Over My Head
4 Never Say Never
Notas iniciais
Uma semana havia se passado desde o incidente com Emma, uma semana e Regina não conseguia esquecer Emma com aquela mulher, a cena martelava em sua cabeça cada vez que abria os olhos pela manhã e os fechava durante a noite. Pensou em beber, mas tinha um filho para cuidar, não é como se pudesse afogar suas mágoas em bebida. Estava magoada com Emma, mas também estava péssima por apenas pensar que ela com toda certeza tinha seguido em frente. Como ela poderia tê-la esquecido em tão pouco tempo enquanto ela ainda sofria todos os dias com a ausência e a mágoa? Era o que ela se perguntava todos os dias.
Mas esse era o problema de uma mente apaixonada e tomada pelo ciúme, ela sempre vê os piores cenários em qualquer situação, você vê um risco onde não tem, você vê uma cena e sofre antecipadamente, mesmo que ela não seja nada daquilo que você acha que é. Esse era o problema do amor, ele castiga nossa mente quando não temos mais controle sobre a situação, o ciúme era um maldito sentimento.
Henry prestava atenção em suas duas mães com mais frequência depois do término, tinha medo de alguma hora elas não aguentarem a situação. Ele tinha apenas treze anos, mas não é como se não soubesse que um término, segundo os filmes, era algo doloroso.
Desceu para o café da manhã rapidamente e logo avistou sua mãe na cozinha preparando suas panquecas, sorriu para a cena e sentou-se à mesa para logo depois murmurar:
— Bom dia, mãe.
Regina virou-se olhando para o filho sorrindo.
— Bom dia, meu amor. – voltou-se novamente para o fogão onde fazia as panquecas – Dormiu bem?
— Sim. – respondeu já pegando os pratos e a calda para colocar em cima das panquecas assim que ficassem prontas.
— Ótimo então. – colocou as panquecas no prato de Henry e sentou-se ao lado do filho que colocava a calda.
Ficaram algum tempo em silêncio. Enquanto Regina também comia seu café da manhã, Henry pensava em como fazer a pergunta que rondava sua cabeça há muito tempo, não queria de forma alguma se intrometer naquele assunto, mas precisava saber.
— Mãe? – Regina olhou para ele dando atenção enquanto terminava de comer. – Posso fazer uma pergunta?
— Claro, Henry. – respondeu imediatamente.
— Você e a Emma... – começou vendo o olhar de sua mãe desviar por alguns segundos, visivelmente incomodada. – Vocês nunca vão voltar? Não tem nenhuma chance?
Regina respirou fundo e olhou para o filho, que a olhava com a testa franzida em preocupação. Ela sabia que hora ou outra aquela pergunta iria acontecer, e não é como se não fosse válida, afinal, ele era filho de ambas e só queria a felicidade delas.
— Não, Henry. – respondeu tentando deixar sua voz firme. – Nunca vamos voltar.
Ela viu o garoto balançar a cabeça concordando, tentando se conformar com a situação e olhar para o prato antes de lançar outra pergunta.
— Você ainda a ama?
Regina não estava pronta para aquela pergunta, a realidade era que queria esquecer Emma, e usava todas as suas forças, toda a mágoa que sentia para seguir em frente e deixar Emma para trás.
— Henry... é complicado... – começou, tentando explicar de alguma forma que não machucasse o seu filho.
— Não, tudo bem. – ele deu de ombros. – Eu entendo.
A morena sorriu vendo que ele não forçaria ela a falar e nem ficara chateado com a falta de resposta, ficou pensando quando ele tinha se tornado um rapaz daquele tamanho e tão inteligente, parecia que havia sido ontem que ela o via correr pela casa só de fraldas sujando tudo de tinta.
Henry olhou para mãe enquanto ela estava absorta em pensamentos, e era óbvio o porquê daquelas perguntas, queria juntá-las novamente, e por mais que tivesse pensado que não, Regina respondeu exatamente aquilo que ele queria, ela ainda amava sua outra mãe.
Emma estava sentada em sua mesa tentando pela terceira vez se concentrar no relatório, mas seus olhos apenas passavam pelas letras pequenas enquanto sua mente não prestava atenção em uma palavra escrita. A verdade era que a loira não conseguia parar de pensar na reação de Regina e o que ela poderia estar pensando, queria ir até ela e se explicar, mas quando disse a Ruby sobre isso, a morena lhe fez uma pergunta muito pertinente, “Por que se explicar? Você é solteira, Emma.” Aquela frase ecoava em sua cabeça e não deixava de ser verdade, ela era solteira, poderia fazer o que quisesse. Mas então por que sentia como se estivesse traindo os sentimentos que sentia por Regina? Por que amar alguém era tão complicado?
Ruby entrou na sala de Emma e a observou olhar para o papel por cinco minutos, seus olhos estavam fixos nele e chegava a ser perturbador o quanto ela estava concentrada, mas ao contrário do que Ruby queria, ela não estava concentrada no relatório, – que já devia ter sido entregue – mas sim nos seus pensamentos, iria fazer uma semana que ela estava assim, dispersa, e Ruby que antes achava uma boa ideia tentar ajudar Regina e Emma, começou a se perguntar se o melhor não seria elas apenas seguirem em frente separadas. Não que fosse dizer isso a Emma, não naquele momento, ela apenas iria apoiar a loira em qualquer situação, afinal, era para isso que amigas serviam, certo?
Vendo que nada que ela fizesse chamaria a atenção de Emma e a tiraria de seus pensamentos, resolveu bater na mesa, o que fez a loira se assustar e a olhar irritada, deu um pequeno sorriso antes de se desculpar.
— Não conseguiria sua atenção de outra forma, desculpe.
Ela suspirou e jogou os papeis que estavam em sua mão em cima da mesa.
— Tudo bem.
— Ainda está se culpando por isso, Emma? – indagou preocupada.
— De certa forma, é tudo o que faço ultimamente. – ela respirou fundo apoiando a cabeça para trás olhando para o teto. – Eu sinto como se estivesse traindo os sentimentos por Regina apenas por ter conversado com aquela mulher.
— Mas você não traiu, vocês não tem mais nada. – Emma levantou a cabeça e olhou irritada para a amiga ao ouvir aquilo.
— Acha mesmo que não sei? – indagou irritada. – Eu conto os dias que estamos separadas desde que terminamos, mas mesmo assim esse sentimento não sai de mim! – ela bufou – E eu nem ao menos fiz nada com a mulher além de ouvi-la dar em cima de mim, e mesmo assim sinto como se eu tivesse beijado todas as mulheres do recinto.
Ruby apenas ouvia os desabafos da amiga, talvez aquilo a ajudasse.
— Eu realmente não sei o que fazer para esse sentimento passar. – olhou para Ruby que continuava parada olhando-a fixamente e continuou – Por que as coisas entre nós tem que ser tão complicadas?
— Você sabia desde o começo que iria ser complicado, Emma. – comentou.
A morena conseguia sentir toda a tensão que pairava sobre Emma, toda a raiva, e culpa que a amiga sentia.
— Vamos fazer assim, nós descemos até a academia, e então enquanto você soca alguns sacos de pancadas e libera essa tensão eu te ouço, e fico te aconselhando, tudo bem? – a loira olhou para Ruby e seus olhos chegaram a brilhar com a ideia.
— Eu te amo, já te disse isso hoje? – disse se levantando e indo de encontro à saída da sala, seguida por Ruby que riu ao ouvir aquilo.
— Eu também te amo, Swan. – olhou rapidamente para a amiga e deu um sorriso antes de completar – Mas por Deus, nunca repita isso perto da sua ex, a não ser que queira que ela te mate e depois me mate.
Emma olhou para ela séria antes de rir do comentário da amiga, e de certa forma aquilo desencadeou na loira todas as coisas boas que ainda sentia por Regina e que estavam em algum lugar trancado dentro de seu peito. Aquela velha sensação que aquecia o peito toda vez que pensava em Regina estava de volta.
Chegaram ao local e Emma foi se preparar antes de começar a socar alguns sacos, enquanto isso continuava pensando no que faria naquele momento, agora que aquele velho sentimento havia voltado, apesar da dor no fundo permanecer, mas o que era amor sem dor de vez em quando, não é mesmo?
A amiga a esperava sentada em um dos bancos enquanto Emma começava a socar o saco em sua frente descarregando toda a energia e raiva que sentia há tempos, e aquilo era um alívio, sentir toda aquela tensão sendo aos poucos dissipada de seu corpo era realmente gratificante.
Ficou vários minutos apenas repetindo os movimentos quieta, apenas com seus pensamentos, até abri-los para sua melhor amiga.
— Eu não deveria ter sido tão explosiva, deveria ter falado com ela antes sobre como me sentia, mas eu nunca conseguia isso, ela sempre dava uma desculpa e eu aceitava. – começou. Ela nunca havia admitido aquilo em todos esses meses, ou falado em voz alta.
— Mas ainda sinto raiva de toda a situação, eu não sei o que Regina pensava, não sei o que ela queria de mim. – Ruby podia sentir na voz da amiga todo o cansaço da situação e não era apenas por ela estar praticando algum esporte. – Eu não entendo se ela me amava, o porquê deixou o relacionamento ir por esse lado, porque me deixava de lado.
— Regina muitas vezes me fez ter dúvidas sobre o que ela sentia por mim, por ela me largar de lado por causa do emprego dela. – suspirou, enquanto dava outro soco, dessa vez mais forte, no saco. – Não que eu alguma vez quis que ela simplesmente largasse o emprego ou algo do tipo. – balançou a cabeça e tirou um fio loiro que havia escapado do rabo de cavalo que havia feito. – Nunca pediria isso, sei que é importante pra ela, e eu também tenho meu trabalho que amo, mas eu sabia conciliar ela e meu trabalho, ao contrário dela que parecia não saber lidar com os dois.
— Eu só queria que ela tivesse a mesma dedicação que eu tive, trocar horários, qualquer coisa, mas me desse atenção, conversasse comigo, e não simplesmente me jogasse de lado. – ela parou por um segundo, respirou fundo e colocou as mãos nos joelhos, exausta tanto fisicamente quanto psicologicamente.
— Emma, eu sei o que aconteceu com vocês, mas percebe que vocês nunca de fato conversaram sobre isso? Vocês simplesmente discutiram e terminaram porque estavam desgastadas. – Ruby foi sincera, e Emma sabia que era uma das únicas pessoas de quem poderia esperar isso.
Emma parou de prestar atenção nela por um segundo e começou a reavaliar tudo o que tinha dito e o que sentia. Realmente, quando diziam que ao falar as coisas em voz alta e ouvir a si mesmo dizendo tudo mudava sua perspectiva, era verdade. Agora ela conseguiria avaliar melhor seus sentimentos, o que de certa forma era bom. Apesar da mágoa por Regina, percebeu que seu amor por ela era maior, e que a raiva que antes sentia agora não era tão grande quanto à chateação. Mas afinal o que aquilo iria mudar? A situação das duas continuava a mesma. E de certa forma, por mais que odiasse admitir, sua amiga tinha a total razão.
— Então... – a loira perguntou olhando para a morena – O que eu faço?
— Eu não posso dizer o que você tem ou não tem que fazer, Emma. – respondeu – Isso quem decide é você, mas posso te aconselhar. E meu conselho seria: conversem.
Ela riu amargurada, aquilo estava completamente fora de cogitação.
— Simplesmente não vai acontecer.
— Por quê?
— Porque Regina muito provavelmente está me odiando nesse momento, senão viria falar comigo, e depois da semana passada deve estar muito mais porque ela simplesmente deve estar pensando mil e uma coisas absurdas, que nem são reais.
— Ótimo, isso será uma boa oportunidade para você esclarecer que tudo o que ela, talvez— deu ênfase na última palavra – esteja pensando, não é nada disso.
— Eu não confiei nela, por que ela deveria confiar em mim?
Às vezes a morena queria simplesmente bater na cara de Emma por ser tão teimosa, e Regina também não ficava atrás, duas orgulhosas, cabeças duras.
— Dê motivos, fale com ela, Emma. – respondeu simplesmente.
— Por que você fala como se fosse tudo tão fácil? – indagou Emma socando a última vez o saco antes de segurá-lo para ele parar de se mexer
— Porque as coisas não são tão complicadas assim, vocês que complicam. – deu de ombros – Mas o que esperar de duas teimosas, cabeças duras, e orgulhosas?
Emma a olhou irritada por alguns segundos e a morena riu.
— Não adianta me olhar assim, Swan, isso não vai fazer com que o que eu falei seja menos verdade. – Emma ignorou o comentário de Ruby e voltou a bater no saco – Apenas pense no que eu falei. – disse antes de se retirar, deixando Emma sozinha com seus pensamentos que não queriam se calar.
— Over My Head –
Assim que chegou ao seu apartamento, Emma tomou um banho e sentiu boa parte da tensão que tinha antes, passar, mas ainda assim uma parte pequena continuava lá, afinal, estava confusa e não fazia ideia do que fazer. Saiu do quarto já de pijama e sentou-se na sala esperando Henry chegar. Ficou sabendo, horas mais cedo, que o garoto teria que ficar com ela porque Regina tinha assuntos pendentes na empresa, o que, de certa forma, reviveu tudo o que tinha passado com a morena por causa do emprego dela e também o término.
Estava tão absorta em seus pensamentos que nem ouviu quando Henry entrou no apartamento, só percebeu sua presença quando ele sentou-se ao seu lado. Sorriu para ele e bagunçou o cabelo do filho.
— Hey, garoto! – o cumprimentou – Como você está?
— Estou bem, e você, mãe? – indagou a olhando como se a analisasse, o que fez Emma estranhar um pouco.
— Estou bem. Por que não vai colocar as coisas no seu quarto e depois volta aqui para jogarmos vídeo game? – Henry sorriu e correu até seu quarto animado.
Assim que voltou para a sala, sua mãe já estava com os controles na mão, esperando o filho para jogarem. Uma das coisas que Henry mais gostava em Emma era o fato de que ela sempre brincava com ele, e, ao contrário de Regina, era menos rígida e mais descontraída, o que ele mais amava. Não que não amasse o jeito de sua outra mãe, mas o fato de ambas serem tão diferentes nesses aspectos as faziam especiais, e o melhor casal que Henry conhecia, o que o lembrava que na última semana as duas andavam mais esquisitas do que o habitual. Depois de ter voltado da casa de sua avó – mãe de Emma – ambas ficaram estranhas, mas Henry não havia conseguido descobrir o porquê.
Mas mesmo não sabendo, prometeu para si mesmo ficar de olho em suas duas mães.
Resolveu, então, aproveitar o momento descontraído entre ele e Emma para colocar seu plano em ação, falando algo que tinha certeza que a deixaria ao menos pensativa sobre aquilo.
— Mãe. – chamou-a, fazendo a loira virar-se para ele rapidamente enquanto continuava apertando os botões do controle para não perder para Henry.
— Sim?
— Você já assistiu uma série chamada Sense8? – indagou dando um golpe no personagem de sua mãe que fez ela quase perder.
— Hey! – chamou a atenção do garoto quando ele proferiu o golpe pela segunda vez. – Não, você sabe que não tenho muito tempo para séries.
Ele assentiu.
— Mas você assiste Orange Is The New Black – sua mãe concordou – E a propósito essa série também é da Netflix.
— Certo. – largou o controle assim que perdeu a partida para seu filho e virou-se para ele prestando atenção no que ele dizia. – Me conte mais.
— Bom, tem uma cena que o Wolfgang diz para o Lito que quando você comete um erro você tem duas opções, aceitar o erro ou consertar.
Emma olhou para o filho surpresa, como ele poderia saber que aquilo era exatamente o que ela precisava ouvir?
— E por que você está me dizendo isso, Henry? – indagou curiosa.
Ele apenas deu de ombros.
— Agora que já te venci mais uma vez, vou tomar banho e depois podemos pedir pizza? – mudou de assunto.
Emma apenas assentiu e o garoto comemorou saindo da sala e deixando-a pensativa. Aquela frase fazia tanto sentido, que talvez ele tivesse razão, não em aceitar seu erro, mas em consertá-lo, talvez devesse tentar superar a mágoa e seguir o conselho de Ruby, conversar com Regina e tentar conquistá-la de volta.
Isso era exatamente o que faria.
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