Púpilos da máfia
9 Convite inusitado - Florence Churill
Notas iniciais
Florence Churill
Uma tenda havia sido montada na praia, que ficava próxima a mansão dos Herdig, para a festa de casamento, luzes iluminavam o salão de pontos estratégicos, no entanto, eram as velas penduradas que mais chamavam a atenção, os enfeites das mesas eram compostos por coisas do mar, como conchas e estrelas fossilizadas. A comida, maravilhosa, era basicamente peixes e crustáceos, então por algum motivo, eu me encontrava na fila atrás de batata-frita.
— Não come peixe? – Matthew Herdig me perguntou procurando o mesmo que eu, provavelmente.
— Desvantagens de ser vegetariana – Respondi rindo e enchendo meu prato de batatas – E você?
— Quase todos os dias – Ele disse – Por isso, sempre tento evitá-lo.
— Coisas de quem vive próximo ao mar, correto – Falei, então convidei-o para sentar na mesa comigo.
Meu pai conversava alegremente com alguns amigos, numa mesa do outro lado da tenda, Kyla estava tirando fotos com todos os convidados, uma mesa de cada vez, tinha trocado o vestido para se sentir mais confortável, assim como os padrinhos que tinham retirado seus paletós. A festa estava bem animada, mas eu sabia que Robert Churill estava planejando algo que não era de meu grado.
— Parece pensativa – Comentou Matthew, tirando-me do devaneio – Algo a incomoda?
— Por que estamos conversando tanto hoje? – Perguntei colocando uma batata na boca e observando-o atentamente.
— Pensei a mesma coisa o dia inteiro, então cheguei a conclusão que não somos amigos, apenas devido aos nossos pais...
Ergui as sobrancelhas em aprovação, era uma conclusão interessante, nossas famílias viviam em discussão bem antes de nascermos e cada vez mais isso parecia se tornar banal, a máfia não tinha tanta força em nosso país. Matthew já não era muito próximo dos negócios da família, e com o pouco tempo que passei com seus primos, era visível que estes sequer tinham conhecimentos de tais negócios e se tinham fingiam não saber ou sabiam o mínimo necessário, tentando evitá-lo. Em minha família, não existia mais nada, os irmãos de meu pai morreram jovens, um doente e outro assassinado, devido a morte da minha mãe, a família acabava em mim e se dependesse, evitaria ao máximo continuar com aquela bagunça.
— Você nunca esteve tão certo – Comentei tomando um gole do meu vinho – Então, trégua?
— Trégua – Ele consentiu erguendo a taça para brindarmos, aceitei de bom grado, afinal, eu já era amiga de uma Herdig. O que seria ter outro.
— SENHORAS E SENHORES! – Disse o mestre de cerimônias, todos se levantaram e pouco a pouco formaram um meio circulo ao lado da pista de dança – Peço a todos que se aproximem, para poderem os noivos apresentarem, sua magnífica valsa.
— Você já conhecia o noivo? – Disse alguém no meio ouvido, olhei delicadamente para a figura que colocara a cabeça em meu ombro e identifiquei Jason, o amigo de Matt.
— Eu o vi no ano novo, por que? – Perguntei curiosa, enquanto seus braços enrolavam minha cintura, fingi não perceber e me desenrolei dele rapidamente, ele por sua vez fingiu não ter feito nada.
— É uma pessoa complicada, mas não importa agora – Ele falou, andou então por volta de mim e parou na minha frente – Seu pai está te chamando.
Olhei para trás, na direção dos olhos de Jason, e vi meu pai, quando este percebeu que eu o observava ele acenou, pedindo que fosse à seu encontro, ignorando completamente Jason e vendo de canto de olho a dança de Kyla. Aproximando-me de Churill percebi que ele estava, curiosamente, ao lado de Lucio Herdig. Quando encontrei Don Herdig pela primeira vez, eu tinha apenas dezesseis anos, era um homem frio e severo, com ar especulador e autoritário, desde então nunca o tinha reencontrado, mesmo naquele dia, em que eu havia passado praticamente todo na mansão, ele não tinha aparecido e então, estava com meu pai.
— Boa Noite, Don Herdig – Falei sorridente, enquanto me aproximava do velho mafioso, ele estava elegante com um smoking clássico, lembrava-me perfeitamente de seu rosto com olhar cansado, cabelos grisalhos, agora praticamente brancos, postura perfeita e superior.
— Florence Churill – Ele falou apertando minha mão – Há quanto tempo, está bem crescida...
Mantive-me calada depois de seu comentário, esperando que meu pai me dissesse o motivo do chamado, por alguns instantes o silêncio foi o protagonista do momento, mas logo palmas ressoaram pelo salão e nós três as acompanhamos, informados de que a valsa dos noivos tinha terminado. Os aplausos duraram alguns segundos e novamente uma música começou a tocar, desta vez mais moderna, olhei para a pista e vi Kyla dançando com seu pai, sorri e observei por alguns instantes, até ser chamada novamente.
— Flora querida, eu fala com Lucio agora sobre nossa viagem à Beira Mar – Ele falou tomando totalmente minha atenção – E ele comentou, que nunca foi à este lado do país.
Ergui minha sobrancelha, já imaginando aonde este assunto chegaria.
— Está perdendo um dos lugares mais lindos do mundo, Don – Comentei tentando contornar o assunto.
— Imagino – Ele respondeu com seu vozeirão, grave, mas cansado, como é comum de um homem de sua idade – No entanto, já estou com quase 87 anos e não quero mais esperar.
— Flora, como estávamos conversando ontem sobre sua maravilhosa ideia de reunir mais a família – Então tudo o que eu menos queria e mais tentaria evitar continuou a sair dos lábios de meu pai – Chamei alegremente Don Herdig, seu filho mais velho e seu neto, a irem conosco à Beira Mar.
— Perdão? – Imaginei por um instante que a pergunta viera de minha garganta, mas na verdade, atrás de mim aparecia Matthew, extremamente confuso.
— Matthew, meu neto – Lucio falou, chamando Matt para perto – Prepare-se, viajaremos amanhã.
Matthew e eu nos entreolhamos e ficamos em silêncio completo por um longo tempo, os mais velhos pareciam esperar alguma reação, mas não havia o que pudéssemos dizer.
— Bom – Eu tentei concluir algo – Acho melhor irmos para casa, então, Pai...Teremos que levantar cedo amanhã, para preparar tudo.
— Ótima ideia – Ele falou, então se despediu de Lucio e Matthew e saiu a procura de Carlo, enquanto eu fazia o mesmo que ele.
Quando me despedi de Lucio este se retirou, me deixando com o neto, que me olhou apreensivo.
— Algum conselho, “Consigliere” – Ele perguntou irônico, mas eu entendia o seu lado, tínhamos acabado de dar trégua, mas nossas famílias não, nosso comportamento seria uma surpresa.
— Quando estivermos em Beira Mar, pensamos em algo – Completei, enquanto ia a procura de Kyla, me despedi rapidamente e fui atrás de Robert, para irmos em completo silêncio de volta à nossa casa.
Fale com o autor