Páginas sobre a chuva
6 Quem está morto em seu coração deveria estar morto na vida real
Maya sentiu a hesitação de Lisa do outro lado da minha e milhares de teorias invadiram a sua cabeça. Seu vizinho podia ser do tipo de homem que batia em mulheres, ou que estava com problema com pessoas perigosas. De qualquer maneira, a ideia de retornar à casa ao lado se tornava ainda mais improvável. Seu coração ainda estava acelerado com o que tinha ocorrido e por um segundo enquanto fazia o curativo, sentiu-se encantada com a beleza do rapaz. Mas sua experiência como escritora de mistério lhe ensinou uma lição muito valiosa: Nos rostos mais bonitos tinham as piores histórias.
E por mais que a curiosidade latejasse em sua cabeça, sua segurança viria em primeiro lugar.
— É complicado, Maya — Lisa finalmente respondeu. — Anthony era um ótimo vizinho, falávamos pouco um com o outro, mas ele parecia ser bem alegre. Depois ele ficou noivo da Jillian e essa alegria aumentou. Só que tudo mudou depois da única vez que ele foi convocado. — suspirou e Maya aproveitou para se sentar a mesa do computador. — Eles se casaram, porém nunca mais foi a mesma coisa. Jillian adorava crianças e sonhava em ter um filho com Anthony. Infelizmente, ele não tinha a mesma vontade e isso transformou o divórcio em algo inevitável.
Ao fim do relato, ambas ficaram em silêncio, absorvendo as informações. Maya sabia que o amor podia enlouquecer uma pessoa, tanto a falta quanto o excesso. Esse parecia com o caso de Anthony, faltava ela descobrir qual a alternativa correta.
Precisou prometer três vezes que não retornaria a casa ao lado sem a presença de outra pessoa e estava disposta a cumpri-la. Não choveu ao longo da semana e Maya usou o silêncio pacífico para separar pontos importantes de sua história. Afinal, do que ela falaria? Qual seria o clímax da história? E os principais? Seriam aqueles certinhos ou teriam que enfrentar os seus demônios. Tentou rascunhar o que desejava em cada protagonista e se pegou digitando olhos verdes que declamavam dor. Piscou, ajeitando-se em frente a tela e rapidamente apagou o que tinha escrito.
Pegou o isqueiro e seu último cigarro indo em direção a janela. Enquanto tragava a fumaça e permitia que seus pensamentos fugissem da realidade, seus olhos escorregaram até a varanda ao lado no exato momento em que Anthony estava jogando o lixo fora.
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Seus membros estavam tensionados pelo esforço de carregar os sacos de lixo para fora. Secou o suor de sua testa com o antebraço, observando o trabalho que tinha acabado de fazer ao recolher os vidros de sua casa. Anthony sentiu que alguém o encarava, por isso ergueu o olhar e viu sua vizinha sentada no batente da janela. Ela soltou a fumaça, mas não desviou o olhar dele, como se o desafiasse.
Inconscientemente tocou o curativo em sua testa, recuando com todas as lembranças que o acompanhavam. Pensou na possibilidade de acenar sendo cordial com a vizinhança, entretanto, depois do jeito que a afastou, esse não era o melhor jeito de se desculpar. Ficar longe. Isso sim era uma boa maneira de se desculpas. Manteve a expressão impassível e retornou à casa como se a visão de Maya não tivesse o afetado.
Sentou em seu sofá, passando as mãos por seu rosto e desejando pela décima vez que Jillian estivesse ali. O feriado de Halloween estava chegando e ele não tinha a menor ideia do que fazer. Anthony encontrou decorações antigas no porão e achou que seria bom reutilizá-las. Queria dar vida de volta aquela casa.
Queria dar vida a ele mesmo.
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Depois de ver Anthony entrando, Maya decidiu que precisava sair. Com o feriado chegando, não poderia ficar com as mãos vazias quando as crianças aparecessem. Seria sua decoração de primeira viagem, já que todos os Halloween eram marcados pela estréia de um dos seus livros, por isso durantes anos associou o feriado ao seu sucesso. Geralmente ela ia sozinha e Darren que ficava em casa distribuindo doces para as crianças.
— Você poderia ficar comigo esse ano — ele reclamou arrumando sua capa de Drácula no espelho. Maya se arrumava no espelho na parede oposto, verificando se todos os fios dos seus cabelos estavam no devido lugar. — Ninguém vai morrer se você não for ao lançamento desse ano. — Maya revirou os olhos com o descaso do marido. — E vão ser as mesmas perguntas chatas dos mesmos fãs obcecados. — passou os braços ao redor da cintura dela, sentindo o cheiro doce de seu perfume e beijou o pescoço de sua esposa. — Você daria uma ótima Mina.
Maya virou, passando os braços ao redor do pescoço do marido. A negativa já estava clara, mas ela queria dizer do jeito mais assertivo possível.
— Sei que você não gosta de ficar sozinho, mas prometo voltar o mais cedo possível e fugir dos fãs obcecados. — deu um beijo leve nos lábios dele, deixando-os pintados de vermelho e o soltou. Pegou sua bolsa sem sequer se preocupar em dar um segundo olhar. — Tenha uma boa noite. — desejou antes de ir embora.
Tinha sido seu último Halloween ainda casados e se Maya soubesse, sua resposta teria sido diferente.
Disposta a fazer diferente, procurou pela internet pelas lojas que tinham os produtos que precisaria e se arrumou para sair. No início, ela se perdeu admirando as diversas decorações nas casas, mas depois conseguiu chegar onde queria.
Comprou todos os tipos de doce que se recordava ver nos cantos de sua antiga casa, algumas decorações de última hora e uma máscara fina para não passar a data em branco. Sentou-se em um café e bebericou o conteúdo, sentindo-se renovada. De todas as qualidades que possuía, cozinhar não era uma delas, infelizmente. Desde que tinha chego à casa de Lisa, estava sobrevivendo com comida semi-pronta que fazia seu colesterol urrar.
Ainda estava pensando em como arrumaria tudo para aquela noite quando um rosto familiar entrou na sua visão. Tinham algumas semelhanças entre os dois, mas apenas as pessoas que prestassem bastante atenção que notariam. O mesmo formato dos olhos, o jeito desenvolto de falar, até a postura quando era abordado. Assim que reconheceu o primo distante – um dos poucos que não estavam presentes no aniversário de sua mãe – os dedos de Maya apertaram a xícara com tanto força que jurou ter escutado a porcelana trincando.
Rezou para que não fosse reconhecida, mas todos os deuses pareciam estar contra ela. Seu primo Mike virou na exata direção em que estava sentada e sorriu, se direcionando à sua mesa. Maya tentou se controlar, mas sua mente não conseguia mais exercer nenhum comando no corpo. Tudo estava em pânico e imaginou se poderia se afastar na mesma velocidade que Anthony tinha feito na casa dele.
— Maya, que surpresa! — cumprimentou dando um leve abraço. Maya retribuiu, driblando toda a sua tensão. — Não sabia que estava em Miami. — coçou a nuca.
— Nem eu sabia que você estava morando aqui. — respondeu automática, sem conseguir esboçar nenhuma emoção. — Está aqui sozinho?
Seu coração rastejou até alcançar sua garganta em uma tentativa falha de fugir, a xícara escorregava por suas mãos escorregadias e o suor escorria por sua nuca. Ela só precisava de uma resposta para que o pânico tomasse conta de todo o seu corpo.
— Não. Meus pais se mudaram para cá também. — ele disse com alegria enquanto Maya tentava se recordar como respirava. Pontos pretos apareceram em sua visão. — Em falar neles... — ele levantou o braço e balançou, sinalizando para os seus pais. — Eles vão ficar muito felizes em te ver. Meu pai sempre pergunta por você.
Ele iria vomitar caso permanecesse mais um segundo ali. Segurou a alça de sua bolsa, consciente das compras sendo pegas na outra mão e se levantou tonta. Era preciso apenas um olhar para que tudo o que lutou para superar ao longo de vinte anos retornasse. Desafiando o restante de sua condição mental, olhou para onde o primo gesticulava.
Sua boca se abriu com um grito contido, deixando que somente um lamento escapasse. Foi cegada pelas lembranças de quando tinha treze anos e se sentiu perdida. Ela tinha que sair dali! Ele tinha que morrer! No fundo de seu desespero escutou seu primo dizendo o seu nome e sentiu quando pegou em seu braço. Algumas pessoas pararam seus afazeres para olhar a cena, inclusive ele. Maya conseguia sentir o olhar imundo por seu corpo e continuou recuando. Tinha consciência que seu primo estava ficando constrangido, mas não ligava. A necessidade de sair era maior.
Sentiu suas costas trombando com alguém e um pequeno grito escapou de seus lábios. Tinha sido pega, era uma certeza. Os dedos se enroscando em seu pulso, garantindo que não iria para longe. A pessoa se moveu para a sua frente, largando seu pulso e segurando as laterais de seu rosto.
— Hey, Maya!
Demorou um tempo até que o rosto de Anthony entrasse em foco e com isso, todo o mundo ao seu redor. As pessoas a encaravam, assim como o seu primo. Maya não ficou muito tempo olhando para as pessoas, com medo de vê-lo novamente. Ela tremia de medo, sem tempo para ficar envergonhada com o que tinha acabado de acontecer. Colocou as mãos por cima das dele, suplicante.
— Por favor, me leve embora. — pediu em um sussurro.
Sem dizer mais nada, Anthony assentiu.
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