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15 O Futuro de Tudo
Notas iniciais
Eu estava sentada na escuridão, ao lado da familiar criança de cabelos loiros.
– Você ainda se lembra do sabor das maçãs do Senhor Grisse?
– Eu me lembro. – Respondi. – O gosto das maçãs do Targo não chega aos pés daquelas.
– Eu não conheço as maçãs do Targo. – O garoto disse.
– Não está perdendo nada, A… – E então eu me assustei comigo mesma. Do que eu estava falando?
– Hey. – O garoto falou, sorrindo de orelha a orelha. – Diga-o. Diga o meu nome!
Olhei pra ele assustada.
E então meus olhos se abriram no mundo real.
A primeira coisa que senti foi uma dor lancinante em todo meu corpo. Deixei escapar um leve gemido de dor. Olhei em volta e encontrei Reeve sentado ao meu lado, sobre o chão da aeronave com que Fergo havia nos resgatado.
– Fergo e eu tomamos a liberdade de fazer alguns curativos em você. – Ele me disse. Então notei que não estávamos mais vestindo o uniforme da Corporação Celestia. Estávamos com nossas velhas roupas surradas. Percebi também que meu ombro direito estava enfaixado, bem como todo meu braço esquerdo. – Você deslocou o ombro durante a virada da nave.
Sentia-me frágil. Assustada pelo tanto que eu era fraca e impotente. Olhei em volta procurando por Jess.
– Jess? – Chamei. E Reeve me olhou sério. As lembranças dos acontecimentos anteriores então voltaram de uma só vez e eu, involuntariamente, comecei a chorar.
– Eu matei a Jess, Reeve.
– Não, Niele. – Reeve se afagou em mim. – Quem matou a Jess foi a Corporação. Não foi sua culpa.
Passamos alguns minutos em silêncio. Suspirei e me recompus.
Eu faria meu melhor para não demonstrar mais fraqueza, embora meu sentimento de culpa não tivesse sido reduzido nem um pouco.
Fui eu quem a deixou cair.
Limpei minhas lágrimas e disse séria:
– Reeve, você tem que me deixar…Tem que ir para longe. Eu não quero perder você também.
Ele balançou a cabeça negativamente.
– E nem eu quero perder você. Eu só voltarei pra casa, se você vier comigo.
– Você sabe que não voltarei.
– Então eu também não vou.
Fergo entrou no compartimento onde estávamos. Eu nunca o havia visto tão abatido. Pela primeira vez eu pude sentir que Fergo estava com algum receio verdadeiro ou talvez medo.
– Como está se sentindo? – Ele me perguntou.
– Estou melhor, obrigada. E você?
Ele desviou o olhar e mexeu em seus óculos.
– Estou bem, também. Eu nos trouxe para um lugar isolado. Você tem ideia de onde ir agora?
Tentei me lembrar das palavras daquela pobre senhora em Dioniese.
– Você sabe alguma coisa sobre… Arco de Medeia ou… Santuário?
– Eu sei. – Fergo disse, para minha surpresa. – Mas não tenho a chave.
– Eu… – Senti-me estranha em dizer aquilo. – …Eu sou a chave.
Fergo assentiu, como se o que eu o havia dito fizesse todo sentido. Já Reeve olhava pra mim sem entender nada.
– Aquela senhora me disse isso. – Eu expliquei.
– Vamos para o Arco de Medeia encontrar o Epitáfio, então. – Fergo disse. – Você está pronta?
– Primeiro, – Reeve interveio. – Fergo, explique como você conhece todos esses lugares. Como você sabe de tanta coisa, como sabia quem iríamos encontrar em Dioniese?
Fergo suspirou.
– Acho que não há motivo para esconder mais. – Ele disse, parecendo um pouco contrariado. – Desde o início… Eu os ajudei com a intenção de trazê-los até Dioniese para se encontrarem com aquela senhora. Ela me pediu que eu os trouxesse em segurança.
– Quem é ela? – Reeve questionou.
– Ela me pediu que eu não revelasse nada do que eu soubesse até que Niele encontrasse o Livro do Destino. Ela foi conhecida por vários nomes… Nem mesmo eu sei qual é o seu nome verdadeiro.
– Livro do Destino?
– Já chega, não é? – Emmet falou. Olhamos para a entrada da nave e vimos o garoto vir até nós.
– Só faltava você. – Eu disse, irônica, sem me surpreender com o repentino aparecimento do garoto.
– Vamos logo para o Santuário! – Emmet disse. – Já não era sem tempo!
Fergo olhou para Emmet e então para mim. Eu balancei a cabeça afirmativamente e Fergo foi para o compartimento de pilotagem.
Emmet se sentou ao meu lado no chão.
– Acho que é a primeira vez que nos encontramos e nenhum de nós está com vontade de socar a cara do outro.
Eu não respondi. Mas era verdade. Eu não tinha mais vontade alguma de me expressar. Queria apenas ir aonde eu deveria ir e terminar logo com aquilo…
– O que você quer, Emmet? – Perguntei, então.
– Só quero garantir que você cumpra sua missão. Estou aqui para ajudar.
– E onde você estava quando Jess foi morta? – Perguntei.
– A garota morreu? – Ele perguntou, surpreso. – Perdoe-me por isso. Mas eu não podia me aproximar daquele local. Desculpe, eu não pude ajudar. Sinto muito, mesmo.
Ele se virou para Reeve.
– Perdoe-me por aquela facada, tá bem? Sem ressentimentos?
Reeve não disse nada.
– Emmet, não vou impedir que venha conosco. – Eu disse. – Mas por favor, mantenha a distância.
Ele me olhou risonho.
– Tudo bem! Vou deixar os pombinhos. – Falou, levantando-se e indo até o outro compartimento.
Deitei-me no ombro de Reeve e ficamos em silêncio, quase adormecendo, até que a nave voltou a parar.
– Bom, estamos aqui. – Fergo nos avisou, abrindo a porta do veículo.
Reeve me ajudou a me levantar e descemos na beira do penhasco onde Fergo nos havia trazido. O ar soprava em nossos cabelos com força. A tarde caía e o a paisagem era bastante montanhosa e, além das montanhas, via-se somente o mar. Estávamos numa pequena ilha isolada do resto do mundo.
Emmet caminhou em nossa frente e Fergo nos fez sinal para segui-lo. Chegamos na ponta do penhasco, aonde havia um antigo arco de pedra e logo abaixo, uma espécie de lápide com vários buracos, que talvez fossem algum tipo de inscrição.
– Eis o Arco de Medeia e o Epitáfio. – Fergo disse.
– Para abrir o portal para Ogren, – Emmet começou – era necessário portar a maior arma contra os guardiões. A Pedra dos Astros. Parece que a verdadeira justiça sempre prevalecerá nos nossos corações.
– Se vai ficar falando em enigmas, – Comecei. – Jogue-se do penhasco e me poupe do esforço de te empurrar.
– Niele, a “fechadura” – Fergo começou, fazendo o sinal de aspas com as mãos. – É esta lápide.
Assenti e me aproximei do que chamavam de Epitáfio.
“Essa mão romperá o lacre do Livro do Destino. Você deve ir para o Santuário Selado agora. Procure pelo Arco de Medeia. A outra mão deve encontrar o Epitáfio.”
Toquei com os dedos de minha mão esquerda o Epitáfio. E então, um buraco negro simplesmente surgiu em nossa frente. O centro do Arco de Medeia agora era um show de brilhosidade e escuridão. Era tão fascinante quanto inacreditável.
– Vamos. – Emmet disse e atravessou o arco, sendo engolido pelas luzes.
Fergo logo o seguiu.
– Vamos, Reeve. – Eu o disse. E juntos entramos naquele portal.
E então estávamos num local completamente diferente. E aquela nova paisagem subitamente despertou todas as minhas lembranças tristes e um sentimento de angústia tão forte, que precisei me escorar em Reeve para não desabar.
O local estava coberto em cinzas, árvores enegrecidas tombadas, pedaços de metal esquecidos, até mesmo ossos. Era como um vale da morte. Corvos flutavam sobre nossas cabeças. Ao longe era possível ver uma construção branca sobre um pico, contrastando com toda aquela ruína.
– Houve uma guerra aqui. – Eu afirmei, mesmo sem saber.
– O Vale Ogren. E pensar que este já foi o lugar mais bonito da Terra... – Fergo comentou.
– Isso, meu amigo, – Emmet começou – é o destino de todos. O futuro de tudo. Não há como escapar.
O garoto de vestes negras seguiu em frente em direção a construção ao longe.
– Aquilo é o Santuário Selado? – Perguntei a Fergo, enquanto seguíamos Emmet.
– Sim. É lá que está o Livro do Destino.
– Fergo… Você sabe quem é ele? – Eu o perguntei, referindo-me ao garoto de preto a nossa frente. – Digo, quem ele é de verdade?
– Eu tenho um palpite. – Ele confessou, mexendo em seus óculos. – Mas não tenho certeza.
Não o pressionei a me dizer mais nada. Fergo certamente tinha seus motivos para não falar o que pensava e eu o respeitava por isso. De qualquer maneira, algo me dizia que todos os segredos estavam por ser revelados muito brevemente.
Passamos por uma vala durante a trajetória, onde provavelmente um rio correu uma vez. Não havia sinal de água ou de vida em parte alguma, se não dos corvos que chiavam sobre nós. O vale estava morto em todos os aspectos. E quando olhei mais fundo naquela abertura, pude ver um estranho crânio de pedra, num formato de uma cabeça de… dinossauro?
– Um “Magarat”. – Fergo disse.
– Parece que foram extintos. – Emmet falou, sem parar de seguir a trilha.
– O que eram? – Reeve perguntou a Fergo.
– Defensores naturais do Santuário. – Emmet o respondeu, antes que Fergo pudesse dizer alguma coisa. Reeve claramente guardava ódio por Emmet e não se sentia confortável quando o garoto falava com ele. Continuamos em silêncio até chegarmos a uma trilha que levava ao topo do planalto onde se encontrava o tal Santuário Selado.
Alcançamos o topo e nos deparamos com a construção, erguida por colunas brancas. Havia alguns pilares em volta a esmo, também, como se enfeitassem o topo do monte.
– Como esse Santuário está inteiro e tudo está quebrado? – Perguntei.
– O Santuário está encantado para se reconstruir. – Emmet falou. – É como se tivesse vida própria.
– Disso eu não sabia. – Fergo comentou.
– Mas ele também está cansado. Já está de pé há muito tempo… – Emmet disse, com um certo drama em sua voz. E então, ele se posicionou diante do portão e se virou para nós.
– O que foi? – Perguntei, cruzando os braços.
– É fundamental que só entremos eu e você, Niele.
Olhei para ele com uma expressão cansada:
– Por que isso, agora? Você é diferente por quê?
– É pela segurança de nossos amigos. – Emmet disse, sério.
– Isso quem vai decidir são eles. – Respondi.
– Tudo bem, Niele. – Fergo interveio. – Eu não faço mesmo questão de entrar nesse lugar.
Virei-me para Reeve. Ele não parecia gostar da ideia. Deixei que pensasse por alguns segundos.
– Vou fazer companhia ao Fergo, então. – Deu-se por vencido, – Mas não demore.
Assenti. Emmet empurrou os portões duplos do local e entramos na escuridão de seu interior. O portão se fechou as nossas costas. Várias tochas em chamas azuis iluminaram de repente o hall circular, como num passe de mágica.
– O Santuário nos dá as boas-vindas. – Emmet falou. – Isso é fundamental. Siga-me.
Haviam várias saídas em arco no local, que davam em corredores escuros. Emmet me guiou pela segunda a direita. Andamos pelo local mal iluminado até encontrarmos uma escada em espiral, a qual subimos. Sentia-me apreensiva, eu sabia que estava chegando perto de alguma coisa muito importante, que aos poucos eu descobria o significado. O garoto se posicionou enfim diante a uma porta de madeira. Suspirou e a abriu. Adentramos no novo local.
A sala que nos encontrávamos agora era como uma versão maior da primeira sala do Santuário, contudo, haviam correntes nas paredes e não era possível enxergar o outro lado. E também havia no centro um pilar que sustentava um livro surrado de proporções anormais, que se encontrava fechado.
O Livro do Destino.
– Niele, – Emmet começou. – Antes de você fazer o que tem que ser feito… Quero que se lembre de minhas palavras.
Ele olhou para mim, buscando nos meus olhos o significado que ele queria que eu assimilasse.
– Tudo bem, Emmet. – Eu disse, um pouco incerta sobre isso.
A mão que romperia o lacre do Livro do Destino era a mão que a prisioneira de Dioniese havia tocado.
Vamos logo terminar isso.
Posicionei minha palma direita sobre a capa grossa do Livro.
Subitamente, eu não estava mais no Santuário. Emmet havia sumido. O lugar onde eu estava agora era…
O subterrâneo de Gaela?
Olhei em volta para aqueles tubos e mesas de estudo. Perto da estante de livros, uma senhora idosa segurava um dos exemplares manuscritos que havia ali, olhando para a prateleira.
– Por acaso você pegou o desenho que estava aqui?
Levei a mão ao meu bolso e encontrei a folha de papel amassada, o desenho a mão que eu tinha achado naquele local havia alguns dias atrás. Um desenho nada bonito, mas que carregava algo em si tão especial que me fez trazê-lo comigo.
– Ah. – A senhora disse, aproximando-se lentamente de mim. – Aí está!
– Você é a prisioneira de Dioniese.
Ela sorriu para mim, assentindo.
– Sente-se, minha cara. – Ela me pediu, sentando-se numa das cadeiras de madeira. Sentei-me perto dela.
– Eu estou mesmo aqui? – Perguntei. – Isso tudo parece meio surreal.
– Não, você não está aqui. – Ela disse. – Embora esteja. Isso é apenas uma ilusão que sua mente criou para que possa se recuperar de forma saudável. E eu também estou aqui para ajudar nessa tarefa.
Eu olhei para ela sem entender.
– Poderia ser mais clara?
– Sim. – Ela respondeu, após alguns momentos de silêncio. – E você entenderá todas as minhas palavras.
Retesei-me.
– Estou ouvindo.
Ela deixou escapar uma risada abafada e disse, divertida:
– Preparada para uma longa história que será contada em menos de milésimos de segundos e ainda assim, parecerá uma eternidade?
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