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3 Queima de Arquivo
Notas iniciais
Eu voltava para casa naquele fim da tarde, ainda encabulada com o encontro inesperado com o tal Emmet, quando Jess e Reeve vinham ao meu encontro.
– Ni! – Jess se aproximou, segurando minhas mãos nas dela. – O que aconteceu? Você deixou a gente preocupado!
– Oi? – Perguntei desentendida.
– Esperamos por você bastante tempo. – Reeve complementou.
– Mas a gente combinou de fazer alguma coisa hoje? – Perguntei, tentando me lembrar de algo que tivéssemos marcado. Em vão.
– Sim, você disse pra mim para nos encontrarmos na reserva! – Jess respondeu. O jeito lento com que pronunciava as palavras dava a impressão de que Jess falava com alguém possuídor de séria deficiência cognitiva.
– Quando eu disse isso?
– Você não se lembra? Você bateu a cabeça ou alguma coisa assim? – Ela disse preocupada, agarrando-me pelo cocuruto e puxando para baixo para olhar de perto.
– Não, Jess, eu tô bem. – Respondi, desvencilhando-me dela. Embora começasse a me preocupar se realmente estava mesmo.
– Jess, quem te falou que a Niele nos esperaria na reserva? – Reeve perguntou inteligentemente.
– Minha mãe me disse.
– Eu fui na casa dos dois hoje procurar por vocês e não os encontrei. – Expliquei. – E não falei com sua mãe hora nenhuma, Jessica.
– Mas, então, quem falou?
Poderia ser apenas uma brincadeira idiota de algum dos nossos colegas de classe que não gostava muito da gente. Mas aquela sensação de que algo muito estranho, além do ordinário, estava acontecendo não queria me deixar.
Fomos os três até a casa da Dona Marta, mãe adotiva de Jess. Era uma senhora gorda de aparência simpática, tão sorridente quanto a filha. Sua casa estava enfeitada com quinquilharias das cores mais variadas e objetos que diziam afastar “o mal”. Dona Marta, apesar de demonstrar uma alegria constante, também possuía um exaltante e forte lado hipocondríaco.
– Oi, bebês! – Ela nos cumprimentou sorridente assim que nos viu alojados na sua sala.
Subitamente o ambiente tranquilo e feliz da casa foi quebrado:
– A COISA AQUI É SÉRIA! – Jess gritou autoritária, fixando os olhos esbugalhados nos da mãe. Ao perceber que todos ficaram em silêncio, olhando-a pasmos, Jess se sentou ao meu lado e sorriu.
– Eu só queria entrar no clima da Ni. – Ela explicou, esboçando aquele sorriso que lhe fechava os olhos. E virando-se para mim, completou: – É melhor você explicar, amiga.
– Dona Marta, a senhora disse mais cedo para Jess que eu teria falado para ela que me encontrasse na reserva.
– Sim. – Dona Marta respondeu extasiada, como se eu tivesse lhe dado algum elogio.
Esperamos atentos por algum complemento da resposta. Não veio.
– Você chegou a falar com a Niele hoje mais cedo, Dona Marta? – Reeve perguntou.
– Não, não encontrei com a senhorita Niele, hoje. – Ela respondeu. Suspirei aliviada. – Quem veio trazer o recado da senhorita foi um amigo de vocês, aquele que usa roupas estranhas e tem marcas nos braços.
Jess e Reeve se olharam confusos, procurando o meu olhar também. Mas eu o fitei em Dona Marta.
– Emmet?
– Isso, esse mesmo. Rapaz simpático, ele. Acompanhou-me de bom grado até a horta, onde me ajudou a colher cenouras. Falava que gostava muito de você – Ela me mandou uma piscadela. – e me fazia várias perguntas.
– É mesmo? – Perguntei por respeito.
– Ni, você não me contou nada! – Jess interrompeu. – Agora eu entendi! Você queria ficar sozinha com ele, por isso mandou a gente pra longe! – Ela dizia sorridente, como se a crueldade que ela estivesse sugerindo fosse desculpa por estar contente.
– Não. Não é nada disso.
Reeve me olhava chocado.
– Traga seu namorado aqui mais vezes! Ele é bem bonito, ótima escolha. – Dona Marta disse sonhadora.
– Com licença, Dona Marta. – Falei, tentando ser o mais educada possível e saí da casa dela. Reeve e Jess vieram ao meu encalço.
– A mãe da Jess vai falar pra todo mundo que você está namorando. – Disse Reeve, acompanhando meu passo. – Mas você não está, está?
– Não. – Respondi, tentando permanecer séria. Jess deixou escapar um “aaah” de decepção. – E as bobagens que Dona Marta vai espalhar agora são o menor dos nossos problemas.
Seja lá o que ele estava tramando, saiu muito certo. Emmet queria me encontrar sozinha e conseguiu. Ele me conhecia, não tinha outra explicação. Conhecia meus amigos, onde eles moravam e estudou o plano com cuidado para que eu o encontrasse hoje.
– Céus, Niele, quem é esse cara? – Reeve perguntou.
Eu ainda não podia responder aquilo. Eu não sabia. E isso me incomodava.
– Onde a gente tá indo, Ni? – Jess perguntou, correndo para acompanhar minha velocidade. – Eu normalmente, não passo por esse caminho.
– Para a biblioteca. – Respondi, tentando falar em um tom que não a pejorasse. – Precisamos fazer uma pesquisa.
A biblioteca atual de Cersa não estava em seu melhor estado de conservação, mas alguma vez deveria ter sido um prédio que se destacava entre as casinhas amarrotadas da vila. Não era muito alta, mas era bastante extensa. No seu interior, havia várias mesinhas circulares de madeira crua, que se espaçavam pelas estantes e prateleiras. Dizia-se que o atual administrador da biblioteca, um não tão simpático octogenário chamado Terseu, passava tanto tempo na biblioteca quando jovem, que as pessoas iam até ele ao invés do administrador. Hoje em dia ninguém na vila sabe dizer quem foi o antigo administrador, se está vivo ou se está morto, e talvez meia dúzia saiba da existência do atual.
– Mestre Reeve, é sempre um prazer. – O Sr. Terseu disse quando alcançamos o balcão, ignorando a mim e Jess.
– Senhor. – Reeve disse. – A minha amiga aqui precisa de sua ajuda.
Ele me examinou com seus olhos semicerrados e sem dizer nada, balançou a cabeça como quem esperasse por algo.
– Preciso de um mapa da ilha. Que contenha todas as vilas próximas.
O velho foi até uma prateleira e retirou um mapa numa delas, a qual haviam vários cartazes enrolados. Tomei-lhe à mão agradecida e o estendi sobre a mesa. O cartaz me pareceu mais novo do que eu esperava, de certa forma até cheirava a tinta e não a mofo como o resto do local.
– Reeve, me ajude a anotar todos os nomes das vilas na ilha e nas ilhas próximas que se comecem com a letra G.
No fim, nos deparamos com uma enorme lista de duas vilas.
– Grinde e Geneve.
Sentei sobre um dos banquinhos tentando me concentrar. Não era de nenhuma destas duas vilas que Emmet teria vindo.
– Posso estar enganada. – Comecei. – Mas ele me disse que vinha de uma vila chamada Gaela. Ou Guela, algo assim.
Contei para Reeve e Jess sobre o encontro com Emmet. Perguntei-lhes se já teriam o visto pela minha descrição. Não era difícil reconhecer as pessoas da vila ou vilas próximas, mas nenhum dos dois faziam ideia de quem se tratava.
– Ele deve ter mentido de onde veio. – Cheguei a conclusão. – Inventou esse lugar na hora.
– Ou talvez, ele veio do lado de lá. Além do continente. – Reeve disse.
– Da Grande Cidade? – Jessica perguntou, espantada.
– Talvez. – Ele respondeu sério.
Passamos um bom tempo procurando nos mapas por alguma Gaela. Vimos todos os exemplares da biblioteca e não encontramos nenhum nome de cidade parecido. Quando demos pela hora, estávamos sendo expulsos do lugar por extrapolarmos o horário de fechamento.
Agradeci meus amigos pela ajuda e nos despedimos, voltando cada um pra sua casa. Ainda não era tarde o bastante para dormir, mas acabei adormecendo assim que entrei em meu quarto, caindo exausta na cama.
– Hey! – A voz chamava. – Venha pra casa!
Eu estava sozinha naquele mesmo breu. Procurava desesperadamente pelo dono da voz, dando passos cegos a esmo.
– Hey! – Ela repetia. – Venha pra casa!
Aquela voz queria que eu fosse até sua casa, pensei. Ela precisava de minha ajuda, talvez. Mas eu não conseguia ver nada. Comecei a correr na escuridão até que o familiar ponto amarelo apareceu ao longe. Apressei-me àquela direção e uma silhueta começou a se formar à vista.
– Hey! – Uma voz diferente me chamava. Mas desta vez, eu podia ver muito bem quem era. Minha mãe me balançava pra que acordasse. Olhei para ela sonolenta, e dela para a janela, percebendo que já amanhecera. – Reeve está lá fora te esperando. Ele me pareceu bastante excitado.
– Fala pra ele entrar… – Eu respondi, levantando-me e indo até o banheiro para lavar o rosto.
Minha mãe saiu do meu quarto e algum tempo depois, Reeve batia à porta e entrava.
– Niele! – Ele dizia, estranhamente exaltado. – Fiquei a noite inteira encabulado com a história do Emmet e… Fiz mais algumas pesquisas.
Olhei para ele interessada.
– Estávamos procurando no lugar errado.
Ele pegou um livro que carregava debaixo do braço e abriu sobre minha escrivaninha.
– Este livro é uma antiga hemeroteca.
– Notícias?
– Sim, notícias velhas que alguém preocupou em preservar e deixou numa prateleira. Veja isso aqui.
Ele abriu numa página amarelada pela decomposição. Havia algumas imagens de fotos desconexas e alguns textos datilografados. Reeve apontou um ao centro da folha, algumas partes eram ilegíveis:
“Seis de Junhx de 1xx1. Captuxados pela guerrilha adrxxlense famoso grupo xontrxbxndista, acusados dx transporxx ilexxl de animxxs através da orla da Ilha de Mxxanxo. Os anxmaix eram lexxdos da Flxrestx de Gaela por umx baxsa para xm porto secreto...”
– Floresta de Gaela? – Perguntei excitada. – Nesta tal Ilha de… O que será isso?
– Eu pesquisei isso também. E veja só, – Ele me olhou com um sorriso orgulhoso – Aparentemente é Ilha de Mizanto.
– Ilha de Mizanto? Não me lembro de nada parecido no mapa.
– Não se lembra porque não existia no mapa. Na verdade, a ilha de Mizanto não é chamada dessa maneira pelos povos do continente ocidental. Aqui é conhecida por outro nome.
– E qual?
– Ilha de Zedd.
Ilha de Zedd.
Cersa situava-se na Ilha de Zedd.
– Impossível. Teríamos encontrado a vila nos mapas se ela ficasse nesta ilha.
– Não há dúvidas de que houve queima de arquivo na biblioteca de Cersa, Niele. Gaela foi escondida e isolada de nós por algum motivo. Porém, Torin me deu acesso a uma parte da biblioteca que frequentadores comuns não possuem.
Olhei pra ele ansiosa.
Finalmente, ele tirou do bolso um papel que parecia ter sido dobrado centenas de vezes. Ele o desdobrou e revelou o mapa, colocando sobre minha cama.
– Não foi fácil achar isso. Mas é um mapa antigo, talvez de duzentos anos atrás.
Eu estava estática, perplexa. E alegre demais diante a tantas revelações.
– Reeve, você é incrível!
Lá estava, bem na ponta leste da Ilha de Zed, no mapa denominada Mizanto, o pontinho e o texto com o nome da localização ao seu lado que demarcavam a Vila Gaela.
– Podemos olhar no mapa atual e ver qual cidade está no lugar de Gaela. Ela deve ter sido renomeada ou algo assim de alguns anos pra cá. – Eu disse, sem esconder minha excitação.
– Está aí o problema. – Reeve me disse sério, soltando um suspiro. – No mapa atual, não existe nada neste ponto.
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