampas de flores, mas não posso a descrever de outra forma se não, normal. Seu rosto era agradável, mas não bonito, parece ter bons modos e Damian parece se importar realmente com ela. Me olha como se pedisse desculpas e dou um pequeno sorriso para que relaxe.
—Essa é Phoebe Morley -apresenta a garota que nos olha como se fossemos rock stars. -Bom, sabe quem elas são -preciso me esforço para não rir de seu mal humor.
—Prazer, Srta. Morley. -Felicity diz transbordando simpatia e a garota parece deslumbrada.
—Sou uma grande fã -fala rapidamente, então se vira em minha direção e pisca algumas vezes. -Da senhora também, Sra. Hawke -contenho uma careta, e estendo minha mão para a garota que tinha as suas bem geladas e se contraem de um jeito estranho quando as toco.
—Por favor, me chame de Lunna -peço sorrindo para ela. Damian parece relaxar ao ver que sua, bom não sei o que ela é dele, a questão é que não a rejeitar pareceu agradá-lo, apesar de não conseguir deixar de pensar em Isis lidando com isso logo hoje. Aperto delicadamente a mão da garota que faz careta, o rosto perdendo completamente a cor antes de colocar outra vez o sorriso gentil em seus lábios.
—Ah, claro! – diz em um sussurro, esfregando a mão que havia acabado de apertar. Será que não controlei minha força? Mas não é assim que minha velocidade funciona. Toco Felicity ao meu lado, a fim de testar, mas minha sogra não tem nenhuma reação, então me volto para a acompanhante de Damian.
—Você está bem? – pergunto sentindo uma pontada de culpa, estendo a mão em sua direção por reflexo, mas a garota se retrai.
—Estou ótima – responde colocando outra vez a expressão doce em seu rosto.
—Phebs, está parecendo uma grupe é melhor maneirar se quer manter sua reputação -debocha, mas a garota o lança um olhar mortal que o faz recuar, okay, ela pode ser bem legal se eu ignorar minha predileção a pequena Queen o que é impossível.
—Eu estou trabalhando em uma forma de comprovar a teoria sobre vertentes da velocidade, que publicaram com a Dra. Snow -conta animada. -O trabalho é fascinante!
Connor aparece na porta e faz um gesto me chamando. -Me desculpem, digo a eles. -Vou adorar conversar mais tarde, mas meu marido está me chamando -aponto para a porta e a tristeza que passa por seu rosto chega a me fazer sentir mal. -Definitivamente, vamos nos falar -garanto sorrindo.
—Pode ir, posso responder as dúvidas da Srta. Morley. -Felicity pisca para mim, toco o obro de Dam ao passar por ele e saio apressada.
—Nesse ritmo, minha mãe vai pedir sua mudança. -Connor brinca, entrelaçando meu braço ao dele.
—Olha, não sei dizer de qual de nós você está com ciúmes -finjo pensar a respeito. -Provavelmente das duas, não é?
—Sem comentários. -brinca, mas seu rosto sério me preocupa. -O clima está tenso -explica me puxando para a sacada. -Normalmente eu não me importaria com a vida amorosa deles, mas estamos prestes a sair em uma jornada e as coisas vão se complicar. -Connor fixa seus olhos nas luzes de Star City, com seu rosto tomado por temor. -As pessoas se esquecem que sou um monge, e que isso me faz saber de coisas que não gostaria.
—Connor, o que está acontecendo? -faço que se vire para me olhar, mas me arrependo no momento em que vejo seus olhos cansados, cheio de emoções diversas.
—Viu como fico perto do Constantine -começa a explicar. -Sou quase um catalizador para magia, posso literalmente recarregar um mago que estiver à beira da morte.
—Okay -não vou dizer em voz alta o quanto isso é estranho. -Está me dizendo que teme fortalecer Fausto ao tentar confrontá-lo?
—Posso lutar contra ele -garante. -Mas Isis tem que se encontrar, você precisa se aceitar -toca meus ombros com carinho e me prende em seus olhos. -Preciso de algo que me fixe, se estiverem bem também vou estar. Mas com Damian e Isis nesses relacionamentos idiotas -passa a mão nos cabelos. -Qual é, nós sabemos que não vai ir para frente, eles sabem que não vai. Por que insistem nisso? -ergo uma sobrancelha, sem querer jogar a hipocrisia da situação em sua cara, quando está tão vulnerável.
—Connor, quando percebeu que me amava? -questiono e o vejo me olhar confuso por um instante, antes de um mínimo sorriso quebrar a seriedade em sua face. -Você me pediu em casamento dois anos antes de pedir realmente. -Connor parece fazer as contas mentalmente, sem bater.
—Na verdade foram cinco anos, não dois -corrige e um sorriso presunçoso toma meu rosto, me debruço no parapeito observando a noite.
—Já falei como adoro sua versão anestesiada? -olho de lado para seu rosto confuso. -Não conto o plano de novela mexicana como um pedido! -esclareço antes de continuar. -Foi no dia em que estive em meu último encontro sem propósito -parece que ando contando muito essa história ultimamente. -Cheguei em casa depois de terminar com o que foi o último quase namoro que tive antes de nós nos acertamos.
—Ficou três anos sem nada? -vejo seu rosto em choque antes de entrar no modo Felicity. -Digo, não que me importe, por que sabe né, eu fico feliz por isso, mas...
—Entendi, Connor! -o corto. -Quer saber da história, ou não?
—Por favor! -exclama se recompondo.
—Então, eu cheguei em casa e te vi saindo do banheiro...
—Hum, nós fizemos algo que não me lembre. -Deus, como ele pode fazer qualquer coisa soar como baixaria? -Desculpe, não vou mais te interromper.
—Estava para entrar no meu quarto quando me pediu que te ajudasse com alguns curativos.
—Eu me lembro! -finalmente. -Dick e eu lutamos contra o Dethstrok Jr. aquela noite, pulamos de quatro andares em uma lixeira antes dele colocar o lugar pelos ares -faz cara de dor. -Lembro dos curativos, mas não de ter pedido nada.
—Você estava sentindo muita dor, e eu ainda não era muito boa em anestesia -dou de ombros. -Mas percebeu que estava voltando de um encontro e eu sabia que não se lembraria de nada, então quando me perguntou se estava mesmo com algum cara, te disse que estava com o ultimo cara antes de você. Que já estava cansada de dar voltas, e que a partir daquele momento estaria te esperando.
—Sério? -seus olhos brilham como os de uma criança.
—Foi exatamente o que fez -sorrio acariciando seu rosto. -Bem assim.
—Odeio essa amnésia, pós analgésicos -reclama. -Perco as melhores coisas por causa dela!
—Depois de ouvir minha declaração, disse que se casaria comigo -dou risada. -Acabo de perceber que não foi um pedido, você simplesmente afirmou.
—Eu te amo, Lunna. -diz com sua voz rouca. -Desde que teve a crise de pânico no elevador e sei que se estivesse em Star City e pusesse meus olhos em você antes, teria te amado na mesma hora. Me vi sem nenhum outro caminho para seguir, só queria estar a seu lado a cada segundo depois daquilo, como se puxasse todo o meu ar no momento em que gaguejou a primeira palavra. Então deixei de ser uma pessoa só -ele beija minha mão, sobre a aliança. -Para ter meu mundo fundido ao seu.
—Isso foi melhor do que nossos votos -solto abobada o fazendo rir antes de se inclinar para me dar um beijo. -Sabe Connor, eu já aceitei meu passado -digo quando nos afastamos. -Ainda machuca a lembrança, mas de alguma forma aquele caminho me fez ser quem eu sou -dou um meio sorriso para ele. -Me deu você e nossa família. Conquistamos tantas coisas juntos, que me sinto a pessoa mais abençoada do mundo -então me lembro por que começamos a falar tudo isso. -Damian e Isis estão trilhando o próprio caminho, eles se encontraram muito cedo e não é fácil viver seu grande amor logo na primeira tentativa. Olha para meu irmão com Mia, Richard e Babs, nós dois ou seus pais. Ninguém quer arriscar errar com a pessoa certa, vamos nos manter fora da história deles.
—Suas ameaças são tão carinhosas que vou fingir que me ludibriou com o discurso inteligente aí -debocha me abraçando outra vez.
—Hum, Connor? – suspiro, devo estar paranoica e não quero começar um motim, mas preciso tirar a dúvida.
—Sim? – se afasta o suficiente para me olhar nos olhos.
—Pode apertar minha mão?
Meu marido ergue a sobrancelha e me encara confuso, antes de abrir um sorriso sem vergonha que me faz revirar os olhos, por saber exatamente o que se passava naquela mente pervertida.
—Aperto o que você quiser – solta em seu modo cafajeste e prendo o riso, me focando no que é relevante no momento.
Apesar de suas palavras ele estende a mão em minha direção, da forma como solicitei, e a aperto do mesmo jeito que havia feito com Phoebe. Nada, ele continua me olhando intrigado, mas não sei o que pensar a respeito. Aperto mais uma vez, e Connor acaricia o dorso da minha mão em resposta.
—Machuquei você? – questiono estudando sua face.
—Claro que não Lu, por que pensaria isso? – ótimo, agora estou oficialmente intrigada.
—Preciso falar com Wally, é melhor nós subirmos.
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