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12 Linha de Choque
Notas iniciais
Abri os olhos e só vi a escuridão. Olhei ao redor. Era aquele sonho outra vez.
– Hey! – A voz chamou. – Venha pra casa!
– Onde você está? – Gritei. E comecei a andar na direção que supus que a voz viria. Finalmente vi o ponto amarelo ao longe. Comecei a correr em sua direção e fiquei esperando que eu despertasse no mundo real a qualquer momento. Mas não aconteceu. Quanto mais eu me aproximava, mais o vulto tomava forma e se tornava visível. Eu estava próxima o suficiente para ver do que se tratava. O ponto amarelo ao longe na verdade eram brilhosos cabelos loiros. Uma criança de aparentes dez anos estendia sua mão em minha direção e me chamava:
– Venha!
Eu estava alguns passos dela agora. Parei de me mover e observei aquele garoto.
– Vamos pra casa.
– Quem é você? – Perguntei.
– Não brinque assim! – Ele disse, tocando sua mão na minha. E então seus olhos encontraram os meus.
– Não se lembra de mim? – Ele perguntou, triste. Percebendo que eu não lembraria, lentamente começou a se distanciar. – Você se esqueceu de mim? Foi por isso que me deixou?
Eu o olhava confusa, tentando assimilar o que ele dizia.
– Eu não sei… – Respondi. E comecei a chorar desesperadamente.
Por muito tempo eu quis encontrar a pessoa que me chamava em meus sonhos. E agora que eu a havia encontrado, eu me sentia aflita, como nunca havia sentido, por não conseguir acordar.
***
Retirei minha túnica e a vesti de volta ao avesso. O que antes parecia uma longa capa preta, agora era um colete nas cores branca e azul. Guardei a pistola no coldre ao meu cinto, que por sua vez coloquei sobre a túnica. Expirei profundamente e inspirei, tentando estabilizar minha frequência respiratória – por um fio eu não havia sido metralhado. Aproximei-me para examinar de perto os três corpos caídos. Coloquei os dedos sobre o pulso de Jessica.
Ótimo.
E então apareceram seis guardas que vieram correndo do Coliseu em perseguição a Niele e seus amigos. Retirei meu distintivo da Corporação Celestia do bolso e o estendi de forma que pudessem ver.
– Agência Especial, Fergo Audswan.
Eles consentiram e se desfizeram da posição de ataque. O general do grupo se aproximou e olhou para os três corpos no chão.
– B-90. – Ele disse ao rádio. – Entre com a embarcação no cais do Coliseu. Tarefa cumprida.
O general verificou a respiração e pulsação de cada um dos corpos.
– Estão todos mortos. Bom trabalho, agente.
Alguns momentos depois, uma lancha apareceu no horizonte e adentrou no túnel, vindo até o cais onde nos encontrávamos. Era uma bela lancha branca, com a inscrição dos dois “cês”, símbolo da Grande Cidade, destacada numa das laterais. Após seu ancoramento, alguns guardas subiram nela e voltaram com sacos, onde colocaram os corpos de Niele, Reeve e Jessica e então, os jogaram de uma maneira pouco simpática no convés do veículo.
– Alarme geral: retirada imediata. – O general falou ao rádio novamente. E dizendo isso, fez sinal para que os outros subissem na lancha. Eu os segui e me acomodei num dos assentos.
– Grandes e um! – O piloto bradou de repente, levando seu braço ao peito numa reverência. – Destino, General?
– Sede central. – O general especificou o destino. O piloto acatou e a lancha voltou a se mover. Saímos enfim daquela gruta e alcançamos o mar aberto. O fim da tarde deixara o céu avermelhado e o horizonte parecia pintado de sangue.
Olhei para os sete guardas que estavam ali. Todos haviam sido treinados para seguir toda e qualquer ordem. Uma verdadeira lavagem cerebral. Não se importavam consigo mesmos, nem o suficiente para se sentarem. Somente o general parecia ter alguma simpatia por si próprio, o que eu desconfiava que também advinha de uma ordem maior. Ele estava na cabine do veículo, sentado, mexendo num dos dispositivos da Corporação.
A tecnologia que a Corporação Celestia detinha era de uma diferença estrondosa comparada a tecnologia de qualquer parte do mundo. Eles pareciam viver numa era futurística, muito além da realidade das pessoas comuns, que mal pareciam ter se libertado da era feudal. Logo apareceram três helicópteros sobre nós. Meu cabelo esvoaçava pelo vento de suas hélices e também pela alta velocidade da lancha. Ao longe era possível ver mais veículos marítimos, todos com o símbolo dos dois cês azul-celeste desenhado, vindo da Ilha de Zedd e prosseguindo na direção que íamos. Ramona não havia economizado exércitos para caçar a garota…
Como era de se esperar, não chegou a vista nenhuma embarcação que não pertencesse ao “Exército Celestia”. O silêncio perdurou por algumas horas de navegação, até que chegamos na Linha de Choque.
Havia aproximadamente uma centena de navios no horizonte. Todos espaçados estrategicamente e todos pintados de branco e azul. Emergiam majestosamente no horizonte, como se aguardassem uma guerra. Uma barreira intransponível. Nada passava pelo oceano e alcançava o Grande Continente sem a permissão da Linha de Choque, a barricada náutica da Corporação Celestia. O mar tinha dono. O Grande Continente deveria ser protegido do que havia fora dele, pois nada de dentro poderia confrontá-lo. Não havia uma criança que nascesse que não lhe fosse imposta uma rígida e manuseada educação, e eventual lavagem cerebral. Presas na ditadura da Grande Imperatriz, consolidada e aclamado pelos oprimidos. E não havia exemplo maior de poderio do Império da Corporação Celestia do que a Linha de Choque. Não era a primeira vez que eu deparava com a barricada, mas não me sentia menos espantado. Era estrondosa.
A lancha parou diminuta frente a um dos altos navios da Linha. O general correspondeu ao chamado do Militante de Choque.
– Código da Missão.
– 7892AC. – O general respondeu por rádio.
– Carga.
– 174.
Houve um minuto de silêncio. Então o rádio voltou a chiar.
– Permissão concedida.
– Entendido. – O general respondeu.
As duas cancelas que saíam cada qual de um compartimento lateral dos navios ancorados se levantaram lentamente, nos permitindo passagem. Enquanto atravessávamos a Linha de Choque, flashes registravam nossa lancha e os outros veículos que nos seguiam.
– Um momento. – O rádio voltou a chiar.
Senti meu coração parar.
– Novas ordens foram enviadas diretamente da sede.
– Estou ouvindo. – O general respondeu.
Não entre em pânico, Fergo. Você não é disso.
– Código: 7892AC-C. Ancore no porto de Nova Adriel e aguarde pelo Príncipe. O resto da frota está dispensada.
E então um sorriso se desenhou no meu rosto. O que eu tive que camuflar rapidamente, antes que minha suposta alegria fosse notada. Alegria não era permitida.
– Entendido. – Disse por fim o general.
Distanciamos então da Linha de Choque. Estávamos oficialmente em águas do Grande Continente. Nossa lancha seguiu por um curso e logo as outras seguiram para outro. O porto de Nova Adriel não era o porto oficial, mas era um porto especial, talvez o mais seguro e o mais belo do Grande Continente. E antes que a noite conseguisse se tornar mais negra, Nova Adriel surgiu no horizonte. Seu porto era oficialmente real. A estação marítima era monumental e se destacava frente a cidade cinza atrás. Ao longe era possível ver um magnânimo busto de pedra. Uma representação elegante e ao mesmo tempo sinistra da Grande Imperatriz. A mulher representada estava amarrada a um pilar. Aos seus pés, poderia ser lida a mensagem:
O Continente e a Imperatriz: Grandes e Um.
Ancoramos ao cais e descemos no porto. Não havia ninguém ali, senão três guardas na cabine de controle, que a deixaram e vieram nos receber. Identificamo-nos e em uníssono fizemos a reverência:
– Grandes e um!
– O Príncipe está a caminho. – Um dos guardas do porto disse, o mais formalmente possível. Logo voltou a cabine, juntamente aos outros dois.
Aguardar de pé onde já estavam mesmos não foi nenhuma dificuldade para os seis guardas que me acompanhavam. Dirigi-me até a cabine dos três vigilantes do porto.
– Fergo Audswan. – Apresentei-me. – Ordens do general: pedido que rastreie o veículo 869.
Assim que os guardas se viraram para seus computadores para fazer o rastreamento, deixei a cabine e fechei a porta. Aparentemente, ninguém havia notado um singular objeto no chão.
Subitamente, uma pequena, mas ostentante aeronave negra surgiu no céu. O barulho do veículo aéreo ecoava por todo o porto. Suas hélices ficavam na parte inferior de suas asas. Ela passou por nós e pousou no heliporto real.
Dirigi-me até o convés de nossa lancha e fui até os sacos com os corpos.
– O que você está fazendo? – O general me perguntou ao perceber minha ausência.
– Não vamos levar os corpos ao Príncipe?
– Não se coloca cadáveres aos pés da família real. – O general respondeu mecanicamente. – Guiaremos o Príncipe até a lancha.
Caminhamos em direção ao heliporto. Ao chegarmos, deparamos com mais três guardas que desceram da aeronave, acompanhados do Príncipe. Assim que chegamos perto do garoto de aparentes dez anos, ajoelhamo-nos e baixamos a cabeça.
– Grandes e um. – Ele falou. – Levantem-se.
Obedecemos. Não encarei o Príncipe Maguine nos olhos, embora isso fosse estranhamente tentador. A criança se vestia com uma túnica especial da Corporação, que embora não fosse muito diferente da que eu usava no momento, era encrustada com algumas pedras preciosas e alcançava seus tornozelos. O cabelo escorrido e muito negro do Príncipe era estranhamente partido para o lado, destacando sua face pálida.
– Levem-me até os corpos.
Viramo-nos e guiamos Maguine até o cais. Porém ao depararmos com o mesmo, a lancha não estava mais lá.
– Onde está? – O Príncipe perguntou irritado.
Os guardas se olharam sem saber o que responder. O general disparou para dentro da cabine. Voltou em seguida. O guarda-chefe, que ainda havia pouco demonstrara somente determinação e eficácia, agora agia como um cãozinho assustado.
– Os guardas portuários não estão aqui.
– O que está querendo me dizer, general? – O Príncipe perguntou.
– Não sei ao certo. Vou verificar se a lancha foi rebocada.
– Faça-o.
O general então se esgueirou para longe do porto.
O Príncipe olhou com desdém para cada um de nós.
– Incompetentes. Mamãe vai lhes querer a cabeça por isso.
Quando o Príncipe pousou o olho sobre mim, pude ver suas pupilas brilharem rubras como pequenos faróis. Desviei meus olhos imediatamente.
O general voltou.
– Conseguiu alguma informação útil? – O príncipe perguntou.
– A outra área portuária não identificou nada. Se houve alguma saída do perímetro não foi considerada suspeita e...
– Blabla não foi considerada suspeita! – O Príncipe disse, imitando a voz do general de maneira a perjurá-lo. – Encontre o veículo e mande as informações dos guardas desaparecidos para a sede. Mande imediatamente um relatório de hoje e do dia anterior também.
Percebi que o Príncipe me encarava novamente. Continuei olhando para o nada, como fazia os outros guardas.
– Dê-me sua arma. – O Príncipe pediu a um dos guarda-costas próximo, que o fez sem pestanejar.
Subitamente o Príncipe levou o dedo ao gatilho e atirou para o céu. O barulho ressoou por todo o porto. Ninguém se estremeceu. Maguine devolveu a arma para o guarda e voltou a sua nave. Quando ele me deu as costas, levei a mão ao pulso onde havia um ponto de sangue, causado pela agulha de uma seringa que agora estava de volta num dos bolsos internos de minha túnica.
Essas doses de serotonina ainda vão me matar.
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