Pérgamo
7 Capítulo 7
O vestido preto tubinho lhe cobria o corpo quase por completo.
— Não vá. – pediu novamente Briathos.— Estou bonita? – perguntou Faith, sarcástica.DING DONGBriathos sumiu.Faith abriu a porta e encontrou um homem alto e galante parado a sua frente segurando uma caixa de chocolate.— Clichê? – perguntou Samael.— Sim, mas adorável – respondeu.— Você está deslumbrante.— Muito obrigada. – disse pegando o presente e apoiando-o em cima da mesa mais próxima, em seguida agarrou sua bolsa – Vamos?O filme passou rápido, ela não conseguiu prestar atenção em nenhuma cena sequer. Tudo aconteceu tão depressa que parecia um sonho sem sentido. Faith mal conseguia acreditar que estava saindo com um cara muito mais velho que ela, o qual conhecera num ônibus, que acordava seu lado psicopata e conseguia hipnotiza-la de vez em quando. Além disso havia o detalhe de ter conhecido seu anjo da guarda que não falava coisa com coisa e que fazia claras alusões sobre o apocalipse estar próximo. Óbvio que nada disso fazia sentido, ela apenas colocou em mente que tentaria curtir seu devaneio antes de se perceber em uma camisa de força. Qual o pior que poderia acontecer, afinal? Samael poderia ser um serial killer, de fato, mas por algum motivo ela não se sentia ameaçada, mesmo que a atmosfera que ele exala seja de um predador nem um pouco indefeso.— Foi um bom filme. – afirmou Samael enquanto eles caminhavam na saída do cinema – quer fazer algo agora?— Tipo o que?— Comer?— Comer parece ótimo.Eles seguiram para um food truck parado perto deles. Pegaram seus hambúrgueres e sentaram-se como pessoas normais no banco da praça.— Vamos matar alguém – falou Samael entre risadas interrompidas de um assunto anterior.— Que? – perguntou Faith rindo sem acreditar que havia entendido corretamente.— Matar alguém – repetiu Samael, ainda sorrindo – qualquer um, você escolhe.— Tipo um mendigo?— Pode ser.— Eu não quero matar um mendigo, ele nunca me fez nada de errado para mim.— Tudo bem, escolha outra pessoa, qualquer um.— Qualquer um?— Já disse, qualquer um – Samael ameaçava perder a paciência com a garota.— O presidente?— Sim, podemos matar o presidente, mas isso causaria um pequeno caos, acha que vale a pena?— Tem razão... – ela tomou a conversa como uma brincadeira e resolveu entrar no clima – nunca pensei que diria isso, mas acho que não tem ninguém que eu queira matar no momento!— Venha, vou te mostrar uma coisa. – Eles entraram no carro de Samael estacionado não muito longe do banco em que estavam sentados e seguiram para um clube noturno com aparência cara.Era uma dessas baladas que se vê na televisão, onde apenas os famosos com carros importados frequentam. Samael e ela entraram sem precisar esperar na fila, obviamente a esse ponto ela não se perguntava mais o porque das coisas, estava impressionada demais com o quão longe chegara deixando-se levar, queria ver onde iria parar.A música era boa, o ambiente era animado mas ao mesmo tempo reservado. Na pista de dança havia muita gente, mas não tantas pessoas a ponto de se esbarrassem enquanto dançavam. Eles subiram para uma parte que claramente ficava os convidados VIPs. Faith reconheceu alguns rostos de revistas lidar anteriormente. Um garçom lhe trouxe um Martini, ela apenas o pegou e fingiu estar totalmente acostumada com aquela situação. Mesmo estando aparentemente na melhor área daquele lugar, Samael não parecia ter chegado ao seu destino final. Ele continuou a andar entre as pessoas e as mobílias sofisticadas, de vez em quando cumprimentando os frequentadores, seja com acenos ou apertos de mão. Faith segurava uma de suas mãos. Ela queria ficar parada, não queria derrubar o líquido que segurava, e por isso se forçava a beber rápido demais. Chegaram a uma porta preta quase invisível com a luz baixa do lugar. Entraram. Samael na frente a puxando, a porta se fechou atrás dela. O ambiente era muito diferente lá dentro. O som da balada era totalmente abafado. Dentro desse cômodo um tipo diferente de festa acontecia. A iluminação era baixa assim como no local prévio, porém em alguns cantos ela variava no tom azulado. Haviam mesas de jogos e apostas acontecendo. Nos cantos cuja luz era azulada haviam grandes sofás, quase camas, onde de fato haviam pessoas transando sem o menor pudor, e o principal, sem causar estranhamento aos que os cercavam. Ela pôde ver rapidamente em uma mesa de sinuca onde um jogo acontecia, três linhas de um fino pó branco que era aspirado por um dos participantes da partida. Faith não acreditava no que estava vendo, tentando se convencer de que isso era real, tentava acordar do sonho que estava, sem sucesso.Samael no entanto não parecia satisfeito e continuava andando em direção a uma outra sala, mantendo o ritmo anterior, segurando a mão da menina, que agora tinha a outra mão livre já que deixara o copo em alguma das mesas que passara. Ele parecia conhecer ainda mais pessoas naquele segundo lugar. Finalmente chegaram a uma porta de ferro pintada de vermelho. Dentro da sala a iluminação era ainda pior. A luz era vermelha típica de um prostíbulo. No canto havia um luxuoso sofá, parecido com os que se encontravam do lado de fora para as pessoas que praticavam sexo exibicionista, porém esse parecia ainda mais bonito. Samael fez um gesto para que ela se sentasse. Contra sua pele pôde sentir o veludo macio. Ela não sabia qual a cor real do sofá, naquele momento lhe parecia preto. Ela passou a mão nos detalhes do braço do móvel, pôde com dificuldade distinguir o ouro esculpido em pequenas imagens de anjos.
Do lado do sofá havia um frigobar que parecia ter a mesma cor do sofá, com os mesmos detalhes dourados ao redor. Acima dela um grande quadro ocupava quase a parede inteira, não reconheceu o traço do pintor, mas era basicamente um anjo belíssimo caindo. Dinheiro, muito dinheiro naquele lugar. Ela não notara antes mas havia uma mesinha de vidro com uma grande quantidade de dólares, notas de cem. Samael sentou ao seu lado, passando o braço por seu ombro e sacando uma arma. — Uma Colt M1911, — ele sussurrou em seu ouvido – segure.Faith nunca havia pego em uma arma de fogo na vida dela. Sentia seus sentidos alterados mas não por causa do álcool, era a atmosfera daquele lugar. Ela estava admirando a arma, sentindo seu peso e sua textura, quando a porta abriu e um homem com roupas caras porém amarrotadas foi jogado para dentro da sala por um brutamontes em terno de barato, típico de segurança particular.O homem parecia assustado. Suava bastante e tremia, parecia querer balbuciar algo mas estava congelado de medo. Seus olhos circulavam o cômodo em busca de algo, uma saída talvez, mas toda vez que encontrava a figura de Samael forçava-se a fitar o chão, e começava o ciclo outra vez. — Quer usar? Teste nele – apontou Samael.— Por quer? – perguntou Faith quase que naturalmente.— Porque você quer. — Ele não me fez nada, assim como o mendigo que eu disse que não queria matar mais cedo.Samael olhou a garota com interesse. A sala estava tensa, mas não de um jeito ruim. Faith estava completamente envolvida em seus braços, sentia seu cheiro, seu calor. Sentiu os lábios quentes no seu pescoço e logo sua voz alcançou seu ouvido.— Ele é um molestador de criança covarde – declarou enquanto passeava os dedos pelo cabelo da menina, fazendo-lhe carinho e ao mesmo tempo afastando-o para expor a pele macia e branca – ele estuprou a própria sobrinha de apenas três anos perfurando seus órgãos internos e deixou que sangrasse até a morte – mais um beijo caloroso que a fez estremecer.— O que mais? – perguntou a garota que tinha a arma apontada para o homem a sua frente que agora estava ajoelhado e parecia rezar.Samael caminhava com os dedos por seu corpo, alisando-a devagar, tortuosamente.— Ele gravou tudo e fez a mãe da criança, sua própria irmã, — o zíper do vestido foi aberto, ele beijou sua nuca, mordiscou o ombro – assistir, enquanto tinha sua garganta cortada e se afogava no próprio sangue. POWO som do tiro foi alto e seco mas Samael não pareceu se preocupar com outras pessoas ouvirem, provavelmente era uma sala a prova de som. Faith errou o primeiro tiro. O homem chorava, soluçando, se engasgando, rezando, e implorando perdão.POWPOWPOW POWPOW POWFaith errou mais algumas, acertou outras. O homem não chorava mais, estava com os olhos arregalados, ele tentava gritar, ao mesmo tempo se esforçava para tentar estancar o sangue que fluía de seu corpo. A cena entreteve o casal a sua frente que observava que quanto mais ele se empenhava em tentar estancar os sangramentos, mais sangue saía. Em um dos disparos ela acertara algo que fez o sangue respingar por todo o quarto, inclusive nela e em Samael. Ele não pareceu se importar, ela ainda menos, estava extasiada demais. Largou a arma no chão e virou-se para beijar seu amante, fizeram amor enquanto o pedaço de carne humana definhava no chão, logo tornando-se um cadáver frio e nojento.
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