Pérgamo

4 Capítulo 4


Ela sentiu andar atrás de si uma figura carregada de energia negativa. A silhueta esguia parecia querer se ocultar do ambiente, mas todo esse esforço para passar despercebido, fazia com que se destacasse.

Quando entrou no seu ônibus sentou-se em uma cadeira unitária e, apesar do ônibus não estar cheio, viu que o homem estava em pé pouco afastado dela.

Faith sequer percebera que ele havia entrado no ônibus antes de começar a fita-lo.

Não era um homem, era um garoto. Devia ter na faixa dos quinze anos, era alto em comparação à ela, tinha cabelos loiros desbotados que iam escurecendo a medida que se aproximava da raiz. Sua pele clara com várias sardas, além das fortes olheiras roxas quase negras e uma porção de pequenas cicatrizes do lado esquerdo.

Sua boca também se destacava por seu tom vermelho que, dependendo da luz, parecia púrpura. Pensando na cor púrpura percebeu que as sardas mais pareciam púrpura. Ele devia ser doente, ela se compadeceu, acreditando que esse poderia ser o motivo para o olhar triste que arrematava seu semblante depressivo. Suas roupas não eram sombrias no entanto, vestia uma camisa xadrez de linhas cinzas num fundo branco e um calça cáqui.

Algo parecia errado com esse garoto.

Ela passou tanto tempo tentando captar cada detalhe de seu corpo que quando se deu conta já havia chegado ao seu ponto. Era quase meio dia, o sol brilhava escaldante no céu. Ela percorreu a rua vazia sem muita pressa, ouvindo sua própria respiração, a música que cantarolava baixinho para não correr o risco de ser pega caso alguém passasse por ela, ouviu o som das folhas umas contra as outras dando a impressão de uma chuva seca, percebendo cada passo seu... E os passos além dos seus.

Olhou para trás. Cerca de uma quadra atrás de si estava o garoto, andando com passos tímidos e sem pressa. Ela não o vira descer do ônibus, se impressionou com a coincidência dele estar indo para o mesmo lugar que ela. Andou mais rápido percebendo que os passos traçados pelo rapaz também aumentara de velocidade. Ele estava cada vez mais perto, ela correu, ele correu. Sentira sua asma ameaçar a atacar, ela avistou o portão de seu prédio, colocou uma força colossal em suas pernas para poder chegar rápido ao seu destino. Quando tocou as grades gélidas no ferro, olhou para trás e não o viu.

Seu coração palpitava feroz. Ela encostou a fronte nas barras a sua frente, pôde sentir o cheiro de ferrugem. Seu ouvido parecia escutar o som de seus batimentos cardíacos ecoando pelo mundo. A respiração ainda irregular, porém mais controlada, lhe atrapalhava na hora de achar as chaves de casa dentro da bolsa. Quando adentrou o hall principal, olhou-se de relance no espelho, seguiu para o elevador onde continuou a fitar sua imagem. Estava suada, podia visualizar as gotículas que haviam se formado em sua testa. Limpou-as, assim como o rastro de delineador que parecia derreter embaixo dos seus olhos, terminou a checagem descansando os olhos no olhar de seu reflexo. Sua hipnose foi interrompida com o já corriqueiro barulho do elevador abrindo as portas.

Ela se virou e sentiu que todo o sangue havia saído de seu corpo. Estava paralisada, não precisava se olhar no espelho para saber que seu rosto devia estar agora tão pálido quanto o da figura que se encontrava ao lado da porta de seu apartamento.

Ela não conseguia reagir, apenas manteve-se estática, segurou a respiração sem nem mesmo perceber e desejou desintegrar-se em milhares de moléculas voando ao vento.

O medo não apenas do garoto que a pouco a perseguia e se encontrava parado a sua porta, mas principalmente por estar dentro de uma caixa metálica que não lhe permitia fuga. O menino no entanto não parecia apresentar perigo. Em todo esse tempo, ele não levantou o olhar uma vez sequer, nem mesmo enquanto corria atrás dela. Mantinha sua posição cabisbaixa como se o peso de sua tristeza fosse tão grande que não conseguia sustentar sequer os olhos erguidos. Estava na iminência do choro, e ele sugava Faith para dentro dessa nuvem sentimental pesada que carregava.

Pensou em apertar qualquer outro andar para poder fugir mas temeu que, ao fechar as portas do elevador ele aparecesse lá dentro, perto demais dela.

Sentiu a falta de oxigênio em seu corpo, puxou o ar com toda sua força e deu um passo para fora da caixa metálica. A porta se fechou atrás dela. Sem tirar os olhos do garoto ela pegou suas chaves de casa e chegou perto da porta aproximando-se inevitavelmente dele. Girou a maçaneta e entrou em casa, ele não se moveu, não parecia querer entrar. Ela entrou e fechou a porta correndo, trancando-a o máximo que pôde, com direito a duas voltas de chave e corrente. Respirou fundo olhando no olho mágico. Ninguém. Virou-se e seguiu para seu quarto.

— Tem alguém em casa? — gritou Faith — Tia? Davi?

Ninguém.

Chegou no seu quarto jogando sua mochila ao pé da cama, e foi para o banheiro tomar banho. As coisas estavam tão inexplicavelmente esquisitas ultimamente que ela preferiu não pensar sobre o assunto, evitar o pânico, fingir por mais algum tempo que não estava completamente louca. Por um lado estava surtando, mas queria abafar acreditando que sua imaginação estava fértil demais. Seja como fosse, louca ou não, não iria contar para ninguém, ela sabia que todos acreditavam que ela precisava ir para um psiquiatra, culpariam os mortos.

A água quente a relaxou, embrulhou-se na toalha e voltou para o quarto.

Um grito estrondoso ecoou pela casa antes de ser completamente abafado pela própria mão de Faith. Seus olhos estavam arregalados, a mão livre segurava a toalha com tanta força que seus dedos estavam brancos. Em sua cama estava deitado o garoto.

Olhava para o teto, era tão branco que parecia estar morto, imóvel. Ele girou a cabeça lentamente para poder olha-la, pela primeira vez ela viu seus olhos negros, ele piscou e tornou a fitar o teto. Depois do grito ninguém disse nada, ele não a olhou enquanto ela se vestia ou comia e, até a hora de dormir, ele permaneceu deitado em sua cama.

Quando colocou o pijama ele não estava mais lá, ela arrumou a cama e deitou-se. Fechou os olhos por alguns segundos e se perguntou se estava tão sozinha que precisou inventar um amigo imaginário. Ela riu consigo mesma pensando o quão idiota era isso, tudo não passava de uma alucinação, provavelmente provocada pelo sono, de manhã cedo ele já devia ter ido embora. Adormeceu, livre de pesadelos dessa vez.