P. Bailey

7 P. Bailey


Nigel continuava ajoelhado no chão, segurando o maço de envelopes. Em um único movimento ele desamarrou o cordão que os segurava e as cartas se espalharam pelo tapete. "São estas as cartas?"

Sydney limitou-se a concordar com a cabeça.

Nigel abriu os envelopes com destreza, desdobrou as cartas e as empilhou sobre a cama revisando uma por uma. Havia onze delas. Um longo momento se passou em silêncio entre os dois.

"Você entende agora? Vai me apoiar, Nigel?"

O inglês fechou os olhos e deu um longo suspiro. "Sydney. Eu a apoiaria em qualquer coisa que a torne verdadeiramente feliz, mesmo que a felicidade seja com meu irmão... No entanto, existe uma coisa que eu não consigo fazer: eu não posso obrigá-la a enxergar o que você não quer ver."

Sydney ficou surpresa. Ele a encarou com tanto pesar e sua voz estava carregada de decepção, um sentimento que ela nunca esperaria lhe causar.

Ela sentiu seu coração palpitar.

Das poucas coisas que Sydney temia na vida, a primeira delas era decepcionar seus amigos; não ser a pessoa com quem poderiam contar e confiar. Para piorar sua situação, Nigel era mais que um amigo, ele era sem qualquer dúvida o melhor amigo que já teve em toda sua vida e agora a amizade dos dois estava sendo provada de uma maneira sem precedentes.

Sydney entrou em pânico, pois não tinha idéia do que poderia fazer para remendar todas as falhas causadas em seu relacionamento durante o período de apenas um dia. Ela imaginou que Nigel entenderia melhor sua posição e a apoiaria depois de ler as cartas. Como ele não conseguiu enxergar o amor por trás daquelas palavras? O ódio que tinha do irmão era ainda maior que sua amizade?

Nigel reuniu as cartas e levantou-se, pondo-as em sua mochila.

"O que vai fazer?"

"Eu vou voltar para Boston."

Ela hesitou ante a resposta seca. Não lembrava de qualquer pessoa que tenha conseguido intimidá-la assim usando simples palavras. "E-e por que vai levar as minhas cartas?"

"Porque uma vez que não foram entregues pela pessoa que as escreveu, elas ainda são minhas!"

"O que está querendo dizer?"

"Syd, quem foi que as escreveu e assinou?"

"Foi Preston!"

Nigel balançou a cabeça. "É como eu disse, se você não quer ver..." e começou a vestir suas roupas, pela primeira vez não dando a mínima se ela estava olhando. Ele estava irritado demais e queria sair daquele hotel o quanto antes.

"Deixe de asneiras, Nigel, as cartas são minhas. Preston as entregou e assinou" e tirou do próprio bolso a carta preferida, que mantinha sempre consigo. Ela mostrou o nome escrito em letras cursivas no espaço do remetente "Está aqui: P. Bailey!"

Nigel retirou o envelope das mãos de Sydney de maneira petulante, jogou-o junto dos demais, e acrescentou da mesma forma enquanto abotoava sua camisa "Preston não é a única palavra com 'P', Sydney."

"Está me dizendo que Preston roubou a carta de outra pessoa que também tem a inicial 'P'? Deixe-me ver quantos Baileys eu conheço que se encaixam na descrição... ah, um deles: Preston!"

Nigel pressionou as têmporas, tentando impedir a dor de cabeça que começava a se formar. "Sydney, você é a pessoa inteligente mais burra que eu conheço!"

Ela ficou boquiaberta. "Nigel, já está passando dos limites!"

"Eu pensava que fosse apenas teimosa, mas para isso você teria que negar o que eu digo sem haver qualquer prova de que eu falo a verdade. Contudo, eu trabalho com você há anos e não é capaz de reconhecer a minha própria letra! Você ficou com minhas cartas por todo esse tempo e nem se deu conta disso!"

"D-Do que está falando?"

"EU escrevi as cartas, Syd!"

Pela segunda vez, ela ficou boquiaberta.

Segundos se passaram até ela conseguir articular uma palavra. "V-Você? Mas por que assinou como Preston?"

"Pela enésima vez: eu não assinei 'Preston', eu assinei 'P'!"

"E por que uma pessoa chamada Nigel assinaria com a letra 'P'?"

"Syd, qual a palavra com 'P' que eu odeio?"

Ela pensou um instante. "...Preston?"

Nigel rosnou de raiva, estava a ponto de arrancar os cabelos de frustração "Não!"

Ela pensou mais "Eu não faço idéia!"

Nigel fez algo totalmente incomum e gritou com a chefe "PODGE, droga!"

Sentou-se na cama, olhando para o chão.

Ela ficou quieta, esperando uma explicação, então ele segurou o maço de cartas entre as duas mãos, pensativo. "Me sentia como o apelido quando as escrevi." Sydney continuou calada e sentou-se ao seu lado silenciosamente.

"Passei tantos anos tentando mudar e deixar isso para trás. Então eu a conheci e meu mundo mudou totalmente. Eu soube pela primeira vez que poderia ser uma pessoa melhor, de verdade... Com o tempo eu comecei a me sentir incomodado quando você estava com outra pessoa. A partir daí decidi mostrar que deveria ficar comigo, que EU era aquele que poderia lhe fazer feliz".

O jovem inglês a olhou com ternura por um instante. Depois de uma breve pausa, continuou.

"As declarações não foram um sucesso. Todas as vezes que as iniciei você me dispensou, como se fosse um absurdo uma pessoa como você sequer pensar em alguém como eu. Não me deixou terminar nenhuma delas."

Sydney tentou interrompê-lo, mas ele não permitiu. "Ficou claro que você não me via como um homem, Syd. Tudo o que você enxergava em mim era o Podge. Alguém que ainda tinha muito a aprender e que nunca chegaria aos pés de seus Adônis. Eu escrevi todas as tentativas fracassadas, num total de doze, e então as guardei em envelopes assinados como Podge, por terem sido um desastre, assim como o resto de minha vida." Nigel passou a mão sobre as palavras escritas com nanquim "Eu odeio aquele nome, então escrevi apenas a primeira letra, para me lembrar de não cometer os mesmos erros e conseguir me tornar o homem capaz de iniciar uma declaração que você não pudesse interromper."

Ele suspirou antes de continuar "As cartas ficavam sempre em minha mochila, mas sumiram durante nossas últimas viagens e eu nunca mais as encontrei. Pensei que as tivesse perdido para sempre".

Sydney estava sem palavras. O que dizer depois dessa declaração? Lembrou-se de alguns episódios em que o assistente começara a balbuciar algo sobre os dois serem melhores amigos, e como o relacionamento dos dois havia evoluído, mas sempre surgia algum assunto de maior importância e ela acabava deixando a conversa para outro dia. Algumas vezes até achou estranho o rumo que as conversas começavam a tomar e mudava intencionalmente de assunto. Nunca imaginou que aquelas poderiam ser as lindas declarações que leu nas doze cartas.

As palavras continuavam presas em sua garganta. Sydney pensava desesperadamente no que poderia falar, sem encontrar qualquer resposta.

Resposta que ela não precisou.

A mulher foi mais uma vez poupada pela entrada desajeitada de Preston no quarto. Desta vez ele entrou seguido de seu amigo Jonathan.

Havia algo estranho, no entanto. Preston estava mais pálido que as paredes brancas do aposento e suas duas mãos estavam erguidas sobre os ombros, num sinal de rendição. A caçadora e o assistente viram a pistola pressionada na nuca do inglês e compreenderam tudo.

Preston havia sido traído e os três acabavam de entrar em uma grande encrenca.

"Vamos iniciar viagem, senhores. Reúnam suas coisas imediatamente. Senhorita Fox, entregue o celular de seu assistente e tome a dianteira", disse Jonathan apontando para o outro quarto sem nunca retirar a arma da cabeça de seu refém. Nigel pegou sua mochila e entregou o aparelho a amiga, deixando as cartas sobre a cama.

Sydney as recolheu junto de seus pertences e colocou tudo de volta em sua bolsa. Ela depositou o celular nas mãos de Preston e saiu pela porta depois de encarar-lo por um momento. 'Você tem muito a me explicar!' Ameaçou a mulher apenas com o olhar.

Preston sentiu um arrepio na espinha e soube que havia coisas piores a se preocupar do que apenas seu nariz quebrado e a arma apontada para sua cabeça: Sydney Fox estava furiosa!

Notas finais
Continua... MuAAahaHahaHahahaa!!