Púpilos da máfia
1 Família Churill
Notas iniciais

“A máfia é uma organização criminosa é uma organização criminosa cujas atividades estão submetidas a uma direção colegial oculta e que repousa numa estratégia de infiltração da sociedade civil e das instituições.” De modo mais simples, a máfia é nada mais nada menos que um conjunto de ladrões que mandam na sociedade sem que sejam na verdade conhecidos. Como era em Batman entre Falcone e Maroni, como era em Os Implacáveis e O poderoso Chefão, ou na vida real, havia também outros grandes nomes, Michele Navarra, Charles Lucky, até mesmo a família de Kennedy já esteve com o nome procurado por envolvimento.
Normalmente, histórias de mafiosos começam onde homens de grandes famílias possuem renome, territórios, brigas internas, muito dinheiro e segredos. A máfia é mantida por diversas empresas e batalhas pessoais do lugar onde ela se foca, há tantos filmes e histórias sobre essas pessoas que é quase impossível manter uma dessas organizações em segredo hoje em dia. O que acontece dentro do mundo mafioso, fica lá. Muito mais gente do que é possível pensar trabalha com a máfia.
O envolvimento com mafiosos pode ser a sentença de morte de um fraco, e quando os afilhados dos chefes começam a aprender e veem que não tem mais saída, a assustadora escuridão referente ao medo do erro e da vontade de viver são implantados na mente de jovens que nunca um dia poderiam imaginar como era participar disso.
— Querida? – Disse Churill a sua filha – Sabe que tudo isso o que o pai faz, é por causa do trabalho dele, não sabe?
A menina, com seus 9 anos, olhou pela janela traseira do carro pronta para ver um homem, ou seu corpo sendo arrastado por dois homens que trabalhavam com seu pai. Robert Churill, o chefe de máfia da família Churill. Ele se contentara apenas com uma filha, ele mesmo comentou que muitos herdeiros trariam ainda mais problemas com os quais essa família tinha que contar, e com o falecimento de Mary, sua querida esposa, o homem decidiu ensinar a filha logo cedo. Criava-a com carinho e atenção, mesmo que o que fizesse pudesse assustá-la, ele dizia que era melhor entender o mais cedo possível, antes que algo pior houvesse e ele não pudesse prepará-la.
Florence era seu nome, uma garotinha pequena e que não se impressionava facilmente, com seus olhos verdes claros observava com certa frieza, a cena um tanto macabra que sua “família” causara, por sua vez apenas retornou a se sentar no banco e olhar pela janela do banco traseiro, seu pai a observava curioso. Ele não sabia que na verdade ela nem se impressionava mais, mas era um pouco terrível para ela.
— Sim, pai – Ela disse, sua voz doce e delicada como a da mãe – Eu sei.
Churill apenas sorriu, esticou o braço e afagou os castanhos cabelos da menina.
— Ainda bem – Ele concluiu.
Mandou o motorista acelerar e voltaram para casa, como sempre era.
***
16 ANOS DEPOIS
— Vamos logo Florence! – Gritou o motorista.
— Já vai! – respondi pegando o resto do material.
Terminada minha última aula de Economia do semestre, estava animada para a viagem que faria com meu pai no dia seguinte.
— Vem amanhã? –Callum, meu amigo, perguntou.
— Não – Respondi alegremente – Viajem com meu pai...
— Ah – Exclamou ele – Espero que se divirtam. Para onde vão?
— Costa mar – Informei– Temos uma casa lá...
— Nossa! Que chique!
— Idiota – Florence riu – O trabalho do meu pai lá é mais complexo do que imaginam.
— Nem quero saber – Ele falou enquanto íamos em direção ao portal da faculdade – Até semana que vem.
Acenei para ele em despedida e entrei no Audi preto que me esperava, lá dentro havia um vestido preto colocado no banco, sapatos também pretos no chão e um bilhete com a caligrafia perfeita de meu pai, a marca do envelope era como sempre um RC marcado como uma sigla perfeitamente feita.
— Ele me trata como trata as vitimas dele – Falei conversando sozinha.
Peguei o envelope, o abri e me apressei em ler o que ele dizia.
“Florence, teremos um almoço de negócios com a família Herdig, Carlo tem um filho pouco mais velho que você, quando chegarmos no restaurante explico-lhe mais detalhadamente seu serviço. Enquanto isso faça o que faz muito bem, ser espetacular.
Com amor
Papai”.
Ri comigo mesma imaginando o que meu pai queria com Carlo Herdig e sua família, mafiosos, inimigos clássicos da nossa convivência, mas que estavam em período de paz. Após uma negociação muito bem feita entre as famílias, a convivência foi possível, no entanto, como todo bom mafioso que meu pai era, ele gostava de testar seus limites e ir ainda mais além do que nunca, e como eu seria sua sucessora, sempre tinha uma participação especial em seus planos, da última vez, eu e uma arma conseguimos informações sigilosas de uma família que sumiu de repente, soube que mudaram para França, e essas informações deram a Churill metade das negociações portuárias da cidade.
— Pode passar em casa, por favor, Thomas? – Pedi ao motorista.
— Sim, senhorita – Ele respondeu enquanto fazia a curva na direção que deveria.
Nossa casa era uma típica vitoriana, com uma sala gigantesca e muito elegantemente mobiliada, com uma lareira de mármore clara e um retrato da minha mãe logo acima para que meu pai se sentisse bem, sofás de couro creme e poltronas no mesmo estilo, móveis com cores escuras e tapetas com estampas completamente diferentes, uma sala de jantar comprida com uma cristaleira gigantesca e mesa de lugar para cinquenta pessoas e o candelabro, gigantesco de pingos de cristal, que não eram cristais, isso era meu cotidiano, então comecei a subir as escadas para meu quarto.
— O almoço é em uma hora! – Avisou Thomas.
— Ok! – Respondi me apressando.
O segundo andar tinha cinco portas, duas de quarto de hóspedes, uma biblioteca, o quarto do meu pai e o meu que era no fim do corredor, ultrapassei todas as portas até a minha, que era uma linha reta. Abri a porta e adentrando, joguei o vestido que o meu pai comprara na cama, corri para o banheiro e me arrumei como ele tinha pedido, uma maquiagem simples para a ocasião, e um delineador para deixar o ar de mistério. Prendi o cabelo em um coque solto, terminei o embelezamento e fui me vestir. A roupa ficava justa ao corpo, e o único detalhe do vestido era a transparência nas costas que formava um V desde os ombros até o meu Cóccix, sem mangas e sem decote na frente. Coloquei um colar com um pequeno brilhante e o brinco do mesmo jeito, uma pulseira mais incrementada para complementar a roupa e os sapatos de salto pretos com um filete prateado na ponta.
Quando Jenna, a governanta veio me chamar, não me demorei a pegar a bolsa e sair, sorri para ela quando passei e desci as escadas a encontro do meu pai, na verdade ele já estava em casa, no entanto, quando a porta da biblioteca estivesse fechada, eu não deveria incomodá-lo, mas agora ele estava preparado para o almoço. Ele já tinha cabelos grisalhos, mas não tinha tanta a aparência de alguém velho, estava em boa forma para seus 60 anos e vestido com uma calça e camisa social, estas com as mangas dobradas até o cotovelo, parecia um pouco mais jovem. O que o entregava era o rosto cansado que geralmente mantinha, mas a mim só era natural dele.
— Pai? – Chamei tirando-o do devaneio.
— Florence – Ele respondeu sorrindo e me avaliando – Como eu disse, espetacular!
Ele me ofereceu sua mão que eu aceitei de bom grado, dei uma voltinha na sua frente para ele especular melhor, e ele sorriu com a reação. Foi quando eu notei que um tango estava tocando a fundo.
— Que tango é esse? – Perguntei.
— Ah! – Ele falou me puxando para a entrada da casa, que era um espaço vazio – É “Por Uma Cabeza” e você terá que aprender.
— Terei? – Perguntei rindo ironicamente enquanto ele colocava uma de minhas mãos em seu ombro e segurava a outra — Posso saber por quê?
Ele começou a me guiar divertido pela sala, ele aprendera tango muito novo, tinha que saber fazer algo clássico, eu optei por piano e ele havia optado pelo tango, mas me ensinara mesmo assim, então não foi difícil segui-lo na dança.
— Porque eu informei que Herdig tem um filho, e ele gosta de tango – Ele respondeu, deixou-me com a sobrancelha arqueada – Ele vai ser seu Bingo, nosso bingo.
Ele me fez afastar dele e voltei enrolada em seu braço, rapidamente ele o tirou e o ofereceu para sairmos para o almoço.
— Desligue a vitrola Jenna – Ele disse. Jenna apenas assentiu e saímos da casa em direção ao carro.
— O que quer com o filho de Herdig? – Perguntei curiosa.
— Só quero uma ligação mais forte com a família – Ele respondeu enquanto abria a porta para mim – Como diz o ditado?
— Mantenha os amigos perto, os inimigos mais perto ainda – Respondi sorrindo.
— Essa é minha garota.
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