Páginas sobre a chuva
11 Lutando contra as sombras
Anthony se surpreendeu com a sua paciência. Observou toda a coletiva de Maya mantendo uma distância razoável para que ela não o visse até o momento correto. Lisa foi para o lado da amiga, mostrando seu apoio, mas a julgar pela falta de procura da escritora, não tinha contou sobre a presença de Tony. Ele se apoiou em uma parede qualquer que tivesse um ângulo estratégico para lhe proteger das atenções simultaneamente que não atrapalhasse seu campo de visão.
Em determinado sorria com a maestria com que Maya contava de seu novo livro, sem realmente revelar do que se tratava. Chegou até a ficar curioso em comprá-lo apenas para poder ter uma amostra do talento dela e ver se tudo o que falavam era real ou apenas um exagero da mídia. A simpatia de Maya o fez ficar um pouco arrependido de primeiro encontro brusco. Deveria ter dado uma brecha para que ela demonstrasse suas qualidades e não ter julgado de primeira baseado em um relacionamento antigo mal fadado.
Felizmente, não estava mais com raiva. A confusão era o sentimento que se sobrepunha e dominava a sua mente. Assim como os repórteres, queria questioná-la sobre o motivo de ter sumido e se ele tinha sido o pivô disso. Mas ele se mantinha paciente, apenas esperando o momento certo de abordá-la. Não queria admitir, mas o acelerar de seu coração e o suor nas palmas das mãos eram parcialmente culpados por não ter se aproximado também. Se achou tolo por sentir aquilo. Era o tipo de coisas que apenas adolescentes deveriam sentir, ou que ninguém deveria sentir de tão torturante que chegava a ser.
— E qual foi a sua inspiração para esse novo livro, senhorita Kincaid? — um dos fãs perguntou.
Maya deu um riso constrangido e coçou a nuca, aparentando nervosismo pela primeira vez desde que havia se sentado na grande mesa redonda. Isso fez com que Tony arqueasse as sobrancelhas interessado. Realmente Maya não aparentava o tipo que conseguiria mudar o tipo de livros que escrevia de uma hora para a outra.
— Em minha viagem, tive contato com muitas histórias inspiradoras e isso me fez ver que eu tinha capacidade para contá-las no meu ponto de vista, mantendo a realidade. Sabe, algumas história de amor não são tão bonitas quanto fazem parecer. — ela suspirou e apreciou o silêncio que dominou a pequena livraria.
Tony sentia-se ainda mais tentado a falar com ela, sabe sua história. Tinha se exposto tanto em pouco tempo para uma mulher que mal conhecia e tinha caído de paraquedas na sua vida. E quando saiu o deixou no meio da escuridão. Quando a salva de palmas soou e viu Maya se levantando com um semblante agradecido, ele viu que era a deixa que precisava para se aproximar. Uma pequena fila se formou com pessoas querendo autógrafos dos antigos livros dela que já possuíam e Tony rapidamente se infiltrou ali.
A cada passo dado, seu coração se acelerava. Ele queria respostas, mas tinha medo de como elas seriam. Quando a última pessoa que estava na sua frente saiu, ele respirou fundo forçando-se a parecer calmo e um tanto distante. Maya mantinha seus olhos na mesa esperando que o livro fosse depositado ali para que ela assinasse, mas quando isso demorou a acontecer foi obrigada a levantar os olhos.
Todas as palavras dela foram bloqueadas pelo choque e seus olhos escuros se arregalaram por ver Anthony parado na sua frente. Até aquele momento, não sabia a proporção da saudade que sentia dele, mas quando teve que reter a vontade de jogar tudo para o lado e o abraçar, percebeu que era mais do que imaginava. Lisa, que estava parada ao lado de Gerry, cruzou as mãos na frente do rosto dando um sorriso satisfeito e segurou o braço de Gerry em seguida, que logo reclamaria da demora na fila.
— O que está fazendo aqui, Anthony? — sussurrou tentando ao máximo não chamar atenção das outras pessoas. Não queria que pensassem que tinha algo errado.
— Só quero conversar, Maya. Você sumiu... — deixou a frase em aberto e se sentiu novamente como um adolescente. Em todo o tempo em que tinha ficado parado como um pateta esperando o momento certo para se aproximar, não tinha pensado no que diria. — Só quero entender o porquê.
Maya engoliu em seco e assentiu.
— Eu vou terminar aqui e te encontro na sua casa, tudo bem? — ofereceu.
Anthony assentiu e se retirou, deixando Maya apreensiva durante as duas horas que se seguiram. Quando finalmente terminou de dar os autógrafos, pode transparecer a preocupação por seu rosto e se aproximou do local onde Lisa e Gerry a aguardavam.
— Foi você, não é? — apontou para o rosto da amiga que corou. — Lisa!
— Vocês podem só conversar? — Lisa pediu com suavidade. — Não estou pedindo um casamento nem nada. Mas vocês dois tem demônios para enfrentar e acho que seria mais saudável que o fizessem juntos.
Maya mordeu o canto do lábio e olhou para seu agente.
— Alguém da editora ligou?
Ele negou.
— Mas acho que eles já devem estar prontos para dar a resposta. — Gerry garantiu.
— Espero que seja positiva. — Maya disse. — Não acho que consiga escrever outra coisa nesse curto tempo novamente. — gracejou soltando um riso nervoso. — Melhor resolver esse assunto, não é? — perguntou retoricamente para ninguém em especial. No entanto, Gerry e Lisa assentiram. — Ligue-me assim que tiver uma notícia. — pediu para seu agente. — E me desejem sorte.
********
Quando o táxi parou em frente à casa de Anthony, Maya teve que respirar fundo para que seu cérebro processasse tudo o que estava acontecendo. Por um lado, estava aliviada por finalmente poder conversar com Tony, mas estava apreensiva com o modo como ele a olharia após essa conversa. Repreendeu-se mentalmente por estar com as mãos tremendo e bateu na porta. Os segundos entre essa batida e o encontro com Anthony foram de pura tensão, fazendo com o coração de Maya começasse uma corrida.
— Você veio — Tony disse surpreso.
— Eu disse que viria.
Anthony deu um passo para o lado permitindo que Maya entrasse e ambos foram se sentar no sofá. Era como um replay do momento do primeiro encontro, só que em um momento mais pacífico. Tony encarou a mulher na sua frente e recordou como ela tinha tentado o ajudar e o quanto a tinha afastado. Estava preso em seus pensamentos quando Maya se pôs a falar.
— Eu sei que você quer entender o que aconteceu e eu estou disposta a explicar, só preciso de um tempo. — pediu mantendo os olhos nas palmas das mãos.
— Muita coisa aconteceu — Tony tomou a palavra fazendo com que Maya erguesse os olhos na direção dele. — Eu comecei a frequentar um psicólogo e meu problema com a chuva está passando. Ele chamou de dor fantasma. É uma disfunção neurológica que faz com que a pessoa sinta dor em um membro que não está mais presente. Estou me sentindo bem melhor do que antes e...
— Minha mãe morreu — Maya interrompeu respirando fundo para impedir que aquelas lágrimas que se fizeram tão presentes na sua vida nos últimos dois meses, não aparecessem. — Eu nunca consegui perdoá-la por... — engoliu em seco e olhou para Anthony com firmeza. — Quando eu tinha treze anos, meu tio veio morar conosco. Como os meus pais trabalhavam muito, sempre ficávamos sozinhos... — pelo espanto no rosto de Anthony, Maya não precisou ser explícita com o que tinha ocorrido. — Eu tive um aborto. — soluçou e balançou a cabeça sentindo-se fraca. — Na verdade, eu não me lembro da metade das coisas, mas aquilo... Todo aquele sangue espalhado pelo chão e o corpo em minhas mãos é impossível de apagar. Acho que é por esse motivo que nunca consegui escrever um romance, por só ter sombras em minha cabeça.
Tony ficou em silêncio sem saber o que dizer e Maya pegou o gancho para soltar tudo o que esteve preso em sua garganta por dezessete anos.
— Quando me casei com Darren, pensei que tudo melhoraria, mas aquelas sombras continuavam me perseguindo. Ele não foi capaz de lidar com aquilo por muito tempo, principalmente depois que contei que não poderia ter filhos. — pausou por não conseguir superar a dor das lágrimas e sentiu Anthony se aproximar. Não havia sinal de nojo em seus olhos, nem de pena. Sentou-se ao lado dela e passou os dedos com suavidade pelas bochechas de Maya, tirando o rastro de lágrimas. Maya beijou a palma de Tony com carinho. — Desculpe por ter ido daquele jeito, mas minha mãe tinha sofrido um infarto. Ela não resistiu e não pude me despedir, nem me desculpar. Não quero mais sombras na minha vida, Anthony. Queria recomeçar do zero.
— Mas não podemos. — ele disse.
Maya o abraçou, sendo apertada com força contra os braços dele e Tony cheirou seus cabelos escuros. Maya levantou os olhos na direção dos de Anthony, vendo nenhum tipo de julgamento nas íris esverdeadas. Havia apenas a redenção que ela necessitava. Quando ela pressionou os lábios contra os dele, sentiu a liberdade que por tempo pensou que não era possível, entregando não apenas seu corpo, mas sua alma e permitindo que sua mente encontrasse a luz.
*******
Maya acordou horas depois com o som da chuva crepitando contra a janela do quarto. Abriu os olhos lentamente, situando-se do local onde se encontrava e todos os sentimentos se voltaram para ela com força. Movendo as mãos por seu rosto, levantou-se espreguiçando o corpo e sentindo a letargia do sono a abandonando aos poucos. Puxou o lençol com suavidade ao redor do corpo, inclinando para pegar o celular na mesa de cabeceira sentando-se na beirada da cama.
Ainda não tinha recebido a mensagem que estava esperando, o que a deixou mais ansiosa do que o normal. A resposta instintiva do seu corpo foi procurar pelo pacote de cigarro que estava sempre a mão e bufou ao ver que não tinha nenhum sobrando em sua bolsa. Felizmente ainda era cedo e desde que tinha acabado de escrever seu livro tinha tempo de sobra. A lembrança de seu novo livro e o conteúdo dentro dele fez com que sua ansiedade aumentasse.
Espiou por cima do ombro, vendo Anthony respirar tranquilamente e sem nenhum incomodo aparente. Reteve a vontade de tocar na única parte do corpo que ele julgava ser imperfeita, que não pertencia a ele e suspirou por não controlar os batimentos de seu coração. Maya levantou devagar com medo de acordá-lo e vestiu-se com rapidez andando na ponta dos pés para deixar a casa, parando apenas para apanhar um guarda chuva emprestado atrás da porta.
Maya esperava retornar antes que Tony desse falta de sua presença. Se esforçaria para isso, para não ser mais uma perda. Tinham muito o que conversar, principalmente depois do que tinha acabado de acontecer. Arrependeu-se de não ter escrito um bilhete, optando por equilibrar o guarda chuva entre o ombro e a curva do pescoço para escrever uma mensagem. Prometia que voltava em breve. Apressou os passos pela rua, tomando cuidado para não ser vítima das poças de lamas jogadas pelos carros. Antes que guardasse o celular no bolso, sentiu-o vibrando em sua mão e sorriu como uma adolescente imaginando ser uma resposta de Tony.
Eles amaram o livro. Querem publicar o mais rápido possível— Gerry tinha escrito.
Ela riu com a emoção que não sentia a anos dando passos corajosos pela rua. O bar estava a poucos metros dela e poderia comemorar fumando seus últimos cigarros. Sim, últimos! Depois do que passou queria ter certeza de estar com a saúde plena. Prometeu a si mesma que nunca mais tocaria em um maço depois desse. Tinha fumado cigarros que valeriam pela vida inteira durante os últimos dos meses, desde o falecimento de sua mãe.
Tomada pela alegria que a anos não reconhecia, desligou-se do mundo ao redor. Demorou um tempo para Maya perceber que não era apenas a luz do celular que iluminava seu rosto e quando ergueu o rosto era tarde demais.
Anthony não acordou com o barulho da chuva, nem com as dores que por anos o acompanharam. Mas, sim, com o som do impacto. Sentou-se na cama suando frio e procurou Maya em meio a escuridão do seu quarto. Quando escutou a gritaria no final da rua, tratou de vestir uma peça qualquer e sair sem se importar com a chuva. Só queria calar o sentimento que gritava em seu peito. Ao ver o foco da aglomeração, pontuou mais uma vez para a sua intuição antes de lugar ao desespero.
********
— Pressão sanguínea em 70. Pulso fraco — a enfermeira alertava enquanto ajudava os outros enfermeiros a empurrar a cama.
Anthony foi impedido de entrar por um segurança.
— Eu preciso saber como ela está! — exigiu. — Maya! — gritou em desespero vendo o corpo dela sendo levado e sumindo na virada do corredor. Pousou as mãos no rosto e lamentou. Não conseguiria aguentar se a perdesse novamente.
Fale com o autor