Pétalas à fronte
1 Pétalas à fronte
Notas iniciais
O céu encontrara-se escuro em um domingo não muito promissor, o dia, que por sua vez sempre me alegrara, agora trazia correntes de ar frio à minha face que já não mais aguentava a brisa solitária. Com a face encurvada ao chão e sentado sobre um velho banco de madeira, eu deixava-me refletir por vagos devaneios, mas a pena me custava todas as partes de meu corpo, minhas mãos pereciam a vida real e preferiam ocultar-se nos bolsos de meu velho palitó marrom, que agora estava tão sujo quanto ao inverno anterior.
Mas a minha mente não se ocupava com roupas, ou se quer com o frio, e tão pouco com a barba disforme que me encobrira à face, ali sentado, à única visão suja do chão, pude desperta-me de meu devaneio que fazia-me delirar por meio de pensamentos injustos, e eu tenho entendimento que, por mais que eu tentasse me livrar destes, eles sempre me acompanhavam como um cão que persegue o seu dono.
Entretanto, em algum inverno sem esperança, é preciso mover-se nem se for para olhar em outra direção, assim que eu pensara desta forma, meus olhos claros como a grama de um jardim, direcionaram-se para à frente, eu não entendera bem a sensação, enquanto minha face estava ao chão medíocre, meus olhos apenas deparavam-se com pés de todas as cores e sapatos caros e baratos, e algumas vezes estes pisavam aos meus sem nenhum grito de dor emergido por mim, mas agora, os rostos me recordavam, cada face se movia de uma maneira à brisa, e em algumas tentativas tentei levantar-me para caminhar como os outros. Mas, por mais que eu forçasse meus pés, eles pareciam prender-se de alguma maneira ao chão que me continha, sendo um queijo para um rato, mas é claro que o rato às vezes pode roubar o queijo e correr com este sobre imundas calçadas, e acredito eu, que, eu não precisara de um chão imundo que teria sido minha única vista por imensos anos. Então, como um criança que está à aprender à andar, tentei mexer-me sem sucesso, e com sucesso minhas lágrimas se agitaram sobre minha face fazendo me enxugá-las com a manga do palitó, mal sabia eu que, enquanto eu estara ali parado, pregado ao meu sofrimento, faces encaravam-me de maneira fugaz, passavam sobre mim, atropelando-me e encarando quem sempre as evitara, entretanto, por um desvio de pensamento percebi que meus dedos se retorciam sobre minha fronte a enxugando de maneira lenta, neste momento, meu rosto entornou-se quase em um sorriso medonho, à tanto tempo eu não sentia o próprio toque de meus dedos.
Mas eu não poderia ficar ali, não agora que eu começara algo e a saudade me dominara, e como se outros de meus devaneios me voltassem à mente, uma de minhas mãos comparáveis à de um deficiente voltou ao bolso marrom trazendo-me lentamente aos olhos uma velha fotografia sépia que fez-me molhar-me novamente a face jogada à brisa fria daquela manhã. E, ao banco, forcei-me os pés novamente sem levantar, mas desta vez minhas mãos apoiavam-se sobre a madeira lodosa e com um impulso, pude encontrar os rostos à minha altura e isso foi-me muito tranquilizador, aos poucos eu entendera que de alguma maneira, meus medos ficavam para trás em poucos minutos. E essa não era mais uma mentira de minha mente, eu poderia saber que tudo ao meu redor era real assim como o lodo em minhas mãos que agora segurava a bela fotografia de uma mulher, esta por sua vez tinha a face mais bela que de todos os rostos à minha frente, em seu retrato, os cabelos negros caiam sobre seus ombros uniformes e sua face pertencia à seriedade, e de algum modo eu sentira que sabia onde encontrá-la, então novamente à aprendizagem, forcei os pés e corri o máximo que pude, corri como um antílope quando foge de um leão pelas savanas, mas assim também como o antílope, parei e servi de alimento aos meios das faces que me observavam, mas ao contrário do que se imagina, o animal talvez fosse mais feliz, ele servira de alimento para um leão e eu, de alimento para a dor, pois, agora eu me encontrara à apenas alguns passos de meu ponto de partida, e ao olhar para trás, senti a sensação de que fosse me atirado uma adaga ao peito, a dor me continha como a dor para um antílope apunhalado por um leão. A minha vontade talvez, fosse-me mais precisa, apesar de meu desprendimento ser um tanto doloroso, e novamente em pé ajudado pelo vento, consegui caminhar, lentamente ao princípio e mais rapidamente quando o solo me proporcionou-me conforto aos pés descalços, e assim, sugeri-me de novo uma corrida, corri com uma de minhas mãos ao peito e com a outra a fotografia se abrigava entre meus dedos suados e lodosos. Aos meus olhos, novamente as faces me encaravam, e todos os rostos se direcionavam para mim, não perdi-me desta vez, o meu foco se encontrara em um grande portão negro, cujos meus pés arrastaram-se para este e entraram em contato com as rochas que faziam um longo caminho adentrando um enorme cemitério, à minha volta as árvores de Bughen falhavam o meu nome em um tom alto como o da minha respiração ofegante e cansada, não hesitei então em realmente percorrer o caminho de rochas que machucavam meus pés enquanto eu corria sobre ele, mas em minha mente, eu fazera o que era preciso e por mais que tudo doesse e tudo parecesse estranho, eu precisara encontrar a face de meu bolso sobre fios negros. E ao perto, em uma voz farfalhada e doce eu pude vê-la, pude encontrar o rosto que eu imaginara à anos, ele tinha a mesma coloração do retrato, era um belo rosto negro jogado à belos fios emaranhados sobre os ombros que desciam em um corpo altivo vestido por seda verde, pude ver que a moça perecia à juventude, mas ela continuara a mesma e como de costume estava ali, onde sempre estara à frente de um tumulo de aspecto rubro e sobre suas mãos uma rosa da mesma cor se depositava e suas pétalas vermelhas eram levadas à minha fronte pela mesma brisa que me incentivara por todo o meu percurso, eu ali, apenas a olhei e apenas pude ver seu choro repentino sobre meu túmulo que era molhado por suas lágrimas já conhecidas, e como se tudo me soasse estranho, tão rápido como os corvos passaram à meus olhos, percebi-me que, minha mente sempre me enganara e que eu já não mais pertencia à esse mundo como o antílope já não pertencia mais à savana.
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