Páginas sobre a chuva
10 E nem todas as desgraças chegaram ao fim
A mãe de Maya deixou tudo o que lhe era direito no testamento, menos a isenção da culpa que sentiu por não ter chegado a tempo de se despedir. Tudo o que pode fazer quando o médico lhe deu a trágica notícia foi se agarrar aos braços de Lisa como suporte e chorar como não fazia há anos. Desde o dia em que compreendeu que tinha perdido uma vida em suas mãos, que tinha sido abusada pela pessoa que deveria tê-la protegido. Pensar que a última coisa que tinha dito a sua mãe era a premeditação de sua morte a deixava ainda pior. Ficou horas sentada sem rumo e agradeceu mentalmente quando sua tia Leslie apareceu e assumiu as rédeas.
— Vá para casa, querida. Eu cuido das coisas aqui — ela sussurrou com os olhos vermelhos de tanto chorar. Maya assentiu presa no piloto automático. — Qualquer coisa, prometo que ligo.
Lisa acompanhou Maya até a casa de seus pais em silêncio. Não sabia o que dizer à sua amiga naquele momento de luto.
— Tem certeza que não quer passar um tempo lá em casa? — indagou.
Maya negou.
— Eu ligo — prometeu antes de entrar na casa que por tanto tempo tinha carregado os seus pesadelos.
Passou as mãos pelos móveis sem se incomodar que estivessem cobertos de poeira. Queria qualquer resíduo que sua mãe tivesse deixado. Parou na porta do escritório e suspirou, enfrentando uma batalha interna antes de entrar. Quase cedeu a dor novamente, recordando-se da discussão que tiveram na semana anterior. Olhou para as suas mãos pensando que em tão pouco tempo tinha perdido uma pessoa importante e nem tinha conseguido se despedir. Nem se remedir. Sentou-se na cadeira de couro de seu pai e olhou para a mesa que por tanto tempo havia sido intocada.
Quando sentiu as lágrimas preenchendo os seus olhos novamente, pegou a garrafa de uísque da estante atrás dela e um copo, enchendo. Tomou um gole e gemeu com o gosto que não sentia por um longo tempo. Naquele momento tinha o sentimento de que nem todos os maços de cigarro do mundo poderiam amenizar a dor que sentia. Quando terminou a primeira garrafa se preparou para a segunda, terceira e assim em diante. Deixou o torpor do álcool tomar conta de seu corpo e apagou no lugar que por tanto tempo se negou a entrar.
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DOIS MESES DEPOIS...
— Aqui está — Maya jogou o manuscrito na mesa de Gerry, fazendo-o se sobressaltar. Não sabia o dia que a mulher tinha voltado para Nova York de vez, já que ignorava veementemente os seus telefonemas, apenas para ressurgir como um fantasma na sua frente. — Revisei duas vezes, acho que já pode mandar para a editora.
Gerry ainda estava assustado por Maya ter conseguido cumprir o seu objetivo. Ainda mais depois de um momento tão delicado por qual tinha passado. Duvidou por muitas vezes que ela pudesse escrever um romance, principalmente depois de ter seu coração destruído tantas vezes. Ele a encarou, querendo desvendar o surgimento daquela inspiração imediata e encontrou sombras embaixo dos olhos escuros como se ela não dormisse a dias.
— Está tudo bem? — questionou.
Maya olhou para o seu relógio e mordeu o lábio, como se estivesse em uma batalha interna. Era óbvio que tinha alguma coisa errada, ainda que o manuscrito a sua frente mostrasse outra coisa. Por mais que tivesse acabado de escrever uma história de amor, Maya não tinha mais aquele resíduo de esperança que a acompanhou até Miami. Tudo o que tinha acontecido, a tinha transformado em uma casca. Uma máquina de escrever sem a alma de autora.
Contudo, como uma hábil escritora, ela sorriu.
— Tudo ótimo — virou-se, indo em direção a porta. — Espero a sua ligação com e resposta da editora.
Gerry ficou congelado por alguns segundos antes de se levantar e correr atrás de Maya. Não tinha notícias dela desde o falecimento de sua mãe e ela não tinha retornado suas ligações. Deteve o elevador antes que fechasse as portas com Maya dentro e ela levantou os olhos na direção dele em um piloto automático.
— Acho que vai ser bom para você divulgar seu retorno para uma coletiva. Posso dar alguns telefonemas e arrumar isso para essa semana ainda. O que acha? — propôs.
Viu um resquício de raiva nos olhos de Maya por um segundo, mas foi rápido demais para que ele tivesse certeza da existência. Ela deu um sorriso triste.
— Todos precisam saber que estou viva e funcionando, não é? — rebateu. — Pode marcar.
Gerry tirou a mão do elevador e deixou que as portas se fechassem.
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UMA SEMANA DEPOIS
— Lisa, estou realmente lisonjeado que você tenha me buscado para uma saída entre amigos, mas realmente não estou com clima. — Tony disse fazendo uma careta quando a amiga de infância terminava de ajeitar a sua gravata. — Afinal, onde vamos?
— Você precisa sair um pouco, Tony — ela deu um pequeno sorriso em encará-lo. Quando se deu por satisfeita com o que tinha feito, deu dois tapinhas no ombro dele. — Quando cheguei parecia que tinha sido atropelado por um caminhão. — foi sincera.
Anthony sentia-se exatamente assim desde a partida de Maya. No dia seguinte ao Halloween foi até a casa de sua vizinha postiça para convidá-la para sair, mas não encontrou ninguém na casa, decepcionando. Seu joelho doeu, entretanto não tanto quanto o seu coração. Era como se tivesse sido abandonado novamente quando estava finalmente se dando uma nova chance.
Olhou para sua amiga de infância, tentado a perguntar como estava Maya, mas se conteve. Se ela realmente quisesse saber de Anthony, teria ligado. Ou, ao menos, atendido as inúmeras ligações que ele fizera.
— Pode me dar licença por um segundo? — pediu a Lisa.
Ela sorriu.
— Claro. Vou estar esperando no carro.
Esperou que ela se afastasse o suficiente antes de pegar o telefone em seu bolso e fazer mais uma tentativa a toa para Maya. Quando a voz dela soou na secretária, ele sentiu pesar e raiva. Nem ao menos uma explicação. Se havia se sentido incomodada com o que havia sido mostrado, poderia ter contado. Depois de Jillian, Anthony tinha se tornado imune a rejeições. Ou pelo menos achava que tinha.
— Vamos? — forçou um sorriso.
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O telefone de Maya tocava e por mais que estivesse ao seu lado na cama, ela ignorava o som estridente. Sabia quem era e o porquê de ligar, contudo não sabia o que responder. Reteve a vontade de jogar o celular contra a parede como um meio de descontar a raiva que a dominava. Ficou um tempo lutando contra si mesma até ceder e olhar para a tela.
Encarando o nome de Anthony brilhando em neon.
O quarto de hotel era luxuoso e nem perto do que estava acostumada. Gerry havia feito um ótimo trabalho arrumando essas entrevistas por diversos estados. Quando seu avião pousou em Miami novamente, sentiu seu corpo tremendo de expectativa. Ao mesmo que queria ver Anthony, não queria. Passou as mãos por seu rosto vendo que estava quase na hora de sua nova entrevista na grande livraria da cidade. Todos estavam ansiosos para escutar seu novo enredo e vê-la depois do tempo que ficou longe.
Ela teria que ser um de seus personagens e dizer palavras que foram escritas por outras pessoas apenas para deixar a cena mais interessante.
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— Não, não, não! — Gerry gritou apontando para a mesa. — Isso está errado. Quero a mesa do outro lado do salão.
O agente passou as mãos por seus cabelos já ralos e suspirou cansado por tudo o que estava fazendo ao mesmo tempo. Respirou fundo, fechando os olhos e mentalizando todos os frutos que veriam depois desse trabalho. Pelo menos pode aproveitar um pouco das praias de Miami e ver alguns corpos masculinos bronzeados. Sentiu uma mão tocando seu ombro e se virou, surpreso em ver Maya já arrumada ali.
Ela nunca tinha sido a melhor em se vestir, mas tinha feito um bom trabalho em esconder as profundas olheiras que a acompanharam por meses. Tinha seu momento de luto e aquele não era um deles. Era a hora de ser sorridente e esbanjar charme para que comprassem seu livro.
— Deveria relaxar um pouco. — ela gracejou.
Por mais que estivesse fazendo uma piada, sua voz ainda estava morta.
— A mesa está perfeita — Maya aliviou os funcionários que lhe sorriram.
— Chegou cedo — Gerry observou.
Maya deu de ombros e apontou para o cartaz.
— Faltam dez minutos. Só gosto de ser pontual. — pressionou as palmas da mão juntas fingindo estar empolgada. — Vamos abrir as portas?
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— Uma livraria, Lisa? — Anthony perguntou enquanto a amiga desligava o carro. Reparou o quanto ela ficou repentinamente em silêncio conforme chegavam ao destino. Quando estavam na casa de Tony, ela estava tagarelando alegre sobre os filhos e o marido que estavam morrendo de ciúmes por ela viajar sozinha, no entanto ali estava ela, em um profundo silêncio. — O que houve?
Ela forçou um sorriso que fez o canto de seus olhos enrugarem um pouco.
— Nada demais. — respondeu. — Vamos?
Eles saíram do carro e enfrentaram uma pequena multidão para entrar naquela livraria. Anthony estava apreensivo com diversas teorias passando por sua mente, mas não seria possível, certo? Lisa não viajaria até ali por isso e se ela tivesse retornado a Miami, por que não teria ligado?
— Senhorita Kincaid, pode nos falar um pouco sobre a sua nova obra? — um repórter perguntou.
E fortalecendo todas as suas suposições, ali estava Maya.
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