Pó
1 Pó
XX-Pó.
É o que resta das minhas memórias.
Vide coração, que se encharcava de glórias.
E pó virou.
Pó, tudo o que resta,
De tudo o que presta,
Quem não tem, faz a festa,
Mas depois não renega.
O pó vem e você enxerga,
As marcas do passado.
Casas campos, verde água,
Tudo o que se tem não mata.
E por entre os porta-retratos,
Se retrata todo um passado,
Tudo o que já foi,
O que não volta atrás.
O relógio da parede,
Ainda bate os segundos,
Que você passa olhando para o pó
Do que foi e ainda mais.
Quem disse isso confirma,
Ele não volta jamais.
Andando ainda, adiante,
A cadeira de balanço,
Os porta-retratos tremem,
Com o movimento repentino,
Das pestes que ali cercam.
E o pequeno feixe de sol
Penetra por entre as cortinas,
Que esfarrapadas e empoeiradas,
Lembram-me alguma sina,
E ainda sim refrescam minha dor.
Não há pó nas prateleiras,
Pois estas já estão caídas.
Fechadas as cortinas,
A escuridão domina,
A lembrança predomina,
A chaleira ainda no fogo,
Berrando ao som da água.
O pó marcou também,
A pequena caixa aveludada,
Que agora somente guarda
Uma aliança enferrujada.
Fale com o autor