Pânico no Além
3 Três
Notas iniciais
O restaurante estava bem movimentado para a sua localização no meio de um deserto. Ao redor de uma mesa de madeira redonda, o grupo terminava o café.
– Acho que meu amigo precisa se aliviar um pouco... — Matt disse se levantando e seguindo para o banheiro.
Nolan se levantou também.
– Vou abastecer o carro no posto aqui ao lado. Quando eu voltar, a gente continua a viagem.
O negro saiu do restaurante, entrou em seu Ford branco e partiu.
Ana deu um longo suspiro. Enfim, acabava com seu pão. Seu gato de estimação estava em seu colo, ela o colocou rapidamente sobre a mesa e deixou-o devorar o que ainda tinha no prato.
Bree remexia suas mãos com o celular, tentando melhorar a sua conexão. E Midney lia um jornal, até ver uma notícia e achá-la interessante.
– Ei, escutem: "Público recorde é esperado para a Hereafter desse ano. Na mais famosa festa do deserto, milhões de jovens de todos os continentes se reúnem numa madrugada de pura diversão, que é certamente inesquecível para a grande maioria deles." Não vejo a hora de estarmos lá!
– Eu vejo: Assim que o Nolan voltar! — Bree comentou. — Só espero que não estejamos muito longe ainda...
Ana perdeu-se de seus amigos quando viu as imagens de um noticiário na televisão do restaurante. Uma pickup estava toda amassada, devia ter sido uma batida feia.
– Olhem...
"- Hoje faz dois dias da morte do casal Garry Blauman e Kate Sing's num acidente violento de carro. A Pick-up onde estavam colidiu com um animal que atravessava a pista na altura do quilômetro 53 e perdeu o controle, saindo da estrada e capotando várias vezes. Ambos morreram na hora. Garry teve um corte profundo na cabeça e traumatismo craneano, e a namorada Kate foi partida ao meio pela porta do carro. (...)"
– Que horror! — Bree retratou chocada.
– Sabiam de uma coisa? — As questionou Midney com uma cara nada feliz. — Vamos passar daqui a pouco no mesmo local que aconteceu este acidente...
Ambas ficaram sem reação, apenas trocaram um olhar de receio. Matt chegara até a mesa, beijando o pescoço de Bree e lhe dando um pequeno susto.
– O Nolan me mandou chamar vocês... Estamos prontos pra partir!
O atleta pegou a loira nas costas e saiu correndo com ela para a saída. Midney e Ana se levantaram.
– Pode ir indo... Vou pagar a conta e sigo vocês! — Midney avisou.
– Tá bem, mas não demore...
– Okay.
O jovem pálido viu a namorada sair do restaurante e seguiu para o caixa. Um funcionário de nome Jean logo o atendeu com o típico "Posso ajudar?".
– A conta da mesa 06, por favor. E... uma carteira de cigarros...
– Já vou somar.
Jean entregou os cigarros e Midney rapidamente os colocou no bolso de sua jaqueta.
– Sua namorada não sabe que você fuma, não é?
– Não, e nem quero que ela descubra. Por isso estou parando, esses vão ser os últimos...
– Não é tão fácil largar um vício como você pensa... Eu já fui fumante, demorei oito meses pra me livrar dele.
– Só é questão de querer, Jean. Estou disposto a levá-la pra morar comigo, por isso estou disposto também a me livrar de tudo que a incomoda!
Midney ouviu uma forte buzina vinda de fora do restaurante e sabia perfeitamente quem era.
– Olha, eu tô com um pouco de pressa...
– Já estou terminando... A propósito, fiquei sabendo que vão passar pelo "km 53"?
– Sim, por quê?
– Tomem cuidado... Coisas estranhas acontecem com quem passa ali.
Midney o olhou torto.
– Que tipo de "coisas estranhas"?
– Deu R$ 45,60!
***
Além de buzinar sem parar, Nolan também gritava como uma prostituta sendo estuprada.
– Vão atirar na gente com essa gritaria do Nolan! — Matt falou.
– O que houve com o Midney? Será que ele foi cagar? — Disse o negro, impaciente.
De repente, o amigo saíra pela porta e correu para o carro. Aguentou mais algumas buzinadas e entrou no veículo.
– Porque demorou tanto?
– O funcionário era um pouco... maluco. Mas será que dá pra ir logo? Tinha gente ameaçando vir aqui e quebrar o carro com um pedaço de pau!
Nolan girou a chave, passou marcha e pisou fundo no acelerador. O carro prosseguiu na estrada... Agora Matt estava no banco da frente com Nolan. Bree estava atrás do motorista, Ana no meio e Midney no outro canto. Pra continuar, Nolan ligou o rádio num roque pesado.
– Desliga essa merda! — Bree gritou.
– Para de reclamar! Vai transar com o Matt!
– Queria muito, mas aqui não tem espaço! Agora da pra abaixar essa música de psicopatas?
Da fachada do vidro do restaurante, Jean olhava para o veículo do grupo sumindo no horizonte com uma expressão de temor.
– Espero que eles saibam onde estão se metendo...
***
Alguns minutos depois, todos estavam em silêncio. Matt roncava fundo debruçado em seu banco. Nolan mantinha-se atento à estrada. O resto observava a paisagem.
– Eu nem consigo pensar no que eu faria se ficasse a pé num lugar desses... — A loira quebrou o silêncio. — Esse lugar é distante de tudo e de todos!
– Em "todos" você se refere aos homens ou aos puteiros? — Nolan perguntou tolo.
– Aos shoppings, idiota!
– Não comecem de novo, pelo amor... — Matt sussurrou ainda de olhos fechados. — Ou eu jogo os dois pra fora do carro e deixo-os ai!
Ana e Midney seguraram os risos. O casal permanecia abraçado. O rapaz se virou para a moça, a beijou e fechou os olhos.
– Nem pense em dormir de novo! — Ana dissera. — Não quero passar o resto do ano tentando te acordar!
– Eu não durmo tanto assim... Durmo?
– Nem queira saber... É uma mistura de branca de neve e alguém em coma.
– Só acredito vendo...
Midney se virou para a janela da sua porta e, após alguns segundos, viu passar uma placa. A leu rapidamente:
– "Km 53".
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