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10 Felicia
Notas iniciais
Alcancei Felícia na multidão de gladiadores e caminhei ao lado dela na direção dos outros. Assim que saímos pelo grande portão que dava ao pátio, a plateia começou a gritar ensandecida nas arquibancadas. Olhei em volta, para cima. Era uma cena assustadora. Localizei Targo num dos camarotes, ele parecia dançar de felicidade sentado em seu trono. Ao seu lado, estava de pé um homem segurando um binóculo numa mão e um microfone em outra.
— Vão começar as lutas, pessoal! – O locutor disse ao microfone, sua voz ressoando em alto e bom som por todo o Coliseu. – Teremos cinco lutas hoje, como de costume. Seis pessoas das quarenta e três candidatas poderão competir pelo grande prêmio.
— Seis pessoas? – Perguntei a Felicia.
— Você não achou que todo mundo ia lutar hoje, né? – A garota me disse. Sua ansiedade era nítida. – Mas eu vou me voluntariar.
Ela viu que eu não tinha entendido do que se tratava.
— Ah, esqueço que você nunca esteve aqui. O torneio funciona da seguinte maneira: o primeiro combatente é sorteado. Então alguém pode se voluntariar pra ir contra ele. Caso ninguém se voluntarie, o combatente é sorteado. O vencedor da luta, vai contra outro voluntário ou sorteado. Quem vencer a última luta leva o prêmio.
— Quem for sorteado para a última luta e vencer, ganha o prêmio com apenas uma vitória?
— Sim.
— Não me parece justo.
— Bom, mas corre o risco de você não participar também e ter que esperar até o outro dia.
— O primeiro a ser sorteado deve vencer cinco lutas consecutivas para vencer?
— Exatamente.
Por um lado eu fiquei feliz que eu não teria que obrigatoriamente lutar no Coliseu afinal. Mas por outro, fiquei com medo de ser sorteada, principalmente para a primeira luta.
— Algum voluntário? – O locutor perguntou. Ninguém se manifestou, embora houvesse muitos burburinhos ao meu redor.
— Parece que os pretensiosos ficaram em casa hoje. – Felicia comentou.
— Vamos ao sorteio então. – O locutor voltou a falar e enfiou a mão num saco que estava no chão. Puxou um papel e mostrou para Targo. O homenzinho extravagante balançou a cabeça de forma afirmativa e o locutor, enfim, pronunciou o nome escrito:
— Felicia Telibata!
Eu olhei pra garota ao meu lado. Sua ansiedade havia sumido. Ela agora parecia assustada.
— Hoje não é meu dia. – Ela comentou e se encaminhou até os degraus que levavam a arena.
Ela se posicionou no centro e se armou com suas adagas. A plateia não parecia muito admirada. Alguns gritavam coisas de uma grosseria que eu nunca havia escutado igual.
— Algum voluntário?
Então um dos homens ao meu lado correu para os degraus. Ao chegar na arena, ele gritou, o que deveria ser seu nome:
— Abadin Sieg!
— Parece que temos! O lutador Abadin será o desafiante da nossa primeira combatente.
O homem alto e esguio carregava uma lança e uma espada, cada arma em uma das mãos. Ele levantou as armas, atiçando-se para a plateia, que o ovacionava enlouquecida.
Um dos lutadores ao meu lado resmungou:
— Se ele não tivesse disparado pra arena, eu tinha me voluntariado. A vitória dele tá garantida.
Os outros lutadores pareciam concordar com ele.
Você consegue, Felicia, tentei me convencer.
— Primeira luta: Felicia Telibata versus Abadin Sieg. – E com um drama exagerado o locutor gritou: – Comecem!
— Você pode desistir se não quiser se machucar, garota. – Abadin disse a Felicia.
Ela apenas ficou calada.
O lutador deixou um riso de deboche escapar e correu em direção a garota, desferindo-lhe um golpe rápido contra a cabeça com a espada. Felicia bloqueou o ataque com as duas adagas, cruzando-as para impedir que a lâmina a acertasse. Abadin pressionou a espada com mais força e Felicia teve que se agachar com uma das pernas para conseguir continuar a segurar a investida.
— Precisa disso tudo para bloquear minha mão esquerda?!
Abadin então avançou com a outra mão, que segurava a lança, tentando perfurá-la. No momento em que a lâmina da ponta a acertaria, a garota aproveitou que a espada de Abadin recuara alguns centímetros e saltou sobre a haste antes que a lâmina pudesse lhe acertar. A ponta da lança prendeu-se no chão. Abadin soltou a arma e deixou que ela tombasse, fazendo Felicia se desequilibrar. Neste momento, ele investiu a perfurar as costas da garota abaixo de si com a espada, porém não foi rápido o suficiente: Felicia se esquivou rolando rapidamente para frente e ainda desferiu um corte na perna do lutador com uma das adagas durante sua ágil fuga. O sangue jorrou no chão. Abadin soltou um urro de dor e raiva. Felicia agora estava numa distância de dois metros do seu oponente.
— Garota sortuda. – Um dos lutadores ao meu lado comentou.
— Ainda pode desistir. – Felicia disse, cheia de si.
Abadin olhou para a lança ao chão. Felcia pareceu perceber que o lutador queria reaver sua arma. Quando ele pareceu se abaixar para alcançá-la, Felicia arremessou uma das adagas contra Abadin, que defendeu com a espada. Ela arremessou outra quase instantaneamente. O lutador pisou na ponta da lança, de modo que ela se levantou voltando as suas mãos e velozmente rebateu a outra adaga com a lâmina da lança. O Coliseu deixou um “uau” escapar. Todos ficaram impressionados com a habilidade do lutador. Felicia não parecia ter se perturbado com isso. Alcançou sua terceira adaga presa ao cinto e a empunhou com as duas mãos.
— Parece que a situação se inverteu. – Abadin disse. – Vamos acabar logo com isso.
Abadin partiu em direção a Felicia. A garota começou a se distanciar com saltos e passos rápidos para longe dele.
— Pare de fugir! – Ele rosnou. Daquela maneira, dificilmente Abadin conseguiria diminuir consideravelmente sua distância até a garota. Felicia era rápida, bastante evasiva.
Ela continuou a se distanciar sempre que Abadin tentava alguma aproximação. Irado, o lutador arremessou sua lança contra a garota. Felicia desviou do arremesso com maestria e agora sim, avançava contra Abadin.
— Ela queria que ele se desarmasse. – Falaram ao meu lado. – Boa estratégia.
A garota tentou uma investida contra seu oponente, que bloqueou sua adaga com a espada. Abadin acertou em cheio o rosto de Felicia com o punho. Ela cambaleou pra trás, se desequilibrou e caiu. Abadin prendeu o pulso da mão que segurava a adaga com sua bota, fazendo Felicia flexionar os dedos e largar a adaga. E então ele atacou com a ponta da espada para perfurá-la. Jogando as pernas para trás e forçando seu corpo a ir junto, a ponta da espada acertou somente o chão. Com uma rápida chave de perna, Felicia prendeu o braço de Abadin e o torceu, fazendo com que ele soltasse a espada. Ao mesmo tempo que se levantava e recuperava sua adaga, a garota acertou com os dois pés o tórax do lutador que foi lançado ao chão. E então, Felicia jogou-se contra Abadin e prendeu firme a lâmina contra o pescoço do oponente.
— Diga! – Ela falou, ameaçando cortar-lhe o pescoço, empurrando cada vez mais a lâmina.
O lutador lutava contra si próprio. Mas não havia mais jeito. Felicia prendera seu corpo com as pernas e parecia realmente dispostas a cortar sua garganta se fosse necessário.
— Desisto! – Ele gritou.
A multidão demorou um pouco para assimilar o acontecido, bem como eu. Mas alguns segundos depois, a plateia já ovacionava e eu deixei escapar um “Isso!”, o que rendeu alguns olhares tortos a mim ali no meio dos lutadores, que pareciam não ter gostado do resultado da luta.
— A vencedora é Felicia Telibata! Parabéns, garota! – O locutor anunciara.
Alguns capangas de Targo entraram na arena e acompanharam Abadin até o outro lado do pátio.
— Espero que o estejam levando para a enfermaria. – Jessica disse ao meu lado.
— J-Jéssica? – Assustei-me, ao assimilar quem estava do meu lado.
— Ni! – Ela disse sorridente. – Você tá um arraso com essa armadura!
— O que você está fazendo aqui?!
— Vim trazer notícias. Tentamos achar um jeito de entrar onde Targo está sem ser notados, mas aparentemente é impossível! Ele sempre fica no camarote central, ao lado do locutor. E o local é protegido por uns três capangas. Mesmo se a gente entrasse lá e imobilizasse todo mundo, alguém ia perceber que o locutor não estaria mais falando! Em contrapartida, aqui foi bem fácil de entrar…
— Jess, continuem procurando uma maneira.
— Tá bem.
E então ela se esgueirou pelos lutadores e desapareceu de vista.
Olhei para onde Targo estava. A chave da lancha estava com ele, com certeza. E realmente, parecia impossível de roubá-la sem que se começasse um escarcel. A outra maneira de conseguir as chaves seria vencendo o torneio.
Mesmo se eu fosse capaz de tal feito, eu teria que derrotar Felicia. Estava fora de cogitação…
— E vamos para o próximo round! Será que temos algum voluntário?
Nesse momento, todos começaram a se empurrar para o lado. Achei que estavam lutando para ver quem chegaria à arena primeiro e ser o próximo lutador, mas logo percebi que estava enganada. Estavam apenas dando espaço para um dos lutadores que caminhava lentamente até as escadas.
O que é isso?
Eu me perguntei como eu não havia notado aquele monstro entre nós antes. Era sem dúvidas o homem mais alto e mais largo que eu já tinha visto na vida. Eu mal alcançava sua cintura no tamanho, e seu braço era mais extenso do que todo meu corpo. Os passos do gigante ecoavam e quando ele finalmente alcançou a arena, o povo se silenciou. Felicia olhou pra ele e eu vi seus olhos perderem completamente a esperança.
— Pobre garota. – Um dos lutadores do meu lado comentou.
— Quem é esse cara? – Perguntei.
— Você não conhece o Trazo, garota?
Balancei a cabeça negativamente.
— Esse cara ganhou um dos torneios lutando de mãos vazias, sendo o primeiro sorteado. Ele simplesmente esmagou todos os seus oponentes como se fossem moscas.
— Parece que o nosso lendário campeão resolveu nos dar a honra de uma luta hoje! – O locutor anunciou. – Deem boas-vindas ao grande Trazo Caviere, O Gigante!
A multidão foi a loucura.
Trazo era tão feio quanto era grande. Todo seu corpo era coberto de cicatrizes. Ele não usava nenhuma armadura, tampouco uma arma.
— E então, vamos a pergunta: Felicia Telibata, você vai continuar a lutar ou vai parar? – O locutor perguntou.
Aparentemente não fui a única a ficar apreensiva pela resposta. Um momento de silêncio absoluto emergiu no coliseu. Felicia olhou seu oponente de cima a baixo. Ele era umas quatro vezes maior do que ela. A garota se equipou com suas duas adagas e se colocou em posição de batalha.
— Essa daí já era. – O lutador ao meu lado comentou.
Trazo deixou uma gargalhada sinistra ecoar pela arena. Felicia finalmente se expressou:
— Eu vou lutar.
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