Emmet não tinha muito tempo. Eu não o deixaria morrer em meus braços. Corri em direção ao Livro do Destino.

“O destino do Guia eu não posso mudar. Mas eu posso reescrever o destino de Athema.”

No momento em que o destino de Athema já não coincidia com o destino do Guia, o Guia deixou de ser Athema. E Athema deixou de ser o Guia.

Emmet permanecia desacordado sobre o chão do Santuário. Ainda assim, sem os poderes do Guia, a lâmina ainda poderia ser letal.

— Athema. – Afaguei-lhe as madeixas negras. – Deixarei contigo metade do meu poder para que possa sobreviver ao ferimento. Use-o bem.

**

Podíamos ver Emmet voar em direção a saída da cúpula com o corpo de Niele, enquanto o exército atacava ferozmente. Porém, o campo de proteção de Emmet não cedia e os tiros dos tanques e dos caças não os machucava.

— Feche a porta, agora! – Reeve gritou para mim da parte interior da nave e então mexi nos botões a minha frente no piloto para que o compartimento se fechasse. Larguei-me da cabine e corri para ver Emmet entrando no veículo, o corpo de Niele em seus braços.

— Estamos protegidos fora da cúpula. – Eu disse. – Os caças não passarão pela fenda e também não poderão nos acertar com tiros por ela.

Reeve correu ao encontro da amiga inconsciente.

— Ela está bem? – Ele perguntou aflito a Emmet.

— Não. – Emmet respondeu. – Mas ela ficará assim que recuperar seus poderes.

O garoto de vestes negras gentilmente deitou Niele sobre o assoalho e colocou suas mãos a alguns centímetros sobre ela.

— Fergo! – Reeve gritou e apontou para alguns caças vindo em nossa direção, pelo lado de fora da cúpula.

— Maldita! – Eu bradei. – Emmet, você pode nos proteger?

— Meus poderes não existem mais. Eu os devolvi para Ayede.

— Mas ela ainda dorme! – Reeve disse desesperadamente.

Corri para a cabine do piloto. Os caças começaram a atirar, felizmente a nave do Princípe Maguine era muito resistente e os tiros não nos afligia grande dano, embora eu soubesse que a blindagem da nave não era impenetrável. A turbulência também não era algo tranquilizador. Manejei a nave para longe dos tiros e acionei as armas pelos comandos da cabine.

A munição carregada na nave real era exatamente precisa e potente como era de se esperar de um veículo pessoal do filho da Imperatriz. Pude derrubar alguns caças facilmente. Eles adejavam contra a cúpula após serem acertados e explodiam sobre ela, como bombinhas de brinquedo na imensidão celestial. Porém, caças e mais caças apareciam no horizonte, como um enxame de abelhas negras. Manejei a nave para que girasse cento e oitenta graus sobre seu eixo vertical, mas acabei dando uma volta completa ao perceber que os caças vinham de todas as direções.

— Se segurem! – Eu gritei para Reeve e Emmet, e desliguei os propulsores pelo freio de emergência. As hélices pararam de girar de forma abrupta. Então, por uma fração de segundos, não fomos atingidos por uma rajada de milhões de tiros de todos os lados. A nave foi puxada pela gravidade para dentro da fenda, adentrando a cúpula. Assim, que estávamos dentro, reativei a nave a ponto de desviar de um caça que já tentava nos derrubar pelo lado de dentro.

A única coisa que me preocupava agora era desviar dos tiros dos tanques e das investidas das naves da Corporação. Não havia tempo de parar para mirar qualquer coisa, apenas evitar que a nave sofresse dano o suficiente para nos derrubar. Isso não durou mais que vinte segundos e logo estávamos voando a toda velocidade em direção ao chão. Eu tentava colocar a nave de volta a posição horizontal com todas as minhas forças, o guidão do piloto simplesmente não me obedecia mais, enquanto o veículo mergulhava em direção chão, banhado pela fumaça negra que saía de seus próprios propulsores…

**

— Niele, por favor, acorda. – A voz familiar me chamava.

Essa voz… Não precisei abrir os olhos para saber quem era. Jess! Estávamos finalmente juntas. Eu não pude deixar de sorrir.

— Ni, abra os olhos. Por favor…

— Eu estou cansada, Jess. – Eu respondi, ou achei que respondi. Eu não tinha certeza se estava falando ou apenas pensando alto. – A gente vai ter tempo para conversar. Muito tempo…

— NI! – Sua voz ficou enérgica e desesperada. Algo totalmente contrário de alguém residente do paraíso. – ACORDA, AGORA!

E abri os olhos. Jessica me segurava em seu colo, apoiada no canto da nave que a havia visto cair. Reeve e Emmet estavam se apoiando nas paredes. Estávamos caindo numa velocidade extrema. Criei rapidamente um campo psíquico em volta do veículo e nos posicionei de volta no ar. Olhei para Jessica.

— Como?!

— Agora, não, amiga. – Ela me disse sorridente. – Acaba com aquela desgraçada!

Eu chorei. Mas dessa vez de alegria. Eu sorri como eu não havia sorrido por anos. De Felicidade. De esperança.

Jessica estava viva!

Uma energia que não achei que eu poderia sentir tomou conta de mim. O sorriso não deixava meu rosto. Tornei-me incorpórea e flutuei para fora da nave. O novo exército a minha frente se desmoronava como lego a medida que eu os trespassava.

O que é isso?!”

A voz de Ramona na minha cabeça só me deixava a situação mais engraçada.

— HAHAHA! – Eu não podia me controlar. A destruição continuava, enquanto eu não podia evitar se não fazer malabares e piruetas no céu da cúpula. Todo aquele fogo e cinzas do exército de Ramona eram agora meus fogos de artifício, a gran finale da minha festa!

Com minha massa incorpórea adentrei o Palácio Imperial e parei de frente a bela mulher sentada no trono de diamante, completamente desgostosa.

— Seu exército de máquinas acabou, Ramona. – Eu falei.

Ela tremia, fitando-me com seus olhos vermelhos, enquanto tentava encontrar suas palavras.

— Como isso é possível? – Mas quem disse isso, foi o príncipe. O garoto choroso estava agachado próximo à mãe, com as mãos dramaticamente sobre sua própria cabeça. – Como você foi perder, mamãe? Não é justo!

— Olhe o que você fez com essa criança. – Eu a disse. – Maguine é naturalmente uma pessoa de bom coração e você sabe disso. Só um monstro seria capaz de corrompê-lo dessa maneira.

— O que está esperando? – Ramona perguntou, finalmente. – Acabe com isso. Mate-nos.

O príncipe olhou para a mãe, assustado. E então para mim. Sua expressão agora sem um pingo de arrogância. Só havia desespero.

— Eu não vou matar você, Imperatriz. Seu destino não é meu para decidir. E nem de um livro. Eu…

A mulher tirou rapidamente uma arma de suas veste e atirou. A bala ricocheteou pelo campo de força. Eu continuei a falar como se nada tivesse acontecido:

— Eu a levarei para a Grande Cidade. Lá a população decidirá o que fazer com você. Tenho certeza que eles farão o melhor julgamento.

Ramona deixou escapar uma risada. Eu também sorri. Alguns segundos se passaram e ela levou sua arma à cabeça. Apertou o gatilho. Mas nada a aconteceu. Eu havia impedido de que a bala deixasse o cano através dos meus poderes.

— Este não é o seu destino.

Ela já não mais sorria. Deixou sua arma cair no chão. E estas foram suas últimas palavras:

— Poupe meu filho.

**

Um ano depois, eu me encontrava com Reeve sobre o convés de um dos iates da Corporação Celestia, que agora já não era nada mais que uma marca de frotas marítimas, comandada pelo estado da Grande Cidade.

— Faz um ano desde toda aquela loucura. – Ele comentou risonho. – Parecem que já se passaram pelo menos uns cinco.

— Muita coisa mudou, não é? Em pensar que nunca mais veremos a majestosa Linha de Choque que aquela maluca tinha colocado entre os continentes. – Eu disse, enquanto olhava o oceano, agora livre.

— Você diz como se fosse algo ruim. – Ele comentou. – Sente falta?

— Do quê? – Eu perguntei, embora soubesse do que ele estava se referindo.

— Dos seus poderes.

— Ah, de vez em quando. Sabe, quando tenho que levantar da cama para apagar a luz. – Nós dois rimos.

Então me lembrei do último momento que tive com Emmet.

— Tem certeza que quer fazer isso? – O garoto de vestes negras me perguntava.

— Isso já deveria ter sido feito há muito tempo. – Eu disse, enquanto segurava suas mãos. – Meus poderes estão todos transferidos para você. Você é o Guia. Cuida da gente.

Ele acenou positivamente. E começou a ir embora.

— Espera, Emmet. – Ele se virou. – Por que não me disse que salvou Jess?

— Desculpe, mas a garota Jessica possuía uma energia mística que fazia Ramona localizar você. A única forma de separar vocês duas era fazendo você e Ramona acreditar que ela estava morta. Dessa forma não haveria nada que a impedisse de encontrar o Santuário e nos devolver nossos poderes.

Eu sorri.

— Obrigada.

— Eu que agradeço. É uma pena que não poderei ter uma luta daquelas nunca mais. Se quiser um pouco de volta, sabe onde me encontrar.

— Quando formos te visitar quero ver aquele vale como era antes! Prometa-me!

E então ele se foi.

— Ni? – Jess apareceu no convés, me trazendo de volta do mundo do devaneio. – Acho ótimo que fomos visitar a Grande Cidade e tal. Mas e Gaela? Não podemos visitar? Sinto falta do Fergo.

— Não podemos viajar entre as dimensões sem ajuda do Emmet.

— Então vamos para o Santuário falar com ele!

— Não acho uma boa ideia… – Eu comentei.

— Pois eu também quero ver o velho Fergo. E já faz tempo que quero conhecer a dupla de quem você tanto fala.

— Seth e Alice? Eles nunca estão em Gaela. Aqueles dois não param quietos num lugar só.

— Que seja, vamos só ver o Fergo, então! – Jess pediu, chorosa.

— Ah, okay! – Me dei por vencida.

Eles deixaram soltar um “yes!” e eu corri para a cabine de controle, onde a marinheira guiava junto ao seu irmão mais novo.

— Felicia! Mude a rota para o Arco de Medeia. Vamos fazer uma viagem especial hoje.

Notas finais
Obrigado a todos que leram!!! Terminada, enfim! ^_^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!