Sob o céu escarlate do amanhecer, Ozaias recuperava-se da noite não dormida. O sol

avermelhava-se no oriente e Ozaias achava lindo. O frio leve da manhã e a geada caindo

o acalmava, mas seu coração ainda estava disparado.

Teve uma noite de chacina.

Encostou-se, na noite passada, em uma árvore. Intencionava dormir, mas quando o

sono começou a aparecer, foi atacado violentamente por três Gins lupinos. Sendo

espíritos animais, sentiam fome e queriam sua carne. Ozaias se defendeu. Sangue

vermelho salpicou o verde da vegetação. Sangue dos lobos. Mas também de Ozaias.

A batalha avançou pela noite, violenta, voraz. Homem e lobo misturavam-se. Os três

espíritos tinham mais inteligência que animais comuns e isso era problemático. Eles

planejavam. Punham suas estratégias em jogo. Ozaias defendia-se apenas com sua

perícia.

Após o combate, viu-se ferido. Alguns arranhões nos braços e nas costelas, mas a

pior ferida era uma mordida na coxa. Sabia que mancaria por um tempo. Precisava de

um curandeiro. Ou, pelo menos, de certas plantas curativas.

O sol surgiu de vez, amarelando-se, e Ozaias sabia que fora uma noite de sono

perdida. Resolveu caminhar. Não conseguiria nada se ficasse parado por ali. Talvez

apenas atrair mais predadores. Conhecia o mundo, viajava por ele desde o seu

nascimento e, sozinho, por dezoito anos.

Em um mundo onde o povo aderiu a outras formas de subsistência, como a

agricultura e a criação de gado, Ozaias era um Oyenna. O último Oyenna. O último dos

nômades.

Não teria sangrado tanto se pedisse minha ajuda.

Uma voz escura sussurrante no clarão da manhã. Ozaias respirou profundamente. Era

Eijar, sua sina.

— Não preciso da sua ajuda.

Precisa sim. Você sempre precisou. Seu corpo não aguentará muito mais se

continuar se defendendo sozinho, com uma espada quebrada.

Respirou profundamente. Talvez Eijar estivesse certo. A espada na cintura que

carregava estava há muito destruída, restando apenas um toco da lâmina menor que o

punho. Lutara contra os Gins na noite passada se defendendo com dificuldade, cortando

de um lado ao outro, confiando mais em sua perícia que na força de sua arma. Não foi

inútil. Ozaias sabia que era um grande lutador. Matou todos os três lupinos, mas a

desvantagem da arma tinha aumentado seus ferimentos. A ferida na perna traria mais

uma cicatriz permanente. Ozaias já perdera as contas de quantas estavam espalhadas

pelo seu corpo.

Caminhou o dia inteiro, ignorando as palavas de Eijar. O espírito cismava de lhe

passar sermão, falando que os dois estavam atados ao mesmo destino e que já era mais

que tempo de Ozaias entender isso. Mas o homem nada disse. Preferia ignorar o Enocle,

Espírito de Mau Menor. Mas também não queria perder fôlego. A ferida na perna

sugava muito de si mesmo. Doía infernalmente. E Ozaias foi sentindo seu corpo

esquentar. Seus passos foram ficando mais lentos. Já não ouvia Eijar com tanta clareza.

Seu corpo pesado caiu no chão e Ozaias desconfiava que a voz irritante e sombria de

Eijar seria a última coisa que ouviria em vida.

***

Não foi.

Despertou e viu um teto de palha sobre sua cabeça. No susto, tentou se pôr de pé,

mas sentiu-se fraco. Quase não conseguia sentir a perna e temia que ela pudesse estar

putrefata. Não estava. Tocou-a e viu que uma pasta avermelhada, molenga, encontrava-

se sobre a ferida. Seu primeiro pensamento foi sobre onde estava. Uma casa poderia

significar qualquer coisa. Desde um vivo até qualquer tipo de espírito. E qualquer um

deles poderia ser problemático.

Caminhou pela casa manquejando. Não estava completamente escuro por conta dos

buracos nas paredes de barro e no teto de palha. Abriu uma das portas e sentiu a forte

luz nos olhos. Usou suas mãos para tampar o sol forte. Estava muito quente e claro. Aos

poucos seus olhos foram se acostumando. Até que por fim viu onde estava.

Era uma cabana em uma clareira. Uma floresta densa, com árvores muito verdes de

troncos muito marrons. Na verdade, era um local de cores exuberantes. Tudo era muito

forte. O amarelo dos girassóis na beira da trilha que levava para fora de lá. Os pássaros

muito coloridos cantarolavam nos galhos das árvores.

— Não deveria estar de pé. — Disse uma voz. Assustado, Ozaias se virou.

Viu uma garota. Uma mulher atarracada, magricela, com não mais que vinte anos, de

cabelos curtos e olhos curiosos. Aproximou-se de Ozaias com uma cesta de palha.

Quando ela chegou perto, o homem viu que ela trazia frutas.

— Coma. Vai te fazer bem.

— Quem… quem é você? — Perguntou. Não usava sua voz para falar com outra

pessoa viva fazia muito tempo. Nem conhecia os tratamentos mais.

— Eu me chamo Lina. E você?

— Sou… Ozaias. Esse é o meu nome.

— É lindo! E incomum. Você não é dessas terras, não é?

— Não sou de terra nenhuma. Onde estou? Como vim parar aqui?

— Eu o encontrei caído no mato com uma ferida enorme na perna. Trouxe você para

cá e não faz ideia do quão difícil foi! Então eu te tratei. Está três dias desacordado. Teve

muita febre. Mas está melhorando, se consegue estar aqui. Andava te alimentando com

pastas de frutas. Acha que consegue comer alguma inteira?

Ozaias olhou para dentro do cesto. Não estava acostumado à gentilezas.

— Sim.

Pegou uma maçã e mordeu. O sabor doce invadiu sua boca. Como era bom estar

vivo.

Não sabia o que pensar na presença da mulher. Talvez sua mente estivesse afetada

por conta do tempo desacordado. Não sabia. Ela lhe deu um sorriso e foi lhe guiando

para dentro da casa.

— Eu não tenho como pagar isso que está fazendo por mim. — Disse. — Não havia

necessidade.

— Não havia, de fato. — Ela respondeu com ar de sabedoria. — Mas queria que eu

visse alguém à beira da morte e permitir? Minha avó não ficaria feliz com isso.

Entraram na casa. Ela colocou a cesta de frutas sobre a mesa. Depois se aproximou

de Ozaias, a diferença de tamanho dos dois ficando bem clara.

— Eu quero você descansando. — Ela disse. — Falou que não havia necessidade

para que eu cuidasse de você e quer me dar trabalho? Veja só!

Apesar de jovem, Lina tinha um jeito de falar típico de pessoas mais velhas. Apesar

de não travar mais contato com ninguém hoje em dia, Ozaias já conheceu o mais

variado tipo de gente. Pessoas que agiam como ela costumavam ter mais de cinquenta

invernos.

Lina era uma mulher estranha. Parecia amigável demais. Imaculada demais. Ozaias

observou enquanto a via retirar as frutas da cesta e pôr em cima da mesa, disposta de um

jeito belo. As frutas eram muito vermelhas, muito amarelas, muito roxas. As cores

daquele lugar eram muito fortes; até o vermelho da pasta na sua coxa era muito

vermelho.

Desconfiou. Ozaias conheceu muitas pessoas ardilosas. Os vivos sempre davam jeito

de serem mais perigosos que os mortos. O problema é que, se fosse um problema de

verdade, Ozaias não sabia como se defender. Estava enfraquecido. Ainda sentia dor na

ferida na perna. Não sabia nem onde estava sua espada.

— Vou fazer um almoço para nós. — Disse Lina. — Espero que dessa vez fique

quieto, senhor!

Não confie nela.

Disse Eijar, a sua voz tenebrosa penetrando como uma lâmina na

sua mente. Assim como não confia em si mesmo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.