Pássaro
2 Surge a Inimiga
Notas iniciais
Hipoteticamente a criança Helena distraia-se olhando para a vela acesa ao lado de sua recata cama. Bem, assim era no sentido hipotético, pois no sentido real ela estava exageradamente apreensiva. Há poucas horas, a sua humilde casa fora invadida por servos reais. Eles arrebataram todos os seus pertences, inclusive o seu pai.
As palavras dele não saiam da sua cabeça: “Os ratos se dissimulam, os leões Rugem”. Dissera-lhe ele antes de escondê-la de baixo do fino e empoeirado lençol feito de lã. Por mais que um lençol não fosse um bom refúgio, aquele lhe servira perfeitamente bem. Nenhum dos servos conseguiu encontrar a desprovida Helena, talvez porque eles não tenham cogitado em achar alguém num esconderijo tão mixuruca.
“O que vai ser de mim?” Pensou Helena, enxugando as lágrimas que transbordavam de seus olhos cinzentos.
A pobre menina julgava-se infeliz. Primeiramente fora órfã da mãe, pois ela havia perecido em seu parto, e logo mais tarde passara a ser órfã do pai.
Os seus olhos ainda fixavam-se na vela acesa, pois era a única coisa que ofuscava a escuridão. Ela procurava, através da pouca luz, a razão pela qual o rei destruía tantas vidas. Uma vez, há algum tempo, o seu pai tentara explicar-lhe o motivo, mas ela sempre fora muito imatura para entender coisas tão adultas.
Os olhos de Helena estavam inchados de tanto que chorara. Tomada pelo poder do sono, os seus olhos lentamente se fecharam, apesar de que ela não se permitia dormir em meio de tantos horrores.
Se não dependesse de sua energia, ela ficaria encarando fixamente a vela, até a sua chama se apagar.
***
Mesmo sentindo-se fraca e sonolenta, Helena decidiu levantar da cama.
“Tenho que sair daqui.” Pensou a criança, enquanto pegava meia dúzia de roupas surradas e as embrulhava em uma sacola de tecido pertencente ao seu pai.
“Ah, a comida!” Lembrou-se de que devia levar suprimentos consigo, e foi isso o que fez.
A sua bagagem estava ficando cada vez mais pesada, Helena estava ficando receosa com o peso que teria de aguentar. Ela tentou descartar ao máximo o pensamento de que não conseguiria caminhar com todas aquelas coisas em sua coluna e em seus braços.
***
O lado externo de sua casa estava frio e sombrio. Helena estava temerosa com todas aquelas árvores assustadoras, ela caminhou em direção ao bosque que ficava ao lado de sua ex-morada. A sua respiração era pesada e ofegante. Definitivamente a temperatura era abaixo de zero.
Apesar de conhecer cada palmo do bosque, pois este era o seu local favorito, estava insegura de seus passos. Ela sabia que o bosque, de tal forma, era um lugar perigoso, posto que o mesmo abrigue matilhas e nômades.
“Vamos lá Helena, você não tem nada a perder.” Ela tentava encorajar a si mesma, pelo menos era isso que seu pai fazia para afastar o medo.
Helena continuava vagando pelo bosque, sem saber qual direção seria a mais correta. Ela decidiu, então, sentar-se de baixo de uma árvore e comer um pouco.
Talvez a carne crua não seja comida mais apetitosa existente, mas Helena estava sedenta de fome. Para ela aquele filé fora de lamber os beiços.
Helena bocejou e uma densa nuvenzinha branca saiu de sua boca.
–Boa noite papai. –Disse desejando que ele pudesse ouvi-la.
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