XX-Pó.

É o que resta das minhas memórias.

Vide coração, que se encharcava de glórias.

E pó virou.

Pó, tudo o que resta,

De tudo o que presta,

Quem não tem, faz a festa,

Mas depois não renega.

O pó vem e você enxerga,

As marcas do passado.

Casas campos, verde água,

Tudo o que se tem não mata.

E por entre os porta-retratos,

Se retrata todo um passado,

Tudo o que já foi,

O que não volta atrás.

O relógio da parede,

Ainda bate os segundos,

Que você passa olhando para o pó

Do que foi e ainda mais.

Quem disse isso confirma,

Ele não volta jamais.

Andando ainda, adiante,

A cadeira de balanço,

Os porta-retratos tremem,

Com o movimento repentino,

Das pestes que ali cercam.

E o pequeno feixe de sol

Penetra por entre as cortinas,

Que esfarrapadas e empoeiradas,

Lembram-me alguma sina,

E ainda sim refrescam minha dor.

Não há pó nas prateleiras,

Pois estas já estão caídas.

Fechadas as cortinas,

A escuridão domina,

A lembrança predomina,

A chaleira ainda no fogo,

Berrando ao som da água.

O pó marcou também,

A pequena caixa aveludada,

Que agora somente guarda

Uma aliança enferrujada.

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