Outros Ares
1 Encontro de Desgraçados
Notas iniciais
O chão molhado de chuva refletia as luzes do letreiro do pequeno bar. As letras, iluminadas num rosa suave, formavam as palavras “Lar’s Place”, e ocasionalmente piscavam. Apenas mais um barzinho escondido na rua da periferia, alguns dizem, mas que era bastante frequentado apesar disso.
Um pouco afastado do bar, porém o suficiente para ficar debaixo de sua tenda, havia um homem com as costas apoiadas na parede gasta. Passava um ar misterioso, com ambas as mãos dentro dos bolsos da calça, e a fumaça de seu cigarro que se dispersava ao redor. Como mantinha a cabeça abaixada, até dava a impressão que a fumaça encobria seu rosto. A escuridão da noite também somava a este efeito.
— Muito ansioso? — perguntou casualmente uma voz ao lado do homem.
Passos chapinharam nas poças de água da chuva, e uma mulher encostou o ombro na parede, meio perto do estranho. Trazia com ela um cigarrete, que ainda soltava uma fumaça fraca. O homem, no entanto, sequer moveu a cabeça para olhá-la.
— Mas, me diz aí, dor de cotovelo? — questionou, tragando o cigarrete e expelindo a fumaça logo em seguida — Sem julgamentos, afinal, pra que se vai num bar, né?
O estranho moveu uma das mãos pela jaqueta de couro, e de lá retirou um isqueiro, ainda não demonstrando interesse em manter a conversa. Então, ousou dar uma pequena observada na figura que havia saído do bar. Era uma mulher muito magra, com cabelos negros que chegavam a se perder na leve escuridão. Balançava a cabeça no ritmo do jazz abafado que vinha do interior do estabelecimento, enquanto os olhos verdes pareciam carregar todo o peso do mundo.
— Não. — respondeu-lhe, simplesmente, na sua voz grave e baixa, acendendo um novo cigarro.
— Homem de poucas palavras, huh? — ela o estudou da cabeça aos pés, com uma das pernas cruzadas por cima da outra. Conservava uma imagem melancólica. — Por quê?
— Por quê....?
— Por que você fuma?
Um silêncio se prolongou depois dessa pergunta, com apenas o jazz de fundo. Ele tentou observá-la melhor, e pôde ver que a maquiagem escorria pelo seu rosto. Também, suas maçãs do rosto estavam meio avermelhadas, e ele não teve certeza se era por causa de bebida ou por causa de seu provável choro.
— Para tolerar eu mesmo. Por que a maquiagem borrada? — respondeu, enfim.
— Ah, a gente tá no bar pra chorar, né? — retrucou a mulher magra, pondo as costas na parede lentamente — Tu fuma pra esquecer a tua dor. Eu também. Só que eu fumo, bebo e choro, sabe?
Ela disse isso tudo num tom sarcástico, mas também havia um tom de melancolia por trás das palavras. Usava um vestido vermelho curto, que tentava acentuar o que ela não tinha, somado com joias de diversos tipos e muitos anéis, além de um salto vermelho exageradamente alto. A maquiagem, mesmo escorrida, era horrivelmente exagerada.
— Prostituta? — perguntou o estranho, diretamente
— Você parece ser um cara bem perspicaz. — retrucou, ironicamente — Adivinhou, né? Pois é, mas eu me classificaria mais como “consolo pra corno”. Mas ao menos eles pagam minhas contas.
— Se está tão insatisfeita, por que não... se demite?
A mulher riu por baixo do fumo, o que a fez tossir de leve. Pôs a mão na boca, enquanto o encarava com os olhos verdes cheios de incredulidade.
— É aí que tá o problema, cara. Eu não posso, tá ligado? — disse — Eles são assim, sabe? Pegam meninas como eu ainda na juventude, analfabetas, e falam: “Ó, vamo’ te dar uma quantia pra você viver e comer, e em troca você fode com os caras e nos dá o dinheiro que tu conseguir”. Aí, já sabe né, as meninas que mal viram dinheiro na vida se maravilham e entram nesse ramo. E depois disso é um caminho sem volta, cara. Tu passa a vida sendo um objeto porque nunca teve chance de aprender nada. Nenhuma empresa quer contratar analfabeto, tá ligado? E os chefes fazem o possível pra nosso salário ser suficiente só pra pagar um aluguel e comida. Se eu quiser comprar um telefone, por exemplo, vou ter que trabalhar mais que o normal e dar mais lucro pra eles. É foda, mas eu que me meti nessa, né. Aí o que me sobra? Gastar dinheiro com bebida e cigarro.
O estranho ouviu tudo sem sequer mover a boca para dizer uma única palavra, e mais um silêncio se prolongou. A fumaça dos dois cigarros já espessava na chuva, cuja qual não dava sinais de diminuir a intensidade.
— Sabe, às vezes eu queria largar tudo. Ligar o “foda-se”, sabe? Largar tudo e ir viver livre, sem preocupações, e começar uma vida noutro lugar. Nascer de novo, com outro nome. Outra vida. — disse a mulher, tragando o cigarrete uma última vez e o abaixando.
— Engraçado. Eu andava pensando a mesma coisa. — falou o homem, enfim erguendo a cabeça.
— Aí, quer saber de uma coisa? Toma meu número. — decidiu, tirando algo da carteirinha que carregava. Era um cartão. — Caso tu queira falar com alguém sobre esse tipo de assunto, sei lá. Ou pode jogar fora se quiser, também. Decisão tua.
Finalmente ela desencostou da parede e ajeitou o vestido.
— Sabe, testar novos ares. — sugeriu — Até, estranho.
Ele encarou o cartão. Nele, estava escrito “Rose ‘Rosita’ Allen”, e logo abaixo seu número. O resto eram várias silhuetas rosa de mulheres em poses sensuais.
— Está chovendo. Leve minha jaqueta. — ofereceu
— Não, não tem problema. Eu já enfrentei coisa pior que uma chuvinha.
— Eu insisto, Rose. — continuou, tirando a jaqueta e lançando-a para ela — A propósito, é Viktor.
— Muito bem, então. — cedeu, colocando a jaqueta — Obrigada por escutar uma vadia, Viktor.
O homem a observou andar encolhida na rua encharcada, enquanto tirava o cigarro da boca e expelia a fumaça.. Depois que a mulher desapareceu no horizonte, ele pegou o cartão novamente e o observou, pensando.
Decidiu guardá-lo.
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