Pés no Chão.
2 220v.
P.O.V Rafael
– Espero que você esteja satisfeito com o que acabou de acontecer.
Olhei para cima numa desconfortável lembrança. Mas como num clarão, todas as coisas que haviam acontecido há cinco minutos estavam desaparecendo vagarosamente da minha cabeça.
– Você está me zoando, não é possível! Você acha que é minha culpa?
– E de quem mais seria?
– Se você parasse um pouco para pensar, iria perceber que não é só minha culpa. Admito, me deixei levar por caprichos egocêntricos, mas você me forçou à essa guerrinha humana sem fundamento. — Meu irmão disse passando a mãos pelos cabelos e fazendo cara de preocupado. — agora o que me resta é descobrir o propósito de vir parar aqui... O que NOS resta, aliás.
Ele me puxou pelo braço e entrou no restaurante na nossa frente. Passamos direto pela parte mais lotada e fomos aonde não tinha tantos humanos. Puxei meu braço de volta. Odiava toques. Toques eram desnecessários. E meio que doíam nesse plano onde agora estava. Pensei nisso por um tempo:
– Percebeu que é estranho esse contato? — Rodrigo parou de andar por um segundo e me encarou.
– O quê?
Segurei o punho dele. Não era uma dor. Era tipo um choque. Eu não sei como explicar porque faz muito tempo que não sinto dor, nem nenhuma outra sensação. Incomodava pois irradiava para o resto do corpo.
– Esse mundo é estranho. — Rodrigo finalmente percebeu o que eu estava falando.
– Mas você não é humano...
– Grita para todo mundo ouvir... talvez tudo melhore se a Terra descobrir a gente. — ele deu um sorrisinho falso e continuou a me puxar até avistar uma mesa vazia.
Uma garota estava parada em pé, discutindo com um cara, meio que atrapalhando nossa passagem. Ela era alta e loira e parecia estar se divertindo as custas de alguém. Rodrigo passou por ela e não me deixou muito espaço, então passei bem perto.
Em partes porque não havia muito espaço para dar espaço.
Em outras porque queria saber se sentia o mesmo desconforto se tocasse um humano.
Era um experimento.
Meu braço tocou no ombro dela bem de leve e foi como se eu tivesse tomado um choque. Meu braço ficou anestesiado na mesma hora. Sai de perto abruptamente e acariciei meu braço.
A garota nem tinha notado nada. Continuava a discutir com o garoto sentado a sua frente.
Mais a frente, sentei ao lado do meu irmão mas não disse nada do que havia sentido. Ele ia tirar a noite para encher meu saco mesmo, então eu não ia compartilhar informações. Nem deu muito tempo de sentar e falar qualquer coisa, a discussão dos dois garotos a nossa frente tomou proporções estranhas e a garota do choque simplesmente seguiu na direção da nossa mesa e se meteu no espaço enorme a entre gente.
Choque. Choque. Choque.
O lado esquerdo do meu corpo esta dormente. Ela colocou o braço no meu ombro. Choque.
De relance vi o cara que ela discutiu indo embora com uma garota numa velocidade inimaginável. Ela relaxou e tirou o braço do meu ombro.
– Desculpa, meninos. De verdade. Isso foi só uma cena. Vocês não precisam se preocupar, não vou incomodar vocês.
Ela se levantou e passou por cima das minhas pernas para conseguir sair.
– Na verdade, você não incomodou. — Rodrigo disse com um sorriso na cara. — Se quiser pode se sentar com a gente.
Eu o encarei. O que diabos ele estava pensando?
– Ér... obrigada pelo convite, mas eu já estava de saída.
– Tudo bem. Boa noite, então. Meu nome é Rodrigo. E o seu? — ele disse estendendo a mão para ela. Como ele conseguia fazer isso com essa naturalidade?
– É Bruna. Mas pode me chamar de Nina. — ela sorriu e apertou a mão dele. Logo depois se virou para mim. — Bom te conhecer também. — ela manteve sua mão estendida.
Olhei a mão dela por uns segundos. Eu não estava afim de levar mais choques. Não tinha o auto controle do meu irmão. E não tinha sido um prazer conhecer ela, ela era irritante!
Então tudo o que fiz foi assentir a cabeça.
– Você não vai apertar a minha mão? — ela perguntou, fechando a cara.
– Creio que não será possível. — disse, abrindo um sorriso mostrando os dentes.
– É a segunda vez em menos de dez minutos em que meu aperto de mão é rejeitado. — ela resmungou.
– Talvez seja porque ninguém realmente tenha tido o prazer em te ver. — falei sem pensar, só para irritar.
Ela fechou os olhos e respirou fundo. Uma respiração bem alta. Na verdade. ela quase bufou. Aquilo já estava ficando engraçado.
A garota se virou para o meu irmão e disse:
– Tenho que ir agora, mas foi bom conhecer você. Não sei se você é novo aqui, mas se quiser aparecer no clube do meu avô, é bem conhecido. Se chama Paradiso, é só perguntar.
Ri internamente do nome do... clube. O que é basicamente um clube?
A garota se virou para mim e fez careta. Depois foi embora.
– Você me disse para ter cuidados com os humanos mas a primeira coisa que faz é amizade com um deles.
– Rafael. Por que estamos aqui?
– Não faço ideia. — Respondi com sinceridade.
– Exatamente. Eu também não faço ideia. Fazer amizade com um humano talvez nos ajude a encontrar algo. Sei lá. E afinal, nós somos destinadores não somos? Então sabemos que essa garota estar aqui no mesmo lugar que nós e tudo o que mais aconteceu não foi por acaso.
Tinha que admitir que meu irmão não era um idiota o tempo todo.
– E como você conseguiu apertar a mão dela? Meu ombro está dormente até agora.
– Como assim?
– Foi só ela encostar em mim que os choques começaram, assim como quando te mostrei, só que muito mais fortes.
– Rafael, eu não senti nada quando ela encostou em mim. — ele me olhou como se eu fosse um ser estranho vindo de outro planeta.
O que tecnicamente não era nenhuma mentira.
Que bom. Então só eu era o zicado dos choques.
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