P. Bailey

10 Gelo e escuridão


Aos poucos, o barulho de rochas cedendo diminuiu. Preston guiou Sydney mais profundamente na caverna até a outra possível passagem para tentarem alcançar a câmara onde Nigel e Jonathan ficaram presos. Os dois corriam o máximo que conseguiam, mas o gelo no chão os fazia escorregar o tempo todo.

Após alguns momentos de corrida, Sydney percebeu que conforme adentravam a caverna, afastando-se cada vez mais da entrada, o gelo começou a diminuir. Aos poucos, as paredes e o chão não estavam mais cobertos pela espessa camada congelada.

De repente Preston parou, ofegante, e apontou para a parede. "A outra entrada." Desta vez, bastou Sydney olhar para o ponto próximo do chão para encontrar a alavanca. Ajoelhou-se e puxou. Sem o gelo emperrando os mecanismos, a abertura foi acionada sem problemas. O teto tremeu muito menos que da vez anterior e uma passagem se abriu formando apenas uma nuvem de poeira em vez da chuva de pedras e pedaços de gelo que os recebera na câmara anterior e os separou de Nigel e Jonathan.

Como estaria Nigel agora? As pedras não poderiam tê-lo esmagado. Por Deus, não poderiam! Sydney se forçou a afastar esta possibilidade. Lembrou-se de como ele caiu imóvel no chão ao levar aquela coronhada. Jonathan o acertou na têmpora com toda força. Esteja vivo quando eu chegar. Eu vou resgatá-lo, com certeza! Repetiu a caçadora em sua mente, como um mantra, tentando reunir forças para seguir adiante enquanto seu corpo ameaçava parar cada vez que a possibilidade de Nigel estar morto soterrado por toneladas de pedras ou pelo golpe impiedoso que Jonathan lhe passava diante de seus olhos. "Vamos lá, Preston!"

"Sim!" Preston a viu cerrar o punho com força e passar pela entrada que acabara de se abrir. O lugar ficou ainda mais escuro, iluminado somente com a lanterna de Preston. As paredes do corredor não tinham nenhum gelo para refletir a luz, deixando-o envolto em um breu total. O britânico tomou fôlego e seguiu a mulher, passando também pela entrada, torcendo para que sua memória não o tivesse enganado e que os dois conseguissem encontrar a câmara principal que permitia o acesso àquela onde Nigel ficou preso. "Por favor, esteja bem, irmãozinho."

Novos tremores alcançaram a câmara já devastada. O barulho de água correndo provinha de um dos lados da sala sendo o único som no meio da escuridão. Sobre algumas pedras e pedaços de gelo estava Nigel. Ele permanecia imóvel, caído de bruços no chão frio. Era difícil distinguir se estava respirando ou não. Seu braço direito pendia em um ângulo desconfortável e estava imerso quase totalmente em água, que corria livremente pelo piso da câmara.

O som de algumas rochas deslizando ocupou a caverna, seguido por uma enxurrada de água misturada com gelo e lodo que passou por sobre as pedras e engoliu a figura frágil do homem inconsciente no chão.

Nigel levantou da água em um susto, tossindo e tentando se apoiar com os braços e joelhos sobre o chão. Ajoelhou-se, grunhindo de frio e sentiu uma pontada de dor em seu tornozelo esquerdo. Seus membros imediatamente começarem a adormecer. A dor em sua perna nem se comparava com o choque que sentiu com a enxurrada de água gelada, era como se seu corpo inteiro estivesse sendo atravessado por agulhas. Tentou levantar da água, procurando apoio com as mãos em qualquer coisa. Assustou-se com uma voz repentina.

"Até que enfim acordou, Bela Adormecida!"

Nigel olhou na direção da voz de Jonathan, mas tudo o que viu foi total escuridão. As lanternas deviam ter sido destruídas no desabamento. Encontrou uma rocha mais próxima e levantou-se com dificuldade. Subiu na pedra para tirar seus pés da água. "Syd! Onde você está?" gritou. Não recebendo qualquer resposta, Nigel sentiu desespero invadi-lo. Teriam as rochas a ferido? Estariam ela e seu irmão soterrados?

"Os dois ficaram do lado de fora da câmara. Sortudos!" a voz do loiro soou estranhamente calma, como se estivesse resignado a ficar preso no escuro destinado a morrer de frio.

Nigel conseguiu retirar a pequena lanterna extra que sempre carregava no bolso da calça. Com dificuldade, coordenou os dedos já dormentes e acionou a pequena luz. Ao seu redor havia apenas paredes e rochas. No canto próximo ao que antes era a saída, uma pilha enorme de pedras e gelo bloqueava a passagem formando uma pequena cascata de água e lama, que escorriam do teto até o chão ocupando de forma impetuosa o pouco espaço dentro da câmara.

A lanterna clareou o lado oposto da sala e Nigel viu a figura de Jonathan, encolhido sobre uma rocha. Ele estava tremendo e segurava o braço direito contra o corpo enquanto o enfaixava com um trapo, certamente rasgado da própria roupa. Seu braço e sua cabeça estavam sangrando. Deve ter sido atingido pelas rochas. Não havia sinal de arma, parecia que o loiro perdera sua pistola no meio da lama. Talvez por isso estivesse tão infeliz, pensou o jovem com sarcasmo.

Nigel tentou se encolher mais para se aquecer e de repente estacou, os olhos vidrados na direção do outro homem. Não eram os arranhões e machucados em Jonathan que chamavam a atenção de Nigel, contudo. Logo atrás do homem, quase totalmente coberta por água, estava a alavanca que Preston havia acionado! O jovem inglês lembrou-se das palavras de sua amiga: 'Sempre há uma saída'. Se os dois conseguissem terminar de acioná-la, a outra passagem da câmara se abriria e talvez os levasse para outro túnel. Ao menos não morreriam congelados no meio da lama. O fluxo de água da pequena cachoeira não parecia estar diminuindo. Talvez pudessem até morrer afogados se o frio não os matasse antes.

Nigel olhou para seu próprio estado. Estava todo molhado e tremendo compulsivamente. A idéia de caminhar por aquela água gelada, com o tornozelo machucado, até chegar à alavanca não o agradava nem um pouco.

Ele forçou todos os seus músculos a descer da rocha e começou a caminhar. Movimentou-se com dificuldade pelo líquido congelante. O chão estava cheio de fragmentos de rocha e a água já estava próxima de seus joelhos. Afastou da mente a dor que estava sentindo em suas pernas e sobretudo em seu tornozelo. Sua principal preocupação deveria ser a de evitar morrer afogado ou terminar congelado naquele buraco. Tentou buscar força na a imagem de Sydney. Ele rezava para que o desabamento não a tivesse ferido ou a seu irmão. Pensou no último um tanto inadvertidamente. Era verdade que os dois se odiavam, mas Nigel não queria que nada ruim acontecesse a ele, nem a sua amiga.

Constatando que em poucos minutos não haveria nada na caverna além de lodo e dois cadáveres, Nigel apressou-se para alcançar a alavanca na parede. Teria que esquecer o resto por enquanto e limitar-se a resolver o grande problema à sua frente: desemperrar a alavanca antes de desmaiar de frio e sair vivo dali.

Ao passar pela porta atrás de Sydney, Preston direcionou a lanterna para as paredes, procurando confirmar que estavam no lugar certo. Estava em uma câmara, idêntica àquela onde houve o desabamento. Preston suspirou agradecendo aos céus. Estavam na sala certa.

"Agora devemos procurar pela passagem que leva à sala central onde fica a relíquia. Se chegarmos a ela conseguiremos acessar a câmara onde Podge está!"

Sydney concordou e foi para um lado da sala. Ela começou a revisar os sinais nas paredes e revirar as pedras no chão, procurando a indicação da passagem. Preston começou a fazer o mesmo. Depois de alguns minutos seus nervos estavam começando a dominá-lo. Não conseguia mais focalizar a lanterna em um só ponto sem tremer como se estivesse tendo uma convulsão. Estavam perdendo tempo. Tempo precioso. Já deviam ter encontrado a alavanca! Podge estava esperando. Não poderia perder seu irmão porque não encontrou a droga de uma pedra em formato de estrela naquela caverna! "Não há nenhuma marcação deste lado!" Sydney gritou da direita da sala.

Preston fechou os olhos e suspirou algumas vezes tentando se acalmar. Estava prestes a ter um ataque de pânico. Abriu os olhos e começou a se virar para Sydney. A luz de sua lanterna passou por alguma coisa no chão que lhe chamou a atenção. Preston arregalou os olhos e gritou "Encontrei!"

"Desista! Eu já tentei acionar a passagem. A alavanca está presa e não vai ceder!" Disse o loiro tentando se encolher ainda mais sobre a pedra onde estava sentado.

"Você tentou sozinho, e c-com um braço ferido. Se tentarmos juntos t-teremos mais c-chance!" Nigel grunhiu entre os dentes enquanto forçava o mecanismo da parede sem qualquer êxito. A água estava sendo centenas de vezes mais difícil de suportar do que ele havia imaginado. Não sentia mais seus pés, mas a dor no seu tornozelo estava lá, imensamente ampliada pelo frio.

"Eu não vou descer nesta água gelada! Olhe só para você, está aí há pouco tempo e nem consegue mais se mexer!" resmungou Jonathan sem se mover.

Nigel não respondeu. Sentia tanto frio que seu pensamento já estava começando a entorpecer junto com o resto de seu corpo. Sua respiração estava rápida e difícil. Não agüentaria mais muito tempo naquele frio. Mas a água já havia subido vários centímetros nos poucos minutos em que estava tentando abrir a passagem, não tinha tempo de parar agora. Não poderia morrer naquele lugar! Reuniu seu desespero e empurrou a alavanca com toda a força que lhe restava, quase caindo na água quando suas mãos escaparam da barra de metal. Jonathan levantou a cabeça rápido ao ouvir um estalo na parede.

Nigel apontou a pequena lanterna, presa a seu pulso, para a alavanca. Nigel também havia percebido. Um centímetro. A alavanca havia descido um centímetro!

O loiro saltou na água imediatamente e deu um empurrão em Nigel, jogando-o violentamente para longe do mecanismo. Nigel pisou em falso sobre seu tornozelo machucado e caiu na água. Jonathan pôs todo seu peso na alavanca e conseguiu acioná-la com o braço que não estava fraturado. Nigel levantou-se da água o mais rápido que pôde, tentando se manter equilibrado enquanto a corrente lamacenta criou força e quase o arrastou junto com pedaços de gelo flutuantes para a porta que estava se abrindo. Virou-se para a passagem, mas não conseguiu impedir Jonathan de correr para dentro do túnel.

"Jonathan não vá-" e já era tarde demais. Tudo aconteceu à sua frente em um piscar de olhos: sua lanterna clareou os passos de Jonathan descoordenados pela correnteza, que acionaram uma armadilha que ficava no corredor. Nigel assistiu lanças descerem de várias partes do teto e das paredes, em toda a extensão do corredor, vindas de todos os cantos, acertando Jonathan com golpes mortais. Em um segundo, só o que se movia era a corrente de água escura e gelada que começara a escoar pelo túnel quando a porta se abriu.

Nigel fechou os olhos. Averteu o feixe de luz daquilo que restava de Jonathan e se escorou na parede da câmara, tentando respirar. Acalme-se, homem! Não perca a cabeça! Não perca a cabeça! Mas a imagem de Jonathan sendo empalado pela chuva de barras de metal pontiagudo passou novamente por seus olhos, fazendo Nigel se retrair com a imagem horrível.

O jovem pôs as mãos sobre o rosto. Sua lanterna pendia de seu pulso, iluminando durante o vai e vêm seus pés, que permaneciam cobertos de água escura até os tornozelos. Nigel continuou assim algum tempo, tentando controlar o pavor que estava sentindo. Já havia visto pessoas serem pegas em armadilhas, mas nunca de uma forma tão terrível. Aos poucos, conseguiu controlar a respiração. Ainda sentia muito frio e por mais que fosse ruim, foi por causa disso que conseguiu se recompor e colocar a cabeça no lugar. Precisava se movimentar ou morreria com hipotermia.

Abaixou os braços e começou a analisar a situação em que se encontrava. Teve sorte pelo desabamento não reiniciar com o acionamento da passagem. Por outro lado, ainda havia água jorrando em seus pés, suas roupas ainda estavam molhadas e a única saída agora estava bloqueada por um número inimaginável de lanças enterradas nas paredes e no chão, formando uma gigantesca teia de metal, que se estendia desde o começo do túnel até o final dele, onde o corpo de Jonathan permanecia imóvel.

Nigel aproximou-se mais do o túnel e tentou analisar as grossas barras de metal antes de entrar em pânico por não haver outra saída. Era sua única chance. Começou a se espremer entre as barras. Não queria perder as esperanças, mas no fundo sua mente gritava, dizendo que nunca conseguiria passar por todas elas. Odiava ser uma pessoa tão realista.

O inglês iniciou o avanço devagar pelo corredor, tentando lutar contra o tempo com o pouco de energia que ainda possuía. O frio era insuportável, embora quase não sentisse seus braços e pernas. Seu corpo estava entorpecendo a cada segundo e sua mente ficando cada vez mais distante. O tímido feixe de luz que a lanterna teimosamente lançava na escuridão era a única coisa que o mantinha consciente.

Não posso desistir! Pensou. O final daquele túnel continha sua chance de sobrevivência, se ela ainda existisse.

...Espero que Sydney esteja bem.

Notas finais
Continua...