PARADOXO - Seson 3
1 Capítulo 1 - Corações e Mentes
Notas iniciais
Sinceramente, eu estava em um conflito interno sobre postar ou não essa história. Bom, os tempos não estão faceis e nem preciso dar detalhes sobre isso, espero que vocês estejam se cuidando e se mantendo saudáveis.
Fiquei inspirada com o comeback do SKZ e resolvi arriscar.
Bom, ai vai o primeiro capítulo da nova temporada e dependendo da resposta de vocês eu vejo se continuo a postar ou não.
Bjnhos meu povo!
LUNNA
Nem sempre pensamos em todas as formas possíveis de se amar alguém. Tem quem ainda acredite que o amor entre um casal apaixonado é o mais forte de todos, capaz de mover montanhas e dar sentido à vida, bom, todas aquelas coisas piegas. Mas a ciência comprova que essa visão não passa de um mito. Claro que um cérebro inundado em ocitocina em meio a sociedade capitalista, ajuda muito contra o estresse. Entretanto, existem instintos que nem mesmo a ciência pode explicar com total precisão.
Uma mãe capaz de erguer um carro em um surto de adrenalina ao ver sua prole em risco, outra que se sacrificaria a ponto de morrer de fome enquanto alimenta e aquece seu pequeno bebê. Irmãos que se protegem mesmo quando não concordam. O instinto mais forte do que a própria fúria, mágoa ou dor. Eles se guardam como animais se necessário, lutando as batalhas um do outro sem pensar nada a respeito, apenas por que é o certo no momento. Amigos que conhecemos já adultos com toda bagagem que a vida nos encarregou, eles nos aceitam, entram em nossos corações aos poucos e se tornam parte do que somos, nos contam segredos e confiam suas vidas em nossas mãos, vendo em nós mesmos algo que não conseguimos enxergar. Claro que existe o amor Eros, que nos enlouquece e inebria nossos sentidos, mas ele é mais um dentre tantos que devem ser observados.
O amor em cada uma dessas formas tem seu próprio peso, nos envolve e consome a seu modo, conduzindo as escolhas que julgamos ser racionais. A alguns anos o mais perto que já estive de conhece-los foi através da dramaturgia, desconhecia qualquer forma de amar além do meu irmão e hoje sou submersa por tantas variedades desse sentimento que me tornei incapaz de recordar como a vida costumava ser antes de conhece-los.
Um grande amigo me disse: “Posso ter um milhão de motivos para correr, mas só o que me prende nesse tempo lento são as pessoas que amo. Me impulsionam a fazer o certo e ir mais rápido, ou se necessário, deixar de correr.”
O amor, esse amor que me trouxe a essa caverna fria, com vitrines exibindo uniformes de vigilantes que combatem o crime e tentam tornar o mundo um lugar melhor. Me lembro que um dia afirmei categoricamente que não gostava de pessoas, bom, não de um jeito Vilanesco, eu apenas conheço bem minhas limitações e temia mais do que tudo chegar onde estou agora, mesmo sendo tarde, acho que faria tudo novamente.
-Vai precisar ir pela tubulação -respiro fundo e tento controlar meu tom de voz enquanto analiso a planta do prédio, pela decima vez.
Ultimamente tenho precisado fazer isso com frequência. Hoje existem duas vozes em minha cabeça, e só uma delas é a minha. Parecer não estar completamente pirada consome a maior parte da minha energia habitualmente.
“Então, não tem nenhuma tubulação por esse caminho.” Connor girava no mesmo lugar, apenas para enfatizar seu argumento.
Tudo nesse caso é ridículo, não posso entender como nunca encontramos quem está mantendo os reféns nos prédios. É como se eles se teletransportassem como fazemos na Liga, mas já chequei e não existe nenhum indicio de moléculas sendo desfeitas no local. Sinceramente, não posso pensar em um momento pior para um caso fantasma como esse. Não é como se estivéssemos em nosso melhor estado. Talvez, nós, seja abrangente demais. Connor e eu, o que restou do todo.
‘Não tem como.’ Connor se esforçava ainda mais para manter seu tom impassível. Sua voz sai entre dentes, mas o vejo pelas filmagens do circuito de segurança que havia haquedo, seus olhos se fecham por um momento enquanto ele controla sua respiração, tensionando os músculos das costas durante o esforço.
-Isso, é por que ainda não te disse onde você deveria entrar -não é culpa dele Lunna, segura a onda. -A sua direita, passe os dois primeiros corredores. -Connor começa a seguir minhas instruções como se fosse meu avatar em um game. Me lembro bem que costumava achar isso divertido. -Agora, pare!
Ele o faz de imediato e ao seu redor pequenos feixes de luzes vermelhas o rodeiam. Levo alguns segundos destravando o sistema de segurança enquanto Connor permanece como uma estátua. -Acima de você -indico o acesso ao tubo de ventilação e ele dispara uma flecha que o ergue o suficiente para retirar a tampa.
Era uma situação com reféns em uma fábrica têxtil, bom ao menos é a forma mais próxima de descrever, por que existiam pessoas presas é verdade, mas ninguém as obrigava a estar lá, quem roubou já estava muito longe naquele momento. E se parasse por aí poderia comparar a algo como “Onze Homens e Um Segredo”, mas era sempre o mesmo padrão, uma empresa começa a reduzir o quadro de funcionários os que sobrevivem a limpa iniciam uma greve e em algum momento somos acionados, todos os chefes e supervisores permaneciam amarrados dentro do local, que é saqueado e notamos um sutil aumento nas contas dos funcionários que foram dispensados. Por sua vez, essas pessoas juram sofrer uma curiosa amnésia conjunta, e o pior é que realmente não existem evidências para provar o contrário, já tentei procurar os laudos médicos e tudo que possa comprovar a veracidade de seus depoimentos, mas o cérebro humano é ainda mais misterioso do que o Batman.
Minha parte do trabalho estava praticamente terminada, agora me restava observar enquanto ele resgatava todos os reféns e os tirava em segurança. Connor costuma ser muito bom em trabalhos objetivos. Mas as pessoas pareciam estranhar o Arqueiro Verde tão silencioso, Oliver costuma ser mais simpático com os que salva e completamente destrutivo aos que caça, mas meu marido atualmente é apenas esse cara sem expressões, que se move e faz o que é certo, por vezes chego a pensar que mais por hábito do que vontade.
—Tudo aquilo foi muito estranho -ele diz assim que o elevador se abre, movendo o arco em sua mão para que encolha as pontas achatadas e cumpridas que lembram katanas. -Quantos desses incidentes já foram?
-Tivemos aquela boutique na semana passada e o supermercado a três dias -digo abrindo meus arquivos. -Mas não importa o quanto procure, nada incriminador aparece. É como se o tempo parasse...
-Não seria a primeira vez que enfrentamos algo assim -ergue uma sobrancelha me olhando, antes de dar as costas para ir se trocar.
Connor estava certo, claramente não acreditava que as pessoas decidiram roubar as claras e voltar para suas casas esperando serem presas em seguida, mas parte minha preferia que fosse dessa forma, ao menos sem ter com quem lutar ele não correria riscos enquanto está sozinho em campo.
Lunna!
Salto em minha cadeira sentindo meu coração se apertar. Engulo em seco, ignorando o calafrio que percorria minha espinha. Talvez minha culpa esteja me fazendo ouvir coisas agora. Respiro pela boca, não era uma hora apropriada para um ataque de pânico, então pego uma caneta e aperto o mais forte que posso em minha coxa. A dor desvia meus pensamentos por um momento, mas é o suficiente para que não fosse pega.
Minutos depois Connor caminha lentamente em minha direção, me observando com cuidado e para a alguns passos de distância. Me obrigo a olhar para ele, seu rosto lindo estava paralisado em um estado inexpressivo, mas seus olhos nunca esconderam muita coisa, e naquele momento vejo a dor que refletia nos meus, o vazio e preocupação que tentava manter em segredo para me poupar.
-Você está fazendo de novo -diz apontando para meus braços, se quer havia percebido que estava me abraçando enquanto balançava. Paro e levo a mão ao rosto, tentando me recompor. -Deveria falar sobre isso -diz em voz baixa, se esforçando novamente para não demonstrar o quanto aquilo o estava preocupando. -Se não quer falar comigo, fale com alguém...
-E quem seria? -murmuro sentindo o nó se formar em minha garganta. Os olhos de Connor se enchem de lágrimas e tenho certeza que os meus estão da mesma forma. -Estou be... bem -minto me virando novamente para os computadores.
-Como quiser -sua voz não é mais que um sussurro, e o desapontamento mal pode ser disfarçado. -Vai ficar? -questiona após alguns segundos, quando percebe que não pararia de trabalhar tão cedo.
-Você está certo, existe alguma ligação -falo tentando ao máximo não gaguejar. -Vou continuar procurando, pode ir na frente -não posso ouvir seus passos, é o mal de ter relacionamentos com vigilantes, todos eles são extremante silenciosos, mas posso senti-lo se afastando, o que é um dos benefícios de ter um relacionamento com sua alma gêmea. Connor entra no elevador, mas volto meu olhar para os computadores no momento em que ele se virava.
Me ocupo revisando cada evidencia do caso que possa ter deixado passar, ignorando o fato de possuir memória fotográfica e tudo que estou fazendo ser extremamente redundante. Odeio estar sozinha no bunker. Merda. Triangulo os perfis de todos os reféns em busca de qualquer padrão, depois repito a mesma coisa com os funcionários que haviam sido demitidos. Nada além do obvio é encontrado.
Quando não consigo mais evitar, me volto para os manequins com os uniformes da Artêmis e Nigthmare. Me levanto e vou em direção a eles, deixo as lágrimas descerem por minha face enquanto me sento no chão abraçando minhas pernas, sabendo que até mesmo as escolhas que parecem ser as mais certas, podem nos destruir completamente. Um barulho preenche todo o local, um misto do meu choro compulsivo com uma dor sobre humana que me incinera por dentro.
Lunna, não faz isso! Quase sou capaz de ouvir a voz do Wally me repreendendo enquanto soluçava e me encolhia em agonia. Se ao menos eu não tivesse aceitado, ou quem sabe ter gritado com ele quando claramente estava escolhendo fazer a coisa errada. Mas quando finalmente o enfrentei já era tarde e não tínhamos mais tempo para fazer muita coisa. Parte da minha mente escuta o barulho do elevador, mas o buraco que se abre com a voz do meu melhor amigo me impede de me mover. Lunna, isso é um saco. Por favor, eu imploro... Mesmo em meus delírios malucos, a voz de Wally parece de alguém que sofre. Claro que se parece, não mereço o Wally que chegava a ser cansativo de tão feliz, não mereço nem mesmo as lembranças felizes que ele me deu.
Vejo um par de botas de combate passando por mim. A pessoa se senta ao meu lado e não consigo me mover, não consigo parar de chorar, me sinto fraca e exposta me odiando mais do que nunca por colocar em uma vitrine todas as vulnerabilidades que tenho. Seja quem for, não parecia interessado em me consolar e me sinto grata por isso.
Não sei quando parei de chorar, se é que aqueles gemidos agoniados podem ser chamados de choro, mas quando me dou por mim estou deitada em frente aos uniformes das minhas amigas e minha cabeça repousa sobre um casaco preto grosso que fora dobrado. Me levanto em um sobressalto olhando em volta, não acredito que acabei dormindo na caverna!
-Que bom, quase te levei ao hospital -uma voz grave, muito familiar chama minha atenção. Sigo o som e vejo um garoto musculoso de cabelos escuros perfeitamente arrumados, sentado na escada que dava acesso aos computadores. -É melhor comer, ou te arrasto para lá agora. -diz de forma ameaçadora, apontando para um pacote pardo a seu lado.
Hum! Já deveria ter levado, alguém precisa leva-la urgentemente. Ignoro minha alucinação com um Wally claramente descontente, mas meu corpo ainda para de súbito com a voz.
-Damian? -murmuro tentando entender se ainda estava dormindo, enquanto pegava o casaco que me serviu de travesseiro do chão e andava em sua direção. Damian estava usando uma blusa de mangas longas branca e jeans, suas roupas civis, mas reconheço as botas de combate. -Por que? -é tudo o que consigo dizer, em resposta ele me passa um copo de café e pega outro para si.
-Estava por perto -dá de ombros tirando um sanduiche que começa a comer calmamente. Permaneço imóvel tentando imaginar a que ponto nós chegamos... -Olha, eu não sou de ficar repetindo as coisas, mas como parece não estar acordada de verdade vou te lembrar que se não começar a mastigar esse sanduiche, vou apaga-la e quando acordar novamente já vai estar em uma cama hospitalar, com uma bolsa de soro no braço -sua expressão era puro tédio, mas o conheço a tempo suficiente para saber que não era um blefe.
Comemos em silêncio sem nenhum interesse no que estava sendo mastigado. Quando acabo meu sanduiche ele começa a juntar o lixo, não sei qual o motivo, mas estava muito mais cansada naquele momento do que estive nesses três meses, desde que meu melhor amigo se foi. É cansativo tentar não sentir, é ainda mais cansativo colocar tudo para fora.
-Você falou com a Isis? -questiono quando ele acaba de descartar o lixo. Damian volta a se sentar do lado oposto no mesmo degrau que eu estava.
-Não -ele esfrega o rosto de um jeito estranho. -Mas ela está bem, sei disso.
-Não conseguimos falar com ela a semanas -comento olhando as sapatilhas azuis em meus pés. Depois do que ele fez, merecia saber o que eu sabia. Mesmo que não fosse muito. -Felicity e Oliver também reclamam que quando conseguem é sempre como se estivesse atrasada para um compromisso muito importante -suspiro com tristeza. -Connor nem tenta mais, acho que ser rejeitado pela irmã o quebrou.
-Isis Queen... -ele apenas diz seu nome, com os dedos passando por uma corrente de prata escura em seu pulso.
-Acha que seria diferente se não tivéssemos ajudado aquele velocista? -olho para Damian que faz o mesmo, vejo um brilho escuro passar por seus olhos azuis, mas quando ele está prestes a me responder o elevador se abre e vemos Connor que parecia ter corrido uma maratona sair dele com o olhar perdido até que me encontra e parecer voltar a respirar.
-Você está aqui -murmura andando em nossa direção, acho que nem viu Damian. -Acordei e você não parecia ter voltado para casa, então... -finalmente ele vê o caçula Wayne e parece confuso por um momento. -Aconteceu alguma coisa com a Isis?
-Não. -Damian diz se levantando. -Vim ajudar enquanto Oliver estiver fora -ele dizia como se não fosse nada, mas Connor pisca algumas vezes como se tentasse descobrir se passou para algum universo alternativo enquanto dormia. Estendo o casaco para Damian.
-Obrigada -digo baixinho e vejo sua boca se mover em uma pequena careta.
-Não fiz nada que mereça agradecimento, Delphine -joga o casaco sobre os ombros. -Vou pedir ao Fox para descobrir se posso simular os números dessas empresas em quase falência na nossa filial, sem gerar nenhum processo por fraude. -diz enquanto caminha para o elevador. -Quem sabe um trabalho infiltrado? Faz tempo que não banco o herdeiro Wayne...
Eu mesma poderia responder que aquilo não era aconselhável, mas por algum motivo a ideia de Damian me parecia muito mais com uma desculpa ou improviso para ficar em Star City e quero que ele fique. O elevador se fecha e continuamos o olhando, sem saber ao certo o que foi que aconteceu. Não gosto de pensar que sou preconceituosa, por que há muito tempo já havia reconhecido que o pequeno demônio não era tão demoníaco assim, mas depois do termino com Isis e tudo o que aconteceu só nos falamos para trocar informações, por mais que tentássemos o puxar para perto, ele demostrou precisar de tempo para cuidar de suas feridas, o que respeitamos. Não que algum membro de nosso time esteja normal, mas não esperava por essa.
-Acha que o Grayson adquiriu algum poder de transmutação recentemente? -Connor pergunta confuso, olho em sua direção e um pequeno sorriso se forma em meu rosto que é espelhado automaticamente no dele. Estendo minha mão pedindo ajuda para me levantar e ele me puxa com cuidado em sua direção. -Você parece melhor. -diz e passo meus braços ao redor de seu corpo.
-Não Connor, eu estou em pedaços -falo pela primeira vez a verdade e sinto seus braços me envolvendo. -Sinto muito por tudo isso.
-É princesa, eu também...
ISIS
Cambridge, Massachusetts, essa cidade cresceu entorno de Harvard, repleta de estudantes. Era de se esperar que os motoristas pelo menos conseguissem passar dos quarenta quilômetros por hora, mas esse lugar tem um espirito tão arcaico quanto os tijolos expostos das paredes da Universidade.
—Minha senhora, usa o acelerador!- grito de dentro do meu carro, claro que a senhora dentro do SUV a minha frente não conseguia me ouvir, principalmente por que ela estava com as janelas fechas e eu além das janelas ainda tinha a última demo que Phill havia me mandado tocando no volume máximo, mas mesmo assim se tem algo que alivia o nosso estresse no transito é espernear de janelas bem fechas. Quando a velha enfim vira uma esquina e consigo acelerar chegando a incrível marca de sessenta quilômetros por hora o farol a minha frente fica vermelho. Mordo o meu punho para evitar expelir um palavrão.
Meu dia não havia sido nada fácil, três professores se revezaram para descobrir qual iria enlouquecer a turma de psicologia primeiro, um pré-projeto rejeitado devido a uma data incorreta, e uma colega de grupo que “esqueceu” de entregar a sua parte em um trabalho, claro que já tinha feito anteriormente, mas isso não impediu o grupo inteiro de querer voar em seu pescoço. Só o que me tranquiliza é estar chegando em casa e nada mais poderia me irritar dentro da santidade do meu apartamento. Ou era o que eu pensava.
Entro e vou até a geladeira e retiro um jarro de suco de laranja, me viro para pegar um copo no armário, abro a porta e um rangido irritante me faz trincar os dentes. Pego um lubrificante de maquinas na gaveta de ferramentas e tento retirar o barulho, mas ele não cede, e por vinte minutos tento sem sucesso que o fazer desaparecer, ele até tinha diminuído, mas ainda estava ali, e aquilo só foi me irritando cada vez mais, até que já estava com a caixa desmontando cada parte daquele armário infeliz, e olhando com mais atenção, a torneira também está precisando ser trocada, as gavetas abaixo da pia. E no meio de panelas, pratos e gavetas é onde estou agora.
—Sabia que estava estranha, mas uma reforma é algo meio drástico. –Mia está encostada do outro lado da ilha que separa a nossa cozinha do restante da área de convívio. – Ainda mais quando acabou a do seu quarto só a três dias, não acha?
Mia Dearden, agora Mia Lance. A minha colega de quarto, amiga de escola e outras coisas que mal consigo me lembrar direito. Sei que deveria ter muito afeto por ela, mas agora vendo como sorri mecanicamente jogando seus cabelos louros para trás dos ombros pequenos, não me lembro por que gostava tanto assim da garota. Ela é como todos os outros.
—Pode sobreviver a isso por dois dias? – olho o meu celular terminado de confirmar a compra, mostro a confirmação do envio.
—Conseguindo chegar na geladeira, e deixando os números da pizzaria fácil, tudo é possível. -Sorri, e sei que ela está tentando falar alguma coisa já alguns dias, mas sempre recuava, acho que era minha cara de fanática que parecia não sair mais de mim. – Não acha melhor tomar um banho e descansar um pouco, tento colocar uma ordem aqui – sorri fracamente, quanto pulava uma milha de refratários para entrar na cozinha.
Aceito a sugestão mais por constrangimento do que por cansaço real, apesar de não dormir muito nesses últimos meses, não me sentia pronta para deitar e ser bombardeada por pesadelos seguidos de pesadelos. Entro de baixo da ducha, e a água morna que é uma das poucas coisas que ainda acho bom de verdade, tira toda tensão que meu dia deixou em meu corpo. Limpo o espelho que ficou embaçado com o vapor, coloco o anel negro que estava na pia do banheiro, me jogo na cama ainda de tolha, passo um bom tempo olhando o teto recém pintado, até o sol que entrava pela janela ser substituído pelas luzes neon típicas de uma cidade.
Levanto da cama, fico de joelhos na porta do armário. Lá dentro, em um fundo falso, uma caixa dourada não maior que de sapato, com entalhes em ouro velho e esmeraldas, guarda uma das minhas maiores relíquias, para o bem ou para o mal. Katoptris estava ali quieta, como se não tivesse nada de místico nela, era como se a magia tivesse se extinguido. A pego com cuidado como se ela fosse explodir.
—Têm alguma coisa errada, não tem? -espero alguns segundos e nada, bom, melhor assim, afinal esse era o propósito dessa caixa.
Katoptris nunca foi um utensílio mágico fácil de lidar, não agiu de acordo com o que esperava. Só que isso era antes, agora parece que tudo se esvaiu, como uma resposta a deixa-la trancafiada na caixa. A coloco novamente em seu esconderijo quando o meu celular começa a tocar. Vejo a foto da minha mãe no visor, mas não tenho vontade de atender, não tenho vontade de falar com ninguém nesses últimos tempos, só queria que todos fossem como Damian nessas horas e entendessem que se não atendo suas ligações é por que não os quero por perto.
Descido sair, as paredes pouco a pouco parecem se fechar cada vez mais ao meu redor. Ao abrir a porta escuto Mia em seu quarto, sua porta estava entre aberta, ela se movia com o semblante preocupado andando de um lado ao outro em uma conversa sigilosa que provavelmente não queria mesmo que eu escutasse.
—Ela está bem sim, deve estar tomando banho por isso não ouviu o celular tocando – abro um pouco mais a porta e Mia me encara, pedindo em suplica que atendesse minha mãe. –Pode deixar Fel, estou tomando conta dela, sim, vou ficar de olho -suspira me olhando enquanto minha mãe continuava a falar do outro lado da linha. -Não, claro que ela não está te evitando -vejo nos olhos de Mia o quanto ela estava odiando mentir. -É culpa das provas, estamos todas a ponto de enlouquecer –a garota me olhava furiosa. – Ok, também te amo. Manda um beijo para Lunna.
—Obrigada –agradeço com toda minha educação e sem muita sinceridade.
—Isso não é justo Isis. Sua mãe, pai, irmão e Lunna já perderam muito, todos nós perdemos, eles não podem perder você também. Não custa uma vez por semana falar com um deles pelo menos, mostrar que está viva. Eles te amam, será que é pedir demais? – cada palavra vem somada a doses de acusação.
Entendo que para ela é quase pessoal. O pai biológico dela é um politico corrupto que minha família ajudou a trancafiar, que assassinou sua mãe biológica e sequestrou o garoto que ela ama. Aos olhos de Mia sou membro de uma família perfeita, com um pai exemplar e honrado. Uma mãe maravilhosa e um irmão que faz da minha vida seu mundo inteiro. Fica ainda mais pessoal quando esse irmão é casado com sua ex cunhada, a irmã do garoto que ela finge com esforço gostar como um amigo. Convivemos com Phillipe e Lunna Delphine, que perderam os pais e vivem tentando preservar todas as lembranças possíveis, como se a sanidade de ambos dependesse delas. Mia só agora estava descobrindo o significado de uma família e aos seus olhos eu estou simplesmente jogando fora tudo aquilo que ela sempre quis ter. E apesar de entender isso, ainda acho um pé no saco ter que ficar lidando com seu julgamento todo maldito dia.
—Só aceita meu agradecimento –saio de casa, descartando o meu carro, precisava andar sentir o meu corpo ser impulsionado para algum lugar.
Ando pelo centro por mais tempo que sou capaz de dizer, mas pela posição das estrelas percebo que já estava de madrugada. Tudo em mim ultimamente vem em grandes proporções. Dor, mágoa, raiva e ódio, são as únicas coisas que consigo realmente sentir. O resto me parecem lembranças, meu sentimento por minha família, por amigos e o garoto com quem deveria estar, não sinto mais nada por nenhum deles, só me lembro o que deveria sentir e tento reproduzir tais ações, mas o teatro é exaustivo. No resto do tempo, é como se meu corpo fosse consumido por uma chama que não sou capaz de controlar, me vejo trilhando caminhos que normalmente não escolheria, mas só a adrenalina em si ganha desse inferno particular que minha vida se tornou.
—Ei beleza –uma voz nojenta me chama a atenção, que me faz perceber o quanto estava distante de casa, logo atrás de mim um cara me segura pela cintura, enquanto outro tenta me puxar para um beco.
—O que vamos fazer com você? -me deixei ser levada, pelo menos pelos próximos cinco minutos tudo que vinha sentido seria extravasado.
—Tenho algumas ideias –minha voz sai ameaçadora, quase um rosnado. Fazendo o homem a minha frente franzir a sobrancelha em um misto de surpresa e desafio.
Quase tenho vontade de sorrir, isso se o ódio em minhas veias permitisse. Toda a vulnerabilidade de minhas feições sempre me dera certa vantagem em batalhas. Todos querem atacar a garota fofa com ar angelical, ou simplesmente não são capazes de lutar contra alguém que passa tanta inocência. Pior para eles, acho que muita coisa me define, mas vulnerável e inocente certamente não faz parte da lista.
Piso no pé do homem que tem suas mãos nojentas em minha cintura, que me solta por reflexo gemendo de dor. Encaixo meu cotovelo em seu nariz o fazendo urrar. Já o sujeito à minha frente, tenta me segurar assustado, ganhando uma cabeçada de brinde que quebra seu nariz em pelo menos dois lugares. Sinto um sorriso surgir nos meus lábios, chuto o sujeito de trás no meio da barriga, dando outra na cabeça o fazendo cair inconsciente. Já o da frente tentou fugir, mas joguei uma barra de metal nas suas costas. Ando bem devagar dando tempo para que ele se levante. O jogo na parede e levo o meu pé em sua garganta, sinto quando o ar começa a lhe faltar, e aquilo me dava uma satisfação enorme. Encaixo meu salto o asfixiando ainda mais. faltava pouco, menos de um minuto e ele não atacaria mais ninguém.
Quando algo parece me empurrar para o lado, só então percebo o que estava fazendo. Tiro o meu pé da sua garganta, o homem cai no chão desacordado, porem vivo. Estava tão alucinada que nem havia reparado na fisionomia, eram apenas duas presas e eu era a caçadora. Saio correndo sem olhar para trás, o medo me toma de uma maneira que nunca havia sentido antes. Chego até uma praça como o sol já nascendo, e deixo meu corpo cair em um banco. Respiro fundo algumas vezes enquanto observo minhas mãos que tremem descontroladas, tão descontroladas quanto eu.
—Que merda é essa?
LUNNA
—Quer um pouco de chá? -Connor parece agitado desde que voltamos da caverna, sempre querendo saber se poderia me alimentar, se estava sentindo frio ou se minha cabeça doía. Acho que parece estranho estarmos próximos após tanto empenho em me manter distante, seja o que for que Dam tenha feito com sua presença silenciosa, foi o bastante para me mostrar que a dor é pior se sentida sozinha.
—Só quero que você se sente aqui -bato no espaço ao meu lado no sofá, ele dá um pequeno sorriso antes de se sentar e puxar minhas pernas sobre as suas.
—Estou descontrolado? -pergunta em tom de desculpas e balanço minha cabeça confirmando. -É que tudo tem sido tão difícil... -seus olhos se perdem por um instante e posso ver o que queria dizer. -Sei que não devo te pressionar na maior parte do tempo e que não precisa que fique te pajeando, mas...
—Você não pode evitar, seu primeiro instinto é me proteger e fazer com que sinta o mínimo possível de qualquer coisa ruim que estejamos enfrentando -completo por fim o fazendo me olhar nos olhos com o ar torturado de sempre. -Sinto o mesmo com relação a você -confesso. -Não sei o que dizer, ou como ajudar... -uma lágrima escorre por minha face e Connor a limpa com cuidado. -Então me afasto e sinto você se afastar em resposta, a cada dia mais -minhas palavras saem como uma confissão, Connor puxa meu corpo para mais perto até que nossos rostos estivessem frente a frente.
—Somos dois idiotas -conclui me fazendo sorrir. -Dois idiotas muito parecidos -beijo o canto de seus lábios, me levantando em seguida.
—Preciso de um banho -digo indo em direção ao nosso quarto. -Quer vir?
Ele suspira se levantando e segura minha mão com carinho. Sei que casamento se trata de dividir o fardo com alguém, mas nós seguimos todos os nossos instintos de irmãos mais velhos, ignorando qualquer apoio que pudéssemos receber e simplesmente pensamos que com isso estaríamos poupando o outro da dor. Para uma sabe-tudo de carteirinha, estar errada é uma sensação um tanto desagradável, Connor também não parece apreciar, mas confesso que ele sempre foi melhor do que eu nesse lance de baixar a guarda.
Paramos em frente ao boxe e coloco minhas mãos na base de sua camisa, nossa diferença de altura é significativa e sem os saltos para ajudar, Connor acaba o serviço por mim. Suspiro com saudades ao ver os traços perfeitos de seus ombros, clavícula e abdômen. Seus olhos se fecham quando passo meus dedos calmamente por suas cicatrizes, e levo minhas mãos para seu rosto o puxando ao encontro do meu. Não nos beijávamos a muito tempo, bom, até trocamos alguns selinhos estalados quando saiamos ou chegávamos em casa, mas não passava disso. O que faz nossos corpos responderem automaticamente, nos prendemos um ao outro e suprimo um gemido de dor quando minhas pernas batem nas dele.
—O que foi isso? -claro que ele não deixaria passar, nem sei por que cogitei a possibilidade.
—Nada -tento ser evasiva e continuar a beijá-lo, mas tenho metade de seu tamanho, então Connor me faz virar e baixa o zíper do meu vestido o fazendo deslizar do meu corpo ao chão. Sinto seus olhos percorrendo cada centímetro, o que me excitaria se não estivesse tão tensa, quando me vira de frente seus olhos se enchem de lágrimas ao ver várias manchas variando entre roxas a amareladas espalhadas por minhas coxas.
—Por Buda! -sussurra e eu prendo o ar enquanto o rosto de Connor fica vermelho, seus lábios se tornam uma linha fina e o vejo tentar começar a dizer algo, mas era como se não encontrasse a própria voz. -Lu...
Não tenho o que dizer, não sei como contar a meu marido que passei a me machucar para fugir da minha própria dor quando escuto a voz do meu melhor amigo. Não sei se devo me desculpar também, e a dor passou a ser minha única forma de sentir alívio. Mas seu rosto me fez perceber que tudo parecia doer nele, como se tivesse ferido sua própria carne.
—O que você quer que eu diga? -sussurro o fazendo me olhar com o semblante torturado. -Não sei mais o que fazer -dou um passo para trás e Connor dá um para frente. -Wally me procurou -o nó volta a se formar em minha garganta. -Confiou em mim para salvá-lo. -continuo com a voz repleta de fúria. -Eu prometi que ajudaria, você não entende Connor. Fui prepotente em pensar que era inteligente o bastante para fazer alguma coisa.
—Você se odeia. -diz como se acabasse de descobrir.
—Eu o vi desaparecer antes -era como se tivesse aberto uma torneira e não pudesse mais fechá-la. -Passei semanas guardando o segredo dele.
—Mas você nos procurou, o fez abrir o jogo -me defende com tanta avidez que só me faz sentir ainda mais raiva de mim mesma -Não era o seu segredo para contar, Lunna.
—E por isso a última lembrança que tenho do meu melhor amigo é a expressão torturada quando trai a confiança dele! -grito e por um momento Connor realmente se assusta, acho que é a primeira vez que me vê fazer algo assim.
—Não foi sua culpa -não era um argumento, para ele aquele era um fato concreto.
—Não? -ergo uma sobrancelha quase o desafiando. -Então por que Wally não está aqui?
Ah Lunna... —em minha alucinação a voz de Wally era extremamente triste.
Solto um grito antes de atirar um pote de creme contra o espelho. Não consigo sustentar minhas próprias pernas e sinto Connor me abraçando com força, percebo depois de alguns segundos que não era exatamente um abraço, ele estava me contendo no que parece ser meu primeiro ataque de fúria.
MIA
É como viver com um robô com tendências psicóticas e treinamento em nível militar, capaz de me assassinar com um clip de papel caso queira. E misericórdia, pela frieza em seu olhar posso garantir que vez ou outra ela quer. Não consigo entender como a garota mais doce do mundo se transformou naquilo.
Nos últimos meses, Isis Queen parece mais um hibrido de Mônica Geller e Lorde Voldemort, nunca sei direito como agir ou o que dizer se ela estiver por perto, acho que qualquer dia vou pôr fim acabar com a tolerância dela e ter minha vida exterminada mais rápido do que consigo dizer “Avada Kedavra”.
Tento não pensar nisso, mesmo que meus olhos passem pelo relógio de parede em forma de morcego que fica em cima da porta de entrada. Limpo o pouco da bagunça em nosso AP de dois quartos com banheiros privativos e uma sala/cozinha bem espaçosas. Muito mais do que duas estudantes normais precisariam, mas foi como descobri que os Queens somados a Laurel Lance e Tommy Merlin formam uma espécie de esquadrão de pais super protetores, paranoicos e ricos. Esse lugar tem até mesmo um quarto do Pânico disfarçado no fundo do armário de vassouras. Damian nos garantiu que não haviam câmeras ou escutas tirando as que ficam na porta de entrada e janelas de acesso ao apartamento. Porém isso não é algo que nos motive a viver grandes loucuras de faculdade, não quando seus pais são o Arqueiro Negro e o Arqueiro Verde. Ou pior sua mãe ou mentora é a Canário Negro.
—Oi – a voz de Isis me faz pular com a vassoura em mãos. Seu rosto lindo reproduz um sorriso que não se parece muito com os que a Pequena Queen daria, mas ao menos é um sorriso. – Está aí parada a dois minutos, olhando para o nada. Então resolvi dizer algo – deixa a bolsa sobre o sofá, depois seu corpo cai pesadamente sobre ele. – Que merda de trânsito, Mia – pragueja, antigamente ela usaria palavras como “embananado” ou “irritante” no lugar do palavrão, e ainda essas palavras fariam suas bochechas se avermelharem, mas agora o xingamento sai naturalmente.
—Estamos em Harvard, vivendo o sonho – ergo meu braço em uma comemoração falsa e Isis repete o gesto. – Não devemos reclamar.
—Não mesmo! – espelha meu sarcasmo e sorrio, ao menos isso é normal ou me lembra normalidade.
—Temos uma pia funcionando, o bombeiro hidráulico acabou a alguns minutos... — o seu telefone vibra e Isis se meche a contragosto para pegar o aparelho no bolso de sua calça jeans. Olha o contato no visor, depois desliga. Nem preciso esperar, já retiro o meu celular do bolso lançando um olhar irritado para ela que dá de ombros, pega sua bolsa e vai direto para o quarto. Atendo no segundo toque. – Olá Felicity! – tento soar mais animada o possível.
‘Ah Mia, me desculpe eu continuo te ligando como um louca todos os dias.’ Sua voz é cansada, e parece estar em movimento ao falar.
—Não me importo que me ligue, sabe bem disso – guardo a vassoura no lugar e escoro meu corpo no batente da porta, de frente para o quarto de Isis. Se não quer falar com os pais, vai no mínimo me escutar falando com eles.
‘Mesmo assim querida, nem mesmo Laurel deve ficar tanto no seu pé.’ Isso me faz sorrir, é estranho ter essa atenção, mas eu adoro que existam pessoas que se preocupem se vivo, me alimento ou tenho dormido direito. É meio que um lance novo para mim.
—Laurel tenta ser do tipo de mãe “mente aberta”.
‘E consegue?’ uma porta parece se fechar, a voz de Felicity fica um pouco mais leve.
—Claro que não, Fel! – dou risada. – Acho que se tivesse namorado qualquer outro cara além de Phillippe, ela o teria confrontado com o outro traje na primeira mancada que desse. – Felicity dá risada do outro lado da linha.
Phillippe Delphine é meu ex namorado, e provavelmente o cara mais gato que Deus já fez. Sério, o garoto é tão bonito que chega a ser ridículo existir alguém assim. Seus olhos violetas e aquela pinta abaixo do olho esquerdo, os cabelos cacheados que se recusa a cortar ou pentear e ainda assim pode parecer um modelo de shampoo a qualquer hora do dia. É alto e tem o corpo de um nadador, com músculos esguios e definidos, sem quase não fazer nada além das aulas de autodefesa e judô que Connor, o marido de sua irmã o obriga a fazer. Mas isso é não é de longe o que tem de mais bonito, os Delphine possuem um tipo de brilho que não pode ser explicado, algo que os faz especiais. Brilho e uma genética maravilhosa.
‘Phillipe.’ Felicity repete o nome, depois solta um longo suspiro. ‘Qual foi mesmo o motivo de desistir daquele menino lindo?’ é minha vez de suspirar.
—Phill é um astro em ascensão agora e estamos longe demais para manter um namoro – repito o mesmo discurso que costumo fazer para todos que perguntam.
‘Claro, claro. A história ridícula dele ser um idol teen e ter fãs loucas. Agora me lembrei!’ debocha.
‘É pior do que meu antigo discurso.’ Pulo ao escutar a voz debochada do Sr. Queen. ‘Como vai Mia?’
—Muito bem, Sr. Queen – respondo com certa formalidade que ele me faz querer ter, não consigo explicar o motivo. Oliver parece dar risada e murmurar algumas reclamações sobre o “Sr.”.
‘Nossa filha, ela está bem?’ chego a sentir a apreensão em sua voz, eles não devem ter tempo e Felicity meio que perde o fio da meada quando começa a conversar.
—Estava reclamando do trânsito mais cedo, então deve estar bem – falo mais alto propositalmente e algo bate dentro do quarto, deixo de fora que esse é o argumento padrão sempre que chega da rua. – Acho que está mais vago, entende?
‘Menos Isis.’ Felicity completa do outro lado.
‘Vamos nos apressar, amor.’ Oliver fala para ela. ‘Muito obrigado por nos manter informados Mia.’
—Não tem que me agradecer, Sr. Queen.
‘Se cuida querida, qualquer coisa sabe como nos encontrar.’
—Claro, vamos ficar bem – olho para a porta e o ressentimento vem sem que consiga parar. -Se cuidem também.
Eles se despedem com palavras amáveis, e encerram a chamada. É irritante ver Isis rejeitando os pais, o irmão e até mesmo Lunna. Posso entender muita coisa, mas não entendo como alguém que tem tudo pode ficar reclamando de ser amada ou cuidada demais.
Aos sete anos meu pai assassinou minha mãe diante dos meus olhos. Precisei me trancar no meu quarto e fingir que não tinha visto nada para sobreviver. King é um grande filho da puta, nada comparado com um pai de verdade. Mas tudo mudou quando fui adotada, e pela primeira vez na vida entendi o que é ter uma família de verdade. Laurel e Tommy também tiveram muito tempo tirado a força da vida deles, mas são incríveis em um nível que só me faz ser grata por me amarem diariamente. Cresci em orfanatos, morrendo de medo de ser encontrada pelo King, tentei não me envolver com ninguém mesmo tendo meus amigos e sendo apaixonada por Phill desde nosso primeiro ano. Mas é complicado assumir riscos quando não existe ninguém cobrindo sua retaguarda. O que me faz querer ter o mesmo treinamento de Isis pela primeira vez na vida. Só queria ter força e técnica o bastante para amarrar minha amiga e a obrigar a falar com a própria família.
Talvez por esse momento de fúria, insanidade latente ou posso estar pegando por osmose os genes de Laurel. Mas algo me fez abrir a porta dela em um solavanco e quando dou por mim estou entrando a passadas largas em seu quarto.
Tudo estava impecável no lugar, mas todas as fotos se foram, os quadros estavam no chão virados para a parede e Isis estava sentada na porta de seu closet com uma caixa cumprida de madeira com as laterais douradas e verdes, era a coisa mais bonita e ao mesmo tempo me fazia querer sair pela porta e gritar por ajuda. Isis segurava a sua adaga a Katoptris em uma das mãos e tinha um sorriso perverso nos lábios.
—Está em silêncio agora, finalmente essa adaga do inferno se calou. -diz em uma voz que não parece ser dela.
Notas finais
Nos conte o que acharam, afinal continuar ou não está nas mãos de vocês agora.
Bjnhos!!!
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